Acabei de assistir a um filme brasileiro na projeção privada para o júri. Não interessa qual seja esse filme, mas no final da sessão uma pessoa do júri comentou comigo, emocionada: “Que país, o seu!, tão violento, tão terno…” Talvez ela não soubesse mas estava citando, quase ipsis litteris, o verso de Mauro Faustino que Glauber coloca como epígrafe de Terra em Transe: “Tanta violência, mas tanta ternura.” Essa dubiedade parece a sina histórica de nossos países latinos. E, como sina histórica, não existe motivo nenhum para que deixe de ser assim algum dia. Mas, por enquanto…
Na van que nos conduziu de volta do Cine Infanta, em Centro Havana, onde estão sendo realizadas as projeções para o júri, tornamos a falar, não desse filme que acabávamos de ver, mas de outros. E assim Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, entrou na discussão. Todos eles amam o filme de Meirelles, e ficaram espantados, riram muito, quando lhe contei da interminável polêmica crítica que ocorreu no Brasil quando do seu lançamento. Riram mais quando lhes falei que até um seminário chamado Da Estética à Cosmética da Fome foi organizado para discutir as incidências desse filme sobre o novo cinema do Brasil. Enfim, é a questão, sempre presente entre nós, sobre o meio adequado de representar a miséria, a violência, ou ambas, sem estetizá-las, mas também sem escondê-las.
O Brasil é um país dilacerado, porém fascinante. É o que sinto sempre que converso com estrangeiros inteligentes. O mesmo se pode dizer em relação a Cuba. Acho que essa divisão entre o amor incondicional (portanto acrítico) e uma certa postura crítica em relação ao presente é um elo a mais que liga brasileiros e cubanos, que são povos irmãos – e a cada vez que venho a Cuba me convenço disto sempre mais e mais. No Brasil, é a questão social, a incrível desigualdade que está na base da violência de que todos nos queixamos – e inevitavelmente se expressa nos filmes brasileiros de conteúdo social.
Em Cuba, a questão é outra – o que fazer com o legado de uma revolução, como preservar o que se conquistou e ainda assim avançar? Por outro lado, a questão que mais dilacera os cubanos: construir a vida por aqui, ou ir-se, tentando uma existência melhor em outra parte? Já houve alguns filmes que exprimiram esse dilema doloroso e, de memória me lembro de La Vida es Silbar (A Vida é Assobiar) e Madagascar, ambos de Fernando Perez. Mas se pensarmos bem, a grande obra-prima do cinema cubano, Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, já tratava disso, lá atrás, ainda em 1968. Ou alguém que ame o cinema cubano esquecerá jamais o intelectual “burguês” vivido por Sergio Corrieri, e que não sai de sua ilha com a revolução, mas mesmo assim não consegue compreender o que está se passando ao seu redor?
Digo isso, porque há um filme cubano, em competição este ano, que coloca todas essas questões, e de forma clara, sem recurso de alegorias. Chama-se Páginas del Diario de Mauricio, de Manuel Pérez. Não entro em considerações estéticas sobre ele, porque está em concurso. Digo apenas que se trata de uma obra que, pela primeira vez, em linguagem popular e sem rodeios, coloca o dedo no dilema cubano: ir ou ficar? Deve render uma baita discussão por aqui. Não deixarei de acompanhá-la.
Amigos, estou indo agora para a entrevista com o Frears, correndo. Gostei muito de alguns comentarios no blog, que infelizmente estou fazendo muito as pressas, pois tenho varios compromissos por aqui. Deletei um comentario, nao porque ele seja ofensivo a mim, mas porque desejo preservar este blog como lugar de debate civilizado. Discordar pode. Baixar o nivel, nao. Quem estiver a fim disso, que va baixar em outra freguesia. Obrigado a todos e desculpem o desabafo, mas eh muito chato fazer as coisas com gosto e intencao de melhorar e vir gente destrutiva, so querendo ver defeitos e intencoes ocultas onde elas nao existem. VAmos manter as coisas no nivel das ideias, eh o que peco a todos. Desculpem a falta de acentuacao, mas estou escrenvendo em uma maquina estranha. Ate. PS Em atencao a uma pergunta, a atriz de Frears, Helen Mirren, ganhou o premio em VEneza por sua interpretacao da rainha Elizabeth. Mais que merecido, ela esta incrivel no papel.
