Para os fãs do futebol brazuca é como o fim de um exílio. Sábado começa, enfim, o Campeonato Paulista. Fim da estiagem futebolística. Sei, vão me dizer que os campeonatos europeus continuam à toda e que mesmo a Copinha já está rolando. Certo. Mas a Copinha, a meu ver, só começa a ficar interessante quando surgem os mata-matas. E, quanto aos europeus, tenho por eles uma curiosidade longínqua, de espectador, que não atenua de modo alguma minha fome de bola. Não têm sustância, como se diz no interior. Vejo, mas não me comove. Não é comigo.
Agora, quando entram em campo os quatro grandes de São Paulo, e também os times do interior, cujos nomes aprendi em criança, começo a me sentir em casa de novo. Sei também que todo ano é a mesma coisa e muita gente vai dizer que os Estaduais já não têm razão de ser neste mundo global, etc. Ficaram esvaziados, atrapalham a vida dos clubes, atravancam o calendário. Muito disso é verdade. Mas não toda a verdade, a meu ver.
A verdade da crítica está no inchaço desses campeonatos. Têm times demais, jogos em excesso, disparidade técnica gritante. É isso mesmo, e não há como lutar contra o óbvio. Deveriam ser enxugados, impiedosamente. A fórmula poderia ser mais sintética. Tudo isso de modo a encurtar o tempo de disputa. Seria melhor para o calendário brasileiro, que é mais mal planejado que o ornitorrinco.
O pior é que dos quatro grandes paulistas, três – Palmeiras, Corinthians e São Paulo – estarão envolvidos na Libertadores e, desse modo, sem cabeça para disputar o Estadual. O Corinthians deve começar com time reserva e os outros talvez sigam seu exemplo. O Santos, que não tem nada a ver com isso, pode se aproveitar e faturar o quarto título seguido, uma façanha que nem o time de Pelé conseguiu. Não é um desafio e tanto? E serviria como consolo pela ausência da Libertadores.
Mas, claro, o interesse geral de todas as torcidas é ver em campo jogadores como Neymar e Montillo, Ganso, Pato, e poucos outros, que podem dar à disputa o brilho extra dos craques. Entendo que, com exceção do Palmeiras, os outros grandes se reforçaram, mesmo com o São Paulo tendo perdido Lucas. Em condições normais, a disputa pelo título seria intensa. E melhor ainda se não tivéssemos uma longa primeira fase e todos os jogos fossem decisivos. Acho que a maioria das pessoas gostaria de ver um torneio Estadual sintético, que se resolvesse de maneira mais rápida.
E por que isso não acontece? Por razões políticas obviamente. Del Nero já declarou que não pretende mudar e que o Estado de São Paulo é grande demais para ter um campeonato só com 16 times. Precisa de 20. Precisa mesmo? Também necessita ocupar os clubes “menores” por um período tão longo? Será que essas razões políticas justificam o desinteresse dos grandes (ou de alguns deles) e o congestionamento do calendário? É o que se deveria pensar.
Em todo caso, mesmo com esses defeitos, o Campeonato Paulista mora no coração da torcida. Em especial no da torcida que aprendeu a gostar daquele futebol apimentado pelas rivalidades. Isso ninguém tira dos Estaduais. Para mantê-los, seria melhor que se ajustassem também aos novos tempos.
* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão
Duas rodadas antes de terminar a fase de classificação, o Campeonato Paulista já tem seus oito finalistas. Como era fácil prever, lá estão os quatro grandes. Entram mais quatro “convidados”: Mogi Mirim, Bragantino, Guarani e Ponte Preta. Não é um anticlímax, um daqueles finais manjados que arruínam qualquer suspense? O que ainda pode se alterar nessas últimas rodadas são as colocações, que determinam quem joga contra quem nos jogos eliminatórios e concedem a única vantagem aos quatro primeiros, a do mando do campo. Quer dizer, um tédio só, como já se sabia, aliás, antes de a bola rolar no primeiro jogo.
