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Luiz Zanin

11.maio.2011 14:19:55

Literatura e cinema: uma relação muito particular

O problema da adaptação de textos literários é praticamente tão antigo quanto o cinema. Se este nasceu dividido entre o documental (Lumière) e a fantasia (Meliès), logo se colocou a questão ficcional como meta possível. Afinal, a “necessidade narrativa” parece uma pulsão humana que remonta aos primórdios da espécie quando as pessoas se reuniam em volta da fogueira para que alguém lhes contasse uma história.

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Vidas Secas. O espírito mais fundo da obra de Graciliano Ramos

Assim, nada mais natural que o cinema aplicasse seu potencial narrativo e se apropriasse de histórias já contadas. Isto é, consagradas pelo cânone de artes muito mais antigas, a literatura ou o teatro. Com muitos percalços, pois o raciocínio imediato – transpor uma história já pronta para tela – não leva em conta o essencial. Isto é, que literatura e cinema são dois modos de expressão diferentes, senão opostos. Num romance, não é tanto a “historinha” o mais importante, mas a maneira como é contada. Isto é, quais as metáforas, o tipo de narração, em primeira pessoa ou terceira, em estilo indireto livre, o uso pessoal do vocabulário, etc. Isto é, o estilo pessoal que modifica, a seu modo, os recursos da língua. No cinema, esses estilemas são de ordem audiovisual – fotografia, movimento de câmera, uso da música e da trilha sonora, direção de atores, etc., os elementos de construção que conformam um estilo.

Ou seja, quando se leva uma obra ao cinema está se fazendo menos uma adaptação do que uma verdadeira transposição de um meio a outro. É como se o filme negasse o livro para melhor encontrar sua tradução para este outro meio.

Observação que permite colocar o problema mais agudo das adaptações de obras literárias – a tal da fidelidade. Sempre existiu a preocupação em não “trair” a fonte literária original. Como se o diretor pagasse um tributo ao autor do livro e não quisesse decepcioná-lo com uma obra que não fizesse jus à sua fonte. E talvez essa preocupação tenha sido a principal razão de maus filmes baseados em livros ótimos e consagrados. Os casos mais flagrantes podem ser buscados na França dos anos 40 e 50, com suas adaptações de obras de prestígio como Madame Bovary, de Flaubert, ou O Diabo no Corpo, de Radiguet, procuraram ser tão intensamente “fiéis” que acabaram por desfigurar as obras de origem. O procedimento foi questionado pelos jovens críticos dos Cahiers du Cinéma, que, depois, se transformaram nos diretores da nouvelle vague. A crítica era a diretores como Autant-Lara ou Dellanoy que, ao tentarem respeitar em excesso as obras de origem, acabaram por traí-las, transformando-as em filmes pesados. Clouzot com O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet, e Dellanoy com O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, para ficar em dois exemplos.

Não por acaso, um dos heróis cinematográficos da nouvelle vague foi Alfred Hitchcock, autor da boutade de que se grandes livros dão péssimos filmes, o melhor mesmo é filmar os maus livros. Alguma razão ele deve ter, não apenas pela sua versão de Os Pássaros, de Daphne Du Maurier. Basta pensar, por exemplo, no romance medíocre de Mario Puzzo, que deu origem a um extraordinário O Poderoso Chefão na leitura de Francis Ford Coppola. Exemplos são fáceis de encontrar.

Assim como é fácil encontrar exemplos de obras-primas muito bem transpostas para a linguagem do cinema. Para ficar na seara doméstica, podemos pensar em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que Nelson Pereira dos Santos transformou num dos títulos mais notáveis do Cinema Novo. Como? Incorporando na fotografia, na montagem e trabalho com o som a secura do ambiente e da vida que oprime a família migrante. Não interessava a Nelson captar a literalidade da trama, mas o espírito mais fundo da obra de Graciliano.

