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Luiz Zanin

12.janeiro.2012 19:58:45

Desbocada e moralista

Quando soube que Dercy Gonçalves seria personagem de microssérie da Globo, muita gente deve ter pensado: e como vai entrar tanto palavrão na TV? Entra. Sem exagero, mas também sem disfarce, a personagem é retratada do jeito que nos habituamos a ela. Desbocada e irreverente. Hoje uns palavrões bem colocados não chocam a ninguém, presume-se. Ainda mais no horário tardio em que os capítulos vão ao ar, após o Big Brother. (Depois da experiência terminal do BBB, quem ainda pode se incomodar com alguma coisa?)

Mas é claro que a microssérie Dercy de Verdade (quatro episódios) de Maria Adelaide Amaral, dirigida por Jorge Fernando, se propõe a apresentar muito mais que palavras de baixo calão, ditas aqui e ali. Inclusive o mais importante, o perfil de uma Dercy que pouca gente conhece e que se esconde atrás da fachada anárquica que fez a sua fama, primeiro no teatro burlesco, depois no cinema e na TV.

Ela é vista desde a juventude, quando ainda se chamava Dolores e vivia na pequena cidade de Santa Maria Madalena, no interior do Estado do Rio, com um pai repressor e violento. Nessa fase da vida, é interpretada por Heloísa Périssé. Idosa, é vivida por Fafy Siqueira, que narra sua história num palco, para uma plateia. A Dercy mais velha comenta a vida da Dercy mais jovem, o que dá dinamismo à trama. Mas também é como se filtrasse a biografia por olhar único.

A vida nada teve de alegre para uma das mulheres mais engraçadas do Brasil. Do primeiro casamento, sem sexo, ao envolvimento com um homem rico (Valdemar, por Cássio Gabus Mendes), das andanças mambembes pelo interior até a gravidez que lhe deu a filha Decimar, da falta crônica de dinheiro à doença do marido (Fernando Eiras) e dela própria, fraca dos pulmões – tudo, na vida de Dercy, parecia difícil e destinado ao fracasso. Em compensação, ela tinha um jeitão despachado de enfrentar a desventura de frente. Matava um leão por dia.

A reconstituição de época é ok, mas faltou ao primeiro capítulo uma imersão mais profunda na mentalidade do Brasil daquele tempo. Insinua-se, como pano de fundo para a história da personagem, um país mais convencional e brejeiro, mas a pintura histórica ficou a dever. Um esboço mais enérgico talvez servisse para esclarecer uma personalidade que foi além do seu tempo sem de fato deixar de a ele pertencer. A direção de Jorge Fernando, convencional, é correta e sem brilho.

O ator Ari Fontoura disse certa vez que Dercy Gonçalves inventara essa coisa estranha que é o palavrão carinhoso. Uma contradição, típica de uma pessoa cheia delas. Ficou faltando, ao menos no primeiro capítulo, aprofundar essas divisões internas de personalidade para que se entendesse como uma pessoa desbocada podia ser no fundo muito moralista.

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Foi um dos grandes acontecimentos da Mostra. Fila imensa na entrada do Cine Livraria Cultura no Conjunto Nacional. Nela, críticos, intelectuais, a fina flor do pensamento universitário, entre eles Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet. Para quê? Para ver o “novo filme” de Eduardo Coutinho, Um Dia na Vida. E por que as aspas? Porque Um Dia na Vida é quase um não-filme, parte de um projeto de pesquisa, que, ao que tudo indica, foi apresentado uma vez e nunca mais será revisto em público.

Em que consiste esse objeto estranho? Simples: em Um Dia na Vida, Coutinho gravou 19 horas da programação de vários canais da TV aberta e os editou em 90 minutos. Temos lá trechos de telejornais da Rede Globo, Chávez, programas policiais sensacionalistas como o de Wagner Montes, trechos de novelas, Márcia, televendas e pregadores evangélicos em abundância. Em síntese: um circo de horrores. O público riu em muitos momentos. Mas é claro que o balanço final de tantas imagens concentradas é bastante melancólico. Só não ficamos mais deprimidos, ao vê-las, por um óbvio instinto de autopreservação psicológica. É um retrato ampliado daquilo que é servido ao distinto público pelos canais abertos, ao longo de todo um dia.

A ideia é tão simples como genial. “Quis colocar numa sala de cinema, com o público, alguma coisa que não é destinada a isso”, disse Coutinho depois da sessão. O filme não pode ser repetido por causa do problema insolúvel dos direitos autorais. Mas esta exibição produziu impacto. Coutinho conseguiu esse efeito simplesmente deslocando um objeto do seu lugar usual – exatamente da mesma maneira de Duchamps ao colocar um mictório numa exposição de arte. Todo mundo sabe que a TV é um lixo – e ninguém mais presta atenção a isso. Colocá-la na tela grande do cinema, sintetizada e ampliada, devolve a todos a sensação do horror.

A sessão foi seguida por um debate entre o realizador e os cineastas Jorge Furtado e Eduardo Escorel. Furtado lembrou outro aspecto importante, já assinalado, mas esquecido – a fragmentação da TV. “No noticiário, um terremoto com centenas de mortos, passa, sem transição para um desfile de modas na Europa”. Tudo equivale a tudo. E, portanto, nada significa nada. O mundo da TV é um mundo de fragmentos soltos, aleatórios, sem contexto. É a proposta de um mundo sem sentido, alienado, despolitizado, robotizado. Sim, é uma velha discussão. Qualquer que seja o destino do material de Um Dia na Vida, Coutinho teve a virtude de recolocar essa discussão em pauta.

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09.janeiro.2010 10:28:17

Dalva & Herivelto

dalva

Achei legal a minissérie dedicada ao casal Dalva de Oliveira & Herivelto Martins. Talvez um pouco rápida demais, passa como gato em cima de água fria sobre períodos inteiros da época de ouro da MPB. O início foi meio hesitante com uma Adriana Esteves muito velha para fazer uma mocinha e muito nova para uma moribunda.

Do terceiro capítulo em diante engrenou. Fábio Assunção esteve ok como o compositor chegado a uma galinhagem. Faltou, talvez, aprofundar a amizade com Grande Otelo (caso de miscasting) e outros temas.

O capítulo final, com a morte da cantora e inserção de cenas documentais foi emocionante. E quem resiste a Dalva cantando Hino ao Amor, de Piaf, em versão brasileira? Só para lembrar aos cinéfilos: é a música que encerra o estupendo Filme de Amor, de Julio Bressane.

Com suas idas e vindas no tempo, mas pontuadas de maneira didática, a minissérie não apostou tanto na ousadia formal, como foi o caso de Capitu, de Luiz Fernando Caravalho por exemplo. Sintonizou-se mais com o público. Mas não fez lá grandes concessões.

A Globo, que vai sempre tão mal em sua programação rotineira, nas minisséries continua mandando bem. É a sua reserva de qualidade.

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