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Luiz Zanin

 

 

A foto que você vê aí em cima é o desfecho do segundo combate entre Cassius Clay e Sonny Liston. A luta terminou no primeiro round e era a revanche de Liston, que já fora derrotado por um jovem Clay, falastrão e até certo ponto desconhecido – embora já tivesse ganhado a medalha de ouro na Olimpíada de Roma. Falando dessa foto, David Remnick diz que “talvez seja a imagem definitiva de Ali no ringue”. Feroz, belo, esbravejando contra um Liston impotente, jogado na lona.

Essas linhas estão no livro O Rei do Mundo – Mulhammad Ali e a Ascensão de um Herói Americano (Cia das Letras), um dos belos exemplares do jornalismo literário voltado para a atividade esportiva. Nele, Remnick, editor da revista New Yorker, refaz o início da carreira de Ali, situando-a primeiro num ambiente pugilístico antes dominado pela Máfia; depois, na fronteira de tensões religiosas, raciais e políticas que caracterizaram os Estados Unidos nos anos 1960. Anos do assassinato de Kennedy, das lutas pelos direitos civis de Martin Luther King e Malcolm X, da Guerra do Vietnã, dos Beatles e dos hippies.

É muito fácil fazer uma prosa elegíaca de Cassius Marcellus Clay que, depois de convertido ao islamismo, mudou seu nome para Muhammad Ali. A maior parte dos entendidos considera que foi o maior peso-pesado de todos os tempos, superando de longe Joe Louis e Rock Marciano. Ali dançava no ringue, falava sem parar antes e depois das lutas, compunha versos provocativos ao adversário, previa em que assalto colocaria o outro a nocaute. Dentro das cordas, tinha a pegada de um gigante e a leveza de uma borboleta. Flutuava com um beija-flor e picava como abelha, como ele próprio dizia.

Protagonizou lutas memoráveis com as que fez contra Sonny Liston, Floyd Patterson e George Foreman. Exibia um repertório completo de golpes. Além disso, era bonito como um deus e dispunha de um ego à altura de todas essas qualidades.

No entanto, Remnick prefere passar ao largo das mitificações. O que Ali fez em sua carreira já é suficiente para colocá-lo no alto do panteão, sem ser preciso aumentar nada e nem usar hipérboles. Daí fazer a crítica de hagiografias como The Greatest (O Maior), autobiografia de Ali redigida por Richard Durham. Nela consta, por exemplo, que o jovem campeão olímpico teria atirado sua medalha de ouro no rio Ohio ao ser molestado por um bando de motoqueiros brancos.

Isso nunca aconteceu e o próprio Ali, que supostamente teria ditado o livro a Durham, dela não se lembrava. Remnick prefere ficar mais no factual. E também no interpretativo, o que sempre depende da compreensão histórica dentro da qual fatos adquirem sentido.

Por isso, para chegar a Ali, recorda das lutas entre Floyd Patterson e Sonny Liston, com o primeiro representando o “negro bom” e o outro, o “negro mau”, saído dos presídios, com sua cara de poucos amigos e hábitos ainda menos recomendáveis. Era uma dicotomia interessante àquela altura da história dos EUA.

No entanto, quando Clay, já se aproximando da Nação do Islã, de Elijah Muhammad, desafia Liston, os papéis trocam de lado. Afinal, Liston, ainda que tivesse passado criminal e inspirasse pouca confiança, era preferível a esse jovem falastrão, próximo de um grupo que considerava toda a raça branca como inimiga.

Os dois pontos altos do livro são as narrativas dos combates entre Liston e Ali, em 1964 e 1965. É um texto fascinante, que mantém o calor descritivo e termina por uma coda analítica. Mesmo porque, após essas vitórias, Ali se tornaria não apenas o principal nome do pugilismo, em torno do qual todos os outros lutadores do futuro gravitariam, mas uma personalidade do século.

Naqueles anos políticos, Ali recusou-se a servir no exército e lutar no Vietnã, sob a alegação simples de que “nada tinha contra os vietcongues”. Sua licença foi cassada e ficou três anos e meio sem lutar. Só recuperaria o cinturão na mitológica luta contra um muito mais jovem e forte George Foreman, no Zaire, em 1974. Já então era um mito. Mas do qual, Remnick procura extrair o lado da humana fragilidade em suas páginas finais.

