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Diário de Veneza 2014 – O horror da guerra, segundo o Japão

Luiz Zanin

quarta-feira 03/09/14

    VENEZA – O horror da guerra pintou na tela do Lido com o impactante Nobi (Fogos na Planície), dirigido e interpretado por Shinya Tsukamoto. No final da 2ª Guerra, tropas japonesas lutam nas Filipinas, onde enfrentam guerrilheiros locais. O soldado Tamura, vivido por Tsukamoto, é dispensado do seu grupo por estar tuberculoso. Mas [...]

 

 

VENEZA – O horror da guerra pintou na tela do Lido com o impactante Nobi (Fogos na Planície), dirigido e interpretado por Shinya Tsukamoto. No final da 2ª Guerra, tropas japonesas lutam nas Filipinas, onde enfrentam guerrilheiros locais. O soldado Tamura, vivido por Tsukamoto, é dispensado do seu grupo por estar tuberculoso. Mas o hospital de campanha também não o quer por lá, pois existe uma superpopulação de doentes mais graves. Ninguém o quer, não há comida, poucas armas e munições. O exército está debandando e é um salve-se quem puder.

Nesse ambiente de caos humano, o contraste é com a natureza luxuriante do local. O verde da mata, as montanhas, o azul profundo do mar. Nesse quadro, e por oposição, a miséria humana, a violência, a fome que leva à brutalidade e ao canibalismo. A morte no Éden. Em entrevista, Tsukamoto diz que procurou destacar esse contraste como forma de evidenciar a loucura da guerra e os danos que produz no ser humano. O filme guarda um estilo hiperrealista, com cenas cruas e chocantes. É proposital. A história é tirada do romance homônimo de Shohei Ooka, já levado à tela em 1959 por Kon Ichikawa,com Eiji Funakoshi como protagonista.

Sobre as cenas julgadas excessivas, inclusive as de canibalismo, Tsukamoto diz que queria mesmo retratar a guerra em todo o seu horror e para isso não podia economizar imagens mais fortes. “Acho que a guerra produz traumas permanentes naqueles que dela participam, conforme ouvi em relatos”, diz. “Um homem, obrigado a se nutrir de cadáveres de amigos para sobreviver, leva isso para o resto da vida”. Para se preparar para a filmagem, o cineasta e ator entrevistou anos atrás alguns sobreviventes da 2ª Guerra, e que já estavam bem idosos. Eles relataram, com minúcias, o que haviam sofrido nessa fase final dos combates. “Esse meu projeto data de uns 20 anos e, para mim, era um compromisso moral fazê-lo, pois noto que o horror da guerra vai sendo apagado da memória da população”, diz.

O outro concorrente do dia, o sueco Roy Andersson com A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence fecha sua trilogia iniciada com Canções do Segundo Andar e Vocês, os Vivos. Este último passou na Mostra de São Paulo e, depois, foi lançado em DVD. O mínimo que se pode dizer é que Andersson faz um cinema diferente e inquietante. Recordamos dele suas imagens banhadas numa luz fria que lembram telas de Hopper, e as tomadas em longos planos sequência, imagens sem cortes, muitas vezes em planos fixos. Visualmente, muito bonito. Mas vai além da beleza.

O filme abre com o que ele chama de “Três encontros com a morte”. Um homem sofre ataque cardíaco ao tentar tirar a rolha de uma garrafa de vinho, enquanto sua esposa prepara o jantar na cozinha, cantarolando uma música plácida. No segundo, uma idosa moribunda segura com o que lhe resta de forças a bolsa que contém suas jóias e que ela pretende levar consigo. No terceiro, no interior de um lanchonete, um homem desaba depois de haver pago seu sanduíche e o copo de cerveja, que ficaram intocados. Diante da tragédia, a garçonete pergunta aos outros fregueses se querem aproveitar aquele lanche grátis.

Desse jeito é o humor de Andersson. Outros personagens vão aparecer, e alguns permanecem de maneira constante ao longo do filme. Os dois principais formam a dupla de vendedores de artigos para provocar o riso. Sem eles próprios sorrirem uma única e escassa vez, tentam vender objetos como dentes de vampiro, um saco de risadas e uma máscara cômica. As situações flertam com o absurdo. Como por exemplo, quando a comitiva de um ancestral rei sueco, Carlos XII (1697-1718), a caminho da guerra na Rússia, passa diante de um bar contemporâneo e manda que todas as mulheres saiam do recinto para que o soberano possa entrar. Quem vir o filme saberá o porquê da exigência.

Se Anderssonn dialoga com a estética de Hopper, também recorre a Ionesco como fonte de inspiração para seu cinema. O apelo ao absurdo não encobre a revelação do horror – antes, desvela atos de covardia impensáveis cometidos por homens contra homens como se fossem banalidades. Assim, escravos são torturados enquanto grã-finos enchem suas taças de champanhe. O ponto de vista do tal pombo de que fala o título, meditando sobre a existência, é o que revela no fundo o absurdo da comédia humana. Se o filme é engraçado, muitas vezes o riso que desperta é amargo.

Auto-retrato. Para colocar seu país diante do espelho, Gabriele Salvatores (de Mediterrâneo, Oscar de melhor filme estrangeiro) usou de um recurso interessante, na verdade tomado emprestado de Ridley Scott (Life in a Day, 2010). Pediu que os italianos lhe mandassem vídeos domésticos e, com eles, formou um retrato multifacetado da complexa e contraditória Itália de hoje. Italy in a Day, que passou fora de concurso, emocionou muito a plateia. De uma forma ou de outra, os espectadores acabaram se vendo projetados na tela, em situações muito parecidas com as de suas próprias vidas.

“Fizemos uma campanha publicitária para receber os vídeos e fiquei surpreso porque nada menos de 45 mil pequenos filmes chegaram até nós”, diz Salvatores. Com esse imenso material nas mãos, o diretor pôde contemplar uma amostra da aventura italiano pelo mundo nos dias de hoje. Há o navegante solitário de um cargueiro de containeres, o habitante de uma estação orbital, trabalhadores comuns, médicos que atuam em zonas de guerra, desempregados, gente bem sucedida, mal sucedida, homens, mulheres, adultos, bebês, idosos e recém-nascidos. “Ao todo, 627 italianos, de 0 a 104 anos, compõem esse painel”, diz o diretor. Entre eles um, que mora em São Paulo e fala com os pais idosos pelo Skype.

E o que diz esse painel? “Fala de uma Itália sofrida, porém digna, que ainda não fechou as janelas para o seu futuro. E, sim, um certo sentido de ternura diante da vida”, diz Salvatores. “Eu, se fosse um político italiano, prestaria atenção no que essas pessoas comuns têm a dizer, no desejo que elas expressam e que vai muito além de ter um novo celular”. Um belo documentário, comovente de fato, e revelador do momento histórico de um país através do que ele tem de mais precioso, seu povo.