Essential Killing, de Jerzy Skolimovski, com Vincent Gallo. Prisioneiro escapa de um campo de concentração do exercito americano e, em fuga e faminto, atravessa uma implacável paisagem de inverno. O filme se reduz aos seus elementos mínimos, quase sem diálogos. O ator (e diretor americano Vincent Gallo) tem uma atuação primorosa, longe dos seus costumeiros personagens blasés, com cara de mau. Aqui ele é sofrimento puro, submetido apenas à dura necessidade de sobreviver. O paroxismo chega quando ele ataca uma mulher em situação inusitada. Apenas para se alimentar. Seco e despojado.
Adorável Pivellina, de Rainer Frimell e Tizza Covi.
Na primeira seqüência uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi) procura por seu cão.
Acaba põe encontrar uma criança, a garotinha de que fala o título em italiano.
A mãe deixou um bilhete, e mulher resolve criar pequena Asia (Asia Crippa), a criança , apesar da insistência do marido, Walter (Walter SaabeL) em entregar o caso à policia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que têm grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha.
O filme embarca num tom documental, que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas afinal, onde esta a história ? Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa está, exatamente, na observação do vivido.
No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que por acaso se situa na Itália, mas poderia ser aqui mesmo, no Brasil.
Hasta la vista!, de Geoffrey Enthoven, com Tom Audenaert, Isabelle de Hertogh, Gilles De Schrijver.
Apesar do tema e da sinopse fazerem que se tema pelo pior, o filme conduz bem a sua proposta. São três garotos, adolescentes, portanto cheios de hormônios, mas que enfrentam problemas sérios de saúde. Um deles é deficiente visual. Outro, está preso a uma cadeira de rodas. O terceiro sofre de uma doença terminal. Ouvem falar de um prostíbulo na Espanha, onde as profissionais atendem a casos como os deles e resolvem empreender uma viagem até lá. Naturalmente não podem contar com a colaboração de pais e médicos para o projeto. Têm de se virar sozinhos.
O jeito de enfrentar um assunto como esse – tão a feitio para comentários politicamente incorretos – é mesclar, com bastante senso de proporção, tanto o humor como a ternura. E é o que faz o diretor. Sai-se bem.
Flores do oriente, de Zhang Yimou (Playarte), com Christian Bale, Paul Schneider, Ni Ni, Tong Dawei.
A verdade a ser dita é que Zhang Yimou já foi mais incisivo. Basta lembrar o tempo em que fazia filmes como Lanternas Vermelhas ou O Sorgo, que encantavam tanto pelo visual apurado como pela profundidade. Depois que passou a fazer filmes em parceria algo ocorreu. Um decréscimo de densidade. O visual continua tão bom quanto era. Os personagens já nao são os mesmos nem tão bons. A dramaturgia sofre.
Aqui, parte-se de uma situação histórica verdadeira. O chamado Massacre de Nanquim, quando os japoneses invadiram aChina em 1937 e matavam quem encontrassem pela frente. Naquele frente da acao um ocidental Christian Bale que de pilantra e bon vivant, torna-se, de uma hora para outra, um benemérito e um herói .
A delicadeza do amor [La delicatesse, França, 2011], de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos. Com Audrey Tautou, Audrey Fleurot, François Damiens.
Mais um “filme gracinha” com Audrey Tautou (de Amélie Poulin). Aqui ela é a viúva jovem, que trabalha numa firma sueca em Paris e divide-se entre a corte do patrão e um dos funcionários.
Um filme disfuncional francês, se é que me entendem. Disfuncional porque as pessoas parecem deslocadas, meias que fora de foco numa sociedade competitiva, na qual o lobo é o lobo do homem, velha frase de Hobbes. Em A delicadeza do Amor (La Délicatesse) as pessoas, apesar de seus desejos e conflitos, parecem seres de exceção em nosso mundo. Não tentam puxar o tapete uns dos outros, e o mundo corporativo nem de longe se assemelha a uma selva. A tal ponto que um patrão disputa uma mulher com um subalterno e nem por isso pensa em se valer da superioridade hierárquica para resolver a parada em seu proveito.
Bem, talvez esse seja um comentário lateral a esse filme que se desenvolve segundo um certo ar de fábula. Mas tem a ver com esse espírito geral e condiz com o título. Pois a grande questão (uma delas pelo menos) de nossos dias diz respeito à perda desse sentimento de gentileza entre seres humanos e que, hoje em dia, parece pouco menos do que uma polidez formal. Não duvido que, pelo tom, e até mesmo por esse tipo de assunto, o filme possa parecer meio chato à grande maioria do público. Mas não é, não.
Uma interessante frase de Chabrol, que eu desconhecia e fiquei sabendo através da leitura de um livro de Jacques Aumont (A Teoria dos Cineastas, Papirus, 2004):
“Um cineasta só merece esse nome a partir do momento em que sabe o que está fazendo”.
Claro que, como tudo no mundo, tudo isso está sujeito à discussão. Mas a reflexão sobre o próprio métier parece benéfica a todo cineasta.
A todo artista, podemos generalizar.
Aliás, a todos nós. Por exemplo: será que os críticos sabem o que estão fazendo quando criticam?
Será que o repórter sabe o que está fazendo quando faz uma entrevista?
E assim por diante.
Pensem, amigos, pensem.
A esta altura do campeonato acho que só quem vive em Marte ignora a história do colunista social de João Pessoa que diz na peça da publicidade que “trouxe toda a minha família, menos a Luiza, que está no Canadá.”