Entrevistando um Ali doente, quase paralisado pelo Mal de Parkinson que, após a entrevista o acompanha até a porta e pergunta ao jornalista se aquele era seu carro. Ante a resposta positiva, apenas comenta, à guisa de despedida: “A gente não possui nada. Você é apenas um depositário nesta vida. Cuide-se bem”.

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Lá pelo início dos anos 60, ele frequentava um boteco apelidado de Quitanda, que ficava numa garagem da rua Doutor Vila Nova e tinha como especialidade certa batida de agrião. Entre uma birita e outra, tocava violão em companhia de um colega da Faculdade de Arquitetura. Os dois se chamavam Francisco, mas ninguém os conhecia pelo nome de batismo. Nosso personagem era apenas Maranhão, obviamente porque de lá vinha, e de São Luís, a capital. O outro era chamado na escola de Carioca, pois havia nascido no Rio, embora o pai fosse paulista; mas este já começava a ser conhecido em toda parte como “o” Chico. Os dois Chicos, o Buarque e o Maranhão, eram inseparáveis. São amicíssimos, até hoje.

Bine Morais/Estado do Maranhão
Bine Morais/Estado do Maranhão

Se for preciso designá-lo por seu nome civil, vamos dizer que Chico Maranhão se chama Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho. Veio a São Paulo para estudar e também porque desejava conhecer de perto a bossa nova. Para tanto, tinha de descer ao Sul. Matriculou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que então ficava no bairro de Higienópolis, por coincidência, na Rua Maranhão. E, naquela região boêmia e estudantil, demarcada pelas ruas Maria Antonia, Vila Nova e Major Sertório, onde estavam os bares, a agitação política, a Faculdade de Filosofia da USP e o Mackenzie, Maranhão foi se enturmando, tocando e compondo.

Entrou para o imaginário do País no mitológico festival de 1967, com um frevo que colocou a plateia para dançar, Gabriela, interpretado pelo conjunto MPB-4. “Foi uma apoteose”, ele lembra. E, de fato, as imagens não mentem, como se pode ver nos extras do documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil. O público, que fazia do festival uma espécie de versão musical dos protestos políticos, mergulhava, durante Gabriela, no mais puro carnaval recifense, dançando e abrindo guarda-chuvas no interior do Teatro Record.

Nesse festival, Maranhão concorria com seu amigo Chico Buarque, que lá apresentava, com o mesmo MPB-4, a famosa Roda Viva. Mas ambos seriam derrotados por Ponteio, de Edu Lobo e Capinam. Foi uma edição histórica dos festivais que, além dessas músicas, mostrou o talento inovador dos baianos Caetano Veloso, com Alegria, Alegria, e de Gilberto Gil, com Domingo no Parque. Gabriela chegou às finais e acabou ficando com o sexto lugar. Mas ficou também no coração do público, que nunca esqueceu seus versos e ritmo envolventes. Naqueles tempos duros da política, havia também espaço para a pura felicidade da música. E a alegria é mesmo a prova dos noves, como dizia Oswald de Andrade.

Tanto é assim que Chico Maranhão, mesmo com o sucesso de Gabriela e a carreira sedimentada por outras músicas e shows, acabou deixando São Paulo depois de alguns anos e tomando o caminho de volta a São Luís. “São Paulo cresceu descontroladamente, eu sentia que a cidade começava a me devorar”, diz. A aura daquele tempo havia passado. “Às vezes volto lá, não é a mesma coisa, o Quitanda não existe mais.” O Bar do Zé (esquina da Maria Antonia com Vila Nova) continua ainda no mesmo lugar, com seu nome oficial, Bar e Lanches Faculdades. Mas, claro, não é mesmo igual. Gerações e gerações se sucederam e aquele clima dos anos 60, o vento levou.

De modo que, recorrências saudosistas à parte, Chico voltou então para São Luís e com um projeto de vida bem definido. “Reencontrei minhas raízes, a terra, as tradições maranhenses”, diz. Em 1996, essa imersão radical (no sentido próprio do termo) rendeu frutos com a gravação do CD Ópera Boi – O Sonho de Catirina, gravado no Teatro Arthur Azevedo. Em 1997, sai outro CD, São João, Paixão e Carnaval. E assim os shows, e os CDs vão se sucedendo, um após outro. De modo meio artesanal, sem se preocupar com o sucesso imediato de público. “Faço shows para mil ou para cinco pessoas, não importa”, diz Chico.

