ir para o conteúdo
 • 

Luiz Zanin

Essential Killing, de Jerzy Skolimovski, com Vincent Gallo. Prisioneiro escapa de um campo de concentração do exercito americano e, em fuga e faminto, atravessa uma implacável paisagem de inverno. O filme se reduz aos seus elementos mínimos, quase sem diálogos. O ator (e diretor americano Vincent Gallo) tem uma atuação primorosa, longe dos seus costumeiros personagens blasés, com cara de mau. Aqui ele é sofrimento puro, submetido apenas à dura necessidade de sobreviver. O paroxismo chega quando ele ataca uma mulher em situação inusitada. Apenas para se alimentar. Seco e despojado.

sem comentários | comente

Adorável Pivellina, de Rainer Frimell e Tizza Covi.

Na primeira seqüência uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi) procura por seu cão.
Acaba põe encontrar uma criança, a garotinha de que fala o título em italiano.

A mãe deixou um bilhete, e mulher resolve criar pequena Asia (Asia Crippa), a criança , apesar da insistência do marido, Walter (Walter SaabeL) em entregar o caso à policia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que têm grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha.

O filme embarca num tom documental, que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas afinal, onde esta a história ? Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa está, exatamente, na observação do vivido.

No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que por acaso se situa na Itália, mas poderia ser aqui mesmo, no Brasil.

sem comentários | comente

25.maio.2012 18:38:41

Hasta la vista

Hasta la vista!, de Geoffrey Enthoven, com Tom Audenaert, Isabelle de Hertogh, Gilles De Schrijver.

Apesar do tema e da sinopse fazerem que se tema pelo pior, o filme conduz bem a sua proposta. São três garotos, adolescentes, portanto cheios de hormônios, mas que enfrentam problemas sérios de saúde. Um deles é deficiente visual. Outro, está preso a uma cadeira de rodas. O terceiro sofre de uma doença terminal. Ouvem falar de um prostíbulo na Espanha, onde as profissionais atendem a casos como os deles e resolvem empreender uma viagem até lá. Naturalmente não podem contar com a colaboração de pais e médicos para o projeto. Têm de se virar sozinhos.

O jeito de enfrentar um assunto como esse – tão a feitio para comentários politicamente incorretos – é mesclar, com bastante senso de proporção, tanto o humor como a ternura. E é o que faz o diretor. Sai-se bem.

sem comentários | comente

25.maio.2012 18:37:43

Flores do Oriente

Flores do oriente, de Zhang Yimou (Playarte), com Christian Bale, Paul Schneider, Ni Ni, Tong Dawei.

A verdade a ser dita é que Zhang Yimou já foi mais incisivo. Basta lembrar o tempo em que fazia filmes como Lanternas Vermelhas ou O Sorgo, que encantavam tanto pelo visual apurado como pela profundidade. Depois que passou a fazer filmes em parceria algo ocorreu. Um decréscimo de densidade. O visual continua tão bom quanto era. Os personagens já nao são os mesmos nem tão bons. A dramaturgia sofre.

Aqui, parte-se de uma situação histórica verdadeira. O chamado Massacre de Nanquim, quando os japoneses invadiram aChina em 1937 e matavam quem encontrassem pela frente. Naquele frente da acao um ocidental Christian Bale que de pilantra e bon vivant, torna-se, de uma hora para outra, um benemérito e um herói .

sem comentários | comente

A delicadeza do amor [La delicatesse, França, 2011], de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos. Com Audrey Tautou, Audrey Fleurot, François Damiens.

Mais um “filme gracinha” com Audrey Tautou (de Amélie Poulin). Aqui ela é a viúva jovem, que trabalha numa firma sueca em Paris e divide-se entre a corte do patrão e um dos funcionários.

