Recebo, com alegria, a notícia de que Meia Noite em Paris, o mais recente filme de Woody Allen, está indo muito bem de bilheteria. De acordo com a assessoria de imprensa, o filme aumentou em 12% seu público em relação à semana anterior, quando o que se espera é queda de uma semana para outra.
Ou seja: mais pessoas estão descobrindo o filme e o boca a boca está funcionando. As pessoas veem e recomendam aos amigos. Com isso, forma-se um círculo virtuoso. Quando isso acontece com uma obra de inteligência há motivos para comemorar. Nem tudo está perdido, como sustentam os apocalíticos.
Nesse ponto, me lembro de Ariano Suassuna. Ele costuma dizer que o cachorro tem a má fama de gostar só de osso. “Ofereçam ao cachorro um filé mignon e vão ver se ele não prefere a carne!”, diz o mestre.
Verdade. Quando você só oferece porcaria ao público, não deve se surpreender com o seu (mau) gosto. Se o biscoito fino for ofertado com competência, ele também terá seus consumidores.
Deu no Filme B. Tropa de Elite 2 já é o campeão de público do ano, com 7,4 milhões de espectadores. Pelo jeito que vai, pode até bater o recorde de todos os tempos do cinema brasileiro que está com Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), com seus até agora insuperáveis 10,4 milhões de espectadores (dado oficial).
Essa eu recebi da assessoria do filme e repasso a vocês. A história do médium mineiro, dirigida por Daniel Filho, já passou a barreira dos 2 milhões de espectadores. Amanhã saem os números oficiais, e estes irão mostrar o dado essencial: se a média de público por sala se manteve, se caiu um pouco (o que é normal) ou se despencou. Tudo depende disso.
Parece que Chico Xavier, na visão de Daniel Filho, está arrebentando nas bilheterias. Já teria feito mais de 500 mil espectadores nesse final de semana, o que aponta para um recorde nacional. Abaixo, o que pensei sobre o filme.
Existem algumas sacadas inteligentes na construção da dramaturgia de Chico Xavier. A sua vida é contada tendo por âncora um programa da TV Tupi, o Pinga-Fogo, do qual o médium efetivamente participou. A partir daí, pode-se voltar às diversas etapas da sua vida, da infância sofrida ao encontro da vocação, passando pelas resistências da Igreja e adesão de fiéis, quando se muda para Uberaba.
Como o cinema tradicional trabalha melhor com dramas individuais do que coletivos, introduz-se o conflito de um casal (Tony Ramos, diretor de TV do Pinga-Fogo e sua mulher, Cristiane Torloni), que perdeu um filho em condições trágicas. Ele não acredita em espiritismo e tende a considerar Chico um charlatão; ela não abre mão de estabelecer um contato com o filho que perdeu. Tudo isso pode sustentar o interesse do grande público – pois afinal é para ele que o filme se destina. Deve ser lançado com um número entre 300 e 400 cópias, o que, para um produto nacional, chega a ser um superlançamento.
É um filme bem-feito, no sentido da sua construção. Daniel Filho, que não é um inovador, sai-se bem na fluência narrativa. Afinal, é um homem de televisão e entende do riscado. Ao mesmo tempo, vacina-se contra possíveis problemas. Por exemplo, Chico Xavier é uma figura muito popular, mas ainda não tolerada pela Igreja Católica, que não abriu seus templos às filmagens. No entanto, esse conflito é atenuado no filme – ele pouco aparece, na figura do padre vivido por Cássio Gabus Mendes.
Da mesma forma, as arestas possíveis da personalidade de Chico são aplainadas. Mesmo os santos têm suas contradiçoes (basta conhecer a vida de santo Agostinho ou de são Paulo, ou Jerônimo, filmada por Bressane), mas a vida de Chico, descrita pelo filme, é retilínea. Seguramente, o Chico Xavier real deve ter sido uma personalidade muito mais fascinante que aquela vista na tela, segundo a ótica de Daniel Filho.
É cinema diet, como de hábito.

Há vida na Terra: deu no Portal Filme B que Ilha do Medo teve a melhor bilheteria da semana no Brasil, repetindo o sucesso que já fizera nos Estados Unidos. Enfim um filme adulto e de alta qualidade ocupa o topo. Ilha do Medo atraiu mais de 190 mil pessoas (até o final de semana, quando as contas são fechadas) e média de 1.059 por sala. Muito bom para uma obra difícil, soturna e de decifração pouco óbvia. Parece que existe público para filmes assim, desde que, claro, sejam lançados de maneira profissional. As grifes Scorsese-DiCaprio devem ter funcionado, é claro. Mas nenhum filme se segura só com boas campanhas e nomes conhecidos. Têm de mostrar algo a mais para atrair um público cada vez mais recalcitrante e que parece apenas se empolgar com obras infantis – e não necessariamente dirigidas a crianças.
Uma dúvida me corrói a alma – por que um filme vai bem de público e outro naufraga? Não penso em coisas óbvias, tais como os blockbusters, que chegam sob tremenda campanha de marketing e dão público, sejam bons ou verdadeiros abacaxis. Falo dos filmes “diferenciados”, que querem alguma coisa além do lucro imediato em bilheteria e esquecimento rápido.
Por exemplo: fiquei muito chateado ao saber que Ervas Daninhas, de Alain Resnais, saiu de cartaz. Não entendo. Nada tem de hermético e é, na minha opinião, um tremendo filme, o melhor do ano até agora, na minha modesta avaliação. Não deu certo. No entanto, outro, do mesmo Alain Resnais, Medos Privados em Lugares Públicos, continua impávido na preferência de pelo menos uma parcela do público.
O que um tem, que falta ao outro? Ou o acaso preside a vida, o futebol, o destino dos filmes, entre outras cositas más?
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