Esse retorno à terra rendeu outros frutos. No caso, uma tese acadêmica, que virou livro. Urbanidade do Sobrado – um Estudo sobre a Arquitetura do Sobrado de São Luis, assinado com o nome completo, do pesquisador e professor universitário, Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho, publicado pela Editora Hucitec (São Paulo, 2006). O livro fala com carinho e rigor científico (quem disse que as duas coisas não podem andar juntas?) da sua cidade. O centro histórico, com seu casario, seus azulejos, sua magia.

Mesmo na tese acadêmica, o toque do compositor. Enquanto fazia a pesquisa, Chico compunha músicas que exprimiam suas sensações estéticas em relação à arquitetura que estudava. Gravou duas faixas longas – Sobrado e Sobrados e Trapiches – que vêm num CD encartado ao livro. Música e ideias se complementam de maneira harmoniosa, como uma daquelas fachadas magníficas do centro histórico de São Luis, onde, aliás, Chico Maranhão mora.

É onde, aliás, ele conversa com o Estado, naquele ambiente nostálgico, que evoca velhas histórias do Brasil Colônia. A cidade de São Luis completa 400 anos em 2012, e Chico entende que se trata de uma boa ocasião para tocar um projeto de sua obra, que tanto fala da terra natal. “Estou planejando uma espécie de songbook, com uma seleção de cem das minhas músicas favoritas”, diz. Será, ele acredita, um livro para interligar um percurso de imersão em sua cultura, com o poder de observação do homem e do arquiteto, e a insubstituível sensibilidade do músico.Afinal, como Chico Maranhão sabe desde os anos 60, a música alcança até aquilo que os olhos não veem.

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Os ecos da revolução sexual dos anos 60 e 70 continuam a se fazer ouvir. Até mesmo no mercado editorial. Além de A Viúva Grávida, acerto de contas ficcional de Martin Amis com aquela época, foi lançado em português O Paradoxo Amoroso (Bertrand Brasil), do francês Pascal Bruckner (mesmo autor do romance Lua de Fel, filmado por Polanski).

É normal que assim seja. Trata-se de uma fase da história recente que não deixa ninguém indiferente. Provavelmente porque a nossa época ainda tem tudo a ver com aquela, apesar do meio século passado e tanta coisa acontecida entre um tempo e outro. Tanta coisa, que iria desmentir e até certo ponto desfazer algumas das conquistas daquela revolução dos costumes.

De fato, quem imaginaria, naqueles anos rebeldes, que a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética terminaria de maneira tão rápida e com a vitória contundente de um dos lados? Fim das utopias, falência do mundo bipolar. Por outro lado, quem imaginaria que a liberação dos corpos, que tanto trabalho custara a mais de uma geração, seria brecada pela chegada de um vírus misterioso e mortal, que vinha não se sabia de onde? Esses desdobramentos são interessantes, em especial para aqueles que julgam saber de antemão em que direção a História se move.

Bruckner defende a tese de que a nossa geração é filha de maio de 1968. No entanto, não vivemos a utopia feliz imaginada por quem participou dos movimentos libertários daquele tempo. Podemos ser livres para amar, porém nunca fomos tão solitários e infelizes no amor como agora. Como se a liberdade trouxesse consigo outra forma de tirania: o imperativo do gozo. Com suas decorrências: a fantasia da eterna juventude, a pressão pelo desempenho, o ideal do prazer infinito. Imperativos condenados ao fracasso porque o tempo é implacável, a performance sexual não é uma forma de atletismo e o desejo humano parece intermitente. Quanto mais livres nos julgamos, mais presos de fato estamos, e a outras instâncias que não controlamos.

Por outro lado, o surgimento da aids não apenas colocou um travo à utopia da sexualidade ilimitada como deu lugar ao aparecimento de um neomoralismo que ninguém julgava possível àquela altura do campeonato. Quem não se lembra das insinuações, explícitas ou muito mal disfarçadas, de que a doença seria uma espécie de castigo dos deuses (ou pior, da natureza) à promiscuidade? A revolução sexual, que parecia triunfante e absoluta nas décadas anteriores, sofreu um refluxo. Mas não recuou a um ponto anterior a si mesma, porque isso não acontece na História. Ajustou-se. De modo que o nosso tempo parece forjado por uma revolução abortada pela metade, cujos efeitos não foram neutralizados, mas reduzidos.

