1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Diário de Veneza 2014. Almas Negras, a máfia sem clichês

Luiz Zanin

30 agosto 2014 | 14:08

VENEZA – O primeiro filme italiano em concurso, Anime Nere (Almas Negras), de Francesco Munzi, agradou em cheio a exigente plateia de jornalistas em Veneza. Quem conhece o festival sabe que, quando não agradam, os concorrentes da casa são vaiados impiedosamente pelos patrícios. Já houve mesmo quem tachasse o festival de matadouro do cinema italiano. Pois bem, maior então o valor da aprovação: vários minutos de aplauso para esse pouco convencional drama sobre a “máfia” calabresa, a ‘Ndrangheta.

O filme respira autenticidade. A começar pelo fato de ser falado, em sua maior parte, em dialeto calabrês, o que o obriga a ser legendado em italiano “normal”, isto é, em toscano. Segundo, que Munzi mesclou atores profissionais a habitantes de vilarejos calabreses, a tal ponto que não se distinguem uns dos outros no decorrer da história.

E que história! São três irmãos, de maneiras diversas comprometidos no mundo do crime. Um deles deixou as atividades criminosas e passou a criar cabras, mas seu filho, Leo, decide juntar-se aos tios e viver a grande vida na cidade, ao invés de permanecer na vida pastoril, que lhe parece imóvel e tediosa. O fato terá consequências terríveis, desencandeando uma série de mortes. “Na verdade, trata-se de uma tragédia em família, mais que um filme de gângsters”, diz o diretor.

Munzi diz também que sua primeira preocupação foi evitar os clichês que cercam o gênero. De fato, o “filme de máfia” virou uma espécie de estereótipo em si mesmo, com suas “famiglias” histriônicas, capi todo poderosos e paternalistas, rios de sangue, macarronadas, vinho, mulheres sensuais ou de luto fechado pela morte de filhos e maridos.

Existe disso em Almas Negras, mas de maneira densa e sem esconder a tragédia real atrás de algo folclórico e engraçado. É mais uma tragédia grega, no sentido clássico do termo, que um dramalhão italiano. Dessa forma, Munzi segue o caminho de outro cineasta, Matteo Garrone, que redescobriu a vertente séria da máfia com Gomorra. Almas Negras, embora não tão inventivo visualmente, encontra-se no mesmo patamar. Um filmaço.

Casas e residências. Também muito bom, e falando de máfias de outro tipo, mais perigosas e organizadas, é o concorrente norte-americano 99 Homes, de Ramin Bahrani, com os astros blockbusters de Homem de Aço e Homem Aranha, Michael Shannon e Andrew Garfield, nos papeis principais.

Garfield faz Dennis Nash, que mora com a mãe (Laura Dern) e um irmão menor numa velha casa de família. Individados com o banco, são obrigados a deixar a residência. Quem comanda a ação é o tubarão Mike Carver (Shannon), que faz fortuna expulsando os inadimplentes de suas casas e negociando-as depois. Além disso, monta algumas falcatruas paralelas. Dá-se que Dennis, desesperado, aceita trabalhar para Carver para tentar recuperar a casa da família.

O enredo, tenso, é elaborado no formato de um thriller. Não tem o mesmo impacto de O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, mas os atores, Shannon em especial, admitiram ter se inspirado em Leonardo DiCaprio, personagem de Scorsese. Falam do mesmo mundo de lobos. Há uma frase de Carver que define o ponto de vista do diretor: “A América é feita para os ganhadores, aqui os perdedores não têm vez”.

Desse modo, tirando seu ritmo de ação e boas atuações, 99 Homes é uma crítica implacável do “sistema americano”, que coloca polícia e judiciário a serviço dos bancos e dos especuladores. Bahrani não esconde a indignação na base de sua proposta: “As pessoas que jogaram o mundo numa crise econômica que perdura de 2008 até hoje não foram punidas, continuam soltas e ricas”. Pode-se objetar que o diretor estrutura sua trama de modo a contemplar um dilema de consciência, que poderá soar como uma espécie de redenção aos mais críticos. Mas essa solução final, mesmo implicando sacrifício pessoal, está inscrita na moral fílmica norte-americana como uma espécie de derivativo da possibilidade de uma segunda chance. Bahrani o admite: “Sempre penso que pode haver uma saída, que o mundo ainda pode ser melhor”. É por isso que, embora tenham uma cultura extraordinária, os Estados Unidos nunca geraram um Kafka ou um Beckett.

Sofisticated comedy. Por outro lado, são a pátria das comédias sofisticas. Ou foram. Em todo caso, a apresentação de She’s Funny That Way, de Peter Bogdanovich, foi um momento de verdeira delícia para a plateia, evocando os grandes filmes antigos de Hawks e Lubstich.

Bogdanovich, diretor de Lua de Papel e A Última Sessão de Cinema, estava longe das telas havia 12 anos, desde que dirigiu para a televisão o documentário Runnin’ Down a Dream, ganhador do Grammy.

Nessa volta à comédia, Bogdanovich põe em cena uma ex-garota de programa (Imogem Poots) que conta sua vida a uma jornalista e de como se tornou atriz. A comédia de costumes, que inclui um cineasta garanhão (Owen Wilson, de À Meia-Noite em Paris, de Woody Allen), uma esposa ciumenta (Jeniffer Aniston), uma psicanalista atrapalhada e carente (Kathryn Hahn), um detetive que lembra um dos irmãos gêmeos Dupont e Dupond, de Tintim, e outra figuras, não deixa o ritmo cair jamais. Matou a plateia de rir e foi aplaudidíssima no final.

Bogdanovich contou uma conversa que teve com Cary Grant muitos anos atrás. “Ele me levou a um teatro onde havia uma comédia e me fez ver o bem que aqueles atores faziam ao público. Amo as comédias desde então”. Verdade. Os bons cômicos são benfeitores da humanidade. Os bons, bem entendido.