Outra obra-prima da literatura brasileira, Memórias Póstumas de Brás Cubas, fornece bom tema para análise, pois foi adaptada por dois diretores de tendência muito diversa – Julio Bressane e André Klotzel. O primeiro, de 1985, chamou-se Brás Cubas; o segundo, de 2001, tem por título Memórias Póstumas. Dividem ao meio até mesmo o título original do romance. Klotzel é mais literal; Bressane inventa a partir da obra. Para um romance de ruptura, para sua época, com procedimentos literários surpreendentes, a opção de Bressane parece mais fiel, pois se atém ao espírito da obra. Klotzel prestou mais atenção ao conteúdo, enquanto Bressane buscou a forma e reinventou-a na tela numa opção mais autoral.



comentários (10) | comente

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10 Comentários Comente também
  • 11/05/2011 - 17:04
    Enviado por: Francisco Sobreira

    Zanin,
    O filme adaptado do livro de Radiguet, que recebeu, aqui, o título “Adúltera”, foi dirigido por Claude Autant-Lara. Saudações, Francisco Sobreira.

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  • 12/05/2011 - 06:42
    Enviado por: Marcio AR

    Zanin, essa aqui vai para sua memória: há -a meu ver- um caso de filme adaptado de um romance, que conseguiu ser superior ao livro. Trata-se de “O fio da navalha”, obra original de W. Somerset Maugham, que foi transposta para a tela por Edmund Goulding, com Tyrone Power e Gene Tierney nos papéis principais.

    No filme, Goulding corta tudo o que é “ouropel” e excedente do livro. Fica só a essência. E que essência! Vale assistir (para quem não viu) ou rever, para quem já viu. A música é de Alfred Newman, há também o desempenho fantástico de Cliffton Webb, enfim, uma obra-prima.

    Abraço

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    • 12/05/2011 - 09:08
      Enviado por: Zanin

      Engraçado, gosto do filme mas também do livro, que reli há pouco tempo. abs

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    • 12/05/2011 - 10:38
      Enviado por: Marcio AR

      Zanin, o livro também é bom, mas Maugham se perde um pouco em digressões, digamos, ‘francesas’, sobre banalidades, costumes etc. Contudo, a essência do livro (e do filme) vem do personagem Larry Darrell, que é um buscador espiritual. Sua presença é um corte em todas as preocupações e agitações mundanas. O tempo todo o filme faz o contraponto entre o mundano e o espiritual.

      Maugham esteve na Índia em 1936 -O Fio da navalha é de 1944-, e teve contato com o grande santo e suami Ramana Maharishi, que é a inspiração para o guru com quem Larry Darrell tem contato ao chegar à Índia. Maugham ficou profudamente marcado por sri Ramana Maharishi e “O Fio da Navalha” é o resultado de suas reflexões causadas por esse contato.

      Há um livro de ensaios de Maugham, “Pontos de vista”, da editora Globo, editado no Brasil em 1964, cujo segundo capítulo, “O Santo”, narra um pouco desse encontro.

      Um abraço

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  • 12/05/2011 - 08:14
    Enviado por: paulo

    O Diabo no Corpo não é de Clouzot, e sim de Autant-Lara

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  • 12/05/2011 - 12:07
    Enviado por: cesar jacques

    Não li todos os livros dos quais fizeram filmes nem vi todos os filmes saídos de livros, mas de um livro insosso, chato, medíocre, saiu um filme extremamente muito bom: “O Colecionador”. Filme dírigido por William Wyler, apresentava Terence Stamp em início de carreira, carreira esta consolidada de excelente ator por outros filmes daí em diante.

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  • 12/05/2011 - 18:12
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    O Kurosawa tem algumas ótimas adaptações, como O Idiota e Ran.
    O Dinheiro, do Bresson, também é muito legal.

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  • 13/05/2011 - 11:36
    Enviado por: Natalia

    Zanin,
    esse assunto me interessa muito.Você teria dicas de leitura sobre?

    Ótimo texto!

    Abraços

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