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Luiz Zanin

 

De celebridade mesmo, só João Gilberto comparece na coletânea de textos jornalísticos A Poeira dos Outros que o repórter do Estado Ivan Marsiglia lança hoje. Os outros 19 referem-se a pessoas comuns, que seriam anônimas não estivessem de alguma forma envolvidas em fatos excepcionais. Bem, nem todos os perfis são de pessoas, mas isso veremos depois. Dos 20 textos, 17 foram publicados no Estado, apenas dois na revista Trip e um na Playboy.

Comecemos por João, mesmo porque o perfil que Ivan lhe dedica serve como exemplo de sua proposta jornalística. Quem lê o título adivinha em que fonte o repórter vai beber. João Gilberto está Resfriado remete ao texto famoso de Gay Talese sobre o cantor Frank Sinatra, que era avesso, como nosso João o é até hoje, ao contato com a imprensa ou com outros seres humanos.

Talese, impossibilitado de entrevistar o genioso (e genial) artista, fez o que pôde. Ouviu gente que convivia com Sinatra e, juntando esses depoimentos às suas próprias observações, escreveu o perfil que se tornou um clássico do assim chamado jornalismo literário: Frank Sinatra Está Resfriado.

Como acontecia que João, às vésperas de completar 80 anos, estivesse também atacado pela banal porém incômoda vírus da influenza, Ivan toma o título de Talese emprestado e o adapta aos trópicos. O resultado é um delicioso perfil, pincelado a partir de histórias sugestivas e pitorescas. João não recebe ninguém mesmo, nem um fã deputado, Raul Henry, que lhe trazia de Pernambuco seu fruto preferido, o umbu, e deixava a cesta na portaria, sem subir.

Bem, alguns – além da mulher Claudia Faissol e da filha do casal, Luiza – privam da intimidade do astro. Mesmo que episodicamente, como o colunista Nelson Motta, que conseguiu dar uma volta no mitológico Monza verde em companhia de João. E assegura que ele não dirige como louco, como reza a lenda.

Outros tiveram a oportunidade e não a aproveitaram, com foi o caso do roqueiro Lobão. João Gilberto queria gravar a música de Lobão, Me Chama, e, aproveitando o título, telefonou ao roqueiro às cinco da manhã. Lobão não foi porque, conforme confessa, não apresentava “condições técnicas” de se encontrar com ninguém naquela hora.

O texto de João Gilberto Está Resfriado é leve, inspirado, divertido. Há outros assim, como Carnaval na Praia dos Pelados, escrito originalmente para a Playboy, que relata a incursão do repórter à famosa Praia do Pinho, santuário nudista situado no litoral catarinense. Nesse texto, a reportagem observacional é, naturalmente, obrigatória, embora o jornalista tenha também conversado com muita gente no local. Como ele diz, “Observar, de todo modo, é o esporte predileto do Pinho”, constatação feita ao assistir a uma partida de vôlei em que todos os jogadores, rapazes e moças, disputavam in natura. Assim como o próprio repórter, já que o “vestuário”, se o termo cabe, é obrigatório no recinto, quer dizer, na praia.

O tom leve e divertido deve ceder espaço ao sério e ao grave quando outros temas se apresentam, como é o caso do texto que abre o livro, A Memória das Paredes, que tem por centro uma casa muito especial no bairro de Caxambu, em Petrópolis. Comprada por uma família nos anos 70, ela se revelou ser a mal afamada “Casa da Morte”, de que falavam ex-presos políticos. Era um centro de tortura na época da repressão militar no qual se praticavam as piores atrocidades. Seguindo a indicação de uma antiga “moradora”, a presa política Inês Etienne Romeu, a casa foi identificada. Foi adquirida por um engenheiro da Petrobras e reformada. Lá ele criou a família. Hoje, a casa foi desapropriada para sua futura transformação em museu sobre os anos de chumbo. Essa reportagem, publicada sob o título E o direito à memória bateu à porta recebeu o 12º Prêmio Estadão de Jornalismo na categoria Perfil. A pegada do texto é política e discute uma questão delicada. O que vale mais: o direito de propriedade de quem, inadvertidamente, adquiriu um imóvel utilizado por criminosos políticos, ou os interesses da memória do País?

Desse mesmo teor – e tom – é o doloroso relato que fecha o volume, A Longa Viagem de X2, sobre a luta de uma senhora de Fortaleza pela recuperação dos restos mortais do  filho, Bergson Gurjão Farias, assassinado na Guerrilha do Araguaia. Em 1969, Bergson entrou para a clandestinidade e seus pais nunca mais o viram. Apenas em 2009 restos mortais encontrados na região do Araguaia foram reconhecidos como sendo seus. “Passados 24 anos da redemocratização (o texto é de 2009), ainda existem cerca de 140 desaparecidos políticos no Brasil” constata o jornalista. Nenhuma das famílias têm esperança de voltar a vê-los vivos. Mas lutam para lhes dar sepultura digna. Enterrar os mortos é a maneira de fazermos o luto e voltarmos a viver. Recusar esse direito é punir, mais uma vez, as famílias dos desaparecidos.

A pauta do livro é bastante variada, assim como o tom adotado. O escritor pode optar pelo ponto de vista de uma onça em Sou suçuarana. Ou, em Pobre Cristiano, ou fazer o “perfil” de um obus do século 19, relíquia da Guerra do Paraguai, para discutir a questão da memória histórica na América Latina. Ou falar pelo ponto de vista da faixa presidencial, em Com a palavra, a faixa, para evocar nossos hábitos republicanos.