Temos hoje dia cheio pela frente. Um filme de 140 minutos agora pela manhã – El Cielo Dividido, do México e, em seguida, um compromisso social, um almoço com o presidente do festival, Alfredo Guevara (nada a ver com o Che). Depois outro filme no final da tarde, uma discussão preliminar do júri e noite livre, que vou tentar aproveitar para ver algum outro filme fora da minha lista de jurado. Alfredo Guevara sempre abre e fecha os festivais com seus discursos. O deste ano fez várias alusões à saúde de Fidel Castro. Enfim, vamos ver no que dá. Mas a sensação, e só se pode falar mesmo em sensação, porque nada é dito diretamente, é que a ilha se prepara para uma transição. Que pode ser rápida ou demorada, e isso ninguém sabe, porque é impossível adivinhar o ritmo da história.
Me lembro da primeira vez que fui à União Soviética, no começo dos anos 1980. Era na época de Brejnev, creio. Achei o ambiente opressivo, porém o regime parecia sólido como rocha. Pensei: eu não gostaria de viver aqui, mas esse sistema vai perdurar por séculos e séculos, tamanho o controle ostensivo sobre a população. Ao mesmo tempo, suspeitei que havia algo errado num país onde todos fechavam a cara e pareciam insatisfeitos. Dez anos depois, ele havia terminado.
Cuba nunca me causou essa impressão, inclusive pela descontração das pessoas, muito parecidas conosco. A informalidade é o tom da ilha e um dos seus aspectos mais cativantes. E talvez seja esse um dos fatores de atração para os turistas, pois a cada vez que volto mais os vejo por aqui. O Hotel Nacional, por exemplo, mesmo com suas tarifas faraônicas, está lotado. Há gente por todo canto, mas isso também é comum em época de festival. Italianos, alemães, franceses, chineses, rostos de todos os países. Inclusive americanos, que têm de driblar as autoridades do seu país para chegar até aqui. Não podem viajar diretamente e atingem Havana por outro país latino-americano, como Peru, Equador ou mesmo o México.
Isso nunca impediu que alguns artistas norte-americanos viessem para o festival. Há mesmo alguns habitués, como Francis Ford Coppola, que vi aqui mesmo no hotel, faz alguns anos com suas camisas coloridas de turista gringo. Ou o ator Harry Belafonte, que vem sempre e é adorado pelos cubanos. Aliás, quem chegou ontem foi o diretor inglês Stephen Frears, que vai apresentar aqui seu filme The Queen, A Rainha. Acabei de ver Frears, aqui no saguao do hotel. Um dos meus amigos cubanos me disse que a procura por ingressos havia sido tão grande que transferiram a sessão de um cinema comum para a sala do Karl Marx, que tem 5 mil lugares. Será à noite e é a grande atração de hoje no festival.
Ontem à noite começou a rolar para valer o Festival de Havana. O Teatro Karl Marx recebeu 5 mil convidados para ver O Labirinto do Fauno, mescla de fantasia e realismo que você pode assistir aí mesmo em São Paulo. Havia um convidado ilustre sentado perto de mim – o prêmio Nobel Gabriel García Márquez, amigo histórico de Cuba e um dos fundadores da Escola de Cinema, que comemora 20 anos de existência. A noite de inauguração foi boa pela presença do público, pelas atrações musicais antes do filme e pelo papo depois, que rolou até tarde no coquetel do Hotel Nacional.
Mas a moleza para júri já acabou. Hoje mesmo de manhã fomos assistir a dois filmes em projeções privadas para os jurados. Os dois argentinos. Um deles, para mim, não era novidade – Crônica de uma Fuga, de Adrian Caetano. O outro sim, O Caminho de San Diego, de Carlos Sorín. Será preciso falar muito deste filme mais tarde. Por ora, basta dizer que aproveita a paixão de um rapaz pelo futebol, ou, mais precisamente, por Dom Diego Armando Maradona, para mostrar uma galeria de tipos humanos da Argentina profunda, aquela que não aparece nos cartões postais.