Daí para a frente, surge outra aberração, a disputa de quartas de final e semifinais em jogo único para, em seguida, o mata-mata ser restabelecido para a disputa da taça de 2012. Quem bolou esse absurdo deveria ganhar um prêmio. Ou melhor, um antiprêmio, como ser obrigado a frequentar essas reuniões de cartolas por toda a eternidade. Ou ficar de castigo até apresentar uma proposta convincente para redesenhar o calendário futebolístico brasileiro em seu todo. Porque, claro, os campeonatos regionais são parte de um problema que é muito maior e desafia qualquer racionalidade, que é o calendário brasileiro.
O problema do Campeonato Paulista é mais político que logístico. A medida óbvia seria abaixar o número de clubes na divisão principal para dezesseis, embora haja quem fale em apenas 12. Mas como a federação faria para implantar medida tão impopular? Esse é o desafio, mesmo porque o desnível entre times aumentou demais e isso também compromete o interesse do campeonato. É raro que um grande encontre problemas ao jogar contra um pequeno, mesmo que seja no campo deste. Se o campeonato concentrasse na 1.ª Divisão apenas os melhores clubes do interior, a competitividade aumentaria.
Como enfrentar o desafio de desagradar aos que ficariam de fora? Bem, esse é um problema que não é nosso, da crônica, mas de quem ocupa o poder na Federação Paulista. Ossos do ofício, ônus do cargo, que exige decisões difíceis de tomar. O fato é que o campeonato não pode ter esse formato de coração de mãe, que pode satisfazer a alguns interesses, mas compromete o espetáculo na sua dimensão principal que é a de manter um certo equilíbrio.
Já que não se pode eliminar vários clubes, a solução talvez fosse reunir os competidores em grupos, tendo os grandes como cabeças de chave e fazê-los jogar entre si. Avançam apenas os primeiros, ou os primeiros e segundos de cada grupo, que disputam entre si em eliminatórias até chegar à decisão. Algo no modelo da Copa do Mundo. Alguém por certo vai dizer que os times mais fracos teriam carreira breve e logo seriam eliminados, ainda na fase de grupos. É verdade. Mas como alterar esse sistema que aí está, e desagrada a todos os observadores, sem que alguém se sinta prejudicado? Impossível, mas algo precisa ser feito para que o campeonato não caia em descrédito.
(Coluna Boleiros)
Houve pênalti ou não naquela saída do goleiro Rafael do Santos para dividir a bola com Luis Fabiano? Para mim, é um dos lances mais interessantes desse grande jogo.
Na hora fiquei em dúvida, mas ouvi de vários comentaristas que o pênalti havia sido tão óbvio que nem valia a pena discutir o assunto. Um disse que havia sido “muito pênalti”, com aquela curiosa carga de certeza que muitas vezes caracteriza nossa profissão. Então, tudo bem.
Só que ontem de manhã li neste mesmo caderno matéria de Bruno Deiro e Daniel Akstein Batista em que o próprio Luis Fabiano chamava o pênalti de “duvidoso”. Admite que “deixou a perna” para ser tocado pelo goleiro. Caiu antes do choque, conscientemente e, também conscientemente, buscou o contato. Quer dizer, foi uma malandragem.
A lei fala em intenção de cometer a falta. O goleiro saiu para defender de maneira atabalhoada – esse foi seu pecado. Mas ao que tudo indica não tinha qualquer intenção de derrubar o atacante. Este, pelo contrário, tinha toda a intenção de ser derrubado. Nessa interpretação dos fatos, autorizada pelo próprio atacante, não apenas não foi pênalti como Fabiano deveria ter sido advertido por tentativa de simulação. Mas como culpar o árbitro por um teatro tão bem feito que iludiu os nossos melhores colunistas?
A questão maior sobre esse lance diz respeito à ética, muito mais do que à sua importância sobre o resultado, já que o São Paulo jogou melhor e justificou amplamente a vitória. O problema é saber o que significa fingir uma penalidade, ou seja, dar um drible na lei e em seu cumpridor, o juiz.