Daí o paradoxo da convivência entre comportamentos sexuais que parecem mais livres do que nos anos 60 e um moralismo social arraigado, raivoso e assumido. Em nosso tempo redescobrimos uma realidade talvez invisível durante os exaltados e hormonais anos 60: a liberdade tem mesmo seu preço. Alto, altíssimo às vezes, mas que vale a pena ser pago.

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RECIFE – Outro concorrente entre os longas-metragens foi o documentário Casa 9, de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode. Evoca uma casa e um tempo. A casa, a de número nove em uma vila em Botafogo. O tempo: os anos loucos, pós AI-5, do desbunde e da contracultura. Passaram pela casa de Bigode gente como Jards Macalé, Naná Vasconcellos, Nelson Pereira dos Santos, Clarice Lispector e tutti quanti. Era o forum libertário em meio a um tempo obscuro. Um acerto do filme é entrevistar as pessoas “normais” que, na época, conviveram com os artistas. Vale pela ternura.

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Todos atribuem a queda de Emir Sader (na verdade nem assumiu) da Casa de Rui Barbosa à entrevista concedida à Folha de S. Paulo na qual classificou a ministra Ana de Hollanda de “meio autista”.

Quem assim pensa não está errado. Mas se esquece de que, uma semana antes, Sader havia concedido outra entrevista, bem mais substantiva, a O Globo. Nela, esmiuçava suas propostas para a Casa de Rui Barbosa, pretendendo transformá-la num centro de discussões que daria voz a personagens de esquerda sem vez nos meios de comunicação. Sader desejava ampliar as funções da Casa, tradicionalmente de preservação de acervo, politizando-a.

Esta entrevista não causou o mesmo frisson porque nela Sader não cometeu qualquer impropriedade verbal mais gritante. Quer dizer, não criou nenhuma boutade que permitisse citação fora de contexto e transformação em título chamativo do tipo “Ela é meio autista”.

Pelo contrário, ao invés de formular frases supostamente espirituosas, ocupou-se em defender ideias que devem ter repercutido fundo em setores, digamos, mais conservadores da sociedade.

O pulso dessa repercussão – negativa – pôde ser tomado com mais precisão na blogosfera do que na mídia impressa. Qual a novidade? Todo mundo conhece o passado e as ideias de Sader. E, para quem não conhecia, ele não as escondeu na entrevista a O Globo. Esse ideário é um resumo de tudo o que o pensamento liberal deseja ver morto e enterrado para todo o sempre. E, no entanto, essas ideias voltam, como voltam antigos sintomas, dizia o velho Freud a respeito das neuroses.

Como os sintomas, a queda de Sader deu-se em dois tempos. O primeiro foi o desta preparação de clima na entrevista a O Globo. O segundo, a gota d’água, a entrevista à Folha. Ou, mais precisamente, a frase infeliz dita no contexto da entrevista e que, tirada desse contexto, soou ofensiva.

É bem possível que por trás desse entrevero político estejam antigas discussões, latentes na cultura brasileira e em suspenso desde o final dos anos 1960. De um lado, há os setores mais conservadores e toda a sua ojeriza a qualquer tipo de discussão sobre o progresso social. É o pensamento dominante.

De outro, o confronto entre a velha esquerda mais tradicional e uma “esquerda” que se deseja mais contemporânea do mercado, da publicidade e, agora, da internet. Nos anos 60, essa cisão se deu entre a esquerda tradicional e os tropicalistas – Caetano à frente. O caso emblemático foi seu discurso de ruptura com a esquerda ao ser vaiado durante a apresentação de É Proibido Proibir, em 1968. Uma canção anárquica e libertária num quadro político no qual quem não era de esquerda era de direita.

Agora essa cisão retorna, se a tese procede, no panorama do início do governo Dilma, uma ex-guerrilheira que dá mostras de querer governar sem muitas marolas e sem a brigalhada política que caracterizou o segundo governo Lula. Por exemplo, em setores da blogosfera, Dilma foi criticada por comparecer ao aniversário de 90 anos da Folha, como se, presidente, devesse governar com os blogs e hostilizar os veículos que hostilizaram a candidata. O primeiro dever do político eleito é ser ingrato, dizia a velha raposa Tancredo Neves.

