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Luiz Zanin

24.julho.2010 11:10:59

Paulínia consagra a diversidade

FICÇÂO _ 5vezesFavela _ Concerto Para Violino - Thiago Martins e Cintia Rosa _ créd Vantoen

 

Os antigos excluídos se incluíram a si mesmos e triunfaram em Paulínia. 5 x Favela, o coletivo em que moradores de comunidade olham para sua própria realidade, ganhou o prêmio de melhor filme, além vários outros troféus incluindo o do público. Bróder, pungente retrato do Capão Redondo, dirigido pelo cineasta Jeferson De, recebeu três prêmios do júri oficial e mais o troféu da crítica.

O curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, que trabalha um tema gay, emplacou a tríplice coroa: melhor filme pelo júri oficial (além de roteiro), prêmio do público e prêmio da crítica. Ao receber um dos troféus, o diretor brincou: “É uma contradição um filme gay levar tantas ‘meninas’ para casa”, alusão ao nome do troféu de Paulínia, Menina de Ouro.

Nos prêmios dados aos documentários, a mesma tendência. O mais premiado, com os troféus de melhor filme e direção, foi Leite e Ferro, de Cláudia Priscilla, um retrato do universo das detentas que amamentam seus bebês na prisão. E Lixo Extraordinário, vencedor do prêmio do público, aborda o cotidiano dos habitantes do lixão carioca Jardim Gramacho sob a ótica do badalado artista plástico Vik Muniz, também ele oriundo da periferia.

Enfim, nunca a perifa, sob suas várias vertentes, esteve tão na fita quanto nesta 3ª edição do Festival de Paulínia. Mas, para provar que não havia preconceitos contra brancos e heteros, e nem contra o riso e a leveza, o júri oficial premiou de maneira consistente a ótima comédia romântica e dramática de Flávio Tambellini, Malu de Bicicleta, que levou as estatuetas de direção, ator (Marcelo Serrado) e atriz (Fernanda de Freitas). O filme é basedo no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estado, e conta a história de um paquera paulista que, atropelado no sentido físico e metafórico por uma ciclista carioca, transforma-se em apaixonado monstro de ciúmes. Essa versão bem-humorada de Otelo é bem divertida, além de sutil.

Não existia, portanto, nada de explicitamente ideológico na predisposição dos júris. Apenas o desejo de premiar aqueles filmes que lhes parecessem os melhores entre os concorrentes. Coincidiu de encontrar entre eles ótimas amostras de um cinema que, pela primeira vez, tem no excluído não apenas seu tema, mas agora o agente e testemunho de si mesmo.

Quem expressou muito bem essa situação inédita foi o cineasta Jeferson De, que o ator Jonathan Haagensen chamou de “Spike Lee brasileiro”: “A gente começou a década com Cidade de Deus, e os negros que estavam lá, na frente das câmeras, passaram para trás”, disse. Verdade. De protagonistas, como são no filme famoso de Fernando Meirelles, os negros e favelados foram “promovidos” a cineastas e passaram a mostrar a sua realidade sob sua ótica, com sua linguagem e em seus próprios termos. É um movimento que vai além do âmbito cinematográfico e deve ser avaliado no nível da sua repercussão social. Paulínia teve a sensibilidade de flagrar esse momento. Premiá-lo significa dar-lhe destaque e realçá-lo diante do público.

Esse é o sentido maior deste festival que, como todos, teve também seus percalços. Um em especial, a presença na competição de um filme como a comédia Dores & Amores, sem qualquer condição de figurar na mostra oficial de um festival nível A. Foi um vacilo da curadoria. Que precisa ficar esperta, pois sempre existe quem se prontifique a fazer generalizações e condenar o festival em seu todo a partir de um único passo em falso. O projeto de Paulínia é muito sério e não pode abrir flancos para a ação do jornalismo marrom. Por sorte, o júri corrigiu esse tropeço principal, e outros menores, e simplesmente limou da premiação os concorrentes mais toscos. Preferiu concentrar prêmios nos filmes que realmente valiam a pena.

