A vida é assim. Segue seu ritmo cadenciado, monótono até, na sucessão previsível dos dias. Até que alguma coisa excepcional acontece e tudo então parece carregado de sentido, para o bem e para o mal. Foi o que sucedeu naquele 17 de dezembro de 1961, quando uma prosaica matinê circense se transformou na maior tragédia de Niterói. O Gran Circo Norte-americano, com seu nome pomposo e tudo, pegou fogo num incêndio que ceifou a vida de centenas de pessoas, a maior parte delas crianças. É o tema do livro O Espetáculo mais Triste da Terra, do jornalista Mauro Ventura, que reconstitui a tragédia em seus vários aspectos.
Não à-toa, lá pelo fim do livro, Mauro Ventura, que é repórter de O Globo e filho do jornalista Zuenir Ventura, constata que uma experiência desse gênero desperta o que há de pior – e também o que existe de melhor – nas pessoas. Sim porque logo que começou a correr por toda Niterói a notícia de que havia centenas de pessoas queimadas e feridas em função do incêndio, montou-se, de forma espontânea, uma formidável rede de solidariedade para dar assistência aos feridos. Enquanto a caridade agia à luz do dia, à noite se movimentavam os que saqueavam cadáveres ou procuravam de alguma forma tirar partido, inclusive político, da tragédia.
O livro ilumina esses desvãos e dá devido valor aos atos de abnegação. Mas vai muito além disso. É um trabalho valioso de pesquisa, aliado à boa disposição de repórter que, como se sabe, não pode ter dó de sola de sapato e precisa manter o interesse em ouvir o próximo. Mauro entrevistou 150 pessoas, de médicos a sobreviventes do incêndio, passando por artistas do circo que estavam em cena na função daquela tarde de calor excessivo no verão de Niterói.
Não foi fácil levantar a memória daqueles dias, conta o autor. Apesar de todo o tempo transcorrido, o tema ainda é tabu. Muita gente se esquivava ou perguntava ao repórter por que queria revolver aquela história triste, acontecida havia tanto tempo. O próprio Mauro nem era nascido na época. Veio ao mundo apenas um ano e dez meses depois dos fatos que pesquisou. Só ouviria falar do assunto trinta anos depois, ao ver nas pilastras do Caju, zona portuária do Rio de Janeiro, a inscrição “Gentileza gera Gentileza”. Eram escritas pelo Profeta Gentileza, um tipo popular carioca que, dizia-se, havia enlouquecido quando perdeu toda a família no incêndio do circo, uma versão falsa. José Daltrino era um pequeno empresário de cargas. Diz-se que quando soube do incêndio, saiu ao quintal da casa e cobriu-se de lama. Abandonou tudo, empresa e família, para, em sua versão, atender a uma voz que o mandava consolar as vítimas do incêndio e pregar a palavra de fraternidade entre os homens.
Daltrino não foi o único tocado pelo incêndio do circo. Sem ouvir vozes místicas, mas fiel ao seu juramento de médico, um cirurgião, destinado à fama e ao jetset, empenhou-se a fundo no tratamento dos queimados. Mauro Ventura leu na autobiografia de Ivo Pitanguy que o atendimento aos queimados de Niterói fora “a experiência que marcara mais fortemente a minha vida”. Até então, a cirurgia plástica era considerada o ramo fútil da medicina. No tratamento dos queimados, ganhou respeito da opinião pública e credibilidade na classe médica.
Por fim, Ventura ouviu de uma tia, na época moradora de Nova Friburgo, que pretendera levar as duas filhas, então crianças, ao espetáculo, mas desistira na última hora. Talvez tenha sido uma intuição. Talvez. De qualquer forma, a tragédia do circo despertara a curiosidade do repórter que agora pressentia, apesar dos anos decorridos, o cheiro de “uma boa história”, isca que costuma fisgar jornalistas de fato vocacionados para a profissão.