A cisão retorna, com os personagens envelhecidos e algumas ideias parecendo requentadas. Talvez seja interessante lembrar que boa parte daquela esquerda autoproclamada mais moderna virou-se alegremente para a direita e hoje ocupa cargos importantes no jornalismo ou exerce a função de intelectual a serviço do conservadorismo. Alguém, algum dia, teria de refletir a fundo sobre esse estranho fenômeno brasileiro: como o trotskismo de juventude pode servir de base para o pensamento de direita extremado da maturidade.

Enfim, essas discussões estão aí vivas e, ao que parece, a Casa de Rui Barbosa, em sua quietude secular, foi apenas o polo em torno do qual elas se manifestaram, ainda uma vez.

Assume agora o sociólogo Wanderley Guilherme dos Santos, um quadro tão qualificado quanto Emir Sader. Que tenha a sabedoria da discrição. Para realizar as coisas, no Brasil, convém medir as palavras. Melhor fazer do que falar.

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23.abril.2010 12:54:51

Utopia e Barbárie

O diretor, em Moscou

O diretor, em Moscou

A sequência de sons e imagens de Utopia e Barbárie produz certa vertigem. Compreensível. É a vertigem da História, essa mesma, com agá maiúsculo, que um personagem de Joyce definiu um dia como pesadelo do qual queria despertar.

O período escolhido por Tendler reforça a sensação de vertigem. Ele faz seu percurso da explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagazáki até a queda do Muro de Berlim, com uma coda para atualidade, o 11 de setembro e a crise mundial de 2008. Qual o sentido disso tudo?, é o que nos perguntamos ao ver a sucessão de imagens desse meio século frenético. É a mesma pergunta que se faz diante da História. Vai para algum lugar? Tem algum significado? Vive da lógica ou do acaso?

Não existe possibilidade de responder a qualquer dessas perguntas de um ponto de vista universal. A História é, em boa parte, o que fazemos dela. A maneira como “lemos” o passado. Por isso Tendler, documentarista de grandes personalidades (Jango, JK, agora finalizando filme sobre Tancredo Neves), assume seu posto de observação pessoal na interpretação desses 50 ou 60 anos de história coletiva.

Não que Utopia e Barbárie seja um solilóquio narcisista do autor. Nada disso. Ao invés de contemplar o umbigo, Tendler entrevista dezenas de pessoas (famosas e anônimas), monta quilômetros de imagens de arquivo e visita 15 países num trabalho de 19 anos. Mas seu ponto de vista, na organização desse material todo, é muito pessoal. Tudo é filtrado pela perspectiva de alguém formado nos anos rebeldes, que foi e é de esquerda, judeu de classe média, encantado com o sionismo socialista na juventude e que na maturidade não hesita em colocar-se no posto de observação dos palestinos. Diante do caos da História, há a coerência de uma trajetória.

Portanto- e esta é uma observação acaciana, óbvia, mas necessária – Utopia e Barbárie nos propõe um recorte que, claro, passa pelos principais acontecimentos da segunda metade do século 20 e começo do 21, porém vistos por um determinado olhar. Uma visão dupla, que mira de um lado o sonho, de outro a expectativa da tragédia. Os sonhos libertários dos jovens de 1968 e a tragédia das ditaduras latino-americanas; Ângela Davis e Muhammad Ali de um lado, Augusto Pinochet e Pol Pot de outro. As grandes passeatas estudantis e a gravação do Conselho de Segurança Nacional ao decretar o AI-5. Allende, Che Guevara, Ferreira Gullar, José Celso Martinez Corrêa e Luiz Carlos Maciel. Dilma Rousseff e Franklin Martins. Nomes, opiniões, vivências. Imagens e sons que confluem e colidem na voragem do devir histórico.

Há problemas em Utopia e Barbárie. Ficamos pensando, às vezes, por que o filme não dialoga mais a fundo com Chris Marker, uma das suas referências? Por que à força das imagens de rua, com toda a sua crueza, se contrapõem imagens televisivas, enfraquecidas? Por que o sentido poético do caos muitas vezes se banaliza no efeito prosaico dos depoimentos? Por que essa sensação de que o poder das imagens não fala por si só, mas precisa ser acompanhado de explicações?

