Esqueça os valores absolutos: se você ficar na média por cópia, o lançamento mais rentável da semana terá sido O Porto, de Aki Kaurismaki, um filme maravilhoso. Fez, segundo o Boletim Filme B, média de 1032 espectadores por cópia. Foi lançado com apenas três cópias.
Apenas para efeito de comparação, Anjos da Noite, o Despertar, na liderança do ranking, fez apenas 810 espectadores por cópia.
Billi Pig, a comédia de José Eduardo Belmonte teve desempenho regular: 390 por cópia.
Mas o desempenho de O Porto é a melhor notícia da semana. Prova de que existe ainda um público para filmes sofisticados.
Às vezes eu penso que o asfalto acabou. Mas notícias como essa me colocam em saudável atitude de dúvida.
São esses os nove filmes que avançam para disputar vagas na final da categoria melhor filme estrangeiro. O Brasil, representado por Tropa de Elite 2, de José Padilha, ficou de fora. Os finalistas serão anunciados na terça-feira.
Bélgica, “Bullhead,” Michael R. Roskam, director;
Canadá, “Monsieur Lazhar,” Philippe Falardeau, director;
Dinamarca, “Superclásico,” Ole Christian Madsen, director;
Alemanha, “Pina,” Wim Wenders, director;
Irã, “A Separation,” Asghar Farhadi, director;
Israel, “Footnote,” Joseph Cedar, director;
Morrocos , “Omar Killed Me,” Roschdy Zem, director;
Polônia, “In Darkness,” Agnieszka Holland, director;
Taiwan, “Warriors of the Rainbow: Seediq Bale,” Wei Te-sheng, director.
Aos 70, morreu o diretor chileno, radicado na França, Raul Ruiz. Ano passado, o júri da crítica da Mostra de Cinema de São Paulo, deu o prêmio de melhor filme ao seu oceânico Mistérios de Lisboa, adaptado de Camilo Castelo Branco. Já fragilizado pelo câncer, Ruiz não pôde vir para receber o prêmio. Mandou uma carta simpática e bastante consistente, agradecendo a lembrança. É uma obra maravilhosa, um folhetim denso e envolvente, que encantou a todos. Suas mais de quatro horas de duração passam num instante. Ficou sendo seu último filme. Ou talvez não, já que estava montando ainda um último trabalho. Esperemos.
O fato é que, com Ruiz se vai um dos últimos cineastas de fato empenhados em um trabalho experimental. Paradoxalmente, produziu muito e seus filmes se contam às dezenas, desde o início no Chile até suas obras francesas, pais que adotou como seu. E que também o adotou como cineasta-intelectual, com o que resta à França de respeito pelas coisas do espírito.
Muito consistente, no conjunto do trabalho de Ruiz é sua trilogia, As três Coroas do Marinheiro, A Cidade dos Piratas e A Ilha do Tesouro – vagamente baseadas na obra de Stevenson. Mas repare bem, o trabalho de Ruiz era sempre sobre o tempo que, sem tê-lo nunca entrevistado, desconfio que era uma de suas obsessões.
Daí, com toda a certeza, veio a ousadia de adaptar o último dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, O Tempo Reencontrado (Le Temps Retrouvé). E o fez, claro, não se limitando a uma impossível fidelidade ao original, mas ao espírito da obra proustina, seu paciente e radical trabalho de reconstrução da memória humana. Que pode não ser grande coisa, mas é tudo o que temos. Sem forçar a barra, sustento que é a mais inspirada tentativa de levar para a tela algum fragmento da catedral literária de Proust.
Nesse momento de morte, é possível que se programem retrospectivas. Eu só espero que esse extraordinário Mistérios de Lisboa chegue de vez às telas do país. É um programaço para ninguém botar defeito. Raul tinha uma concepção barroca da imagem, rigorosa e às vezes desmedida. Em Mistérios coloca essas características a serviço de uma história a contar, trama gigantesca, amazônica, como um rio repleto de afluentes.
A Cinemateca Brasileira está anunciando o lançamento da cópia restaurada de O Cangaceiro, de Lima Barreto, um dos maiores (senão o maior) sucesso internacional do cinema brasileiro. Ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras no Festival de Cannes de 1953 e foi distribuído para inúmeros países. A Cinemateca anuncia, também, o lançamento do filme em DVD. E é aí que a porca pode torcer o rabo, pois o cineasta Paulo Duarte garante que detém os direitos do filme para home video (DVD e Blue-ray) por cinco anos. Pretende lançá-lo, ano que vem, com vários extras, entre os quais o documentário O Velho Guerreiro não Morrerá – o Cangaceiro de Lima Barreto 50 anos depois, de sua autoria. A seguir, entre aspas, a mensagem enviada por Paulo Duarte:
” Eu sou o detentor, pelos próximos 5 anos, do filme “O Cangaceiro” para home-video (DVD e Bluray), direitos estes adquiridos por contrato com a Vera Cruz
antes dela ser repassada ao Minc.
