A emissora que transmitia o jogo entre Flamengo e Cruzeiro mantinha uma câmera focada no técnico Joel Santana. Pode ser sadismo, mas era engraçado mesmo ver as caretas do técnico a cada vez que um jogador do seu time fazia uma jogada mais tosca ou perdia um gol feito. Num momento, Joel, desconsolado, levantou os olhos aos céus. Certamente pensava “Senhor, o que fiz para merecer isto?”. Naquele momento, Joel era como seu quase xará, o Jó da Bíblia que, inutilmente, indaga a Deus o que havia feito de mal para receber tantos castigos, logo ele que tão bem O servira.
Joel também tinha toda razão em voltar seus olhos para o céu. Sabia, melhor do que ninguém, que estaria com cabeça a prêmio caso saísse derrotado. E assim foi. Amanheceu segunda-feira como ex-técnico do Flamengo.
É uma tradição brasileira. O time vai mal? Troque o técnico. Faz parte do jogo, como a bola, o impedimento e o escanteio. Caíram até agora sete técnicos do futebol brasileiro, entre eles Dorival Jr. e Falcão, e ainda estamos na 11ª rodada de um campeonato que vai até dezembro. Quantos cairão até lá?
As justificativas são as de sempre. “O ciclo acabou” é o jargão atual, como se isso dissesse alguma coisa. Por que um ciclo acaba? E por que às vezes acaba tão cedo? Fadiga do material? Mas isso é algo que pode acontecer depois de algum tempo. Há técnico que mal consegue esquentar o banco de reservas. Dois empates, uma derrota diante de um adversário obviamente mais forte e pronto: está no olho da rua.
Por que os dirigentes fazem isso? Há quem tenha a resposta simples: como não pode demitir o elenco, escolhe a cabeça mais óbvia, e esta é a do treinador. Será que eles próprios, dirigentes, não têm culpa no cartório? Afinal, foram eles que escolheram esse mesmo técnico que, depois de alguns fracassos, veem-se na obrigação de mandar embora. Não seria o caso de dizer que a incompetência foi deles, cartolas, por escolher alguém inadequado para o cargo? Mas então eles teriam de se demitir a si mesmos e, que eu saiba, ninguém no futebol ateia fogo às próprias vestes. A regra é descarregar a responsabilidade em cima dos outros.
De qualquer forma, não existe medida mais inócua do que essa. Se o técnico não prestava, não deveria ter sido contratado. Se foi, é porque se trata de um profissional de confiança, que precisa de tempo para montar a sua equipe e conseguir resultados. Simples assim. Quem contrata um bom técnico e o mantém no cargo costuma ser recompensado. O caso mais exemplar é o do Corinthians. Se Andrés tivesse demitido o professor depois da ridícula desclassificação para o Tolima, Tite não teria feito o magnífico trabalho que levou o Timão ao título no Campeonato Brasileiro e à sua primeira Libertadores. Mas é sempre mais fácil eleger um bode expiatório e atirá-lo à sanha da torcida. Joel é apenas mais um Jó nessa sequência ininterrupta de demissões injustificadas.
* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão
Você tem razão. Acrescento mais uma explicação para essa instabilidade no futebol: a pressão de jornalistas esportivos para a queda de determinado treinador. Por que isso acontece? Pode ser porque demissão e contratação dão ibope para a mídia; pode ser porque o jornalista quer demonstrar seu poder de influenciar a opinião pública (no caso do futebol, a torcida).
Um exemplo no próprio Flamengo: um conhecido cronista carioca (rubro-negro) passou meses defendendo a demissão de Luxemburgo (apesar do bom desempenho do time em 2011: campeão carioca invicto e 4º colocado no Brasileiro), a ponto de circular a notícia de que ambos não poderiam participar do mesmo programa de TV. A custo, o técnico conseguiu se manter no clube por um ano inteiro.
Na sua coluna de hoje, esse cronista deixa escapar um ar de arrependimento pela troca Vanderlei/Joel, que ele chama de “decepção”, embora acuse Vanderlei de “prepotente” e de “arrogância”.
Você não deixa de ter razão. abs
responder este comentário denunciar abusoAcho que este “Senhor, o que fiz pra merecer isto?” deve (ou deveria) rolar sempre que ele tira o extrato e identifca o gordo salário pago em dia pelo Fla… Abs!
2013
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006
Para continuar lendo o Estadão, faça já o seu cadastro. É rápido e fácil.
Seus dados serão guardados de forma segura e não serão compartilhados.
Quero me cadastrar Sou assinante Já sou cadastradoEm instantes, você receberá uma mensagem no e-mail .
Clique no link fornecido e crie sua senha.
Importante!
Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail está ativado.
Deixe um comentário: