De vez em quando alguma expressão (originária da língua inglesa, of course) entra na moda e todo mundo repete, feito papagaio. Agora é “zona de conforto”, usada a qualquer pretexto.
Com sentido negativo, é claro. Coisa de acomodado, de quem não quer se arriscar. Aliás, o antônimo de zona de conforto é “risco”, termo agora badalado, de forma igualmente acrítica. É curioso como as pessoas se preocupam cada vez mais com segurança, exaltando a ordem (contra a “baderna” dos movimentos sociais, por exemplo), precavendo-se para o futuro, fazendo planos de aposentaria precoce, etc, ao mesmo tempo que exaltam o risco, como se fôssemos todos astronautas, cavaleiros solitários ou navegadores.
Nada contra esses termos, em princípio. O que me incomoda um pouco é o seu conteúdo ideológico, que não parece ser percebido por quem as usa com tamanha desenvoltura. É preciso lembrar de vez em quando que as palavras não são neutras e escondem atrás de si significados insuspeitados por quem as usa.
Acho que no centro da demonização da “zona de conforto” está a ideia de que todos devemos ser empreendedores, que devemos partir para a aventura da livre iniciativa na selva do mercado.
Assim, aquele que defende coletivamente o seu emprego, por exemplo, estaria preservando a sua zona de conforto. Estaria na retaguarda de um tempo em que se privilegia ação individual, sem as peias da ação coletiva (que deve levar em conta outras vontades, em geral contraditórias, etc.). Se o sujeito for um funcionário público, então, estará duplamente condenado, já que tanto a zona de conforto quanto a presença do Estado são malvistas pela ideologia dominante.
Já se sabe, portanto, o que anda por trás desse discurso: o elogio da ação individual, num espaço social neutralizado (oportunidades para todos, etc.), e povoado por competidores, aos quais cabe derrotar seus adversários na “luta pela vida”. Ou melhor, na luta por um espaço no mercado.
Aliás, basta pesquisar pela origem dos termos para sabermos muita coisa sobre eles. Comfort Zone é um termo da psicologia behaviorista, aquela que costuma transpor conclusões tiradas de experiências com ratos para a espécie humana. De acordo com ela, os animais mais bem sucedidos são aqueles que se arriscam fora da sua comfort zone, ao passo que os outros conformam-se com os limites delimitados por seu próprio medo ao risco. Aos primeiros, cabem a melhor comida e as melhores fêmeas. Aos segundos, o que sobrar.
Salta aos olhos o tipo de ideologia de competição social que se deduz de simples experimento com ratinhos brancos. Os ratos ousados dão-se melhor que os ratos tímidos. Seguindo a lógica desse raciocínio, na cadeia da evolução, o animal mais bem sucedido seria o tubarão, que nem pode quieto em nenhum lugar parar para não morrer sufocado. Não pode parar. Está sempre no risco, por assim dizer.
Enfim, o que há por trás dessas palavras, ou melhor de sua valorização, é a ideologia do predador. Do capitalismo selvagem.
Não acredito que nenhuma dessas considerações vá desencorajar quem gosta de utilizar expressões como zona de conforto ou fazer a apologia do risco.
Mas é sempre bom a gente saber que marca de ideologia está usando.
Zanin,
Laranja Mecânica, Pavlov, Watson e alguns psicólogos ajudaram a criar uma noção muito difundida sobre o Behaviorismo que, hoje, é senso comum mas que já não corresponde.
Aliás, o maior erro de Skinner foi utilizar a mesma terminologia “Behaviorismo” de Watson, e errou feio.
O behaviorismo radical (Raiz do comportamento), ou skinneriano não parte de suposições tão apressadas assim.
Afirmar que a”psicologia behaviorista, aquela que costuma transpor conclusões tiradas de experiências com ratos para a espécie humana.” é simplista e ignora o ambiente e o fenótipo. É como falar que a psicanálise é só sexo, deixando de lado toda a teoria da libido.
“Sair do conforto” seria se expor a novas situações considerando que, em sua rotina, a pessoa não se sente bem. E sair da rotina sempre envolve um “risco” do desconhecido. E é mais simples que parece. A cada estímulo novo, cada filme novo que vejo, é um desconhecido. Eu aprendi na escola, porque fui “forçado” a sair da zona de conforto, onde convivi com novas pessoas, matérias…
Mas, nada impede que as pessoas, inclusive péssimos behavioristas, utilizem esses termos de maneira deturpada, capitalista e selvagem. Só não é assim na filosofia behaviorista.
Recomendo o texto do Skinner: “o que há de errado no mundo ocidental”. Apesar de alguns termos técnicos, é surpreendente.
Abraços!
Zanin,
Penso eu que, com a queda do muro e o triunfo momentâneo do pensamento neoliberal, esse superestímulo à competitividade, ao “derrubar o outro para subir”, passou a ser a regra nas escolas, nas academias etc.
“Os espertos comem o filé; os tímidos roem os ossos. Êsse é o mundo e não tem jeito.” Decretaram o “Fim da História”. A História parou quando o Neoliberalismo triunfou. O Mercado é o novo Deus regulador de todos os conflitos. E por aí vai…
Acontece que o início da segunda década do século XXI parece mostrar o contrário. É só olhar para a Europa e o “Grande Irmão do Norte”.
Creio que eles precisam mais de cooperação que de competição. E parece que o pensamento neoliberal está se desmanchando no ar…
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