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Luiz Zanin

Na atual leva de filmes espíritas, Cartas Psicografadas de Chico Xavier, de Cristiana Grumbach, ocupa um lugar à parte. Ao invés de assumir uma crença, trabalha com um dado bem terreno – e delicado – a dor alheia. A cineasta não discute se existe vida além-túmulo e se é possível se comunicar com os mortos. Simplesmente entrevista pessoas (mães, em geral) que sofreram o pior dos traumas possíveis, a perda de um filho.

Cristina busca um método de filmagem tão simples como rigoroso. Os planos em geral são parados e os enquadramentos pouco variam de entrevistado para entrevistado. Trata de captar a intimidade dos personagens, ao mesmo tempo evitando ser invasiva para não espetacularizar a sua dor. Quer dizer, em certo sentido, a dor é tornada pública, pois é transmitida a nós, espectadores, mas não se oferece jamais como um show do sofrimento.

Sem questionar a opção religiosa dos entrevistados, o filme observa, em relação de simpatia, a função consoladora do espiritismo. A comunicação com os filhos, supostamente estabelecida através das cartas, garante que o ente querido não está morto; apenas passou para outro estágio de existência; melhor, mais depurado, no fundo mais feliz. E ele está lá, esperando por um futuro reencontro com os seus.

Todos os entrevistados passaram por experiências semelhantes. O trauma, o inconformismo, depois a visita a Chico Xavier em Uberaba, e por fim, o ritual das cartas psicografadas por seus mortos. Algumas dessas cartas são lidas durante o filme. Não são iguais, mas mantêm algumas estruturas comuns, o que leva a certa reiteração. Esta, porém, tem sua função. Significa o trabalho de luto que não termina (porque não pode terminar), mas é atenuado, nas mães e nos pais, por rituais de repetição. A mesma repetição determina assim a estrutura mesma desse filme humano e delicado que, com a remontagem do material empreendida pela diretora, ficou melhor.

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23.agosto.2010 20:14:28

Nosso Lar

Claro que ainda vou fazer uma crítica mais aprofundada de Nosso Lar quando o filme de Wagner de Assis entrar em cartaz. Mas já posso antecipar. Vê-lo, em sessão de imprensa hoje de manhã, foi das experiências mais desagradáveis de um ano marcado pelos lançamentos espíritas por causa do centenário de Chico Xavier. O visual kitsch, os diálogos declamados, a falta de qualquer noção cinematográfica – tudo isso que parecia abolido do cinema brasileiro ressurge na tela como assombração.

Não vai aqui qualquer reparo à religião dos outros. Não tenho nada a ver com a crença alheia e eu, que não tenho nenhuma, respeito a todas. Essa consideração é apenas cinematográfica. Não conheço o livro, supostamente psicografado por Chico Xavier e, parece, um dos maiores sucessos da literatura espírita. Mas tenho certeza de que, como qualquer história, poderia ter sido objeto de uma adaptação cinematográfica interessante. Não é o caso. E olhe que há atores de primeira nos principais papeis, como Fernando Alves Pinto e o grande Othon Bastos, além de uma beldade como Rosane Mullholand.

Meu Deus!

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Em complemento à nota anterior, registro que a média de Chico Xavier caiu para 813 espectadores por sala, 30% a menos que a semana anterior. Continua em primeiro, mas talvez tenha caído mais do que se previa. Já As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, fez quase 53 mil pessoas, mas com média meio baixa, de 352 por sala.

O filme agradou à maioria da crítica mas não teve desempenho tão bom como poderia se esperar. Meu amigo Inácio Araújo, para variar, vai na contramão. Detonou o filme em seu blog, não deixando pedra sobre pedra, como você pode ler em Cinema de Boca em Boca, um dos links amigos deste blog. Confiram. Não concordo com uma única palavra do que ele diz, mas está tudo muito bem escrito.

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Essa eu recebi da assessoria do filme e repasso a vocês. A história do médium mineiro, dirigida por Daniel Filho, já passou a barreira dos 2 milhões de espectadores. Amanhã saem os números oficiais, e estes irão mostrar o dado essencial: se a média de público por sala se manteve, se caiu um pouco (o que é normal) ou se despencou. Tudo depende disso.

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06.abril.2010 09:37:08

Chico Xavier arrebenta

Agora é oficial. Chico Xavier é a maior abertura de um filme nacional nos últimos 20 anos, segundo dados do Portal Filme B. Fez 585 mil espectadores no fim de semana, com média de 1509 pagantes por sala. Grande sucesso de público, mesmo. O que se pergunta agora é: até onde pode ir? Já se fala em 4, 5 milhões de público total. Quem pode prever?

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05.abril.2010 13:40:04

Aleluia, Chico Xavier!

Parece que Chico Xavier, na visão de Daniel Filho, está arrebentando nas bilheterias. Já teria feito mais de 500 mil espectadores nesse final de semana, o que aponta para um recorde nacional. Abaixo, o que pensei sobre o filme.

Existem algumas sacadas inteligentes na construção da dramaturgia de Chico Xavier. A sua vida é contada tendo por âncora um programa da TV Tupi, o Pinga-Fogo, do qual o médium efetivamente participou. A partir daí, pode-se voltar às diversas etapas da sua vida, da infância sofrida ao encontro da vocação, passando pelas resistências da Igreja e adesão de fiéis, quando se muda para Uberaba.

Como o cinema tradicional trabalha melhor com dramas individuais do que coletivos, introduz-se o conflito de um casal (Tony Ramos, diretor de TV do Pinga-Fogo e sua mulher, Cristiane Torloni), que perdeu um filho em condições trágicas. Ele não acredita em espiritismo e tende a considerar Chico um charlatão; ela não abre mão de estabelecer um contato com o filho que perdeu. Tudo isso pode sustentar o interesse do grande público – pois afinal é para ele que o filme se destina. Deve ser lançado com um número entre 300 e 400 cópias, o que, para um produto nacional, chega a ser um superlançamento.

É um filme bem-feito, no sentido da sua construção. Daniel Filho, que não é um inovador, sai-se bem na fluência narrativa. Afinal, é um homem de televisão e entende do riscado. Ao mesmo tempo, vacina-se contra possíveis problemas. Por exemplo, Chico Xavier é uma figura muito popular, mas ainda não tolerada pela Igreja Católica, que não abriu seus templos às filmagens. No entanto, esse conflito é atenuado no filme – ele pouco aparece, na figura do padre vivido por Cássio Gabus Mendes.

Da mesma forma, as arestas possíveis da personalidade de Chico são aplainadas. Mesmo os santos têm suas contradiçoes (basta conhecer a vida de santo Agostinho ou de são Paulo, ou Jerônimo, filmada por Bressane), mas a vida de Chico, descrita pelo filme, é retilínea. Seguramente, o Chico Xavier real deve ter sido uma personalidade muito mais fascinante que aquela vista na tela, segundo a  ótica de Daniel Filho.

É cinema diet, como de hábito.

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nelson

Quando se pergunta como foi possível a ele, ator em filmes politicamente engajados, e membro de carteirinha do antigo Partido Comunista, viver na tela a figura de um ícone espiritual brasileiro, Nelson Xavier responde com uma pequena história. “Quando vi meu grande amigo Carlos Vereza interpretar o médium Bezerra de Menezes (no filme homônimo), me perguntei de que maneira um comunista como ele fora capaz de fazer esse papel.” Com voz mansa, Nelson completa a resposta: “No fundo, sofremos de ignorância e preconceito.”

Conta que anos atrás recebeu de presente o livro As Vidas de Chico Xavier. Na dedicatória, o autor, Marcel Souto Maior, escreveu que seu sonho era ver Nelson vivendo o médium nas telas. A leitura do livro teve papel fundamental na decisão de aceitar o convite. “Fui sendo envolvido por uma emoção progressiva”, conta, “pois percebi que estava lendo a vida de um santo. Ele se devotou à caridade e ao bem do próximo, e pregou o amor de modo tão radical, que eu não resisti.”

O depoimento tem o tom de uma conversão. Nelson diz que, apesar de ateu, o universo do espiritismo não lhe era estranho. Na melhor tradição brasileira, podia ser um “ateu, graças a Deus”. E assim era. “Minha mãe era espírita, e algo dessas primeiras impressões de infância deve ter ficado em mim”, diz. Mesmo em sua época de membro do Partidão, Nelson se comportava segundo aquele adágio espanhol: “yo no creo, pero que las hay, las hay”. “Existem essas coisas por aí”, ele diz, e por “coisas” ele se refere à comunicação entre mortos e vivos.

Livro. Quanto a Chico, Nelson diz que foi sendo impregnado progressivamente pelo personagem. A leitura do livro já o havia deixado sensibilizado; o processo de filmagem terminou por conquistá-lo de vez. “Nossa presença em Pedro Leopoldo e Uberaba, o contato com as pessoas que cuidaram do Chico, aquele ambiente todo, isso foi me impregnando de tal modo que fui pego pela emoção.”

Não deixa de ser um estranho caminho para esse ator de 68 anos, que passou pelo Teatro de Arena e pelo Centro Popular de Cultura da UNE, duas das matrizes intelectuais nas quais se cozinhou o pensamento de esquerda no Brasil dos anos 50 e 60. No cinema começou em 1959 com Cidade Ameaçada, mas seu primeiro grande filme, e talvez maior personagem no cinema até hoje, seja em Os Fuzis (1963), do seu amigo Ruy Guerra. Em papel densamente político, Nelson interpreta Mário, soldado que protege um armazém ameaçado por uma população faminta prestes a saqueá-lo. É um dos filmes mais radicais do Cinema Novo. Seria retomado anos mais tarde, em 1976, desta vez sob a forma de uma codireção entre Nelson e Ruy: em A Queda, filme de padrões estéticos ousados, ele volta a interpretar Mário, desta vez na condição de ex-soldado e empregado da construção civil. São pontos altos de uma filmografia que soma 40 longas-metragens com títulos como A Falecida, de Leon Hirszman, A Rainha Diaba, de Antonio Carlos da Fontoura, O Mágico e o Delegado, de Fernando Cony Campos, Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco, e Vai Trabalhar, Vagabundo, de Hugo Carvana.

Trabalhou também numa coprodução internacional, O Testamento do Senhor Napumoceno, que lhe valeu o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado. No entanto, desse trabalho ele não gosta tanto. O caso é o seguinte: o filme é versão de um livro do escritor cabo-verdiano Germano Almeida, adaptado pelo cineasta português Francisco Manso. A história passa-se no Mindelo, em Cabo Verde, “e o diretor me forçou a um sotaque que francamente me desagrada”, conta. Digo a ele que o acento é muito suave e passa longe da caricatura, mas Nelson não se conforma e é implacável: “Soa falso.” Rigor: essa é a palavra que deveria ser soletrada como oração matinal por todo artista que se preze. O seu principal e implacável crítico tem de ser ele, em primeiro lugar. Nelson é assim.

Solidariedade. Foi esse rigor intelectual que o fez se questionar antes de assumir o papel de Chico Xavier. Mas foi tomado e vencido pela emoção: “Eu que havia criticado o Vereza, acabei pagando pela língua”, diz. E depois se conforta: “Mas qual a contradição que existe entre o socialismo e a solidariedade humana?” Ele mesmo responde: “Nenhuma”.

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Quando o personagem é forte, ele é o discutido e não o filme. Às vezes, em benefício do filme. É o que está acontecendo com Chico Xavier, de Daniel Filho. Fala-se do médium e não da maneira como Daniel (e colaboradores) o representaram na tela. Isso acaba sendo um álibi para o filme. Se questionamos a sua, digamos, estética, podemos ser acusados de estar atacando o personagem.

De certa forma, foi o que aconteceu na coletiva de imprensa em Paulínia, na qual estiveram presentes o diretor, atores e atrizes, roteirista, produtores, escritor do livro original, etc. A tentativa foi criar uma aura de encantamento místico em torno do processo de filmagem, o que em certa medida foi conseguido. Daniel teve sua experiência mística (ou, pelo menos, inexplicável) a exemplo da que já tivera o escritor Marcel Souto Maior, autor do livro As Vidas de Chico Xavier, um best-seller da literatura espírita. Souto Maior está lançando agora um livro luxuoso, um making of, ou diário de bordo da filmagem. Ganhei um exemplar e depois falo sobre ele. Consta que já tenha vendido 50 mil cópias.

Ao final da entrevista, Daniel Filho agradeceu aos jornalistas e disse que, em toda a sua vida, não havia participado de nenhuma coletiva tão boa como esta. “Todas as perguntas foram pertinentes”, declarou.

Na saída, comentei com colegas que ele acabara de nos passar um certificado de incompetência. Aceitamos o fascínio do personagem e permitimos que ele encobrisse os problemas potenciais do filme.

Cabe agora discutir a obra.

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