Pois bem, a Cinemateca está realizando o restauro do filme e sabe que possuo os direitos para lançamento do DVD.
No entanto, começou a circular a informação de que eles irão lançar o dvd do filme no ano que vem, o que não é verdade.
Só eu posso fazer o uso do direito de exploração comercial do dvd do Cangaceiro, e além disso, o farei colocando como extra, meu documentário “O Velho Guerreiro Não Morrerá – O Cangaceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois” com depoimentos de Anselmo Duarte, Fernando Meirelles, entre muitos outros e o doc em questão é ganhador de vários prêmios em Festivais Nacionais “Melhor Documentário Brasileiro Independente” no Festival Gramado Cinevideo, Melhor Filme, Melhor Documentário e Melhor Edição no Festival de Cinema de Santa Maria, Melhor Filme no Festival RECINE (Cinema de Arquivo) – Rio de Janeiro, entre outras dezenas de participações e menções em outros Festivais de prestígio.
Vejam bem, o filme está sendo restaurado, SIM. A Cinemateca tem o direito para usar o filme em 35 mm por aí? SIM. Podem lançar o filme em DVD antes de mim?
NÃO.”
A palavra, agora, está com a Cinemateca Brasileira.
Em pouco tempo, o meu post anterior ficou defasado: Tropa de Elite já passou Dona Flor. Já é o filme brasileiro com maior bilheteria da história. Eis o novo e-mail que recebi de Marco Aurélio Marcondes:
“Com os resultados de ontem, terça-feira, 8 de dezembro, TROPA DE ELITE
2, de José Padilha, distribuído pela ZAZEN, de Padilha e Marcos PRADO,
em co-produção com a GLOBO FILMES, e cujo o lançamento tenho o prazer
de coordenar juntamente com James D’Arcy, acumulou 10.736.995
espectadores, em 9 semanas de exibição, isto é, 61 dias, desde de seu
lançamento em 8 de outubro.
O filme se mantém em cartaz, com 331 cópias, em todo o Brasil na sua
9ª. semana, e na sua 10ª. estará em aproximadamente 200 salas.
Com este resultado, TROPA DE ELITE 2, ultrapassa em 1.470 ingressos
vendidos, a marca histórica de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, de Bruno
Barreto, lançado em 1976, que acumulou o público de 10.735.525,
conforme dados oficiais da OCA – Observatório Brasileiro do Cinema e
do Audiovisual.”
Entre hoje e amanhã, o que era tido como impossível vai acontecer e um filme brasileiro – Tropa de Elite 2 – irá superar o insuperável recorde de bilheteria de Dona Flor e seus Dois Maridos, com 10,7 milhões de espectadores registrados em 1976.
Em mensagem enviada ao blog, o distribuidor de Tropa de Elite, Marco Aurélio Marcondes, escreveu: “DONA FLOR acumulou 10.735.524, e Tropa de Elite 2 até ontem (segunda-feira) tinha 10.684.549 de ingressos vendidos. Assim, faltam 50.976 espectadores; estimo que até a próxima 5ª. feira, teremos 10.755.000. O filme está se mantendo, no nono fim de semana, com 331 cópias em cartaz.”
Aí está. Passamos anos sustentando que nenhum filme passaria Dona Flor por uma série de motivos:
1) O preço do ingresso, na época de Dona Flor, era muito mais barato, equivalente a um bilhete de condução. Por isso, o cinema era diversão popular.
2) O circuito era muito maior. Havia muito mais salas e cinemas de rua, frequentados pelo espectador mais pobre, o grosso da população brasileira. De lá para cá, o cinema só fez se elitizar. Migrou para shopping, passou a ser entretenimento exclusivo de classe média para cima.
3) Não havia tantas alternativas de diversão popular nos anos 1970. Hoje, o cinema disputa espaço com mil concorrentes e os filmes podem ser vistos na TV a cabo, na internet, no celular, no Ipad, etc. Na época de Dona Flor, nem VHS existia.
Aí está. Passamos anos repetindo dogmas que mantinham Dona Flor em patamar imbatível. Agora, Tropa de Elite 2 nos fará revisar conceitos. E, mais ainda, porque se trata de um lançamento independente, sem apoio de nenhuma major. Dona Flor foi lançado pela então poderosa Embrafilme, que, no Brasil, tinha o peso e a abrangência de mercado de uma major norte-americana.
Sobre o fato de Dona Flor ter sido até hoje o recordista, existe algum debate, inócuo me parece. Dizem que alguns filmes como O Ébrio, por exemplo, teriam feito mais bilheteria. Ou que algumas chanchadas da Atlântida poderiam ter superado esses números. Não se sabe ao certo. É tudo especulação. Já os números de Dona Flor são oficiais. Estão na tabela da Embrafilme divulgada em 1986 (ver História do Cinema Brasileiro, de Fernão Ramos, p. 418)
Uma consideração: apesar de ter sido passado para trás em números absolutos, Dona Flor, de Bruno Barreto, continua recordista na relação nº de espectadores/população. Em 1976 havia 110 milhões de brasileiros. Hoje somos 190 milhões. Para bater esse número relativo, Tropa de Elite 2 teria de alcançar cerca de 19 milhões de espectadores.
Uma hipótese para explicar o fenômeno Tropa de Elite 2: será que além do óbvio interesse pelo tema da violência urbana, e dos méritos do filme, a recente ascensão ao consumo de entretenimento das classes C e D não teria algo a ver com tudo isso?
Deu no Filme B. Tropa de Elite 2 já é o campeão de público do ano, com 7,4 milhões de espectadores. Pelo jeito que vai, pode até bater o recorde de todos os tempos do cinema brasileiro que está com Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), com seus até agora insuperáveis 10,4 milhões de espectadores (dado oficial).
Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto, foi o filme indicado para disputar uma das vagas ao Oscar do ano que vem. Atenção: ele não está no Oscar, repito. Apenas foi indicado para tentar uma das vagas entre os concorrentes que irão disputar a estatueta no ano que vem na categoria filme estrangeiro.
Não deixa de ser uma escolha surpreendente da comissão. Os internautas, que pela primeira vez opiniaram na indicação, haviam escolhido (previsivelmente) o espírita Nosso Lar. Não vale como voto. Tem apenas função indicativa. Havia muitas outras alternativas, entre elas o novo Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade, que nem estreou por aqui ainda (abre o Festival do Rio à noite). Ou filmes menores (em termos de orçamento) como É Proibido Fumar. Ou Bróder, que era o meu favorito, não apenas pela boa qualidade, mas por abordar a temática negra e da periferia.
Deu Lula na cabeça. Pelo menos no cinema. Provavelmente, a comissão pensou que a boa imagem do presidente Lula no exterior possa se transferir ao filme. Não deixa de ser uma estratégia inteligente. Vamos ver se funciona.
Post a título informativo, com a relação de filmes brasileiros que irão participar do Festival do Rio. A maior parte deles merece de fato estar numa seção intitulada Première. Mas alguns já passaram por aí. Caso de Elvis e Madona e Diário de uma Busca (Gramado), Malu de Bicicleta (Paulínia) e Memória Cubana (Cine Ceará). O resto, salvo engano, é inédito. Outra curiosidade: em Gramado correu a história de que Ex-Isto, de Cao Guimarães, iria passar fora de concurso, no encerramento, porque estaria prometido para o Rio. Não está na lista.
Ficção
1) Boca do Lixo, de Flavio Frederico (SP)
2) Como esquecer, de Malu De Martino (RJ)
3) Elvis & Madona, de Marcelo Laffitte (RJ)
4) Malu de bicicleta, de Flavio Tambellini (RJ)
5) O Senhor do Labirinto, de Geraldo Motta (RJ)
6) Riscado, de Gustavo Pizzi (RJ)
7) Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos (BA)
VIPS, de Toniko Mello (SP)
Documentários
1) Diário de uma busca, de Flávia Castro (RS)
2) É Candeia, de Márcia Watzl (RJ)
3) Histórias reais de um mentiroso, de Mariana Caltabiano (SP)
4) Memória Cubana, de Alice de Andrade (RJ)
5) Santos Dummont: pré cineasta?, de Carlos Adriano (SP)
6) Solidão e fé, de Tatiana Lohmann (SP)
7) Positivas, de Susanna Lira (RJ)
Quando eu começo a desesperar da humanidade, chega uma notícia como esta – Medos Privados em Lugares Públicos, filme de Alain Resnais, está há três anos em cartaz em São Paulo. Há esperança na Terra.

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