Cansei de ver grandes jogadores usarem a zona cinzenta da regra a seu favor. Aliás, cavar pênaltis é tão velho quanto o rolar da bola. O maior de todos, Pelé, era um deles. O Rei o fazia com a mesma maestria com que aplicava um drible, dava um chapéu ou marcava um gol de bicicleta. Às vezes enganchava seu braço no braço do zagueiro para ser “derrubado” na área. Usava, como o Fabuloso usou no domingo, a sutileza da lei para dela servir-se em favor do seu time. Eis a brecha: não se julgam fatos objetivos, e sim intenções. E de que maneira se expressam as boas ou as más intenções? Como não podemos entrar na cabeça das pessoas para visualizá-las, só nos resta, e aos árbitros, supor que quiseram fazer isto ou aquilo.
Daí a imensa riqueza do futebol e sua função de comentário sobre a vida em geral. O futebol é ao mesmo tempo espelho e reflexo da vida social. Incorpora seus vícios e virtudes e os revela, sob forma simplificada. Afinal, a nossa legislação comum também não faz a distinção entre crimes culposos e dolosos, ou seja, com ou sem a intenção de produzirem dano ao próximo? No fundo é a mesma coisa.
O riso matreiro do Fabuloso tem muito a dizer sobre nós mesmos, e não apenas no âmbito do futebol. Num mundo perfeitamente ético, sua atitude deveria ser condenada. No entanto, é aceita, e até elogiada como saudável malandragem, justamente aquela que caracteriza o nosso futebol (apenas o futebol?). Isso, num mundo perfeito. Mas quem disse que o mundo é perfeito?
(Coluna Boleiros)
No filme Boleiros, do nosso colega de espaço Ugo Giorgetti, há uma cena muito interessante. Véspera de Palmeiras e Corinthians, o elenco alviverde vai para a concentração num hotel da capital. O garanhão da equipe se engraça por um mulherão (Marisa Orth), exemplar daqueles de parar o trânsito. O técnico do Palestra, interpretado por Lima Duarte, preocupado com o fôlego do seu atleta para o jogo do dia seguinte, chega-se à sirigaita e lhe diz: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!”.
Pois é, quem não sabia, conheceu domingo o que é a rivalidade desse derby paulistano, que ainda vai render polêmica durante toda a semana. Foi uma partida elétrica e tempestuosa, já antecedida por discussões na escolha do árbitro, e assim continuou quando a bola começou a rolar. Não vou fazer aqui a apologia de lances ríspidos e nem discutir se as expulsões de Danilo e Felipão foram justas. Só lembro que elas aconteceram dentro de um clima de alta temperatura que só os grandes clássicos são capazes de oferecer. Tudo isso fruto de uma rivalidade que nasceu lá atrás e vem sendo passada de geração a geração como herança de pai para filho.
Por tudo isso, foi uma partida ótima para se assistir, mesmo para quem não torce para nenhum dos dois. Teve sabor até para o aficionado neutro, nem corintiano nem palmeirense, que pôde se aproveitar da emoção no que ela tinha de melhor, sem a contrapartida de tensão que um jogo desse tipo causa. Por isso, numa época em que o marketing tenta nos convencer de que devemos nos interessar mais por Real Madrid x Barcelona do que pelo nosso pobre futebol doméstico, continuo a achar que nossas rixas locais são insubstituíveis.
São elas que trazem ao espetáculo esse colorido emocional que as outras disputas não têm. Ou têm numa escala infinitamente menor. Falo de Corinthians e Palmeiras, e poderia estar falando de Vitória x Bahia, Flamengo x Vasco, Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional etc. Poderia incluir também todas as rivalidades menos badaladas, pouco midiáticas, que existem Brasil afora e levam seus torcedores ao abismo da paixão. E, por isso, contaminam os jogadores e tiram deles o que às vezes nem têm para dar. A magia do futebol depende dessa emoção sem igual e ela, em boa parte, se deve à rivalidade.
O problema será sempre dosar esse doce veneno, de modo que aqueça a disputa sem por isso transformá-la em incêndio – tanto fora como dentro de campo. É um fio de navalha, em que qualquer erro de medida pode se mostrar fatal. Pode-se especular se o Palmeiras errou um pouco a receita e botou mais pilha nos seus jogadores do que seria necessário. É possível, e claro que as expulsões de Danilo e de Felipão tiveram alguma coisa a ver com o desfecho da partida. Mas, como estamos falando de futebol, também é verdade que o Palmeiras, mesmo com dez em campo e sem técnico, jogou melhor e esteve mais perto de ganhar. Lutou com valentia, fato reconhecido até por sua exigente torcida, que aplaudiu o time derrotado nos pênaltis.