Um filme disfuncional francês, se é que me entendem. Disfuncional porque as pessoas parecem deslocadas, meias que fora de foco numa sociedade competitiva, na qual o lobo é o lobo do homem, velha frase de Hobbes. Em A delicadeza do Amor (La Délicatesse) as pessoas, apesar de seus desejos e conflitos, parecem seres de exceção em nosso mundo. Não tentam puxar o tapete uns dos outros, e o mundo corporativo nem de longe se assemelha a uma selva. A tal ponto que um patrão disputa uma mulher com um subalterno e nem por isso pensa em se valer da superioridade hierárquica para resolver a parada em seu proveito.

Bem, talvez esse seja um comentário lateral a esse filme que se desenvolve segundo um certo ar de fábula. Mas tem a ver com esse espírito geral e condiz com o título. Pois a grande questão (uma delas pelo menos) de nossos dias diz respeito à perda desse sentimento de gentileza entre seres humanos e que, hoje em dia, parece pouco menos do que uma polidez formal. Não duvido que, pelo tom, e até mesmo por esse tipo de assunto, o filme possa parecer meio chato à grande maioria do público. Mas não é, não.

comentários (7) | comente

15.março.2012 12:58:33

Chabrol e o cinema

Uma interessante frase de Chabrol, que eu desconhecia e fiquei sabendo através da leitura de um livro de Jacques Aumont (A Teoria dos Cineastas, Papirus, 2004):

“Um cineasta só merece esse nome a partir do momento em que sabe o que está fazendo”.

Claro que, como tudo no mundo, tudo isso está sujeito à discussão. Mas a reflexão sobre o próprio métier parece benéfica a todo cineasta.

A todo artista, podemos generalizar.

Aliás, a todos nós. Por exemplo: será que os críticos sabem o que estão fazendo quando criticam?

Será que o repórter sabe o que está fazendo quando faz uma entrevista?

E assim por diante.

Pensem, amigos, pensem.

comentários (2) | comente

A esta altura do campeonato acho que só quem vive em Marte ignora a história do colunista social de João Pessoa que diz na peça da publicidade que “trouxe toda a minha família, menos a Luiza, que está no Canadá.”

Bem, virou febre, não me pergunte por quê. Agora há pouco acabo de receber um e-mail de assessoria de imprensa dizendo que Luiza está voltando a João Pessoa nas asas da Gol. Possivelmente essa asneira viral faça parte de alguma campanha publicitária, e não apenas a do condomínio paraibano. Como saber? O que dizer dessas coisas?

Nada, a não ser o seguinte. Em princípio não tenho nada contra bobagem. Acho que a seriedade militante, o tempo todo, estraga o fígado mais que bebida ruim. Um pouco de besteira é o sal da vida. E atire a primeira pedra quem nunca se sentou numa mesa de bar, entre amigos e amigas, para tomar umas e outras e dizer abobrinhas. Tudo isso faz bem. Desopila.

O meu ponto é outro: o grau de besteirol a que estamos chegando parece ocupar todo o tempo livre das pessoas. Mas o que digo? Só o tempo livre, não. Esse nhenhenhem rola o dia todo nas redes sociais e em toda parte, durante o expediente, durante as chamadas horas laborais, quando deveríamos estar com a cabeça em outra parte, concentrados em nosso trabalho, no estudo, em qualquer coisa útil.

E estamos pensando em que? Na Luiza, que está, ou esteve, no Canadá. No Michel Teló, no Daniel e na Monique, na falsa grávida de quadrigêmeos, etc, etc. O mundo parece ter virado uma farsa full time, que pode ser sinistra ou engraçada, dependendo do ângulo do qual se olha.

Chega a hora em que a overdose de asneiras não nos deixa pensar em mais nada, ocupa todo o nosso espaço mental, porque tudo isso é muito invasivo, não adianta negar. E aí o caso fica preocupante.