O que não varia é o talento em buscar uma apuração inusitada, o capricho no texto, a originalidade na abordagem e o uso de técnicas ficcionais para fins de reportagem, traços que definem o jornalismo literário. São textos extensos para os padrões atuais do jornalismo impresso, mas que se leem com rapidez e prazer. Quando o jornalismo tradicional se encontra na encruzilhada da internet, parece interessante apostar cada vez mais em textos desse tipo, que não apenas informam, mas interpretam e iluminam os fatos sob ângulos originais. Sem o diferencial do texto, o jornalismo impresso condena-se à obsolescência.

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31.outubro.2012 09:40:44

As capas do JT

Hoje, em sua coluna no Estado, meu amigo Antero Greco homenageia o Jornal da Tarde ao lembrar uma de suas capas mais famosas – a do garoto chorando a derrota da seleção brasileira para a Itália na Copa de 1982.

Já havíamos comentado o assunto mais de uma vez no passado, quando nem ele nem eu pensávamos que um dia o JT viria a acabar um dia. Eu disse a ele que a minha lembrança de capa histórica do jornal era a da vitória do Brasil sobre a Inglaterra, por 1 a 0, na Copa do México em 1970.

Não tenho essa capa para reproduzi-la, mas o leitor a imagine, se é que não se lembra. Durante anos ela ficou emoldurada na entrada das redações do Estado e do JT. Aquele foi o jogo mais difícil daquela Copa e o gol não saía. Acabou vindo numa jogada antológica em que Pelé recebeu o cruzamento na área, dominou a bola no peito, atraiu a marcação de vários adversários e empurrou-a para Jairzinho, que entrava livre pela direita. Jair chutou e venceu Banks, tido como o maior goleiro da Copa e que já havia defendido uma cabeçada mortal de Pelé.

O que fez o JT? Deu uma foto do gol? Não. Driblou o óbvio e estampou uma sequência fotográfica do rosto de um torcedor. Na série de fotos se expressava a preocupação, a tensão, a expectativa e, por fim, a euforia com o gol. Foi o dia em que o JT fez cinema em sua capa.

Essa foi uma, entre várias ocasiões, em que o jornalismo do JT saía do óbvio. Uma vez consultei no arquivo a cobertura da morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967. Fiquei espantado pela extensão e pela qualidade do material. Uma aula de jornalismo. E de História.

Hoje o JT circula pela última vez, deixando em nós a lição de como texto, foto, espaço e talento podem e devem se fundir para dar origem às grandes narrativas jornalísticas.

Vai deixar saudades.

 

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Aos  80 anos, que não aparenta de jeito nenhum, Audálio Dantas é um mestre. Um mestre do jornalismo, sereno, incisivo e sem sinal de vaidade. Quem o conhece sabe da trajetória de vida exemplar. Das grandes reportagens em jornais e revistas O Cruzeiro e Realidade. Da coragem na condução do Sindicato dos Jornalistas em sua hora mais dramática, a do assassinato do jornalista Vladimir Herog nos porões do Doi-Codi, durante a ditadura militar.

 

Dessa faceta de jornalista exemplar, temos uma boa amostra em Tempo de Reportagem, que a editora Leya lança agora. São 13 relatos pinçados por Audálio de um longo trabalho na imprensa na condição de repórter, daquele tipo que, como se diz no jargão do ofício, não pode ter medo de gastar as solas dos sapatos, pois é nas ruas que estão as boas histórias e não no ar refrigerado das redações.

 

Da atuação política ficaremos sabendo um pouco mais adiante, quando lançar A Segunda Guerra de Vlado Herzog, editado pela Civilização Brasileira e que chega às livrarias em outubro. No livro, Audálio resgata a participação do Sindicato dos Jornalistas nesse episódio, um marco trágico pelo assassinato de Vlado, mas também divisor de águas do enfrentamento da ditadura pela sociedade civil.

 

Abaixo, a entrevista concedida por Audálio ao Sabático

 

 

Sabático – De todos os textos que você publicou em sua longa carreira, escolheu 13 para esta coletânea. Com que critério fez a seleção?

Audálio – Eu já havia publicado um livro chamado O Circo do Desespero, título de uma das reportagens, com 10 textos. Agora reuni mais dois, um sobre A Carolina Maria de Jesus, e outro sobre uma maratona do beijo, uma prova bastante parecida com a da maratona da dança, e que eu escrevi para a Playboy em 1993. Tirei também uma matéria chamada Restos, sobre pessoas que vivem do lixo, que acho demagógica. Mas há outra novidade. Para este livro, escrevi uma espécie de making of de cada reportagem.  Quer dizer, uma apresentação de cada uma delas, uma reavaliação desses textos, alguns já antigos, pelo meu olhar contemporâneo. O interessante é que às vezes o making of é tão ou mais extenso que a reportagem em si.

 

Sabático – Desses textos, qual você considera o mais importante?

Audálio – Sem dúvida a reportagem sobre a Carolina Maria de Jesus, que teve uma repercussão imensa, mudou a vida da personagem e também a minha. É um texto do qual eu não gosto muito, mas ele tem essa importância. E é exemplo de como um repórter sai da redação atrás de uma coisa e pode encontrar outra, se estiver de olhos abertos. Eu saí para fazer uma matéria sobre uma favela que estava se formando, no Canindé, na beira do Tietê, e descobri essa mulher que escrevia, mantinha um diário, tinha poemas e tudo o mais, e já andara por redações de jornais tentando em vão chamar a atenção para o seu caso. Não gosto do meu texto, tem muito adjetivo, é até piegas. Serviu para revelar o caso e possibilitou a publicação do livro da Carolina. Tirou 100 mil exemplares, isso nos anos 50, e foi traduzido em vários países. O prefácio da edição em italiano é do Alberto Moravia.