Depois dos filmes, voltamos para o Hotel Nacional, onde almocei em companhia de dois novos amigos, meus colegas de júri: o cineasta cubano Daniel Diaz Torres e o crítico e ensaísta de cinema canadense Hervé Fischer. Jogamos conversa fora, e Fischer depois me presenteou com seu novo livro Le Déclin de L’Empire Hollywoodien. A tese do livro é que a indústria hollywoodiana entrou em curva descendente. Vou ler e digo a vocês, mas em todo caso, nada parece mais contrário à observação comum do que essa teoria de Fischer. Mas ele pode estar vendo coisas que não enxergo. Aliás, é para isso mesmo que lemos livros, não é? Para vermos pontos de vista diferentes que, na melhor das hipóteses, podem alargar nossa visão das coisas.
Bom, cheguei inteiro a Havana. Para quem já enfrentou tantas outras maratonas aéreas, até que esta não é das mais pesadas – seis horas e tanto até o Panamá, uma escala, e mais duas horas e pouquinho até a capital de Cuba. De qualquer forma é cansativo, mas ao chegar ao Hotel Nacional, a primeira coisa que fiz foi deixar a bagagem no quarto e descer para dar uma voltinha nos jardins. Ah, o Hotel Nacional… Gosto é gosto, e vice-versa. Para o meu, não existe no mundo hotel mais charmoso. É uma construção dos anos 30, imponente, parece até um castelo medieval. Grandes salões, alguns dos melhores bares do mundo (e, claro, pode-se fumar à vontade, em qualquer lugar e hora, até no café da manhã). A parte interna contempla um grande jardim e ao fundo vê-se o mar do Caribe. Um dos melhores programas é sentar à noite em um dos seus varandões, respirar o ar marinho e deixar o tempo passar, enquanto se fuma um inigualável charuto local.
Depois de cinco anos, reencontro Cuba com seu encanto intacto, mais cara e com uma nova moeda para os turistas, uma tal de CUC, que vale mais que o dólar e um pouco menos que o euro. É o seguinte: sobre o dólar cobra-se um imposto de 11%, inclusive nas compras por cartão de crédito. Sobre o euro, não. Um incentivo ao uso da moeda da União Européia. Na verdade, o CUC é o mesmo “peso conversível” de antes, só que com novo apelido e imposto agregado.
Bem, depois de uma noite meio mal dormida, reencontro os amigos que não vejo há alguns anos, pois não venho aqui desde 2000. E preparo-me para uma coletiva de imprensa pois este ano estou no júri. Uma dúvida: falo em português e deixo que eles se esforcem para compreender, ou tasco o meu portunhol? Agregando depois: mandei ver no portunhol e espero nao sintonizar uma TV por descuido e ver o resultado.
Quanto ao festival em si, descubro por uma entrevista com Iván Giroud, que é o diretor do evento, que foram recebidas inscrições de 1539 filmes, de 61 países diferentes, dos quais ficaram 463 títulos (entre curtas, médias, documentários, tudo, enfim), com 105 em concurso. Descubro também que o Brasil é o país com mais filmes em Havana – nada menos que 24, entre curtas, médias, documentários, ficção, etc. Desses, alguns estão em competição; a maioria será apresentada apenas em caráter informativo.
Hoje à noite é a abertura oficial do festival, no Teatro Karl Marx (cerca de 4 mil lugares), com a exibição de O Labirinto do Fauno, do mexicano Guillermo del Toro, que já vi aí mesmo em São Paulo como sabe quem me faz o favor de acompanhar este blog. Mas hoje mesmo à tarde, antes da abertura, os filmes do festival já estarão rolando em vários cinemas da cidade. É o grande acontecimento cultural do ano, em Havana. Já nas TVs locais, o festival repercute mas se fala mais dos 80 anos de Fidel, sobre cuja saúde não se tem notícias claras. Numa das mesas redondas que vi, participou a brasileira Claudia Furiati, que escreveu uma biografia “consentida” de Fidel.
Amigos e amigas, daqui a pouco embarco para Cuba, onde farei parte do júri do Festival de Cinema de Havana, a 28ª edição do Festival del Nuevo Cine Latino-americano, que é o nome inteiro dessa mostra. Como repórter já cobri o festival várias vezes, e o considero o mais completo entre os dedicados ao cinema latino-americano. São programados literalmente centenas de filmes do continente, e exibidos nos grandes cinemas da capital cubana. Grandes mesmo: são como aqueles cinemões de rua dos anos 50, que também tínhamos por aqui e foram sendo transformados em igrejas e estacionamentos.