Se é que, no meio do nossa pasmaceira embotada, ainda temos condição ou lucidez de nos preocuparmos com alguma coisa que não seja o BBB ou o destino da Luíza.

comentários (8) | comente

1) Passo de forma lateral sobre essa história do BBB e do suposto estupro. Não acompanho nada disso, sorry, porque tenho mais o que fazer. Mas assisti à leitura da nota oficial da Globo, ontem, durante o Jornal Nacional. Vi alegações de advogados, e ponderações muito sisudas dos apresentadores, como se tratassem do assunto mais sério do mundo. Perdão, mas a história toda é de um ridículo atroz, e não sei como os envolvidos, a começar pelos participantes e terminando pela própria TV, não morrem de vergonha. Em tempos mais bem humorados, o tema seria objeto do riso universal.

2) Já o naufrágio do Costa Concordia seria outro caso de ridículo supremo, não tivesse terminado de forma trágica, com o custo de vidas humanas. Um mastodonte daqueles, encalhar nas rochas por, supõe-se, um ato de exibicionismo do comandante, é o fim da picada. O affair do capitão covarde tem sido comentado de várias formas, algumas inteligentes. A  Itália, numa profunda crise de identidade pós-Berlusconi, tomou-o como fato simbólico: afinal, somos uma nação de Schettinos ou de De Falcos? Não está na hora de todos dizermos, como De Falco, “Vada a bordo, cazzo” ?

Li hoje, na Folha, a brilhante análise de Contardo Calligaris sobre o tema da covardia. Cita vários autores, incluindo Shakespeare. Estranho é que ninguém, que eu saiba, tenha feito a ligação do caso do capitão italiano com uma das mais célebres obras da literatura, Lorde Jim, de Joseph Conrad, que trata exatamente disso, do ato covarde que persegue o homem ao longo da vida. E no ambiente náutico, ainda por cima, o mesmo do malfadado Capitão Schettino.

Será que ninguém mais lê Conrad hoje em dia?

comentários (11) | comente

Leio que Amanhecer deve ocupar “pelo menos” 1100 salas em seu lançamento.

O circuito brasileiro dispõe de aproximadamente 2200 salas.

Ou seja, 50% do circuito nacional será ocupado pelo filme.

Pode-se deduzir que muitos filmes, que estavam dando boa média de público, serão expulsos do mercado pela chegada do mega lançamento.

Como perguntar não ofende, eu pergunto: essa é uma prática razoável de mercado?

Como é possível ter um circuito exibidor saudável quando metade dele é ocupado por um único lançamento?

Como fica a saudável diversidade cultural, que só existe com a pluralidade de lançamentos e sua permanência nas telas?

Não custa lembrar que a nossa vizinha Argentina, tantas vezes por nós ironizada, lançou um imposto progressivo sobre esses lançamentos gigantes. Quanto maior o número de cópias mais se paga.

Dá para imaginar algo semelhante no Brasil sem que os “liberais” de sempre venham brandir o tema da liberdade de expressão e da livre circulação dos produtos culturais?

Não se dão conta de que uma ocupação militar do mercado, como essa, é que é o verdadeiro atentado à livre circulação das (outras) obras?

Sobre a Argentina, vejam este link: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/201…

comentários (25) | comente

Há nas redes sociais uma mal disfarçada satisfação com a notícia do câncer de laringe de Lula. Uma das modalidades do preconceito é sugerir que o ex-presidente se trate no SUS.

Há uma reação, também, de várias pessoas que trataram doenças graves pelo SUS e foram muito bem atendidas pelo serviço público de saúde. O cineasta Carlos Reinchenbach é uma delas.

Enfim, a truculência corre solta, não respeitando sequer a saúde de um semelhante.

Das contrainiciativas, uma me parece a mais interessante. Cortar “amizades” do Facebook ou “seguidores” de twitter que estejam se refestelando com o drama alheio.

Ninguém é obrigado a aguentar preconceito, brutalidade e falta de humanidade. Fora com eles.

comentários (14) | comente

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão