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Luiz Zanin

07.fevereiro.2012 08:50:29

O Artista

Claro que O Artista é um objeto estranho no mundo do cinema. Francês, celebra a época de ouro de Hollywood e, com seu subtexto e desfecho esperançosos, chega envolto numa aura de inegável nostalgia.

Por que o sentimento nostálgico às vezes triunfa, nas vidas individuais e também na esfera coletiva? Porque alguma coisa (ou muitas coisas) no presente não nos agradam e então preferimos nos refugiar no passado, eleito em nossa fantasia como uma época de ouro perdida.

O Artista tem disso. Tem também algo mais, é verdade: instala-se naquela dobra da evolução do cinema que foi a difícil passagem do mudo para o sonoro. Etapa que destruiu muitas carreiras e enfrentou resistências em toda parte – menos entre o público, que prontamente adotou o “cinema falado” (de que fala Noel Rosa no samba que leva esse nome). Um gênio como Chaplin postergou o quanto pôde o uso de diálogos em seus filmes. E incontáveis atores e diretores não se adaptaram e tiveram suas carreiras destruídas. Billy Wilder, outro estrangeiro, fez o melhor filme (sonoro) sobre a destruição de pessoas causada pelo cinema falado – Crepúsculo dos Deuses, de 1950, com Gloria Swanson como protagonista e Buster Keaton fazendo uma ponta.

Michel Hazanavicius deve ter intuído que vivemos em época semelhante, embora aparentemente menos dramática. Tudo passa para o lado do digital, e o compartilhamento de arquivos, vulgo pirataria, ameaça o modelo de negócio com o qual os grandes estúdios se acostumaram. Astros de carne e osso temem ser substituídos por contrafações digitais, como o Gollun de O Senhor dos Anéis. A técnica de motion capture digitaliza movimentos de atores reais e os reprocessa em computador dando vida a protagonistas digitais, como em Tintim. Estamos na iminência de um mundo novo, que desagrada aos donos do mundo antigo e causa insegurança em muita gente. Quando o presente nos provoca calafrios, regressamos ao passado, como a um simbólico útero materno.

Por isso, o protagonista de O Artista é um certo George Valentin (Jean Dujardin, extraordinário), grande astro do cinema mudo, que arranca suspiro das fãs. Uma delas é Peppy Miller (Bérénice Bejo, mulher de Hazanavicius), que de fã se torna estrela e continua apaixonada pelo astro, logo em processo de decadência. Conhecem-se num momento divergente da vida dos dois – um está no topo e vai cair enquanto a outra sai do anonimato para a glória. No quadro de fundo, a passagem do sonoro para o falado, que se deu entre 1928 e o começo dos anos 1930.

O charme do protagonista (mesmo caído em desgraça), o frescor da estrela, magnificado por uma brejeira uma pintinha artificial, ideia do seu infeliz pigmalião, o pragmatismo dos produtores, simbolizado por um John Goodman brilhante – tudo isso e mais um cãozinho elétrico e fiel são ingredientes que, bem trabalhados e mesclados, fazem de O Artista um filme muito prazeroso. E que, claro, tem encantado plateias por onde passa e tornou-se o favorito ao Oscar com suas dez indicações. Terminamos de assisti-lo com inegável gosto e com uma também inevitável pergunta a martelar o cérebro: sim, mas, e daí?

(Caderno 2)

 

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1 Comentário Comente também
  • 07/02/2012 - 11:24
    Enviado por: alessandro

    Olá Zanin. É sempre o eterno dilema: cinema arte X cinema produto. Também é raro, mas, às vezes, pode se conciliar esses dois tipos de cinema em um só, sem que não haja prejuízo tanto para a arte como para o investimento. Talvez, O artista, apesar de seu prestígio seja um fracasso como cinema produto, o que está infelizmente acontecendo nos Estados Unidos que está dominado pelas comédias infantilódes e os subterrores na linha Crespúsculo e Atividade Paranormal. Como vc bem salientou vivemos uma época em que o passado parece ser muito melhor que o presente. De qualquer forma, todos aqueles que estão envolvidos, na produção, principalmente, os roteiristas de um filme sempre estão no mesmo dilema: fazer um produto de qualidade artística ou blockboster instantâneo, um sucesso de bilheteria, mas que no fundo é só imagem e pouco contéudo. É provável que esse dilema tenha sido muito bem representado em Barton Fink genial filme dos Irmãos Coen, onde um roteirista (John Turturo, sensacional) após sofrer tanta pressão por parte de um produtor, acaba surtando e sua vida literalmente se transforma um filme em que a realidade e a fantasia se confundem um tempo todo. O filme também é focado em outro roteirista que é uma caricatura de William Faulker, que apesar brilhante escritor de obras primas da literatura norte-americana quando foi para Hollywood acabou sucumbindo devido as imposições dos grandes estúdios que o contrataram que exigiam que ele não fizesse arte mas sim entretenimento para as massas. Como pode se ver sempre existirá essa oposição na arte cinematográfica entre o artístico e o comercial, embora na atualidade seja o lucro, o tilintar das caixas registradoras o que mais importa em Hollywood, que para o bem ou para o mal continua sendo a grande indústria do cinema.

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