 

Sabático – Há essa constante na maior parte das suas reportagens, a presença do povo como personagem, não é? Bem distante do jornalismo de celebridades atual. Você não tinha dificuldade em vender algumas dessas pautas?

Audálio – Sempre tive essa busca por assuntos de fundo social. O tempo era outro, mesmo assim houve um editor que me censurou por colocar negros e pobres como personagens. Por exemplo, no caso de O Circo do Desespero, era uma abordagem diferente na cobertura habitual do carnaval, os desfiles, as mulheres gostosas, os bailes. Aqui, o caso era outro. Eram miseráveis atrás do prêmio, que se matavam numa maratona de dança interminável. Por sorte, o editor de O Cruzeiro, na época, era um intelectual, um homem sensível, Odylo Costa, filho. Entreguei o texto e ele, do Rio, mandou um telegrama dizendo que havia chorado ao lê-lo. Como digo no livro, acho que foi o maior elogio que recebi em minha carreira de repórter.

Sabático – No entanto, o texto não é piegas…

Audálio – Sempre o que pretendo é contar a história, da melhor maneira possível, sem chantagear ninguém ou procurar comover.

 

Sabático – Sim, mas os textos são fortes, emocionam e fazem pensar. Buscam assuntos fortes. Há uma proximidade temática entre essa reportagem sobre a a dança e a outra sobre a maratona do beijo, que fecha o livro.

 

Audálio – São parecidas por esse aspecto, o mundo cão, armado para explorar  pessoas desesperadas que tentam ganhar alguma coisa. Mas se você reparar, no primeiro caso são miseráveis atrás de uma recompensa para garantir necessidades básicas, como alimento. No outro, já se disputava um automóvel, um símbolo de status. No fundo, a mesma coisa, a exploração das pessoas, transformadas em espetáculo na sua agonia.

 

Sabático – A mais dura de todas, me parece, é a do Juqueri – Nossos Desamados Irmãos Loucos. E que também apresenta uma inovação formal da técnica jornalística. É um texto no qual se vê a compaixão pelo outro.

 

Audálio – Sim, para fazer uma reportagem desse tipo você tem de ser um observador. Mas precisa se identificar com o outro, com a dor do outro. Não existe a neutralidade; tem o seu ponto de vista ali. E, quanto à forma, como aquele era um universo fragmentado, eu também escrevi em fragmentos, em flashs isolados, que faziam sentido no conjunto. Faço um tipo de jornalismo que não se enquadra naquele esquema do lead, das informações básicas, etc. Acho que se pode usar técnicas da literatura, como supor um determinado pensamento na cabeça de um personagem. Mas tenho receio de que a expressão ” jornalismo literário” leve a pensar que estamos inventando alguma coisa, que estejamos fazendo ficção. O jornalista deve observar os fatos, ater-se às informações. Pode escrever como ficcionista, mas não fazer ficção. Deve também ouvir o máximo possível de pessoas, como fiz em Chile 70, logo após da eleição de Salvador Allende. Conversando com as pessoas de diferentes pontos de vista, percebia-se logo onde aquilo poderia dar. Não é algo que se faça num dia ou dois. Percorri o país de norte a sul, por mais de 3500 quilômetros e ouvi dezenas de pessoas antes de escrever.

 

Sabático – E quanto ao livro sobre o caso Vladimir Herzog?

Audalio – A Segunda Guerra de Vlado Herzog é um livro que eu estava devendo havia 37 anos. O caso já foi esmiuçado de vários ângulos, houve até filme a respeito, mas estava faltando colocar em destaque a atuação do Sindicato dos Jornalistas naquela ocasião. A resistência, o culto ecumênico na Catedral da Sé, toda a reação à morte do Herzog foi um desafio à ditadura, um divisor de águas no processo de liquidação do autoritarismo, e o nosso sindicato teve participação importante em tudo isso.

 

Sabático – Como você o escreveu?

Audalio – É uma história do Vlado, em sua parte biográfica. E a história daquele período, e das circunstâncias que o levaram à morte. Eu não havia anotado nada na ocasião. Levei um ano e meio lembrando e escrevendo. Nas horas vagas, é bom que se diga, pois não interrompi outras atividades profissionais para fazer esse livro. Fui lembrando. Há uma parte do livro que é um diário em primeira pessoa, o resto é em terceira pessoa. Há esse lado íntimo, pessoal. Mas também entrevistei muita gente. Ouvi mais de 50 participantes dos fatos, como José Mindlin, Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, jornalistas que haviam sido presos antes do Vlado como Sergio Gomes da Silva, Paulo Markun, Duque Estrada, a Clarice Herzog, muita gente.  Enfim, é um livro que eu sentia que devia ser escrito.

(Sabático)

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A vida é assim. Segue seu ritmo cadenciado, monótono até, na sucessão previsível dos dias. Até que alguma coisa excepcional acontece e tudo então parece carregado de sentido, para o bem e para o mal. Foi o que sucedeu naquele 17 de dezembro de 1961, quando uma prosaica matinê circense se transformou na maior tragédia de Niterói. O Gran Circo Norte-americano, com seu nome pomposo e tudo, pegou fogo num incêndio que ceifou a vida de centenas de pessoas, a maior parte delas crianças. É o tema do livro O Espetáculo mais Triste da Terra, do jornalista Mauro Ventura, que reconstitui a tragédia em seus vários aspectos.

