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O Último Amor de Mr. Morgan

Luiz Zanin

05 julho 2014 | 23:19

Mr. Morgan acaba de ficar viúvo e vive uma melancólica velhice, ainda que em Paris. Leva sua vidinha solitária até que, de maneira um tanto inexplicável, uma adorável professora de dança se interessa por ele. Então as coisas mudam, como não poderia deixar de ser.

Eis aí o enredo básico de O Último Amor de Mr. Morgan, de Sandra Nettelbeck, trama que, a princípio, não parece muito convidativa, a não ser que se diga que Matthew Morgan, o octogenário professor de filosofia aposentado, é interpretado pelo grande Michael Caine. Pauline, a professora, é vivida pela simpática e atraente Clémence Poésy. Matthew tem seu isolamento aumentado pelo fato de nã ofalar francês. Sua mulher, agora morta, era quem lhe servia de intérprete. Por isso nunca quis aprender o idioma do país onde passou a viver. A professora de dança, obviamente, tem inglês fluente, embora ele não deixe de corrigir alguns dos seus deslizes com a língua de Shakespeare.

O filme tira partido desse relacionamento tão assimétrico por conta da idade quando encantador pela personalidade dos envolvidos. Não é jamais apelativo, ou mesmo óbvio. Morgan não posa de velho lobo aposentado que, agora sozinho da vida, passa a dar seus uivos para a Lua.  Claro que a presença da jovem Pauline é tão prazero quanto desestabilizadora. Parece ao homem velho uma espécie de delicioso abismo que se abre sob seus pés.

Já o  interesse dela não fica tão claro. Mas é possível, e até mesmo provável, que Matthew Morgan lhe pareça uma espécie de “figura paterna” – esse inesgotável clichê psicanalítico com um século de bons serviços prestados aos roteiros cinematográficos menos imaginativos.

O fato é que essa situação toda, já em si muito rica e complexa, não parecia suficiente para a diretora alemã Nettelbeck. Assim, ela faz vir dos Estados Unidos a Paris um casal de filhos do velho Matthew, ambos, Miles (Justin Kirk) e Karen (Gilliam Anderson), particularmente desagradáveis. Ela em especial, para dizer a verdade. Miles está se separando da esposa e Karen é uma dondoca deslumbrada, aquele tipo fútil que se torna perigosa pela ambição. Parecem meio indóceis ao pressentir que a herança futura (Morgan tem propriedades) pode ficar comprometida pela aventura outonal do pai.

Mas, mesmo aí, o subtema se bifurca ao enveredar pelos problemas de relacionamento entre Morgan e o filho, bastante distantes entre si. Eles têm contas a acertar, débitos antigos a saldar, que não se resolvem com facilidade, mas que terão de ser colocados sobre a mesa e debatidos de alguma forma. Não necessariamente a melhor.

São temas demais, que minam um pouco a força das belas imagens – Paris, depois St. Malo, na Riviera Francesa, com uma fotografia inspirada. Nesse aspecto visual, nada parece banal em O Último Amor de Mr. Morgan. Mesmo na tão filmada capital francesa. O jogo de luz e sombras, os ambientes, os jardins parisienses – tudo cria uma atmosfera em que a desolação convive com a esperança, e os personagens se inclinam ora para uma ora para outra.

Esse drama sobre a solidão, o amor e a amizade pareceria melhor não fosse por algumas soluções fáceis e em aparência artificiais. Mas não lhe falta dignidade e nem mesmo alguns momentos intensos, embora a diretora, obviamente, prefira trabalhar com tons discretos, tanto nas situações como nos diálogos e fotografia. Tudo é um tanto outonal, ou mesmo invernal, nessa fábula amorosa da terceira idade. E, nesse mundo cinzento, ou sombrio e um tanto mesquinho, há o contraste desse raio de luz que se chama Pauline. Caine, sempre ele, interpreta à perfeição esse ser melancólico que, no entanto, sabe como acolher esse raio de sol e por ele deixa-se iluminar.