Amigos, os Estaduais terminaram e agora o negócio é olhar de frente para o Campeonato Brasileiro, que começa neste fim de semana. O torcedor já está maduro para saber que não existe grande valor nas projeções que de hábito são feitas antes de cada campeonato. Ainda mais quando se trata de disputa tão longa, que começa agora e termina apenas em dezembro. Quanta água ainda não vai rolar até lá? Times serão desfeitos e em seguida refeitos. Jogadores oscilarão. Técnicos cairão e outros assumirão em seus lugares. Os discursos de sempre serão pronunciados por jogadores, pelos “professores”, pelos cartolas e pela mídia. O futebol se reencontra com sua rotina dos últimos anos, num campeonato disputado pela soma de pontos conquistados, sem maracutaias ou viradas de mesa. Essa constância da fórmula de disputa é algo raro, a ser comemorado em futebol tão cheio de problemas com o nosso.
Também é claramente impossível olhar para a frente sem levar em conta o que acabou de ocorrer. Não à toa se diz que os campeonatos estaduais funcionam como “laboratórios” para disputas mais importantes. Às vezes penso que é apenas um clichê, que repetimos sem atentar para seu significado real. Chamamos de laboratório o Estadual apenas para indicar que ele não tem grande importância, pelo menos não a mesma de décadas passadas? Pois deveríamos levar a palavra ao pé da letra: é o campeonato no qual se experimentam coisas. O laboratório é o espaço do erro, e também onde se descobre o novo. Tem de ser assim. Sem a disposição de errar não se consegue inovar. Tivemos isso? Claro que não. Vimos o lançamento de jogadores jovens? Não. Assistimos a mudanças na armação tática dos times? Não. Buscamos uma fórmula de disputa mais interessante e sintética? Não e não. Desse modo, ficamos no plano puramente semântico, em que os Estaduais são chamados de laboratórios mas nos quais nada se experimenta.
Apesar de continuarmos a chamá-los assim, de laboratórios, os Estaduais são vistos como disputas como outras quaisquer, nas quais o importante é sagrar-se vencedor. Nesse sentido, o Corinthians, campeão de 2013, é um daqueles que não experimentaram nada. Comportou-se da forma como todos conhecem, com o jogo prático e consistente que lhe tem garantido títulos importantes. Deve continuar sua trajetória vitoriosa, a não ser que sofra muito com a janela de transferências. Arrisca-se a perder Paulinho, o que é grave, mas inicia o Brasileirão como o time a ser batido. Sua força é o conjunto, não os indivíduos, embora, claro, estes contem e muito. Já o Santos vive situação inversa. Não sabe se vai ou não ter Neymar, o que muda tudo. O time não engrenou, alguns contratados não se acertaram, muita coisa deve ser mudada. Muricy, em sua autocrítica, deveria pensar por que não conseguiu até agora encontrar um time. A falta de padrão tático é evidente. O Palmeiras deve encarar a sua rotina na Série B e o São Paulo, que no papel é um belo time, na prática também acabou no saldo devedor.
Na verdade, o grande tira-teima do Campeonato Brasileiro de 2013 será entre Corinthians e Atlético-MG, os únicos a fornecerem um contraste claro entre dois estilos de jogo. O Corinthians é sólido, mas só encanta Tite e a sua imensa torcida. O Atlético-MG é diferente. Faz ótima campanha na Libertadores, tornou-se campeão mineiro e é o único time brasileiro a despertar admiração pela maneira vistosa de jogar, mais do que pelos resultados. Cuca, até agora, conseguiu conciliar resultado e espetáculo, o que é o melhor dos mundos. Falta provar que esse estilo pode se impor ao pragmatismo sem sal do Corinthians. Falta ao Atlético um grande título, como o Brasileiro ou a Libertadores, de preferência os dois. Sem coroa, não há reinado.
Queiramos ou não, citemos ou não os grandes que nunca venceram, as conquistas são a insofismável prova dos noves do futebol.
Afinal, foi o Corinthians que jogou bem demais no primeiro tempo ou o Santos que jogou muito mal? A pergunta parece aquela publicidade do biscoito que vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais. Mas acho que vai um pouco além disso e pode nos dizer alguma coisa sobre a partida do próximo domingo na Vila.
Sem dúvida, o Corinthians voltou a ter aquela pegada que o levou aos títulos da Libertadores e do Mundial de Clubes. Uma implacável marcação por pressão, um entrosamento e unidade tática dificilmente encontráveis por aqui. Mas também me parece verdade que o Santos fez um primeiro tempo abaixo da crítica, fruto, entre outras coisas, da escalação errada de Muricy Ramalho. Não vou aqui fritar o treinador, para mim um dos mais competentes do País. Mas que ele errou ao escalar Miralles e, em especial, Marcos Assunção, parece fora de dúvida. Tanto assim que voltou para o segundo tempo sem os dois. Com Felipe Anderson e André o time reagiu e o que se viu foi outro jogo.
Desse modo, acho que o primeiro tempo foi uma combinação de dois fatores, soma da competência corintiana com a incompetência santista. Se o placar refletisse o que foram esses 45 minutos (47, na verdade), o Corinthians teria virado com três gols de vantagem. Como o jogo se chama futebol, ficou apenas em 1 a 0. Barato para o time santista. Já o segundo tempo foi mais equilibrado, fazendo sentido que Corinthians e Santos tenham marcado um gol cada. Placar final, 2 a 1, que dá aos santistas a esperança de revertê-lo na Vila. E por que não? Basta ao Santos ganhar por um gol de diferença para levar a disputa aos pênaltis. Ou vencer por dois e ganhar o quarto título paulista consecutivo. Mas, cá entre nós, tem de apresentar muito mais futebol do que o mostrado no domingo (mesmo no segundo tempo) se quiser vestir a faixa mais uma vez.
Há alguns outros fatores em ação. Nesta semana o Santos descansa e o Corinthians trabalha. E como trabalha! Tem de passar por nada menos que o Boca Juniors para ir adiante na Libertadores. E não joga pelo empate, não. Tem de vencer. Pelo menos por 1 a 0 para decidir nos pênaltis. Em tese, tem pela frente um desafio tão grande quanto o do Santos no domingo.
É verdade que este é o pior Boca dos últimos tempos. Mal classificado no Campeonato Argentino (18.º lugar!), com seu principal jogador, Riquelme, ainda como dúvida, o Boca tem o grande trunfo em seu técnico, Carlos Bianchi, quatro vezes campeão da Libertadores e fama de se dar sempre bem contra o futebol brasileiro. Ok, técnicos têm seu peso, mas não entram em campo e jogam. Por melhores estrategistas que sejam, precisam de jogadores para colocar em prática o que imaginam na prancheta. E, ao que parece, falta a Bianchi essa matéria-prima. Mas, enfim, o Boca é sempre o Boca, embora o Corinthians já tenha adquirido, ano passado, a prática de enfrentá-lo e derrotá-lo.
De modo que são vários os cenários do jogo de quarta-feira e que podem ter reflexos sobre a partida de domingo, como se a Libertadores dialogasse com o Paulistão. O Boca pode amarrar o jogo e conquistar um empate ou mesmo arrancar uma vitória no Pacaembu e assim eliminar o Corinthians. Ou, o que é mais provável, o Corinthians passa pelo Boca Juniors num jogo difícil e exaustivo.
No primeiro caso, chega com certo desânimo à Vila, mas também com a convicção de que o título paulista é a única compensação para um primeiro semestre ruim. De qualquer forma, como a derrota costuma abaixar o moral da tropa, um tropeço do Corinthians pode beneficiar o Santos. No segundo caso, vitória difícil do Corinthians sobre o Boca, o Santos enfrentará um time talvez cansado, mas feliz e embalado. São tantas as alternativas que, a rigor, o Santos só tem uma: fazer, em uma semana, o time apresentar o futebol que até agora não jogou.
* Coluna de futebol publicada no Esportes do Estadão
O título é obviamente motivado pelo fato de os dois jogos semifinais do Campeonato Paulista não terem sido bons. Nada bons. Aliás, para falar a verdade, tanto Mogi Mirim 1 x 1 Santos como São Paulo 0 x 0 Corinthians foram muito chatos. Ambos foram “salvos”, no limite, pelas cobranças das penalidades máximas, que, pelo menos, proporcionam emoção aos torcedores. Mas não podemos contar com pênaltis para salvar a cara de jogos medíocres, não é?
Digo isso porque, em tese, Corinthians e Santos têm tudo para fazer grande essa final desdobrada em duas partidas. Aparentemente, têm trunfos: boas equipes, entre as melhores do País; alguns craques, como Pato e Neymar, e torcidas que trazem a memória de antigas rivalidades. Claro que nada disso é garantia prévia de dois bons espetáculos. E a palavra é essa: “espetáculo”. Seria preciso voltarmos a ver o futebol como competição, algo que ele sem dúvida é, antes de qualquer consideração, mas, igualmente importante, como disputa que pode produzir beleza.
Esse é um dos subprodutos mais nobres do esporte em geral e do futebol em particular. Colocamos 22 marmanjos para disputar quem consegue colocar a bola mais vezes na meta adversária e, dessa atividade, surpreendentemente, vemos nascer lances de insuspeitada beleza. Daí alguns chamarem de “futebol arte” a modalidade que se preocupa não apenas em ganhar, mas em produzir fatos estéticos em campo. Movimentos destros e harmoniosos, ou jogadas surpreendentes, ou ainda a inteligência de um jogo tático bem aplicado, ou aquela bola que renuncia à linha reta e descreve uma curva em aparência impossível. Tudo isso produz a beleza do jogo. E a torcida, que deseja ver seu time vencer, também é sensível a ela. A torcida deseja o prato feito da vitória, mas não dispensa o caviar do jogo bem jogado.
Teremos isso nos dois jogos que finalizam o Paulistão de 2013? Só aquelas entidades que jamais foram vistas e, segundo dizem, regem os estádios poderiam responder. Mas os deuses do futebol teimam em permanecer calados. Ou só falam depois que a bola parou, o que dá no mesmo.
Há, no entanto, jogadores que se preocupam com esse aspecto. Quando Neymar inventa uma firula, não está desprezando o adversário, mas criando, ou tentando criar, um momento de magia para seu público. É como o violonista que tira da cartola um acorde inesperado ou embeleza a melodia com um toque sutil e original. Quem já ouviu o grande Baden Powell sabe do que estou falando. Da mesma forma, quando Pato toca na bola, sentimos que algo diferente pode acontecer. Ainda que ele não esteja na melhor forma (quando estará?), é raro que protagonize uma jogada banal. Desse modo, são os craques, esses jogadores diferenciados, quem têm a responsabilidade de fazer o espetáculo acontecer.
Os melhores sabem disso. Numa entrevista, Pelé me disse que rezava para o jogo não terminar 0 a 0. Que viessem muitos gols, beleza e emoção para a torcida que se havia deslocado ao estádio. É o que chamo de possuir o senso do espetáculo, o sentido da sua responsabilidade de administrar a cota de beleza de que o torcedor precisa.
Seria bom se os “professores” também se preocupassem um pouco com isso. Mas nem Tite, nem Muricy parecem devotos do futebol arte. Aliás, essa expressão pode parecer até um tanto impudica para eles. Em tempos idos, Muricy chegou a recomendar que quem quisesse ver espetáculo fosse ao teatro. Como depois foi trabalhar num clube por demais identificado com o conceito de futebol arte, moderou um pouco o discurso. Mas duvido que, intimamente, tenha mudado seus conceitos. Tite, que é, possivelmente, o melhor treinador do País, também não parece um esteta. Se puder ganhar feio, de 1 a 0, se dará por satisfeito. Só espero que não atrapalhem muito o espetáculo que seus times podem nos dar de presente nesta final.