E assim chegamos a nova final alvinegra, outra rivalidade não menos histórica, que inclui tabus duradouros e goleadas humilhantes em seu retrospecto. Dois jogos para decidir quem será o campeão paulista, Corinthians ou Santos. Ida e volta, como deveria ter sido nas semifinais, pelo menos. Time por time, o do Santos está melhor neste momento mas, ao mesmo tempo, dividido entre o Paulistão e a Libertadores, caso passe hoje no México. Fosse o futebol uma disputa sem grande influência dos componentes emocionais, eu diria que é levemente favorito. Um tiquinho assim. Mas a gente sabe que, quando a bola começa a rolar, a rivalidade e a emoção passam a fazer seu trabalho de desmontagem dos prognósticos racionais.
Em meio ao marasmo, a última rodada de classificação trouxe algumas reviravoltas interessantes ao tedioso Campeonato Paulista de 2011.
Para o Palmeiras, por exemplo, foi melhor perder do que ganhar. Livrou-se do confronto direto com a Portuguesa e ainda jogou a Ponte Preta para cima do Santos, outro candidato ao título. A própria Lusa classificou-se na bacia das almas, quando já não se julgava possível. Enfim, o acaso fez o seu trabalho e caldeirão agitou-se. Tudo somado, os confrontos mais perigosos ficaram com o São Paulo, que enfrenta a Portuguesa, e com o Santos, que encara o muito bem montado time da Ponte Preta. Jogos de risco, sem dúvida.
Com todo o necessário e devido respeito, estamos falando da Portuguesa e da Ponte e não, digamos, do Barcelona e do Real Madrid. Não podem ser considerados bichos-papões, mas é óbvio que, também em teoria, são adversários mais difíceis que Oeste e Mirassol, oponentes do Corinthians e do Palmeiras. A Ponte, por sinal, tem sido o flagelo dos grandes neste campeonato. Ganhou de todos, Corinthians, São Paulo e Palmeiras, e arrancou um empate diante do Santos. Não é pouca coisa, senhores. É um retrospecto e tanto.
O Santos, portanto, que coloque as barbas de molho, ainda mais se estiver com a cabeça voltada por completo para a Libertadores no momento de enfrentar o time de Campinas. Manter o foco múltiplo nunca é fácil, como sabemos nós na exigente vida cotidiana e sabem os boleiros quando participam de mais de uma competição.
A Lusa também pode impor sua fama de asa negra. A zebra é possível, em especial por que o São Paulo, como observou o PVC em sua Prancheta de ontem, está longe de ser um time imbatível.
Quaisquer que sejam os resultados dessas quartas de final, o mais importante para a torcida é que a fase tediosa já ficou para trás. Daqui em diante os jogos serão mais interessantes. Se não pintar o grande futebol (e nada indica que ele virá), pelo menos a emoção há de voltar. Seria ainda melhor, é claro, se fossem jogos de ida e volta, o que garantiria mais justiça ao campeonato. Mas algum gênio maligno deve ter sussurrado ao ouvido do presidente da Federação Paulista que, após 19 jogos que não valem praticamente nada, nada melhor que os finalistas decidirem sua sorte numa única partida. Sem prorrogação ou vantagem para quem se classificou melhor. Apenas 90 minutos e, em caso de empate, pênaltis. Não é maravilhoso?
Essa “fórmula magistral” garante o máximo de imponderabilidade ao campeonato. Num jogo só, pode dar qualquer coisa. O que podemos fazer é apenas refletir que Ponte e Portuguesa têm mais camisa, ou mais time, que Mirassol e Oeste. Por isso, Lusa e Macaca têm maior probabilidade de complicar a vida dos seus adversários mais fortes. Mas o que no fundo se espera é que os quatro grandes saiam vitoriosos e joguem entre si na semifinal. Teríamos, então, Santos x São Paulo e Palmeiras x Corinthians. Seria a lógica, mas algo me diz que pode haver alguma surpresa no meio do caminho e pelo menos um dos grandes ficar de fora das semifinais. Apenas uma sensação, sem maior fundamento. Um feeling, como diriam os pedantes.
A esta altura do campeonato, podemos fazer duas coisas: ou lamentar o que houve até agora ou curtir o que virá. Fico com a segunda alternativa, pois acho que devemos sempre manter o senso crítico, mas aproveitar ao máximo o que a vida nos concede. Já que tudo é provisório, a melhor receita é o “Carpe Diem”, na famosa frase romana: desfrute o dia, sem pensar muito no amanhã.
Só que, passadas as emoções, quando terminar o Paulista-2011, deveríamos saudar o campeão e voltar a refletir sobre essa infeliz fórmula de disputa adotada. Para que não se repita no ano que vem. Ninguém merece enfrentá-la dois anos seguidos.
(Coluna Boleiros, 19/4/2011)
O Santos tem as qualidades e os defeitos de um time de crianças. As qualidades todos já aprendemos a conhecer nesses últimos meses: a criatividade, o ímpeto ofensivo, o futebol alegre e debochado, a alegria em campo, a eficácia traduzida em gols. Os defeitos, estamos reparando aos poucos e têm sido vistos nos clássicos.
Empatou no final com a Portuguesa, depois de um jogo muito duro. Contra o Corinthians, teve o adversário à mercê e quase tomou o empate. Idem contra o Palmeiras, com a diferença de que, neste caso, de fato levou a virada. No domingo, com tudo para liquidar o jogo contra o São Paulo por placar amplo, permitiu o empate e quase tomou a virada que complicaria sua vida nas semifinais. Achou um gol no final e venceu.
Pois, bem, o Santos que, pela campanha, é o melhor time do futebol paulista (não entro nessa de dizer “do futebol brasileiro” pois faltam termos de comparação com os outros Estados) já teria vencido há muito tempo pelo mais justo dos sistemas, que é o de pontos corridos. Mas, nessa fase de mata-mata, está dando sopa ao azar.
Pode se dar mal, embora continue com vento e, parece, sorte a favor.
Mas há algo a ser visto nesse time que encanta a todos. Uma espécie de falha no cristal, que precisa ser detectada e corrigida o mais rápido possível pelo competente Dorival Jr. Por que esse time consegue vantagens substanciais e não mostra a mesma capacidade para segurá-las? Claro, em parte isso se explica por mérito dos adversários. O Santos não joga contra o vento. E talvez haja alguma coisa nesse time que reaviva o espírito de competição dos oponentes e faz com que deem o melhor de si mesmos. Aconteceu com seus rivais paulistas. Em particular com o Palmeiras, que contra o Santos fez sua melhor partida e, domingo, com o São Paulo, que jogou seu melhor futebol deste ano no segundo tempo do jogo.
Mérito dos adversários, certo, mas também queda de rendimento do time do Santos em momentos cruciais das partidas. Por quê? Incapacidade de manter a marcação no campo do adversário? Pode ser, o jeito que o Santos marca é mesmo desgastante. Mas por que, nesses momentos, perde também capacidade de contra-atacar de maneira rápida? São fatos a serem levados em conta e estudados pela comissão técnica. Tenho a impressão de que existem outros fatores em jogo, estes de ordem psicológica. Há uma certa suficiência, que provoca acomodação depois da vantagem conquistada e, ao mesmo tempo, irrita e portanto desperta adversários que, em outras circunstâncias, talvez já estivessem nocauteados.
