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O Anticristo: a dor e o sexo

Luiz Zanin

28 agosto 2009 | 19:33

Com O Anticristo, Lars Von Trier causou polêmica no Festival de Cannes. A ponto de um jornalista exigir, na entrevista coletiva, que ele justificasse ter feito aquele filme. O dinamarquês, que não leva desaforo para casa, respondeu que não precisava justificar coisa nenhuma. O jornalista retrucou que, em se tratando daquele tipo de filme, sim, precisava. O bate-boca é exterior à obra. Mas serve para se aproximar a ela. Digamos que, no caso, quem tem razão é o realizador. Ele faz a obra, quem quiser que a veja. Quem se sentir incomodado, saia da sala, previna os amigos, escreva contra, detone. O filme está lá. Denso, provocativo. Misterioso. Chocante.

Por isso, embora sem dar-lhe razão, podemos entender a perplexidade do crítico que exigiu explicações ao diretor. Von Trier apresenta um filme de fato duro de ver. Em especial em duas sequências, que não serão descritas para não estragar, não digo o prazer do espectador, mas a sua surpresa. Mas como convém prevenir, é lícito avisar que se trata de cenas de tortura e mutilação. Filmadas com todos os detalhes, em realismo cru, de doer – literalmente. Há também cenas de sexo explícito, mas será que alguém se choca com elas hoje em dia. Já com a violência é outra coisa. Fica a polêmica: são cenas apelativas ou essenciais à estrutura do filme? Feitas para “épater”, chocar os desavisados, ou expressam o ponto terminal de uma mente atormentada? Cada espectador, de acordo com sua sensibilidade e entendimento da obra, terá uma resposta. A deste crítico é que as cenas são duras, cruéis, quase insuportáveis – e, por isso mesmo necessárias ao que Von Trier deseja expressar. Cabe lembrar que discussão semelhante animou o debate em torno de Salò, o insuportável (e fundamental) filme-testamento do Pier Paolo Pasolini.

O Anticristo é um drama psicológico – um legítimo filme de terror interno. O casal interpretado por William Dafoe e Charlotte Gainsbourg sofre a morte de um filho em um acidente. A culpa e a depressão se instalam, em especial na mulher. Ela está sendo tratada no hospital, mas sendo o marido terapeuta, acha que pode cuidar sozinho do caso. Os dois vão para uma cabana isolada no meio da mata, confiantes em que a solidão e o enfrentamento da depressão poderão curar a dor, a culpa e o arrependimento. Há toda uma simbologia aí instalada, com a presença da natureza hostil e animais emblemáticos – o corvo, o cervo, o lobo. Curiosamente, o casal chama aquele local de “o Eden”. O paraíso. Denominação que, naturalmente, não passa de uma ironia a mais em filme tão radical.

De estrutura muito rigorosa, O Anticristo divide-se em um prólogo, quatro capítulos e um epílogo. No começo, um ato sexual bastante explícito e muito estilizado é acompanhado pela ária Lascia qu’Io Pianga, da ópera Rinaldo, de Handel, cujo libreto é baseado em Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso. O sentido religioso-elegíaco da música tem a contraparte no gozo extremo dos sentidos – enquanto, em paralelo, uma morte se prepara. Nos capítulos internos, o registro é outro, tanto fotográfico quanto na apreensão dos atores. Boa parte da ação se passa na mata, ou no interior despojado da cabana. O tom é quase monocromático, como se as cores tendessem ao desaparecimento. É uma batalha travada no escuro, em interiores diminutos, em espaços fechados, ameaçadores. Há um tom carnal que passa pela obra, de vísceras, dos órgãos internos em sofrimento. Lars Von Trier parece querer tocar nas franjas do inconsciente, quer dizer, naquilo que não pode ser dito ou descrito. O tom elegíaco só retornará no desfecho, mas não sob a forma de libertação, redenção, ou alívio. Pelo contrário, será a reposição, multiplicada, de um mistério desdobrado durante toda a duração – o da feminilidade. Ou melhor, do desejo feminino.

Talvez não seja gratuito também o título – o mesmo do livro de Nietzsche, sua mais ácida crítica ao cristianismo. Como Nietzsche, também Von Trier poderia ter colocado como epígrafe: uma obra para espíritos livres, pois só estes a entenderão.