Não vou a Cuba desde o ano 2000 e já estava planejando voltar em 2007 quando fui surpreendido por este convite da organização para integrar o júri. Vou contente, mas preocupado com uma coisa: não sei se vou conseguir blogar de lá. Não apenas pelas condições da internet (pode ter melhorado, não sei), mas pelo tempo, porque fazer parte de um júri internacional (já vivi essa experiência) é um aluguel só: você tem compromissos o dia inteiro e mais a noite. Outra coisa: mesmo que dê para blogar, não posso falar sobre os filmes em competição, por uma questão de ética.
Enfim, veremos. Se conseguir, continuo postando de lá. Se não, vocês ficam livres de mim por uns tempos. Duas semaninhas, enquanto eu vejo filmes, discuto, tomo uns daiquiris e fumo uns “puros”. Abraços.
Comentando um post sobre a atual crise de bilheteria do cinema brasileiro, um leitor me pediu informações sobre a participação da produção de cada país em seu mercado interno. Seguem aí alguns dados referentes a 2003, segundo o Boletim Filme B, o mais completo informativo brasileiro sobre mercado cinematográfico. As porcentagens se referem aos ingressos de filmes nacionais vendidos em seus respectivos países. Creio que falam por si mesmas. Nota: em 2003, o Brasil teve um desempenho atípico, para mais, com 21 % de participação em seu mercado interno. Agora a média anda entre 10 e 15%. Os números estão arrendondados.
Estados Unidos: 95%
Índia: 95%
Coréia: 53%
França: 47%
Japão: 33%
Itália: 22%
Alemanha: 17%
Espanha: 15%
Argentina: 10%
México: 6%
Canadá: 3%
Portugal: 3%
O que faz um crítico de cinema em sua folga? Vai ao cinema, claro. Assim como jogadores profissionais batem uma bolinha em momentos de descanso, nós também aproveitamos o ócio para fazer a mesma coisa a que estamos habituados nos dias úteis. No caso, aproveitei o fim de semana para conferir dois filmes que não havia visto pois estava em Brasília: o nacional 1972, de José Emilio Rondeau e o mexicano O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro. O título do filme de Rondeau se refere ao ano que evoca, tempo de ditadura, mas também da juventude que apenas procura se divertir e tocar seu rock’in’roll. É tudo tão inocente que chega a dar dó de falar mal dele. Mas o fato é que o filme não envolve com sua historinha de amor entre o candidato a guitarrista de uma banda e a jovem jornalista. Fora eu e minha mulher havia mais quatro pessoas na sala.
Já A Tarde do Fauno parece uma super-produção, com efeitos especiais bem interessantes e uma proposta ousada – o diálogo entre o universo maravilhoso das fadas e a dura realidade da Guerra Civil Espanhola. Muita gente acha que o encontro entre esses mundos distantes recebe uma costura muito bem acabada de Del Toro, que é de fato talentoso. Não é minha opinião. Vi o filme bem, sem tédio, mas estou longe de julgá-lo uma obra fora de série, ou mesmo boa. Tem momentos legais, mas sabe aquele tipo de filme que você deve admitir que é bem-feito, mas mesmo assim não te toca? É o caso. Muita gente pensa diferente de mim.
Amigos, segue abaixo o texto que escrevi para a seção Revista das Revistas, do Cultura deste domingo. Na mesma edição, queria destacar para vocês o artigo sobre Giangiacomo Feltrinelli, que foi um mix de editor, miliardário e revolucionário. EStá bem interessante. Boa leitura e abraços.
Não deixa de ser curioso o caminho que a filosofia está tomando. Nos anos 1970, ou 1980, era vista, sem meios-termos, como uma disciplina de grande passado na história, inútil no presente e sem qualquer futuro visível. Não por acaso, os cursos se esmeravam em reproduzir uma história da filosofia, falando de obras já feitas, uma espécie de vasto capítulo preliminar à ciência e que, no presente, serviria como mera curiosidade, ou pior, verniz cultural.
Essa visão superficial não iria durar muito tempo, mas nem o mais otimista dos professores daquele tempo poderia pensar que a filosofia, tão depressa, voltaria à cena, e ainda se tornaria moda intelectual para consumo de massa. Por que dourar a pílula? Se é fato que a filosofia voltou à cena contemporânea, não é menos verdade que agora faz as vezes de literatura de auto-ajuda de luxo. Desse modo, ganhou capas de revistas (até no Brasil!), em especial depois que Alain de Bottom descobriu o filão dos autores cult (e não apenas filósofos) que poderiam ser utilizados como conselheiros informais de um cotidiano dos mais angustiantes.
Nesse sentido, a volta por cima da filosofia chegou a parecer uma vitória de Pirro. Ei-la de novo presente na vida das pessoas, mas sob forma diluída, facilitário e consolo rápido para os aflitos do espírito.
A reação a isso é talvez o sentido mais profundo dessa bela edição da revista Le Magazine Littéraire, que tem por dossiê “les nouveaux enjeux de la philosophie”. Para falar desses novos desafios, a revista consultou 30 pensadores franceses contemporâneos. E descobriu que, entre esses pensadores profissionais, as antigas questões da filosofia conviviam com as novas, impostas pelo tempo. Assim, eles continuam a refletir sobre os universais, a debater as interrogações metafísicas, o problema da democracia, do laço social e do sentido. E mostram como essas velhas interrogações permitem iluminar as novas questões propostas pelo mundo contemporâneo. Conclusão da revista: a filosofia (pelo menos a francesa) está “na jogada” e enfrenta o desafio de pensar o mundo atual, com toda a sua imensa série de problemas proposta pelo frenesi informativo, o tribalismo que convive com a globalização econômica, a perda das referências fundadas em um universo mais estável, etc.
A revista se pergunta: extintas as gerações de Sartre, Foucault, Derrida, Deleuze, o que teria restado? Simplesmente, um segundo time de pensadores prêt-à-porter, como Bernard-Henri Lévy, Alain Finkielkraut e Gilles Lipovetsky, para citar os mais presentes na mídia. Esse deslocamento representa a passagem da profundidade para a superficialidade e também, de modo geral, da esquerda para a direita no espectro político. Essa filosofia mais palatável para a época do pensamento único só poderia sobreviver mesmo como auto-ajuda. François Cusset, no artigo que abre o dossiê, lembra que Lévy se preocupa mais em ser um best seller do que em aprimorar suas ferramentas teóricas; Finkielkraut dá declarações à imprensa israelense que, por comparação, fariam dos neoconservadores de Washington perigosos esquerdistas. E Lipovetsky é um teórico que mobiliza seu conhecimento para fazer a apologia da moda e justificar o luxo num mundo de desigualdades.
Ao mesmo tempo, Cusset encontra pensadores densos, como Jacques Rancière, Alain Badiou, Bruno Latour e Étienne Balibar, menos empenhados em atrair os holofotes sobre si que em desenvolver o pensamento filosófico e aplicá-lo às questões vitais do nosso tempo. Um exemplo citado é o de Jean-Claude Milner, ocupado com a lingüística e a questão do sentido num mundo que às vezes parece desprovido dele. Milner estuda Chomsky e o relê à luz da teoria lacaniana. Desse cruzamento de idéias, tira uma das grandes teorias lingüísticas contemporâneas. Outro exemplo: Bernard Stiegler, cuja grande obra, em seis volumes, se ocupa em dissecar a “miséria simbólica” (sic) que marca o reino das indústrias culturais capitalistas. É alguém que leva em conta o aparato tecnológico, seus desdobramentos e efeitos sobre a subjetividade.
Leio agora, no portal do Estadão, sobre a morte de Claude Jade, atriz francesa que se notabilizou por alguns dos melhores filmes de François Truffaut – em especial Beijos Roubados, Domicílio Conjugal e Amor em Fuga. Claude contracenava com Jean-Pierre Léaud que, por sua vez, era uma espécie de alter ego de Truffaut, desde a estréia em longa do diretor com Os Incompreendidos. Na série de que Claude participou, o protagonista era o jovem Léaud/Truffaut, que se iniciava nas artes do amor, depois casava-se e descasava-se no filme seguinte e, no terceiro, recapitulava todo o romance. Claude era uma presença discreta mas marcante, em especial em Beijos Proibidos (má tradução para Baisers Volés). Bem, o que se pode dizer é que ela foi decisiva para esta que talvez seja a mais deliciosa comédia romântica já produzida na história do cinema. O espectador sai da sala de bem com a vida e assobiando a música de Charles Trenet da qual sai o título original do filme: “Que reste-t-il de nos amours, etc”. Abençoada seja quem contribuiu para a nossa alegria.
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