O resultado, em si, foi correto, sem ser brilhante. Por exemplo: Bróder e 5 x Favela são obras muito equivalentes, tanto do ponto de vista da qualidade como da proposta. Poderiam ser equilibradas, por exemplo com um prêmio de direção a Jeferson De. Tivesse agido dessa forma, o júri explicitaria melhor uma tendência subjacente ao festival. O retrato ficaria mais nítido.

Algo semelhante pode ser dito sobre os documentários. Leite e Ferro é ok, um bonito filme, talvez um pouco refém a mais do encanto das personagens para se tornar consistente de verdade. Talvez não seja tão superior assim a Uma Noite em 67 ou a Programa Casé, ambos baseados em rica pesquisa de material histórico e de muito diálogo com o público. Ou mesmo São Paulo Companhia de Dança, um estudo empenhado sobre o corpo humano, a música e a dança. Os três foram solenemente ignorados.

Mesma objeção para a premiação de curtas-metragens. É compreensível que Eu não Quero Voltar Sozinho tenha caído no gosto do júri oficial, do público e de parte significativa da crítica. Tem qualidades para isso. A sofisticada animação Tempestade foi premiada com o troféu de direção para César Cabral, o que lhe caiu bem. Mas um filme tão sensível e belo como o mineiro Ensolarado, de Ricardo Targino, foi ignorado. Está na seleção oficial de Locarno, onde talvez tenha melhor sorte que em seu próprio país.

No todo, fica a lembrança de um belo festival que, ao mesclar mesclar obras autorais a outras de maior diálogo com o público, acabou por detectar uma tendência importante da cultura brasileira: a autonomia audiovisual de camadas antes excluídas. Revelar e premiar essa vertente em seu nascedouro é, de fato, o que importa. O resto é frivolidade.

(Caderno 2, 24/7/10)

comentários (9) | comente

9 Comentários Comente também
  • 24/07/2010 - 13:18
    Enviado por: Tweets that mention Paulínia consagra a diversidade | Luiz Zanin -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by Tatiana Vasconcellos and Diana Almeida, Luiz Zanin . Luiz Zanin said: Paulínia consagra a diversidade. Meu balanço do festival, recém-encerrado, com vitória de 5 x Favela. http://bit.ly/d135gk [...]

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  • 25/07/2010 - 11:39
    Enviado por: Marcelo Müller

    Olá Zanin,

    Falando de festivais, tu vai a Gramado este ano?

    abraços

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  • 25/07/2010 - 13:06
    Enviado por: João Solimeo

    Diria que “As Doze Estrelas” tenha sido um mico tão grande (e tão ruim) quando Dores & Amores. Esta dupla manchou um festival que, no geral, foi bem interessante. Concordo que São Paulo, Companhia de Dança e Uma Noite em 67 eram superiores a Leite e Ferro, mas creio que este último conquistou pela simpatia com que foi tratado o tema das mães na prisão. Acho que faltou ao filme o momento que seria chave na história daquelas mulheres e seus bebês, o momento da separação. Era necessária uma cena mostrando o final daqueles quatro meses entre mãe e filho. Faltou também um apuro mais jornalístico ao tema. Várias vezes falou-se de filhos que “desapareceram” das creches e/ou foram adotados sem autorização e conhecimento da mãe. Por que não averiguar melhor isso?

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  • 26/07/2010 - 12:09
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    Incomoda-me um pouco este atual fascínio ou pela violência ou pela crueza das favelas e periferias. Não que o cinema deva fechar os olhos para estas realidades, mas é discutível até que ponto estas produções visam esclarecer e revelar elementos, ou quando assumem um exótico caráter de entreterimento. Quem, por exemplos, gostou de Cidade de Deus ou Tropa de Elite (não é o meu caso), via de regra devertiu-se mais do que conscientizou-se.
    Aí, pergunto-me, por que eu quero ver 5xFavela e Bróder?! Porque foram premiados?!

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    • 26/07/2010 - 12:57
      Enviado por: Luiz Zanin

      Porque provavelmente você vai achar que são bons filmes. Diversão e conscientização podem rimar e nem por isso serem excludentes. abs

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  • 27/07/2010 - 13:36
    Enviado por: Rodrigo Nogueira

    Caro Luiz, sou editor do site de divulgação do 5x Favela e nós gostariamos de publicar o seu post no site. É possível?
    Grande abraço
    Rodrigo

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