Não à-toa, lá pelo fim do livro, Mauro Ventura, que é repórter de O Globo e filho do jornalista Zuenir Ventura, constata que uma experiência desse gênero desperta o que há de pior – e também o que existe de melhor – nas pessoas. Sim porque logo que começou a correr por toda Niterói a notícia de que havia centenas de pessoas queimadas e feridas em função do incêndio, montou-se, de forma espontânea, uma formidável rede de solidariedade para dar assistência aos feridos. Enquanto a caridade agia à luz do dia, à noite se movimentavam os que saqueavam cadáveres ou procuravam de alguma forma tirar partido, inclusive político, da tragédia.

O livro ilumina esses desvãos e dá devido valor aos atos de abnegação. Mas vai muito além disso. É um trabalho valioso de pesquisa, aliado à boa disposição de repórter que, como se sabe, não pode ter dó de sola de sapato e precisa manter o interesse em ouvir o próximo. Mauro entrevistou 150 pessoas, de médicos a sobreviventes do incêndio, passando por artistas do circo que estavam em cena na função daquela tarde de calor excessivo no verão de Niterói.

Não foi fácil levantar a memória daqueles dias, conta o autor. Apesar de todo o tempo transcorrido, o tema ainda é tabu. Muita gente se esquivava ou perguntava ao repórter por que queria revolver aquela história triste, acontecida havia tanto tempo. O próprio Mauro nem era nascido na época. Veio ao mundo apenas um ano e dez meses depois dos fatos que pesquisou. Só ouviria falar do assunto trinta anos depois, ao ver nas pilastras do Caju, zona portuária do Rio de Janeiro, a inscrição “Gentileza gera Gentileza”. Eram escritas pelo Profeta Gentileza, um tipo popular carioca que, dizia-se, havia enlouquecido quando perdeu toda a família no incêndio do circo, uma versão falsa. José Daltrino era um pequeno empresário de cargas. Diz-se que quando soube do incêndio, saiu ao quintal da casa e cobriu-se de lama. Abandonou tudo, empresa e família, para, em sua versão, atender a uma voz que o mandava consolar as vítimas do incêndio e pregar a palavra de fraternidade entre os homens.

Daltrino não foi o único tocado pelo incêndio do circo. Sem ouvir vozes místicas, mas fiel ao seu juramento de médico, um cirurgião, destinado à fama e ao jetset, empenhou-se a fundo no tratamento dos queimados. Mauro Ventura leu na autobiografia de Ivo Pitanguy que o atendimento aos queimados de Niterói fora “a experiência que marcara mais fortemente a minha vida”. Até então, a cirurgia plástica era considerada o ramo fútil da medicina. No tratamento dos queimados, ganhou respeito da opinião pública e credibilidade na classe médica.

Por fim, Ventura ouviu de uma tia, na época moradora de Nova Friburgo, que pretendera levar as duas filhas, então crianças, ao espetáculo, mas desistira na última hora. Talvez tenha sido uma intuição. Talvez. De qualquer forma, a tragédia do circo despertara a curiosidade do repórter que agora pressentia, apesar dos anos decorridos, o cheiro de “uma boa história”, isca que costuma fisgar jornalistas de fato vocacionados para a profissão.

E essa história começa pelo fato de que o Gran Circo Norte-americano nada tinha de norte-americano. Pertencia a Danilo Stevanovich, cuja família, até hoje, e apesar do sinistro de Niterói, continua no ramo circense. Batizou seu estabelecimento de “norte-americano” porque essa origem seria sinônimo de qualidade, competência, eficácia, espetáculo, valores positivos associados aos Estados Unidos desde o fim da 2ª Guerra Mundial.

Não que os próprios americanos não tivessem problemas. Afinal, 1961 não era um bom ano para eles. O astronauta soviético Yuri Gagarin tornara-se o primeiro homem a orbitar o planeta no interior de um artefato da indústria aeroespacial inimiga. Gagarin sustentava que, vista de fora, a Terra parecia azul, mas a cor que tirava o sono dos americanos era a vermelha, da ameaça comunista.  Paranoia à parte, aos olhos dos brasileiros a simples menção de que algo era americano trazia à mente qualidades superlativas, da música pop ao cinema, passando pelo circo.

No entanto, tal selo de qualidade importado não se aplicava a alguns quesitos básicos do circo de Stevanovich, a começar pela lona, fabricada de material facilmente inflamável, ao contrário do que proclamava a propaganda do proprietário.

Foi pela lona que tudo começou. Quem deu o aviso foi a trapezista Nena, irmã do dono do circo, que fazia seu número com dois colegas. Um deles, Grotto, viu uma luz suspeita na parte de baixo da lona. Desceu, tomou Nena pelo braço e esperaram que o terceiro artista, Sanchez, também pulasse para lugar seguro. Só então ela deu o clássico grito de “Fogo!”, senha para a debandada geral. As chamas subiram com velocidade e fúria incríveis e, como não havia saída de emergência, transformaram o circo em armadilha infernal para os cerca de 3 mil espectadores da matinê. Muitos foram salvos pelo pânico da elefanta Semba que, em sua fuga, abriu enorme buraco na lona por onde muita gente passou. Claro que, em sua trajetória desesperada, Semba também pisoteou outros tantos.

O livro avança do sinistro, como dizem os agentes de seguro, para os seus desdobramentos. As cenas em hospital, por exemplo, as histórias da gente simples, relembradas muitos anos depois. Como a de Lenir, que fez questão de levar toda a família ao espetáculo depois de saber que a girafa era “xará” de sua filha, Regina. Naquela tarde, Lenir perdeu o marido e as duas filhas. Escapou viva, com muitas sequelas, depois de enfrentar nove meses de hospital.