E essa história começa pelo fato de que o Gran Circo Norte-americano nada tinha de norte-americano. Pertencia a Danilo Stevanovich, cuja família, até hoje, e apesar do sinistro de Niterói, continua no ramo circense. Batizou seu estabelecimento de “norte-americano” porque essa origem seria sinônimo de qualidade, competência, eficácia, espetáculo, valores positivos associados aos Estados Unidos desde o fim da 2ª Guerra Mundial.
Não que os próprios americanos não tivessem problemas. Afinal, 1961 não era um bom ano para eles. O astronauta soviético Yuri Gagarin tornara-se o primeiro homem a orbitar o planeta no interior de um artefato da indústria aeroespacial inimiga. Gagarin sustentava que, vista de fora, a Terra parecia azul, mas a cor que tirava o sono dos americanos era a vermelha, da ameaça comunista. Paranoia à parte, aos olhos dos brasileiros a simples menção de que algo era americano trazia à mente qualidades superlativas, da música pop ao cinema, passando pelo circo.
No entanto, tal selo de qualidade importado não se aplicava a alguns quesitos básicos do circo de Stevanovich, a começar pela lona, fabricada de material facilmente inflamável, ao contrário do que proclamava a propaganda do proprietário.
Foi pela lona que tudo começou. Quem deu o aviso foi a trapezista Nena, irmã do dono do circo, que fazia seu número com dois colegas. Um deles, Grotto, viu uma luz suspeita na parte de baixo da lona. Desceu, tomou Nena pelo braço e esperaram que o terceiro artista, Sanchez, também pulasse para lugar seguro. Só então ela deu o clássico grito de “Fogo!”, senha para a debandada geral. As chamas subiram com velocidade e fúria incríveis e, como não havia saída de emergência, transformaram o circo em armadilha infernal para os cerca de 3 mil espectadores da matinê. Muitos foram salvos pelo pânico da elefanta Semba que, em sua fuga, abriu enorme buraco na lona por onde muita gente passou. Claro que, em sua trajetória desesperada, Semba também pisoteou outros tantos.
O livro avança do sinistro, como dizem os agentes de seguro, para os seus desdobramentos. As cenas em hospital, por exemplo, as histórias da gente simples, relembradas muitos anos depois. Como a de Lenir, que fez questão de levar toda a família ao espetáculo depois de saber que a girafa era “xará” de sua filha, Regina. Naquela tarde, Lenir perdeu o marido e as duas filhas. Escapou viva, com muitas sequelas, depois de enfrentar nove meses de hospital.
Há também registro da reação de gente importante, como o então presidente João Goulart, que visitou pacientes, impressionou-se com a extensão dos ferimentos de muitos deles e, depois, sentou-se numa sala vazia, colocou a mão no rosto e chorou. Quem conta é um médico, testemunha do desalento sincero de Jango diante de tanta miséria humana.
Há também a crônica policial. Qual seria a causa do incêndio? Acidente, provocado por negligência com itens de segurança? Incêndio criminoso? A versão oficial ficou com a última alternativa com a prisão de um certo Dequinha, de 22 anos, que fora empregado do circo e, despedido, jurara vingança. Ele e dois cúmplices foram presos, mas nem as vítimas acreditavam na culpa de Dequinha (apelido de Adilson Marcelino Alves), um doente mental que gostava de confessar crimes imaginários. Um juiz chegou a sugerir para ele a mesma pena de Eichmann, o carrasco nazista enforcado em Jerusalém em 1962. Em 1973, Dequinha fugiu da cadeia e apareceu morto, com vários tiros no corpo. Até o número de disparos é controverso. Alguns jornais falam em três, outros em treze. Nunca se descobriu quem puxou o gatilho.
De real, sobre o incêndio, sabe-se que a lona era de material inadequado, que não havia saídas de emergência como manda a lei, que as instalações elétricas eram precárias e que o principal hospital de Niterói, o Antonio Pedro, estava em greve naquele domingo. Sabe-se também que morreram, segundo dados oficiais, 503 pessoas, na hora do incêndio ou depois, de sequelas. Há quem ache o número conservador e fale em até mil vítimas no Gran Circo Norte-americano.
Não há certezas e nem como pesquisar esses dados. Em O Espetáculo mais Triste da Terra, Mauro Ventura confronta versões e faz arqueologia. Uma arqueologia das cinzas, literalmente.
Trecho:
“O fogo teve início a cerca de vinte metros da entrada, do lado esquerdo. Veio de baixo, a menos de três metros do chão, mas lambeu a lona com tamanha rapidez que, ao ser visto, não pôde mais ser contido. As labaredas avançaram com uma fúria inconcebível num espaço que até pouco antes era dominado pela alegria das crianças. A madeira das arquibancadas e a serragem no piso ajudaram a propagar o incêndio e a encher de fumaça o ambiente. Muitos espectadores estranharam o aumento súbito da temperatura, mas atribuíram o desconforto ao calor excessivo do dia…O incêndio democratizou as mortes. Suas vítimas foram principalmente os que estavam nos camarotes e cadeiras numeradas, mais caros, mais próximos do picadeiro, mais distantes da saída principal e separados das arquibancadas por uma cerca de madeira. Crianças, adultos e velhos foram atropelados e pisoteados quando tentavam escapar. O perigo também vinha do alto. À medida que as chamas avançavam pela cobertura, davam o origem a uma chuva de gotas incandescentes, que atingiam corpos e cabeças.” (pág. 17)
Serviço: O Espetáculo mais Triste da Terra – o Incêndio do Gran Circo Norte-americano, de Mauro Ventura. 320 págs + 32 pag, do caderno de fotos. Editora Cia das Letras, R$ 46.
Começamos praticamente juntos no Caderno 2 do início dos anos 1990, ambos sob a batuta do grande editor José Onofre. Piza chegou ao caderno recomendado por pesos-pesados da profissão como Paulo Francis e Ruy Castro. Dele, Ruy um dia me falou “Um rapaz de 20 anos que lê Mencken é algo muito raro hoje em dia”. Era isso que chamava a atenção em Daniel: a quantidade de informações eruditas que armazenara em tão pouco tempo de vida.
Com sua cultura letrada precoce, Piza estreou no Caderno 2 escrevendo sobre assuntos em geral reservados aos mais experientes. Lembro que um dos seus primeiros textos no Estado foi uma resenha da coletânea 11 Ensaios, de Edmund Wilson, tarefa complicada da qual se saiu muito bem. Dessa e de outras. No período de sua primeira passagem pelo Estado, Daniel escrevia, e bem, sobre vários assuntos. Embora um tanto concentrado em literatura e artes plásticas, exercia já o ecletismo que deu o tom em toda a sua carreira.
Saindo do Estado, foi para a Folha e, de lá, transferiu-se para a Gazeta Mercantil, onde teve sua mais fértil experiência como editor. Durante alguns anos, o Caderno de Fim de Semana, por ele dirigido, tornou-se referência no meio do jornalismo cultural. Um relato desse período está em seu livro Jornalismo Cultural. Abrangente, bem escrito, leve sem deixar de ser profundo, o Fim de Semana tornou-se o mais popular caderno do velho jornal econômico. Nele, Piza iniciou a coluna Sinopse, que escreveu até o fim da vida.
Trouxe a coluna para o Estadão, em 2000, quando retornou, já na condição de editor-executivo. Pensada, de início, como lugar de decantação do vasto consumo cultural do seu titular, a coluna reservava espaço também para o futebol, cinema, análise política, econômica ou comportamental. Na Sinopse cabia de tudo, pois, se havia uma convicção de seu autor era de que tudo se comunicava com tudo e que uma disciplina ilumina a outra, como não percebem os que têm apego à especialização.
Quem lia sua coluna cultural, repleta de referências eruditas, alfinetadas políticas, ironias e potenciais polêmicas, não poderia adivinhar o papo ameno que mantinha no contato pessoal. Era informal, gozador e ouvia o que o outro tinha a dizer. Também foi ameno em suas relações de chefia. Outro dia, por acaso, falava com o jornalista Orlando Margarido quando o nome de Daniel Piza entrou na conversa. Em situações e épocas diferentes, havíamos tido Piza como superior hierárquico nas redações. Ele, como repórter do Caderno de Fim de Semana da Gazeta Mercantil, entre 1998 e 2000. Eu, quando era editor do Caderno Cultura do Estadão tendo Daniel como coordenador da área. Lembramos que, no trato profissional, o polemista tão assertivo, que surgia na coluna, desaparecia para dar lugar ao chefe compreensivo e respeitoso pela autonomia de quem com ele trabalhava. Se, caso raro, Daniel discordava de um artigo ou de uma abordagem, discutia e trocava ideias com seu autor ou com o editor. Não impunha e nem vetava. Debatia. Esta é a marca, aliás, das pessoas intelectualmente seguras de si.
Escrevo isso tudo tentando evitar o tom piegas dos obituários, que o próprio Daniel abominava. Como todos nós, tinha seus defeitos e também inúmeras qualidades. Entre elas, para mim, as maiores que um jornalista pode ter: por um lado, a prosa límpida que expressava sua cultura de base e a diversidade sempre renovada dos seus interesses, texto esculpido na leitura do seu autor predileto, Machado de Assis; por outro, o respeito ao interlocutor, em especial se dele divergia por completo.
Mesmo quem discordava das ideias de Daniel Piza há de sentir sua falta neste já tão árido panorama cultural brasileiro.
(Este é o texto na íntegra. Na versão impressa saiu apenas uma parte).
A primeira frase de O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm, soou como uma sentença inapelável nas redações quando o livro foi lançado em 1990: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. A condenação não vinha de fora – Janet Malcolm é, ela própria, escritora e jornalista, com vasto currículo na revista New Yorker, além de autora de vários livros, com temas tão variados quanto a vida de Tchekov e os arquivos secretos de Freud. É autora de sucesso. O Jornalista e o Assassino, agora relançado no Brasil, vem enriquecido de dois posfácios, um da própria autora e outro do diretor de redação do jornal A Folha de S. Paulo, Octávio Frias Filho.
Qual seria o “fazer” jornalístico sobre o qual recai a sentença de Janet? Simplesmente a prática mais comum da profissão – a entrevista. Ela entende que a relação entre repórter e fonte é sempre assimétrica, e com grande prejuízo para a segunda parte. Afinal, tanto jornalista como entrevistado querem alguma coisa um do outro, como sabe o mais ingênuo dos focas. Na situação mais simples, um deseja a notícia, uma história em primeira mão que poderá lhe ser de grande valia na carreira. O outro aspira a certa notoriedade, que apenas a divulgação de suas ideias e de seu rosto em veículo de grande expressão pode lhe garantir.
É um jogo, no qual ambos têm tanto a lucrar como a perder. Mas, no entender de Janet, a fonte é, invariavelmente, a parte fraca na relação. Escreve, sem rodeios: “Ele (o jornalista) é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em se tornar tema de um escrito não ficcional aprende – quando o artigo ou livro aparece – a sua própria dura lição.”
Ou seja, quando o produto da conversa vem a público, é muito comum a fonte descobrir que a relação mantida com o jornalista era baseada em um engodo. Que este não teve, em qualquer momento, a mínima intenção de divulgar o ponto de vista da fonte para a sua história. Pelo contrário, o jornalista sempre teve em mente divulgar a sua própria impressão sobre determinado fato. Manteve a relação em termos amistosos apenas enquanto dela necessitava para apurar determinados elementos da história. Depois, fim de conversa. Ao escrever, torna-se a parte dominante e impõe a sua própria versão. Para a fonte, seduzida durante o tempo das entrevistas, esse comportamento pode parecer o de um traidor.
Qualquer jornalista que tenha algum tempo na profissão sabe por experiência própria que não são poucos os desencontros nessa relação muito particular. Muitas vezes, ao verem ideias que julgam distorcidas publicadas em letras de imprensa, os entrevistados exclamam: “Mas eu não disse isso, alteraram minhas palavras”. Por isso, jornalistas experientes fazem questão de gravar entrevistas, sobretudo quando tratam de matéria polêmica. Mas essa providência tecnológica apenas atenua o problema, pois ninguém publica nada sob forma literal. Por uma série de questões técnicas, os depoimentos devem ser editados. E a edição sempre poderá ser tachada de tendenciosa. E às vezes é mesmo.
O livro de Janet Malcolm não se baseia em abstrações. Trata de um caso real, e bastante doloroso. Um crime terrível, na verdade, o assassinato de uma mulher grávida e de suas duas filhas a golpes de bastão e facas. O principal suspeito, e que acabou condenado, era o próprio marido da vítima, o médico Jeffrey MacDonald. Na época (1970) a serviço do exército norte-americano, MacDonald alegou que a casa fora invadida por bandidos e ele próprio saíra ferido do assalto. Na verdade, apresentava ferimentos muito leves e sua tese nunca pôde ser comprovada. No entanto, foi absolvido pelo tribunal militar.
Quando aguardava novo julgamento, foi procurado pelo jornalista Joe McGinnis para uma entrevista. MacDonald gostou tanto do repórter que lhe propôs um arranjo: franquearia sua intimidade e mesmo os bastidores da defesa para que McGinnis escrevesse um livro expondo o seu ponto de vista. Dividiriam a renda do livro e isso ajudaria a custear a defesa. Conviveram durante quatro anos em camaradagem e aparente amizade. Quando o livro – Fatal Vision, calhamaço de 700 páginas – saiu, em 1983, McDonald sentiu-se traído. Longe de esposar sua causa, o McGinnis o apresentava do início ao fim como perigoso psicopata.
Condenado à prisão perpétua no segundo julgamento, McDonald resolveu processar McGinnis pelo livro, sustentando que suas falas foram distorcidas e o autor abusara de sua boa-fé. No primeiro julgamento McDonald contra McGinnis não houve unanimidade entre os jurados. Antes que o segundo ocorresse, as partes entraram em acordo e McGinnis teve de pagar 325 mil dólares a McDonald para encerrar a pendência.
O caso é explosivo porque levanta a dúvidas sobre a liberdade de expressão e sobre a ética jornalística – e de como uma pode contradizer a outra. A acusação de McDonald baseava-se em que sua boa-fé no jornalista fora iludida. O jornalista o fizera crer que trabalhava numa versão que seria favorável ao acusado quando tinha coisa muito diferente em mente. A defesa de McGinnis baseia-se na liberdade de expressão. O autor teria compromisso mais forte com a verdade dos fatos e do que com sua fonte. Se manteve o relacionamento usando de atitudes ambíguas, foi no interesse do livro. E da verdade, que deve ser conhecida em benefício do público.
Ora, acontece que a “verdade”, para Janet Malcolm, não é um termo tão óbvio como ingenuamente se acredita. A verdade, para alguém tão influenciada pela psicanálise, é algo de impossível, no limite. Trabalhamos com versões e podemos escavar tão fundo quanto quisermos, sem jamais atingir a realidade objetiva, a verdade de um fato, e mais ainda de fatos controversos como um crime jamais confessado pelo suposto assassino. A própria Janet se debruçou sobre casos semelhantes de conflitos de versões ao se interrogar, por exemplo, sobre os diferentes relatos sobre a cena da morte de Tcheckov. O que teria acontecido, de fato? Ninguém sabe.
Mais ainda: ela própria havia sido processada no passado por uma situação semelhante à que analisa em O Jornalista e o Assassino. Em Nos Arquivos de Freud, descrição da luta pela posse da correspondência entre Sigmund Freud e seu amigo e colega Wilhelm Fliess, Janet entrevista um dos curadores das cartas, Jeffrey Masson, que, posteriormente, a processa, acusando-a de atribuir a ele declarações infundadas. Desse imbróglio psicanalítico Janet foi absolvida. Mas muita gente (McGinnis entre eles) insinuou que escrever O Jornalista e o Assassino, seria, para ela, uma espécie de exorcismo desse processo anterior.