* Publicado no Esportes do Estadão
Só tenho uma previsão para as semifinais do Campeonato Paulista: se o Santos jogar com o descaso mostrado na partida com o Palmeiras, será eliminado pelo Mogi Mirim. O outro jogo não tem favorito, a não ser que se considere o Corinthians, neste momento, mais sólido do que o do São Paulo. Mas é um clássico, portanto…
Em todo caso, se o Santos jogar com a seriedade que não apresentou sábado, é possível pensar em novo clássico na decisão do título paulista. Um campeonato mal-ajambrado, mal pensado, mas que, no fim, acaba sendo legal porque seus protagonistas são times de tradição, rivais históricos, com muitos títulos no currículo e grandes torcidas a ampará-los. E tem o Mogi, que é um bem-vindo “intruso” nessa briga de cachorro grande.
Estranhamente, a disputa dos jogos finais dos campeonatos estaduais, a participação iminente dos grandes times brasileiros no mata-mata da Libertadores, a falta de rumo da seleção – todos esses assuntos quentíssimos ficaram fora de foco em função das vaias recebidas por Neymar no Mineirão. Colunistas ilustres andaram se perguntando se não era mesmo chegada a hora de o rapaz embarcar para a Europa, já que a torcida começava a pegar-lhe no pé sem descanso.
Analisaram até o prejuízo que isso poderia trazer para seus contratos publicitários. Francamente, acho meio falta de assunto e apenas me ocupo de tudo isso porque esses comentários, parece, falam menos sobre Neymar do que sobre nós mesmos.
Por que a torcida estaria vaiando? Bem, primeiro, é apenas parte da torcida que vaia. Até onde vi, as “neymarzetes” estavam lá no estádio, tietando o craque como sempre. A torcida do Santos abriu faixas em apoio ao craque, domingo na Vila. Mas, enfim, há gente insatisfeita. Por quê? Será que ele estaria jogando muito mal? Não parece. Quando não marca gols, dá passes certeiros para os companheiros marcarem. Esforça-se. Saiu do jogo do Mineirão contundido e fez questão de jogar contra o Palmeiras, mesmo usando uma proteção na coxa. Por que deveríamos nos queixar dele, ou nos decepcionarmos? Francamente não existe lógica nessa campanha contra o rapaz.
Ou existe talvez uma outra lógica, menos confessável. A mesma lógica que faz o público antipatizar com um ídolo a ponto de transformar seu amor em ódio. Poderíamos chamá-la de “lógica de Mark Chapman”, nome do assassino de John Lennon. Ou seja, a irresistível tentação de destruir o ídolo, quando ele parece atingir um ponto inalcançável para as pessoas comuns.
Neymar ganha demais. Aparece demais, fala-se demais nele. Tem carros demais, mulheres demais. Exerce um fascínio que o torna peça preciosa para a publicidade. Quando isso vira o fio, gera também uma montanha de ressentimento. Vaiar o ídolo, reduzi-lo a pó parece uma maneira (mesquinha, é verdade) de reduzi-lo a uma dimensão mais humana, mais mensurável por todos nós, “normais”.
Essa figura do ressentimento talvez seja ainda mais aguda num país com sérios problemas de autoestima, como o Brasil. Negar esse sentimento de inferioridade é tapar o sol com a peneira. Pensamos que o outro é sempre melhor do que nós. Para mostrar que somos bons, só provando lá fora. O êxito interno, além de nada querer dizer, pode gerar uma situação de estranheza.
Tom Jobim dizia que o brasileiro perdoa tudo, menos o sucesso. O êxito é tomado como insulto pessoal. É uma anomalia que alguém cobiçado no exterior opte por ficar aqui. Acaba gerando desconfiança (será tão bom assim?) e, no final, hostilidade.
Mas não é apenas isso. Se, em seu lugar, já teríamos ido embora há muito tempo, quem ele pensa que é teimando em ficar? Melhor do que nós? Vamos então vaiá-lo. Meus amigos, o Brasil talvez precise de uns mil anos de divã para melhorar sua cabeça.
* Coluna publicada no Esportes do Estadão
Agora que começam as definições, nos perguntamos: quem é o favorito? Por exemplo: Santos x Palmeiras – quem passa? Já ouço a resposta: clássico não tem favorito. Mas todo mundo concorda que, no papel, o time do Santos é melhor, além de ter um jogador que pode desequilibrar uma partida. Por que não dizer, então, que o Santos, que além de tudo joga em casa, é o favorito? É mesmo, mas vai que não ganhe…E pode não ganhar, porque o nome do jogo é futebol, o esporte coletivo mais imprevisível entre todos.
