Galáxia Sganzerla, ainda inexplorada - Luiz Zanin - Estadao.com.br
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Luiz Zanin

29.março.2012 09:26:37

Galáxia Sganzerla, ainda inexplorada

Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz  (Cinesesc, 15h), de Joel Pizzini, é um filme-colagem, ou filme-ensaio sobre este que foi um dos mais importantes realizadores brasileiros.

Rogério Sganzerla, cuja trajetória, durante muito tempo, parecia resumir-se à sua obra-prima, O Bandido da Luz Vermelha, ressurge aqui em toda a sua paradoxal integridade. Paradoxal, porque, no caso de Rogério, teríamos de falar de uma integridade estilhaçada, o que pode parecer uma contradição em termos, mas talvez seja a única forma de se aproximar desse artista genial.

De maneira acertada, Pizzini não tenta uma abordagem linear da trajetória de Sganzerla, mas trabalha sobre núcleos de concentrações dos interesses do cineasta. Tampouco convoca palavra de especialistas sobre a obra do autor ou especula sobre a psicologia do personagem. Trabalha com trechos de filmes do próprio Sganzerla, e também as inúmeras entrevistas que este concedeu ao longo da sua vida. Mr. Sganzerla é um filme de montagem e, em sua feitura, incorpora as ideias do personagem sobre o processo de edição. Poderíamos portanto dizer que não se trata de um filme sobre Sganzerla, mas um filme com Sganzerla.

Das aproximações pelos núcleos de interesse, destaca-se, em primeiro lugar, o fascínio por Orson Welles. Objeto de vários filmes de Sganzerla – inclusive do último, seu testamento, O Signo do Caos, a malfadada, porém muito simbólica passagem de Welles pelo Brasil em 1942 assombra, por assim dizer, toda a obra de Rogério Sganzerla.

Como se sabe, Welles veio ao Brasil em 1942, durante a 2.ª Guerra, como parte da “política da boa vizinhança” do governo americano. Sua missão: filmar o carnaval brasileiro. Só que Welles via muito mais do que isso. Interessou-se pelas favelas e pelo samba, e teve em Grande Otelo e Herivelto Martins seus cicerones na noite carioca. Interessou-se também pela expedição dos jangadeiros cearenses que navegaram de Fortaleza ao Rio para reivindicar direitos trabalhistas a Vargas. Welles quis refazer a chegada dos jangadeiros à Baía de Guanabara e um deles, Jacaré, afogou-se, em acidente pouco esclarecido. Welles jamais se recuperou desse golpe e o filme, chamado It’s All True (É Tudo Verdade), foi interrompido.

Esse episódio marca toda a vida de Orson Welles e o “filme brasileiro”, como ele se referia a It’s All True, restou como trauma, como ele diz em seu depoimento a Peter Bogdanovich. Sganzerla incorpora esse trauma do mestre e o retoma como reflexão sobre a realidade brasileira. Passa a vida escavando esse acontecimento, com suas implicações simbólicas para a cultura brasileira. É o cerne de Mr. Sganzerla, como foi o núcleo duro da obra do próprio diretor.

Em torno dele se organizam outros planetas do imaginário de Sganzerla, como o tropicalismo, a paixão pela música nacional e Oswald de Andrade. Nossos telescópios críticos ainda investigam essa galáxia de modo muito distante.

(Caderno 2)

comentários (2) | comente

2 Comentários Comente também
  • 29/03/2012 - 22:35
    Enviado por: Eu

    Fiquei na dúvida se esse xarope é feito de deslumbre ou de demência.
    Só sei que a minha tosse ele não cura…afinal, desse vírus eu já tô com meu metabolismo todo entupido. O que me cabe nesse momento é combatê-lo para que a praga que não se alastre na posição de vítima.
    É virus. Uma vez vírus, sinto o cheiro solto em todo lugar. E vírus vem dos estrangeiros se passando por anticorpos… atuar…atuam como bem querem. Aceita-se os fracos de corpo, mente e espírito …sem discenimento para ver a tela sendo pincelada por artístas sem criatividade, que preicasa sugar da terra alheia para criar seu próprio título: de disgraçado!
    Tum!

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  • 04/04/2012 - 15:57
    Enviado por: Dossiê É Tudo Verdade – Parte I: Os Brasileiros « Abraccine – Ass. Brasileira de Críticos de Cinema

    [...] Por Luiz Zanin (originalmente publicad0 n’O Estado de S. Paulo)* [...]

    responder este comentário denunciar abuso

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