Parece que está também em ação a típica síndrome do “podemos decidir quando quisermos”, comum a muitos times bons e agravada neste caso pela imaturidade do elenco. Talvez haja certo fastio prematuro. Como se os meninos se cansassem do brinquedo antes do término do recreio. Dorival precisa explicar-lhes que o jogo dura 90 minutos. Às vezes se vê uma certa falta de concentração, que pode ser desmentida por todos, mas fica muito evidente em certas situações. Talvez possa ser detectada também uma dificuldade de tolerância à frustração: assim que o oponente reage, as coisas ficam mais difíceis e o time reage mal. Criança não gosta de ser contrariada. Falta um líder em campo – para os momentos complicados, porque liderar quando tudo vai bem é mole…
Essa conversa fiada pode ser resumida assim: falta maturidade. Nelson Rodrigues fazia uma recomendação aos moços: “Envelheçam, envelheçam.” Queria dizer que a juventude tem inúmeras vantagens, mas não a malícia que só a experiência traz. Como o jovem Santos é a melhor coisa que aconteceu ao futebol brasileiro este ano, eu faria um ajuste ao conselho do mestre. Envelheçam. Mas só um pouquinho.
(Coluna Boleiros, 13/4/10)
Não consigo desgostar do Campeonato Paulista, ao contrário de alguns colegas aos quais devo respeito. Não vou evocar a título de argumento as imagens da infância, quando o campeonato regional era de fato o que mais nos interessava. Nem vou falar dos jogos antológicos a que assisti ou dos quais ouvi falar e compõem hoje a melhor mitologia do nosso futebol. Sei que as coisas mudam e não me considero saudosista. Admito que os campeonatos regionais não têm mais o mesmo atrativo de antigamente, mas imagino que deixariam um grande vazio caso fossem extintos.
Penso nisso tudo quando mais um Paulistão vai chegando à sua fase decisiva e, por mais que me esforce, não consigo sentir desalento, como se tudo o que experimentamos até agora não tivesse valido a pena. Claro, não é possível dar uma de ingênuo e ignorar problemas como a baixa média de público ou o sofrível nível técnico da maior parte dos concorrentes. Em todo caso, se o público não vai ao estádio como desejaríamos, isso pode acontecer porque o nível dos jogos de fato não é bom, mas também porque ir a estádio virou uma epopeia digna de herói grego, ou porque ingressos estão muito caros, ou porque a imensa oferta de futebol na TV talvez já sacie amplamente a fome de bola da maior parte dos torcedores.
Durante o Campeonato Brasileiro não teremos tanto desnível entre times, mas a qualidade técnica também não nos arrancará suspiros de êxtase. Nem faltarão estádios vazios a empobrecer estatísticas. Os campeonatos regionais podem ser responsabilizados por muitas mazelas – a principal, congestionar o calendário –, mas não podem ser inculpados pela falta de público em certos jogos. Tirando o torcedor militante, aquele que de fato acompanha o seu time na saúde e na doença, a maior parte das pessoas que vai ao campo escolhe os jogos que deseja ver ao vivo – os clássicos, as partidas decisivas, etc.
A não ser que lhe seja prometido um espetáculo a que não está acostumado a ver todos os dias quando, nesse caso, o aficionado vence a inércia e decide enfrentar a corrida de obstáculos que o leva ao estádio. Dou um exemplo. Sei, por experiência própria, como é difícil tirar o torcedor santista de casa. Cansei de ver jogos na Vila com as arquibancadas vazias, mesmo levando-se em conta que é muito mais tranquilo ir ao Urbano Caldeira que ao Pacaembu ou ao Morumbi. Mas o comodismo fala mais alto. No entanto, testemunhei a Vila Belmiro cheinha para assistir a um jogo contra o Monte Azul que, com todo o respeito, está longe de ser um adversário memorável. Acontece que a torcida já antecipava novo show dos Meninos da Vila e pagou para ver. Conclusão tão óbvia que dá até vergonha formular: a frequência ao estádio depende – e muito – da expectativa favorável sobre a qualidade do espetáculo. Se o Santos continuar a jogar bem desse jeito terá público no Paulista, no Brasileiro, na Copa do Brasil e num eventual amistoso contra o Chapetuba Futebol Clube.