Janet não evita a questão e a aborda em seu posfácio. Admite que, por mais que se defenda, ficará sempre com a mácula de haver caluniado Masson, mesmo que isso não tenha acontecido. Por outro lado, apesar do processo e da reparação pecuniária, o relato definitivo do caso McDonald está estabelecido no livro de McGinnis e não há força que possa apagá-lo. O desmentido nunca tem a força denúncia, e, por isso mesmo ela entende que se deva lidar com tanta delicadeza e rigor com o que dizem os entrevistados aos jornalistas.
Apesar de vivermos num mundo de versões, temos a obrigação de cuidar para que elas sejam tão próximas quanto possível de uma intangível verdade. Essa observação é particularmente importante em nossa época, em especial quando o jornalismo literário ganha importância nas redações e entre o público. Usar técnicas de romance para escrever uma matéria é uma coisa, e isso pode ser ótimo; tornar-se ficcionista é algo que um jornalista não pode se permitir. Seu compromisso, por fluido que seja o termo, é com algo chamado realidade. E, mesmo que ela se esconda atrás de inúmeras versões, insuficientes e contraditórias, sua obrigação é procurá-la obsessivamente. Não interessa se o graal existe ou não; é preciso buscá-lo.
O Jornalista e o Assassino não se propõe resolver esses impasses éticos. Provavelmente não comportam uma solução perfeita. A importância do livro está em levantá-los e colocá-los como espelho diante da comunidade jornalística. Afinal, como diz Janet Malcolm, os mais sensatos sabem que o melhor que podem fazer ainda não é o suficiente. E os outros fingem que não existe problema algum e, se existia, eles já o resolveram.
Assino jornal para ler. É óbvio? Nem tanto. Na cabeça de algumas pessoas que hoje dirigem jornais, “o leitor não o é”, na frase famosa já não me lembro de quem.
Claro que se o bom texto vier embalado de maneira caprichada, com fechamento competente (título atraente, legendas inteligentes), diagramação leve, belas fotos, etc., a leitura se torna mais prazerosa. Ninguém é contra a excelência gráfica do produto.
Mas, no fundo, no fundo, quem gosta de ler se importa mesmo é com a qualidade do texto que lhe é oferecido. Qualidade, aliás, cada vez mais rara, como sabe qualquer um que tenha exercido a função de editor em alguma etapa da sua vida profissional.
A cada dia é mais difícil encontrar quem consiga conciliar substância e leveza, graça e profundidade, conhecimento do assunto de que trata, despido de pedantismo. Por isso, quando se encontra um profissional competente, um jornalista-escritor na melhor acepção do termo, o normal seria valorizá-lo. Segurá-lo como um time de futebol segura um craque, um fora de série.
Nem sempre é o que se observa. Muitas vezes os jornais e revistas se comportam como se os seus melhores quadros fossem dispensáveis. “As prioridades são outras”, dizem. Que prioridades, pergunto eu? Contratar mais um gerente? Reformar o estacionamento do prédio? O que pode haver de mais indispensável num jornal do que pessoas que escrevam bem?
No momento estou dando um curso de jornalismo cultural na pós-graduação da FAAP. Se eu tivesse uma única coisa a dizer aos alunos, seria esta: a grande revolução do jornalismo contemporâneo seria fazer o jornal que pense única e exclusivamente…no leitor. Esquecer um pouco a concorrência, deixar de tentar (inutilmente) imitar a TV e a internet (são veículos diferentes) e concentrar-se no fundamental, na apresentação de textos bem apurados, bem pensados e, acima de tudo, bem escritos. Para isso, precisa de quem os escreva. É óbvio? Nem tanto.
Jornal que não valoriza seus melhores profissionais está dando um tiro no pé. Condenando-se à irrelevância que, acho eu, é o maior perigo que ronda o jornalismo. Tornar-se dispensável. Provocar no leitor aquela sensação blasé de que tanto faz ler como não ler porque de qualquer forma não estará perdendo grande coisa.
No jornal, o jornalista é o fundamental. Ou deveria ser.
Este texto é homenagem a um colega brilhante e grande amigo.
