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Mudanças na sociedade brasileira

Luiz Zanin

18 julho 2008 | 16:04

Vivemos um momento interessante de passagem do informal para o formal na sociedade brasileira. Notei isso da maneira a mais tola possível. O médico me passou, por telefone, a recomendação de tomar um determinado medicamento, injetável. É a coisa mais inocente deste mundo, uma vitamina. Como foi por telefone, não tenho receita. Comprei o remédio e não consigo ninguém para aplicá-lo. Nem no ambulatório da empresa e nem em farmácias. Parece que estou pedindo para me injetarem heroína na veia. Sei, sei…é para o bem de todos, a segurança, etc. Mesmo assim…

O sentimento de estar sendo vigiado se espalha. Você toma um elevador e um auto-falante se dirige a você: “Seu Zanin, tem encomenda para o senhor na portaria”. Claro, há uma câmera lá dentro, que flagra a minha presença da garagem ao apartamento. É assim em casa, na firma, no banco, na academia. Big Brother é pouco….Também sei: é tudo em nome da segurança.

A onipresença de radares nas ruas pede uma nova maneira de dirigir. Antes, um carro em excesso de velocidade era detectado pela polícia no olhômetro. E você sempre podia discutir com o guarda. Agora, como fazer quando chega em sua casa a foto do seu carro (só falta a sua cara de otário ao volante) comunicando que foi multado porque a velocidade máxima no local era de 80km/h e você estava, digamos, a 84 km/h? Já fui multado na entrada de Santos porque andava a inacreditáveis 45 km/h, sendo que o permitido no local era 40km/h. Aqui a pegadinha é a seguinte: mudar bruscamente o limite de velocidade para que o incauto não perceba e incorra em erro. Adotei como norma andar sempre 10k abaixo do limite. É 80? Ando a 70. É 40? Ando a 30. Só que outro dia um caminhão quase me apanhou pela traseira na Imigrantes. Fora o que escutei do motorista. Mas ouço que os acidentes diminuíram com a presença universal dos radares. Então, não há argumentos contra eles.

O máximo do momento é essa lei anti-alcoólica, que vem como decorrência lógica da criminalização anterior dos fumantes. Ambas vêm ao encontro do moralismo crescente no Brasil, antes um país mais tolerante, informal e agradável de viver. É claro que bêbado ao volante tem de ser punido mesmo. Ninguém deve defendê-los, pois colocam em risco a vida alheia. Agora, entre isso e criminalizar o cara que bebe um chope, uma taça de vinho, ou come um bombom de licor, acho que vai certa distância. Sim, me dizem, só que com a lei os acidentes diminuíram em 57% ou coisa que o valha.

Então, em nome da segurança nós mais uma vez toleramos um controle abusivo sobre nossas vidas. E ainda temos a coragem de dizer que a nossa bela sociedade se caracteriza pelo culto das liberdades. Faz-me rir.