De qualquer forma, também é claro que o novo Santos é a melhor coisa que poderia acontecer ao Campeonato Paulista de 2010. Se vai ganhar, não sei e ninguém sabe. Os românticos diriam que só os deuses do futebol podem saber, mas eles, os deuses, nunca revelaram suas preferências a este cronista. Caso existam, são deuses silenciosos. E talvez irônicos, porque se divertem em ridicularizar nossas previsões. Ao contrário do que a maioria de nós afirmou no início, os quatro grandes não estarão todos presentes nas rodadas decisivas, cedendo vagas aos times “fracos”. As semifinais podem ter três grandes, apenas dois (o mais provável) ou somente o Santos, o primeiro colocado por antecipação. O simples fato de contrariar nossas previsões mais sábias já dá um certo crédito ao Campeonato Paulista, não é mesmo?
(Coluna Boleiros, 6/4/10)
Percebi comentários contraditórios a respeito do clássico Portuguesa x Santos. Alguns disseram que o espetáculo previsto dos meninos da Vila não se repetiu. As circunstâncias do jogo teriam conduzido a partida a uma zona de seriedade na qual não se admite espaço para firulas, etc. Porém, houve uma espécie de consenso ao se afirmar que a partida do Canindé havia sido a melhor até agora do Campeonato Paulista.
Acho válidas as duas análises, mesmo porque mantenho, como princípio de vida (e de colunista), não julgar os outros. Opinião é como cabeça – cada qual tem a sua e sabe o que dela faz; e ponto final. Não sou ombudsman da mídia dita especializada e me esforço por respeitar quem discorda de mim. Esta, aliás, é a única prática possível da liberdade, já que não existe vantagem alguma em respeitar quem pensa do mesmo jeito que nós. Difícil é aceitar o outro em sua diversidade, e no que ela nos contesta.
Dito isso, acrescento que, de minha parte, o gosto pelo espetáculo vem de outros aspectos e não necessariamente de um chapéu ou um gol espetacular. Claro, se vierem a finta desconcertante ou aquele gol de antologia, serão bem-vindos. Mas houve alguma coisa desse tipo entre Santos e Portuguesa? Não. O placar sequer foi dilatado – meros 1 a 1. Nenhum dos dois gols mostrou-se digno de uma placa no estádio. O da Lusa foi bem construído, e só. O do Santos aconteceu num bate-e-rebate comum, depois de muita pressão. De quem tanto se esperava, não veio grande coisa. Ganso esteve apagado. Robinho esforçou-se, mas não teve muito espaço. Neymar, tirando um ou outro lance isolado, não repetiu façanhas de jogos anteriores. E, no entanto, o espetáculo aconteceu. Por quê?
Talvez pela disposição das equipes. Mesmo marcado, e de maneira inteligente, o Santos não abdicou da sua melhor característica, a ofensividade. Pelo contrário. Quando as coisas não estavam dando certo, Dorival Jr. tirou um volante (Roberto Brum) e colocou um meia (Marquinhos). A opção deixou o Santos ainda mais vulnerável aos contra-ataques, mas aumentou a pressão em sua linha ofensiva. A Lusa jogou certo. Não optou por uma retranca mesquinha, mas já entrou sabendo que um time armado como o Santos deixa sempre espaços em branco na linha de defesa. Aproveitou-se disso e teve a partida nos pés em duas ou três ocasiões. Não matou, por isso tomou o empate. Foi essa dinâmica entre as duas equipes que pôs fogo no jogo e justificou o adjetivo “eletrizante” com o qual o caracterizaram. No final da partida, me lembrei de um verso do poeta português Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena/Quando a alma não é pequena”. O clássico foi ótimo porque os dois times pensaram grande.
E, por falar em grandes, a seis rodadas do término da fase de classificação, parece que a profecia inicial de que os quatro principais clubes do Estado iriam se classificar com facilidade para as semi-finais dificilmente irá se cumprir. Pelo menos um deve ficar fora. No momento, o Palmeiras está bem abaixo do G-4. Tem ainda chances de alcançá-lo. Mas o pior (dependendo do ponto de vista adotado) é que Botafogo e Santo André não parecem dispostos a vender barato essa vaguinha. Mal e mal, Corinthians e São Paulo estão chegando lá e, uma vez classificados, mesmo aos trancos, serão candidatíssimos ao título. Já o Palmeiras terá de ralar muito e vencer problemas internos para se poupar do primeiro vexame do ano.
2013
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006