Há também registro da reação de gente importante, como o então presidente João Goulart, que visitou pacientes, impressionou-se com a extensão dos ferimentos de muitos deles e, depois, sentou-se numa sala vazia, colocou a mão no rosto e chorou. Quem conta é um médico, testemunha do desalento sincero de Jango diante de tanta miséria humana.

Há também a crônica policial. Qual seria a causa do incêndio? Acidente, provocado por negligência com itens de segurança? Incêndio criminoso? A versão oficial ficou com a última alternativa com a prisão de um certo Dequinha, de 22 anos, que fora empregado do circo e, despedido, jurara vingança. Ele e dois cúmplices foram presos, mas nem as vítimas acreditavam na culpa de Dequinha (apelido de Adilson Marcelino Alves), um doente mental que gostava de confessar crimes imaginários. Um juiz chegou a sugerir para ele a mesma pena de Eichmann, o carrasco nazista enforcado em Jerusalém em 1962. Em 1973, Dequinha fugiu da cadeia e apareceu morto, com vários tiros no corpo. Até o número de disparos é controverso. Alguns jornais falam em três, outros em treze. Nunca se descobriu quem puxou o gatilho.

De real, sobre o incêndio, sabe-se que a lona era de material inadequado, que não havia saídas de emergência como manda a lei, que as instalações elétricas eram precárias e que o principal hospital de Niterói, o Antonio Pedro, estava em greve naquele domingo. Sabe-se também que morreram, segundo dados oficiais, 503 pessoas, na hora do incêndio ou depois, de sequelas. Há quem ache o número conservador e fale em até mil vítimas no Gran Circo Norte-americano.

Não há certezas e nem como pesquisar esses dados. Em O Espetáculo mais Triste da Terra, Mauro Ventura confronta versões e faz arqueologia. Uma arqueologia das cinzas, literalmente.

 

Trecho:

“O fogo teve início a cerca de vinte metros da entrada, do lado esquerdo. Veio de baixo, a menos de três metros do chão, mas lambeu a lona com tamanha rapidez que, ao ser visto, não pôde mais ser contido. As labaredas avançaram com uma fúria inconcebível num espaço que até pouco antes era dominado pela alegria das crianças. A madeira das arquibancadas e a serragem no piso ajudaram a propagar o incêndio e a encher de fumaça o ambiente. Muitos espectadores estranharam o aumento súbito da temperatura, mas atribuíram o desconforto ao calor excessivo do dia…O incêndio democratizou as mortes. Suas vítimas foram principalmente os que estavam nos camarotes e cadeiras numeradas, mais caros, mais próximos do picadeiro, mais distantes da saída principal e separados das arquibancadas por uma cerca de madeira. Crianças, adultos e velhos foram atropelados e pisoteados quando tentavam escapar. O perigo também vinha do alto. À medida que as chamas avançavam pela cobertura, davam o origem a uma chuva de gotas incandescentes, que atingiam corpos e cabeças.” (pág. 17)

Serviço: O Espetáculo mais Triste da Terra – o Incêndio do Gran Circo Norte-americano, de Mauro Ventura. 320 págs + 32 pag, do caderno de fotos. Editora Cia das Letras, R$ 46.

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Começamos praticamente juntos no Caderno 2 do início dos anos 1990, ambos sob a batuta do grande editor José Onofre. Piza chegou ao caderno recomendado por pesos-pesados da profissão como Paulo Francis e Ruy Castro. Dele, Ruy um dia me falou “Um rapaz de 20 anos que lê Mencken é algo muito raro hoje em dia”. Era isso que chamava a atenção em Daniel: a quantidade de informações eruditas que armazenara em tão pouco tempo de vida.

Com sua cultura letrada precoce, Piza estreou no Caderno 2 escrevendo sobre assuntos em geral reservados aos mais experientes. Lembro que um dos seus primeiros textos no Estado foi uma resenha da coletânea 11 Ensaios, de Edmund Wilson, tarefa complicada da qual se saiu muito bem. Dessa e de outras. No período de sua primeira passagem pelo Estado, Daniel escrevia, e bem, sobre vários assuntos. Embora um tanto concentrado em literatura e artes plásticas, exercia já o ecletismo que deu o tom em toda a sua carreira.

Saindo do Estado, foi para a Folha e, de lá, transferiu-se para a Gazeta Mercantil, onde teve sua mais fértil experiência como editor. Durante alguns anos, o Caderno de Fim de Semana, por ele dirigido, tornou-se referência no meio do jornalismo cultural. Um relato desse período está em seu livro Jornalismo Cultural. Abrangente, bem escrito, leve sem deixar de ser profundo, o Fim de Semana tornou-se o mais popular caderno do velho jornal econômico. Nele, Piza iniciou a coluna Sinopse, que escreveu até o fim da vida.

Trouxe a coluna para o Estadão, em 2000, quando retornou, já na condição de editor-executivo. Pensada, de início, como lugar de decantação do vasto consumo cultural do seu titular, a coluna reservava espaço também para o futebol, cinema, análise política, econômica ou comportamental. Na Sinopse cabia de tudo, pois, se havia uma convicção de seu autor era de que tudo se comunicava com tudo e que uma disciplina ilumina a outra, como não percebem os que têm apego à especialização.

