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Luiz Zanin

27.novembro.2010 10:21:03

Diário de Brasília 2010: ‘Transeunte’ comove ao falar da velhice

No palco do Cine Brasília, o diretor Eryk Rocha dedicou a sessão a sua mãe, Paula Gaitán, presente na plateia, e ao pai, Glauber Rocha (1939-1981), que foi “apenas” o maior cineasta deste país. Eryk lembrou que ele próprio nasceu em Brasília, enquanto Glauber rodava seu último (e polêmico) filme, Idade da Terra. Com esse DNA, sempre se espera o máximo de Eryk. E esse máximo veio, na forma de um filme que trata de assunto estranho para um rapaz de 32 anos – a velhice -, mas o faz com muita inventividade na forma e, fundamental, com um grande coração. A sessão foi comovente.

Não porque a história de Expedito (Fernando Bezerra) se entregue de imediato ao público, ou busque a emoção da forma mais simples, através da compaixão. Nada disso, o que se busca, na parte inicial, é uma empatia, digamos, sensorial do público com o personagem, um senhor de 65 anos, aposentado e solitário. Valorizam-se, aqui, o silêncio e os ruídos da rua, do prédio em construção que está sendo feito diante do pequeno apartamento de Expedito. A câmera busca o close e, muitas vezes, o superclose, chegando à intimidade das rugas, expondo a ação do tempo sobre o corpo humano, e não apenas o do protagonista. O registro, aqui, é depressivo, reforçado pela opção fotográfica do preto e branco. A fotografia de Miguel Vassy, aliás, é deslumbrante. Não apenas pela textura, mas pelos enquadramentos e movimentos de câmera. Não se vê um único plano banal. “Tratava-se de buscar a pele, não apenas a dos personagens, mas da cidade”, diz Eryk.

Na segunda parte do filme, o que temos é uma lenta e tocante volta à vida do personagem. As necessidades do corpo e da alma se impõem sobre o luto; a música, o futebol, o sexo e, mesmo a alegria, forçam entrada na cinzenta existência de Expedito. O admirável é que nada disso é colocado de maneira boboca, como nesses filmes piegas sobre a terceira idade que de vez em quando o cinema comercial despeja no circuito. Já se disse que filme de velho é praga de bilheteria. Mas já se descobriu também um mercado cativo para produções apaziguantes sobre “a melhor idade”.

Nada dessa atitude falsamente piedosa e demagógica enfraquece Transeunte. Ele é, acima de tudo, autêntico, em seu tom documental. A velhice é a velhice e não há nada a fazer – mesmo porque todo mundo fica velho, a não ser que morra jovem. Faz parte da trajetória humana, quando esta é completa. Buscar a sobrevivência, e mesmo a felicidade, nessa situação de naufrágio progressivo, é onde reside toda a arte de viver. Esse impulso vital, no fundo, é o que capta o filme através do personagem de Expedito. Transeunte trabalha numa fronteira muito instável entre o documentário e a ficção. Tem seu personagem ficcional, Expedito, que se move num Rio de Janeiro muito “documental”, com suas ruas, suas gentes, sua música. Pode-se palpar e sentir o pulso da vida real, da cidade e seus ritmos. Eryk vem de três experiências documentais – Rocha Que Voa, Intervalo Clandestino e Pachamama – e faz, com Transeunte seu primeiro longa de ficção. Mas, como dizia Godard, todo grande filme de ficção tende ao documentário e todo grande documentário tende à ficção. É isso.

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4 Comentários Comente também
  • 27/11/2010 - 14:02
    Enviado por: Tweets that mention Diário de Brasília 2010: ‘Transeunte’ comove ao falar da velhice « Luiz Zanin -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by vitorsl and CarlosAlbertoMattos, Luiz Zanin . Luiz Zanin said: RT @estadao Diário de Brasília 2010: ‘Transeunte’ comove ao falar da velhice « Luiz Zanin http://bit.ly/hlWLvy [...]

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  • 27/11/2010 - 16:14
    Enviado por: Alex Martini

    Zanin,

    Gostei muito de ver que você gostou do filme. Porque eu adorei.

    Aproveitei a chuva no CCBB e fiquei pra sessão seguinte, em que repetiriam os filmes da noite anterior no Cine Brasília. Nada sabia sobre o filme, nem que era o diretor. Se soubesse, provavelmente eu cairia no lugar-comum das pessoas comuns de esperar demais de quem traz, queira ou não, o cinema no sangue — e confirma magnificamente isso com Transeunte.

    Cheguei a quase dormir nos curtas que o antecederam — quanta coisa chata e sem graça selecionam pra esses festivais… — , mas fiquei definitivamente desperto já com as primeiras imagens do filme de Eryk. A sequência de imagens quase comtemplativas, sons do ambiente real, a ausência de diálogos nas primeiras cenas, fotografia magnífica, e sobretudo o olhar de Expedito, me foram levando, extasiado, ao longo do filme.

    A vida como ela é, sem mágoas, sem rancor, sem ilusões, sem expectativas em relação ao outro (lembro daquela cena em que a sobrinha vem cumprir a obrigação da lembrança do aniversário do velho e abandonado tio), feliz, sem euforia. O ator expressa muito bem tudo isso. Sua cara de terrena, mas também quase angelical — felicidade nas últimas cenas, sem expressar um único intenso sorriso, me lembra que a vida é isso mesmo. Viver e ser feliz pode exigir bem menos do que querem que a gente pense ser necessário.

    Muitos do meio brasiliense não gostaram. Ou dizem não ter gostado. Não importará. Felizmente, a obra fala por si. Não dependerá da opinião daqueles que, imagino, vaiarão o filme quando for anunciado quaquer prêmio que venha a ganhar. Se isso vier a ocorrer, será uma vaia consagradora. Nem a primeira, nem a última na história de nosso cinema.

    A competição em si não importa. O filme já é um vencedor. Porque, antes de tudo, encantador.

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  • 24/12/2011 - 18:59
    Enviado por: Meus melhores brasileiros de 2011 - Luiz Zanin - Estadao.com.br

    [...] Transeunte, de Eryk Rocha. Leia crítica [...]

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  • 24/01/2012 - 21:31
    Enviado por: Ivan

    OBRA-PRIMA

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