Mais um festival se foi. Estou no aeroporto em Brasília esperando voo para Sampa. Penso nos dias passados. O resíduo deles ainda precisa decantar. As primeiras impressões são contraditórias. Alguns filmes bons, outros meia boca, o que é normal. Tem uma coisa chata, que é o cara vazio e pretensioso e se acha melhor que os demais. A minha impressão é que essa atitude mental se reflete no cinema da pessoa. Sei lá. Patifes ainda podem fazer boa arte; tenho minhas dúvidas quanto aos idiotas.
Chata também foi a confusão causada pelo vazamento da premiação pelo UOL. A internet reforçou esse vício jornalístico infantil de “dar a notícia antes, a qualquer preço”. Há poucos anos, o furo era de um dia. Agora é de minutos, segundos. Um portal dá a matéria cinco minutos antes do outro e se acha o máximo, candidato a um desses inócuos prêmios de jornalismo.
Claro, já posso ouvir coleguinhas defendendo: informar o público o mais rápido possível é o nosso dever etc. Verdade. Em se tratando de um acidente, uma queda de presidente, uma epidemia, quanto mais pressa melhor. Mas, uma premiação de cinema? No que muda saber agora ou meia hora depois? O que altera na ordem do universo? Acho tolo, tolo, uma infantilidade mesmo.
E há o caso do embargo quebrado. Isso não se faz. Prejudica todo mundo, a começar pelo próprio festival que teve a sua festa de encerramento arruinada, esvaziada, ridicularizada. Quem ganhou com isso? O público é que não foi. Tanto não foi que as pessoas vaiaram, muitas foram embora se sentindo traídas. Ninguém vai a uma premiação se souber o resultado de antemão.
Algum idiota, neste momento, deve estar se achando o máximo, e que deu uma grande tacada ao quebrar o embargo. Acha que deu um furo, quando foi apenas traíra. Talvez um dia esse tipo de “jornalismo” entre em decadência. Mas confesso que não tenho muita esperança nisso.
Enquanto isso, convém desconfiar desses caras. Um embargo é um acordo de cavalheiros. Mas esse tipo de acordo só funciona quando existem cavalheiros dos dois lados.
Durante a Mostra, participei de uma conversa com o crítico francês Michel Ciment, da revista Positif. Ciment, para quem não sabe, é um dos críticos de maior prestígio na França. Além de crítico, é entrevistador de mão cheia, com vários livros de entrevistas publicados. Sabe como conduzir uma conversa, que é a arte da entrevista.
Vocês sabem também que essa arte foi banalizada a ponto de se transformar na linha de montagem das junkets, em que as “celebridades” ou “talents”, como dizem os americanos, reúnem-se em grupos de alguns jornalistas para que todos possam fingir que estão realizando entrevistas individuais. Fazem isso por horas a fio, o dia inteiro.Os jornalistas fazem sempre as mesmas perguntas e ouvem sempre as mesmas respostas.
Entrevista bem-feita é outra coisa. Exige horas de convívio, preparação, conhecimento e inteligência de parte a parte.
Ciment deu três conselhos aos candidatos a entrevistadores.
1) Prepare-se corretamente para a entrevista. Leia bastante material sobre o entrevistado, veja os seus filmes e, se já os conhecer, reveja. Quando o entrevistado percebe que o entrevistador é familiarizado com seu universo, tudo começa a fluir melhor. Pense nas perguntas que gostaria de fazer. Não deixe tudo por conta do improviso. Quando se está preparado, até o improviso funciona melhor.
2) Não faça perguntas muito extensas, para exibir seu conhecimento. As perguntas devem ser simples e diretas. Quando muito extensas e detalhadas, as perguntas já contêm nelas a sua própria resposta. Ou seja, o entrevistado torna-se dispensável.
3) Não se apresse em preencher com suas palavras o silêncio do entrevistado. É após o silêncio que, em geral, vêm as respostas mais interessantes.
Segundo a minha própria experiência, esses são excelentes conselhos. Hoje em dia se entrevista de qualquer jeito. Qualquer conversa de cinco minutos por telefone é considerada uma entrevista. Enfim, essa técnica do jornalismo banalizou-se ao ponto de se tornar moribunda.
Revive quando um grande entrevistador encontra um entrevistado inteligente, com coisas a dizer e com boa vontade para esse trabalho conjunto.