Quem lia sua coluna cultural, repleta de referências eruditas, alfinetadas políticas, ironias e potenciais polêmicas, não poderia adivinhar o papo ameno que mantinha no contato pessoal. Era informal, gozador e ouvia o que o outro tinha a dizer. Também foi ameno em suas relações de chefia. Outro dia, por acaso, falava com o jornalista Orlando Margarido quando o nome de Daniel Piza entrou na conversa. Em situações e épocas diferentes, havíamos tido Piza como superior hierárquico nas redações. Ele, como repórter do Caderno de Fim de Semana da Gazeta Mercantil, entre 1998 e 2000. Eu, quando era editor do Caderno Cultura do Estadão tendo Daniel como coordenador da área. Lembramos que, no trato profissional, o polemista tão assertivo, que surgia na coluna, desaparecia para dar lugar ao chefe compreensivo e respeitoso pela autonomia de quem com ele trabalhava. Se, caso raro, Daniel discordava de um artigo ou de uma abordagem, discutia e trocava ideias com seu autor ou com o editor. Não impunha e nem vetava. Debatia. Esta é a marca, aliás, das pessoas intelectualmente seguras de si.

Escrevo isso tudo tentando evitar o tom piegas dos obituários, que o próprio Daniel abominava. Como todos nós, tinha seus defeitos e também inúmeras qualidades. Entre elas, para mim, as maiores que um jornalista pode ter: por um lado, a prosa límpida que expressava sua cultura de base e a diversidade sempre renovada dos seus interesses, texto esculpido na leitura do seu autor predileto, Machado de Assis; por outro, o respeito ao interlocutor, em especial se dele divergia por completo.

Mesmo quem discordava das ideias de Daniel Piza há de sentir sua falta neste já tão árido panorama cultural brasileiro.

 

(Este é o texto na íntegra. Na versão impressa saiu apenas uma parte).

 

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A primeira frase de O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm, soou como uma sentença inapelável nas redações quando o livro foi lançado em 1990: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. A condenação não vinha de fora – Janet Malcolm é, ela própria, escritora e jornalista, com vasto currículo na revista New Yorker, além de autora de vários livros, com temas tão variados quanto a vida de Tchekov e os arquivos secretos de Freud. É autora de sucesso. O Jornalista e o Assassino, agora relançado no Brasil, vem enriquecido de dois posfácios, um da própria autora e outro do diretor de redação do jornal A Folha de S. Paulo, Octávio Frias Filho.

Qual seria o “fazer” jornalístico sobre o qual recai a sentença de Janet? Simplesmente a prática mais comum da profissão – a entrevista. Ela entende que a relação entre repórter e fonte é sempre assimétrica, e com grande prejuízo para a segunda parte. Afinal, tanto jornalista como entrevistado querem alguma coisa um do outro, como sabe o mais ingênuo dos focas. Na situação mais simples, um deseja a notícia, uma história em primeira mão que poderá lhe ser de grande valia na carreira. O outro aspira a certa notoriedade, que apenas a divulgação de suas ideias e de seu rosto em veículo de grande expressão pode lhe garantir.

É um jogo, no qual ambos têm tanto a lucrar como a perder. Mas, no entender de Janet, a fonte é, invariavelmente, a parte fraca na relação. Escreve, sem rodeios: “Ele (o jornalista) é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em se tornar tema de um escrito não ficcional aprende – quando o artigo ou livro aparece – a sua própria dura lição.”

Ou seja, quando o produto da conversa vem a público, é muito comum a fonte descobrir que a relação mantida com o jornalista era baseada em um engodo. Que este não teve, em qualquer momento, a mínima intenção de divulgar o ponto de vista da fonte para a sua história. Pelo contrário, o jornalista sempre teve em mente divulgar a sua própria impressão sobre determinado fato. Manteve a relação em termos amistosos apenas enquanto dela necessitava para apurar determinados elementos da história. Depois, fim de conversa. Ao escrever, torna-se a parte dominante e impõe a sua própria versão. Para a fonte, seduzida durante o tempo das entrevistas, esse comportamento pode parecer o de um traidor.

Qualquer jornalista que tenha algum tempo na profissão sabe por experiência própria que não são poucos os desencontros nessa relação muito particular. Muitas vezes, ao verem ideias que julgam distorcidas publicadas em letras de imprensa, os entrevistados exclamam: “Mas eu não disse isso, alteraram minhas palavras”. Por isso, jornalistas experientes fazem questão de gravar entrevistas, sobretudo quando tratam de matéria polêmica. Mas essa providência tecnológica apenas atenua o problema, pois ninguém publica nada sob forma literal. Por uma série de questões técnicas, os depoimentos devem ser editados. E a edição sempre poderá ser tachada de tendenciosa. E às vezes é mesmo.

O livro de Janet Malcolm não se baseia em abstrações. Trata de um caso real, e bastante doloroso. Um crime terrível, na verdade, o assassinato de uma mulher grávida e de suas duas filhas a golpes de bastão e facas. O principal suspeito, e que acabou condenado, era o próprio marido da vítima, o médico Jeffrey MacDonald. Na época (1970) a serviço do exército norte-americano, MacDonald alegou que a casa fora invadida por bandidos e ele próprio saíra ferido do assalto. Na verdade, apresentava ferimentos muito leves e sua tese nunca pôde ser comprovada. No entanto, foi absolvido pelo tribunal militar.

Quando aguardava novo julgamento, foi procurado pelo jornalista Joe McGinnis para uma entrevista. MacDonald gostou tanto do repórter que lhe propôs um arranjo: franquearia sua intimidade e mesmo os bastidores da defesa para que McGinnis escrevesse um livro expondo o seu ponto de vista. Dividiriam a renda do livro e isso ajudaria a custear a defesa. Conviveram durante quatro anos em camaradagem e aparente amizade. Quando o livro – Fatal Vision, calhamaço de 700 páginas – saiu, em 1983, McDonald sentiu-se traído. Longe de esposar sua causa, o McGinnis o apresentava do início ao fim como perigoso psicopata.