São dúvidas, que não tiram, apenas atenuam um pouco o impacto dessa viagem a esse tempo de grandes sonhos e grandes decepções, de posições contraditórias e excludentes, de generosidade e miséria, de utopia e de barbárie, termos que caminharam mais juntos do que se supõe. Tempos de tanta violência, mas tanta ternura, conforme o verso de Mário Faustino que Glauber Rocha cita em Terra em Transe.

(Caderno 2, 23/4/10)

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Foi mágica a noite de abertura do festival de documentários É Tudo Verdade. Plateia compacta no Espaço Unibanco da rua Augusta para ver Uma Noite em 67, dos estreantes Renato Terra e Ricardo Calil. Grandes e merecidos aplausos no final.

O filme é sobre o desfecho, em 21 de outubro de 1967, do III Festival da Record, no Teatro Paramount, rebatizado na época de Teatro Record Centro. Há quem diga que foi o festival dos festivais, o maior de todos. Foi o festival que consagrou Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, como vencedor. Foi o festival de Chico Buarque e Roda Viva. Foi o festival da “violada” no público, aplicada por Sérgio Ricardo, que não suportou as vaias ao seu Beto Bom de Bola. Foi o festival de Caetano Veloso, com Alegria, Alegria, e de Gilberto Gil, com Domingo no Parque. Foi o festival da MPB “pura” contra a guitarra elétrica. Um Fla-Flu.

O filme faz uma excepcional prospecção de imagens da época e acerta ao preservar as apresentações completas dos concorrentes, trazendo de volta todo um clima da plateia. Clima incandescente, para dizer o mínimo.

Traz também as entrevistas dos concorrentes, feitas pelos apresentadores Randal Juliano e Cidinha Campos nos bastidores. Há cenas da plateia, que aplaudia de maneira frenética os favoritos e vaiava, impiedosa, quem não gostava.

Acerta ao entrevistar, no presente, alguns dos protagonistas da época: Sérgio Ricardo, Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo. São depoimentos preciosos, de reavaliação de um tempo quente e urgente e radical como aquele.

O festival expressou, e o filme contempla esse fato, cisões musicais importantes: de um lado a música politizada e “pura” em seu nacionalismo de esquerda: Ponteio, Roda Viva. De outro, a abertura criativa para o pop com Domingo no Parque e Alegria, Alegria. A raiz brasileira x a mistura eletrônica com o rock. Naquele tempo era uma coisa ou outra.  Houve até uma passeata contra a guitarra elétrica, liderada por Elis Regina e da qual um constrangido Gilberto Gil participou.

O festival expressou também, mas nesse ponto o filme é menos incisivo, outra cisão que ocorria na sociedade brasileira entre o regime militar e a resistência a ele. O público dos festivais, pelo menos aquele que ia ao teatro, era, em sua maioria, universitário, de oposição ao regime. Canalizava (ou sublimava) sua energia nas canções que julgava melhor representar a sua luta, mesmo que os concorrentes não pudessem, de maneira maniqueísta, ser chamados como “reacionários”, como conviria a uma luta entre o “bem e o mal”. Edu ganhou porque Ponteio era mesmo ótima música, mas também porque continha uma “mensagem” revolucionária implícita em sua letra. Além disso, era nacionalista em seu arranjo e forma de expressão. Caetano e Gil não eram “entreguistas” em sua abertura para o pop. Mas não eram tão facilmente assimiláveis à “luta” como Edu e Vandré, por exemplo. Basta lembrar que, pouco tempo depois, Caetano e Gil foram presos e tiveram de seguir para o exílio.

Num festival seguinte, o III Festival da Canção, da Globo, a cisão ficaria ainda mais clara entre a engajada Prá não Dizer que não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, e a linda canção do exílio Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. A música de Chico e Jobim podia ser ótima e sofisticada, e era tudo isso mesmo, mas a de Vandré, em seus dois acordes, converteu-se na “nossa Marselhesa”, como bem a definiu Millôr Fernandes. Cresceu no seio do povo e passou a ser cantada em passeatas e atos públicos. Virou uma música de rua. Transformou-se num hino da resistência em tempos sombrios.