Para variar, a melhor coisa da imprensa brasileira é a coluna do Luis Fernando Verissimo, hoje no Estadão. Leia aqui.
Às vezes é o impostor quem fala a verdade das coisas. Às vezes o falsário vai à essência da obra de arte, como no genial F for Fake, de Orson Welles. É um pouco assim na matéria do El País, transcrita hoje pela Folha Ilustrada, sobre o italiano Tomaso Debenedetti, que realizou entrevistas falsas com personalidades como Gore Vidal, Dalai Lama e o papa Bento 16 e publicou-as em jornais italianos.
Em suas palavras, Debenedetti diz que tentou fazer jornalismo cultural sério, mas isso não era possível na Itália. O acesso aos figurões era restrito a uma panelinha e um novato, como ele, era sempre recusado. Ele então escreveu uma “entrevista” com o escritor norte-americano radicado na Itália Gore Vidal e a vendeu a um jornal. Era uma entrevista muito boa, embora Vidal jamais tivesse dirigido a palavra ao jornalista. E o diretor do jornal que a comprou disse que agora precisavam manter esse nível elevado. E assim foi feito.
A chave para abrir caminhos foi logo descoberta: “Percebi que o que interessava não era a cultura, mas os grandes nomes”, diz. Ou seja, ninguém estava à procura de ideias, mas de grifes. Ou melhor, aspas de nomes famosos, na confiança de que os leitores não querem de fato novidades, mas mais do mesmo.
O repórter do El Pais pergunta a Debenedetti se os diretores dos jornais sabiam que eram falsas as entrevistas que publicavam. Ele dá a entender que sim. Sugeriam a ele direções para a entrevista: “Seria bom que ele falasse mal de Obama”. Ou: “Faça com que ele fale bem de Berlusconi”. Debenedetti obedecia. Entregava a pauta segundo a encomenda, seguindo à risca a expectativa dos clientes.
A ficção palatável em lugar do fato devidamente apurado; o culto às celebridades como chave universal que abre todas as portas na vida contemporânea; a pauta que já sai pronta da redação e se cumpre segundo o desejo dos editores.
Não está aí, nesse caso exemplar, toda uma lição às avessas de jornalismo?
Quando o personagem é forte, ele é o discutido e não o filme. Às vezes, em benefício do filme. É o que está acontecendo com Chico Xavier, de Daniel Filho. Fala-se do médium e não da maneira como Daniel (e colaboradores) o representaram na tela. Isso acaba sendo um álibi para o filme. Se questionamos a sua, digamos, estética, podemos ser acusados de estar atacando o personagem.
De certa forma, foi o que aconteceu na coletiva de imprensa em Paulínia, na qual estiveram presentes o diretor, atores e atrizes, roteirista, produtores, escritor do livro original, etc. A tentativa foi criar uma aura de encantamento místico em torno do processo de filmagem, o que em certa medida foi conseguido. Daniel teve sua experiência mística (ou, pelo menos, inexplicável) a exemplo da que já tivera o escritor Marcel Souto Maior, autor do livro As Vidas de Chico Xavier, um best-seller da literatura espírita. Souto Maior está lançando agora um livro luxuoso, um making of, ou diário de bordo da filmagem. Ganhei um exemplar e depois falo sobre ele. Consta que já tenha vendido 50 mil cópias.
Ao final da entrevista, Daniel Filho agradeceu aos jornalistas e disse que, em toda a sua vida, não havia participado de nenhuma coletiva tão boa como esta. “Todas as perguntas foram pertinentes”, declarou.
Na saída, comentei com colegas que ele acabara de nos passar um certificado de incompetência. Aceitamos o fascínio do personagem e permitimos que ele encobrisse os problemas potenciais do filme.
Cabe agora discutir a obra.
Excelente matéria de Renato Janine Ribeiro no Cultura sobre o livro de Eugenio Bucci, A Imprensa e o Dever da Liberdade. Recomendo, em especial, para os colegas ou interessados na cobertura da área cultural, apontada por Janine como uma das mais problemáticas do setor. Leia aqui.
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