Condenado à prisão perpétua no segundo julgamento, McDonald resolveu processar McGinnis pelo livro, sustentando que suas falas foram distorcidas e o autor abusara de sua boa-fé. No primeiro julgamento McDonald contra McGinnis não houve unanimidade entre os jurados. Antes que o segundo ocorresse, as partes entraram em acordo e McGinnis teve de pagar 325 mil dólares a McDonald para encerrar a pendência.

O caso é explosivo porque levanta a dúvidas sobre a liberdade de expressão e sobre a ética jornalística – e de como uma pode contradizer a outra. A acusação de McDonald baseava-se em que sua boa-fé no jornalista fora iludida. O jornalista o fizera crer que trabalhava numa versão que seria favorável ao acusado quando tinha coisa muito diferente em mente. A defesa de McGinnis baseia-se na liberdade de expressão. O autor teria compromisso mais forte com a verdade dos fatos e do que com sua fonte. Se manteve o relacionamento usando de atitudes ambíguas, foi no interesse do livro. E da verdade, que deve ser conhecida em benefício do público.

Ora, acontece que a “verdade”, para Janet Malcolm, não é um termo tão óbvio como ingenuamente se acredita. A verdade, para alguém tão influenciada pela psicanálise, é algo de impossível, no limite. Trabalhamos com versões e podemos escavar tão fundo quanto quisermos, sem jamais atingir a realidade objetiva, a verdade de um fato, e mais ainda de fatos controversos como um crime jamais confessado pelo suposto assassino. A própria Janet se debruçou sobre casos semelhantes de conflitos de versões ao se interrogar, por exemplo, sobre os diferentes relatos sobre a cena da morte de Tcheckov. O que teria acontecido, de fato? Ninguém sabe.

Mais ainda: ela própria havia sido processada no passado por uma situação semelhante à que analisa em O Jornalista e o Assassino. Em Nos Arquivos de Freud, descrição da luta pela posse da correspondência entre Sigmund Freud e seu amigo e colega Wilhelm Fliess, Janet entrevista um dos curadores das cartas, Jeffrey Masson, que, posteriormente, a processa, acusando-a de atribuir a ele declarações infundadas. Desse imbróglio psicanalítico Janet foi absolvida. Mas muita gente (McGinnis entre eles) insinuou que escrever O Jornalista e o Assassino, seria, para ela, uma espécie de exorcismo desse processo anterior.

Janet não evita a questão e a aborda em seu posfácio. Admite que, por mais que se defenda, ficará sempre com a mácula de haver caluniado Masson, mesmo que isso não tenha acontecido. Por outro lado, apesar do processo e da reparação pecuniária, o relato definitivo do caso McDonald está estabelecido no livro de McGinnis e não há força que possa apagá-lo. O desmentido nunca tem a força denúncia, e, por isso mesmo ela entende que se deva lidar com tanta delicadeza e rigor com o que dizem os entrevistados aos jornalistas.

Apesar de vivermos num mundo de versões, temos a obrigação de cuidar para que elas sejam tão próximas quanto possível de uma intangível verdade. Essa observação é particularmente importante em nossa época, em especial quando o jornalismo literário ganha importância nas redações e entre o público. Usar técnicas de romance para escrever uma matéria é uma coisa, e isso pode ser ótimo; tornar-se ficcionista é algo que um jornalista não pode se permitir. Seu compromisso, por fluido que seja o termo, é com algo chamado realidade. E, mesmo que ela se esconda atrás de inúmeras versões, insuficientes e contraditórias, sua obrigação é procurá-la obsessivamente. Não interessa se o graal existe ou não; é preciso buscá-lo.

O Jornalista e o Assassino não se propõe resolver esses impasses éticos. Provavelmente não comportam uma solução perfeita. A  importância do livro está em levantá-los e colocá-los como espelho diante da comunidade jornalística. Afinal, como diz Janet Malcolm, os mais sensatos sabem que o melhor que podem fazer ainda não é o suficiente. E os outros fingem que não existe problema algum e, se existia, eles já o resolveram.

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16.fevereiro.2011 09:57:35

Para ler

Assino jornal para ler. É óbvio? Nem tanto. Na cabeça de algumas pessoas que hoje dirigem jornais, “o leitor não o é”, na frase famosa já não me lembro de quem.

Claro que se o bom texto vier embalado de maneira caprichada, com fechamento competente (título atraente, legendas inteligentes), diagramação leve, belas fotos, etc., a leitura se torna mais prazerosa. Ninguém é contra a excelência gráfica do produto.

Mas, no fundo, no fundo, quem gosta de ler se importa mesmo é com a qualidade do texto que lhe é oferecido. Qualidade, aliás, cada vez mais rara, como sabe qualquer um que tenha exercido a função de editor em alguma etapa da sua vida profissional.

A cada dia é mais difícil encontrar quem consiga conciliar substância e leveza, graça e profundidade, conhecimento do assunto de que trata, despido de pedantismo. Por isso, quando se encontra um profissional competente, um jornalista-escritor na melhor acepção do termo, o normal seria valorizá-lo. Segurá-lo como um time de futebol segura um craque, um fora de série.

Nem sempre é o que se observa. Muitas vezes os jornais e revistas se comportam como se os seus melhores quadros fossem dispensáveis. “As prioridades são outras”, dizem. Que prioridades, pergunto eu? Contratar mais um gerente? Reformar o estacionamento do prédio? O que pode haver de mais indispensável num jornal do que pessoas que escrevam bem?

No momento estou dando um curso de jornalismo cultural na pós-graduação da FAAP. Se eu tivesse uma única coisa a dizer aos alunos, seria esta: a grande revolução do jornalismo contemporâneo seria fazer o jornal que pense única e exclusivamente…no leitor. Esquecer um pouco a concorrência, deixar de tentar (inutilmente) imitar a TV e a internet (são veículos diferentes) e concentrar-se no fundamental, na apresentação de textos bem apurados, bem pensados e, acima de tudo, bem escritos. Para isso, precisa de quem os escreva. É óbvio? Nem tanto.

Jornal que não valoriza seus melhores profissionais está dando um tiro no pé. Condenando-se à irrelevância que, acho eu, é o maior perigo que ronda o jornalismo. Tornar-se dispensável. Provocar no leitor aquela sensação blasé de que tanto faz ler como não ler porque de qualquer forma não estará perdendo grande coisa.

No jornal, o jornalista é o fundamental. Ou deveria ser.

Este texto é homenagem a um colega brilhante e grande amigo.

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Mais um festival se foi. Estou no aeroporto em Brasília esperando voo para Sampa. Penso nos dias passados. O resíduo deles ainda precisa decantar. As primeiras impressões são contraditórias. Alguns filmes bons, outros meia boca, o que é normal. Tem uma coisa chata, que é o cara vazio e pretensioso e se acha melhor que os demais. A minha impressão é que essa atitude mental se reflete no cinema da pessoa. Sei lá. Patifes ainda podem fazer boa arte; tenho minhas dúvidas quanto aos idiotas.

Chata também foi a confusão causada pelo vazamento da premiação pelo UOL. A internet reforçou esse vício jornalístico infantil de “dar a notícia antes, a qualquer preço”.  Há poucos anos, o furo era de um dia. Agora é de minutos, segundos. Um portal dá a matéria cinco minutos antes do outro e se acha o máximo, candidato a um desses inócuos prêmios de jornalismo.

Claro, já posso ouvir coleguinhas defendendo: informar o público o mais rápido possível é o nosso dever etc. Verdade. Em se tratando de um acidente, uma queda de presidente, uma epidemia, quanto mais pressa melhor. Mas, uma premiação de cinema? No que muda saber agora ou meia hora depois? O que altera na ordem do universo? Acho tolo, tolo, uma infantilidade mesmo.

E há o caso do embargo quebrado. Isso não se faz. Prejudica todo mundo, a começar pelo próprio festival que teve a sua festa de encerramento arruinada, esvaziada, ridicularizada. Quem ganhou com isso? O público é que não foi. Tanto não foi que as pessoas vaiaram, muitas foram embora se sentindo traídas. Ninguém vai a uma premiação se souber o resultado de antemão.

Algum idiota, neste momento, deve estar se achando o máximo, e que deu uma grande tacada ao quebrar o embargo. Acha que deu um furo, quando foi apenas traíra. Talvez um dia esse tipo de “jornalismo” entre em decadência. Mas confesso que não tenho muita esperança nisso.

Enquanto isso, convém desconfiar desses caras. Um embargo é um acordo de cavalheiros. Mas esse tipo de acordo só funciona quando existem cavalheiros dos dois lados.

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Durante a Mostra, participei de uma conversa com o crítico francês Michel Ciment, da revista Positif. Ciment, para quem não sabe, é um dos críticos de maior prestígio na França. Além de crítico, é entrevistador de mão cheia, com vários livros de entrevistas publicados. Sabe como conduzir uma conversa, que é a arte da entrevista.

Vocês sabem também que essa arte foi banalizada a ponto de se transformar na linha de montagem das junkets, em que as “celebridades” ou “talents”, como dizem os americanos, reúnem-se em grupos de alguns jornalistas para que todos possam fingir que estão realizando entrevistas individuais. Fazem isso por horas a fio, o dia inteiro.Os jornalistas fazem sempre as mesmas perguntas e ouvem sempre as mesmas respostas.

Entrevista bem-feita é outra coisa. Exige horas de convívio, preparação, conhecimento e inteligência de parte a parte.

Ciment deu três conselhos aos candidatos a entrevistadores.

1)      Prepare-se corretamente para a entrevista. Leia bastante material sobre o entrevistado, veja os seus filmes e, se já os conhecer, reveja. Quando o entrevistado percebe que o entrevistador é familiarizado com seu universo, tudo começa a fluir melhor. Pense nas perguntas que gostaria de fazer. Não deixe tudo por conta do improviso. Quando se está preparado, até o improviso funciona melhor.

2)      Não faça perguntas muito extensas, para exibir seu conhecimento. As perguntas devem ser simples e diretas. Quando muito extensas e detalhadas, as perguntas já contêm nelas a sua própria resposta. Ou seja, o entrevistado torna-se dispensável.

3)       Não se apresse em preencher com suas palavras o silêncio do entrevistado. É após o silêncio que, em geral, vêm as respostas mais interessantes.

Segundo a minha própria experiência, esses são excelentes conselhos. Hoje em dia se entrevista de qualquer jeito. Qualquer conversa de cinco minutos por telefone é considerada uma entrevista. Enfim, essa técnica do jornalismo banalizou-se ao ponto de se tornar moribunda.

Revive quando um grande entrevistador encontra um entrevistado inteligente, com coisas  a dizer e com boa vontade para esse trabalho conjunto.

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23.setembro.2010 12:07:21

Mestre dos mestres

Para variar, a melhor coisa da imprensa brasileira é a coluna do Luis Fernando Verissimo, hoje no Estadão. Leia aqui.

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