Bem, virou febre, não me pergunte por quê. Agora há pouco acabo de receber um e-mail de assessoria de imprensa dizendo que Luiza está voltando a João Pessoa nas asas da Gol. Possivelmente essa asneira viral faça parte de alguma campanha publicitária, e não apenas a do condomínio paraibano. Como saber? O que dizer dessas coisas?
Nada, a não ser o seguinte. Em princípio não tenho nada contra bobagem. Acho que a seriedade militante, o tempo todo, estraga o fígado mais que bebida ruim. Um pouco de besteira é o sal da vida. E atire a primeira pedra quem nunca se sentou numa mesa de bar, entre amigos e amigas, para tomar umas e outras e dizer abobrinhas. Tudo isso faz bem. Desopila.
O meu ponto é outro: o grau de besteirol a que estamos chegando parece ocupar todo o tempo livre das pessoas. Mas o que digo? Só o tempo livre, não. Esse nhenhenhem rola o dia todo nas redes sociais e em toda parte, durante o expediente, durante as chamadas horas laborais, quando deveríamos estar com a cabeça em outra parte, concentrados em nosso trabalho, no estudo, em qualquer coisa útil.
E estamos pensando em que? Na Luiza, que está, ou esteve, no Canadá. No Michel Teló, no Daniel e na Monique, na falsa grávida de quadrigêmeos, etc, etc. O mundo parece ter virado uma farsa full time, que pode ser sinistra ou engraçada, dependendo do ângulo do qual se olha.
Chega a hora em que a overdose de asneiras não nos deixa pensar em mais nada, ocupa todo o nosso espaço mental, porque tudo isso é muito invasivo, não adianta negar. E aí o caso fica preocupante.
Se é que, no meio do nossa pasmaceira embotada, ainda temos condição ou lucidez de nos preocuparmos com alguma coisa que não seja o BBB ou o destino da Luíza.
1) Passo de forma lateral sobre essa história do BBB e do suposto estupro. Não acompanho nada disso, sorry, porque tenho mais o que fazer. Mas assisti à leitura da nota oficial da Globo, ontem, durante o Jornal Nacional. Vi alegações de advogados, e ponderações muito sisudas dos apresentadores, como se tratassem do assunto mais sério do mundo. Perdão, mas a história toda é de um ridículo atroz, e não sei como os envolvidos, a começar pelos participantes e terminando pela própria TV, não morrem de vergonha. Em tempos mais bem humorados, o tema seria objeto do riso universal.
2) Já o naufrágio do Costa Concordia seria outro caso de ridículo supremo, não tivesse terminado de forma trágica, com o custo de vidas humanas. Um mastodonte daqueles, encalhar nas rochas por, supõe-se, um ato de exibicionismo do comandante, é o fim da picada. O affair do capitão covarde tem sido comentado de várias formas, algumas inteligentes. A Itália, numa profunda crise de identidade pós-Berlusconi, tomou-o como fato simbólico: afinal, somos uma nação de Schettinos ou de De Falcos? Não está na hora de todos dizermos, como De Falco, “Vada a bordo, cazzo” ?
Li hoje, na Folha, a brilhante análise de Contardo Calligaris sobre o tema da covardia. Cita vários autores, incluindo Shakespeare. Estranho é que ninguém, que eu saiba, tenha feito a ligação do caso do capitão italiano com uma das mais célebres obras da literatura, Lorde Jim, de Joseph Conrad, que trata exatamente disso, do ato covarde que persegue o homem ao longo da vida. E no ambiente náutico, ainda por cima, o mesmo do malfadado Capitão Schettino.
Será que ninguém mais lê Conrad hoje em dia?
Leio que Amanhecer deve ocupar “pelo menos” 1100 salas em seu lançamento.
O circuito brasileiro dispõe de aproximadamente 2200 salas.
Ou seja, 50% do circuito nacional será ocupado pelo filme.
Pode-se deduzir que muitos filmes, que estavam dando boa média de público, serão expulsos do mercado pela chegada do mega lançamento.
Como perguntar não ofende, eu pergunto: essa é uma prática razoável de mercado?
Como é possível ter um circuito exibidor saudável quando metade dele é ocupado por um único lançamento?
Como fica a saudável diversidade cultural, que só existe com a pluralidade de lançamentos e sua permanência nas telas?
Não custa lembrar que a nossa vizinha Argentina, tantas vezes por nós ironizada, lançou um imposto progressivo sobre esses lançamentos gigantes. Quanto maior o número de cópias mais se paga.
Dá para imaginar algo semelhante no Brasil sem que os “liberais” de sempre venham brandir o tema da liberdade de expressão e da livre circulação dos produtos culturais?
Não se dão conta de que uma ocupação militar do mercado, como essa, é que é o verdadeiro atentado à livre circulação das (outras) obras?
Sobre a Argentina, vejam este link: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/201…
Há nas redes sociais uma mal disfarçada satisfação com a notícia do câncer de laringe de Lula. Uma das modalidades do preconceito é sugerir que o ex-presidente se trate no SUS.
Há uma reação, também, de várias pessoas que trataram doenças graves pelo SUS e foram muito bem atendidas pelo serviço público de saúde. O cineasta Carlos Reinchenbach é uma delas.
Enfim, a truculência corre solta, não respeitando sequer a saúde de um semelhante.
Das contrainiciativas, uma me parece a mais interessante. Cortar “amizades” do Facebook ou “seguidores” de twitter que estejam se refestelando com o drama alheio.
Ninguém é obrigado a aguentar preconceito, brutalidade e falta de humanidade. Fora com eles.
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