Os festivais, durante certo espaço de tempo, canalizaram paixões políticas expressas através da música. Tudo andava junto e nunca essa união entre cultura e política foi tão intensa. Foi um momento raro na história brasileira e os festivais, concebidos por empresários que queriam apenas garantir um bom show e ganhar dinheiro, se transformaram em outra coisa. Dá gosto reviver esse tempo, ainda que, no filme, talvez por receio de didatismo, essa ligação entre a arte e seu momento histórico não seja costurada por inteiro.

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02.março.2010 09:40:52

Faltou um Zito

Domingo, na Vila, um torcedor um pouco mais veterano, suspirou: “Por isso é que aquele time dos anos 60 era grande; além de bom de bola, jogava com seriedade o tempo todo.” A bronca veio num momento do jogo em que o Corinthians já tinha perdido dois jogadores por expulsão e o jovem time do Santos, ao invés de aproveitar a oportunidade e meter uma goleada histórica, ficou tocando a bola de lado e fazendo firulas em campo.

Vamos dar o desconto: torcedor do Santos, em especial os que viram Pelé, Coutinho & Cia ao vivo e em cores, é rabugento mesmo. Nunca está satisfeito com nada, o que acaba ficando chato, pois, no limite, mostra-se incapaz de curtir a beleza deste time que surpreende a todos – até mesmo a este cronista que, no começo do ano, apontou o Santos como a quarta força do futebol paulista. Mea culpa, mas como adivinhar que time tão jovem daria liga em tão pouco tempo? Surpresas – agradáveis – do futebol.

Mas há um lado verdadeiro na bronca do torcedor – que, aliás, não foi exclusiva dele, pois uma boa parte da torcida que estava na Vila Belmiro se irritou durante os 20 minutos finais do jogo, quando o Santos tinha superioridade no marcador, dois jogadores a mais e deixou um Corinthians valente quase empatar o jogo. Eles exageraram e foram pouco objetivos. Teria sido um castigo cruel, mas talvez funcionasse como lição interessante para os meninos. E que lição é essa? Não se brinca impunemente com o futebol. Ou, como dizia certo técnico mal-humorado: a bola pune. Talvez naquele momento de dispersão, quando devia ir para cima do adversário enfraquecido e liquidar a parada, tenha faltado ao Santos um Zito, um grande comandante para botar ordem na casa e recolocar o time nos eixos quando começa a descarrilar.

Era o que fazia o capitão daquele time inesquecível. Cercado de cobras criadas por todos os lados, grande jogador ele próprio, cabia a Zito passar descomposturas em quem saísse da linha. O próprio Pelé ouvia de cabeça baixa o que o capitão tinha a dizer. Um líder desse tipo não inibe ninguém; pelo contrário, facilita a vida da molecada que encontra nele um ponto de referência, quase uma figura paterna. O problema é um só: onde achar um Zito hoje em dia?

Em falta de um líder dessa qualidade, o jovem Santos vai caminhar no fio da navalha: como encontrar o limite certo entre o talento, que produz o futebol arte, e a soberba, que pode botar tudo a perder? Ninguém deve podar a irreverência desses garotos, que estão jogando o fino da bola. Mas alguém tem de dizer a eles que o grande espetáculo precisa de uma conclusão à altura – a bola no fundo da rede. Caso contrário é só espuma. Cabe a Dorival Jr., que está fazendo um grande trabalho com esse time, explicar aos jovens esse fundamento maior do jogo. Você respeita um adversário quando faz nele o máximo de gols que puder.

INFÂNCIA BRASILEIRA

Além de Neymar, Ganso e André, outro menino chamou a atenção neste fim de semana: Wellington Silva, do Fluminense. O garoto fez um dos gols na vitória sobre o Friburguense e, na entrevista, chorava a ponto de dar dó. Minha mulher, ao ver a emoção do moleque, também puxou o lencinho. Enfim, era uma cena de novela mexicana – no bom sentido, é claro. Eu via no menino um pouco da fisionomia de Pelé quando surgiu, um pouco da de Robinho e também me comovi. Depois, a emissora informou que Wellington tem 17 anos, já foi comprado pelo Arsenal e segue para a Inglaterra quando completar 18. Nesse ponto, quem teve vontade de chorar fui eu.

(Coluna Boleiros, 2/3/2010)

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