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Diário de Veneza 2014. Encontro com Babenco e Chico Diaz

Luiz Zanin

segunda-feira 01/09/14

VENEZA – O Lido de Veneza é um vilarejo. Oficialmente, a ilha tem 18 mil habitantes. Imagino que, durante a Mostra, a população aumente para o dobro. Ou mais. Em todo caso, é muito fácil esbarrar nas pessoas por aqui. E foi assim que, voltando de bicicleta ao hotel, cruzei com Hector Babenco e Chico Diaz. Encostei a bici e parei para dois dedos de prosa, como se dizia antigamente.

Ambos estão aqui pelo filme Words With Gods, um longa de episódios curtos. Babenco dirige o segundo e Chico é o ator. Ele faz o homem que briga com a mulher de maneira muito violenta. Esta sai de casa, o abandona e ele se torna um morador de rua. Cai na miséria. Material e espiritual. Há um ritual de candomblé, no qual o personagem entra em transe. Depois há uma aparição em sua vida. O filme é bonito. Fala de uma aspiração à transcendência, que nos acompanha, sobretudo quando nos sentimos desamparados. Religião, ou fé, em suas formas variadas, é a linha que costura os diferentes episódios de Words of God, que tem outros oito diretores, além de Babenco: Guillermo Arriaga, Álex de la Iglesia, Bhaman Ghobadi, Amos Gitai, Emir Kusturica, Mira Nair, Hideo Nakata e Warwick Thornton.

Babenco me disse gostou da estrutura do filme, livre, com um vago tema de fundo, mas sem qualquer imposição. “Um filme fragmentário”, resumiu.

Como nossa experiência no mundo de hoje, não pude deixar de comentar, no que o diretor concordou.

Fui para casa pensando que essa ausência de totalização, política, existencial ou qualquer outra, é um campo fértil para o ressurgimento das religiões. Afinal, são elas que propõem o discurso da totalidade e do sentido que perdemos, seja em nossa vida pública seja na pessoal.

A experiência política brasileira nessas próximas eleições talvez passe por aí.

Mas isso eu guardei para mim mesmo.