Outra disputa que vem levantando discussão: Atlético-MG e São Paulo. Qual tira o outro da Libertadores? Ora, até outro dia o Atlético era o time que praticava o melhor futebol no País. Tinha 100% de aproveitamento na Libertadores – até ser derrotado justamente pelo São Paulo, no Morumbi. E então vejo a expectativa se reverter. Quem já não acreditava mais no Tricolor, agora o dá como vencedor, time cascudo, copeiro. O que aconteceu? De repente o Atlético deixou de praticar seu maravilhoso futebol? Só porque perdeu um jogo? E o São Paulo, sobre o qual se depositavam dúvidas infinitas, encorpou-se de uma hora para outra, com uma única vitória, a ponto de merecer o título de favorito?
O outro jogo a respeito do qual os sábios recomendam o muro: Corinthians x Boca Juniors. Quem passa? Além de serem dois gigantes do futebol sul-americano, repetem as finais do ano passado. Nas quais, convém lembrar, o Timão deu banho nos argentinos, jogando de cabeça erguida inclusive na temida Bombonera. O que dizer? O Boca vive longe da sua melhor fase. Vegeta no 17º lugar do Campeonato Argentino, ao passo que o Corinthians está nas quartas de final do Campeonato Paulista e fortaleceu o elenco em relação ao ano passado. Por que então não dizer que o Timão é franco favorito nesse mata-mata? Mais uma vez: porque o nome do jogo é futebol e não basquete ou vôlei. A imprevisibilidade é muito maior.
Tão grande que, mesmo em jogos muito menos equilibrados, podemos dizer que o improvável pode acontecer. O São Paulo faz a partida de quartas de final do Paulistão contra a Penapolense. Aqui, o favoritismo é total. Mas alguém pode dizer, de antemão, que tudo está decidido? Ora, se a zebra pintar no Morumbi, não será a primeira e nem a última da história.
O que dizer então de jogos entre equipes tradicionais como Santos e Palmeiras, Atlético e São Paulo, Corinthians e Boca? Que em condições normais de pressão e temperatura, e se der a lógica, devem vencer Santos, Atlético e Corinthians. Mas qualquer outro resultado é cabível.
Então, o que é um favorito? É aquele time que, em tese, e antes de começar a partida, reúne as maiores chances de vencer. Antes, porque depois que se inicia o jogo, nova história começa a ser escrita. Cada partida é uma nova realidade. Pode ocorrer um lance fortuito, que altera toda a configuração previsível. Uma “bola vadia”, como dizia Nelson Rodrigues, que de repente faz uma curva inesperada, ou bate no morrinho artilheiro e vai morrer no fundo das redes. E tudo se altera.
Ou então são as condições da torcida que determinam resultados improváveis. O Corinthians enfrentou muito bem a torcida do Boca na Bombonera ano passado. Quem garante que este ano será a mesma coisa? Durante as férias estive em Buenos Aires e visitei o estádio do Boca. Lembra o caldeirão da Vila Belmiro, mas muito mais vertical. É um inferno jogar lá contra o time da casa. O guia nos mostrou, cheio de orgulho, o vestiário dos adversários. Fica embaixo da arquibancada da torcida mais fanática do Boca, que salta sem parar. É como se os visitantes estivessem em meio a um terremoto. Guerra psicológica. E que pode determinar um resultado.
Enfim, o favorito o é apenas em teoria. Na prática, as coisas são bem mais complicadas. E é por isso mesmo que a gente ama esse esporte.
* Originalmente publicado no Esportes do Estadão
Por que, no mundo do futebol hiper profissional, o futebol de várzea continua a nos seduzir?
Talvez porque nos remeta, nas sombras do nosso inconsciente coletivo esportivo, a uma época de amadorismo romântico que, na prática, nem a própria várzea ainda mantém.
O termo, talvez seja caso de recordar, remete ao jogo praticado nas várzeas dos rios, em especial do Tietê e do Tamanduateí. Lugares desabitados, um tanto insalubres, onde se delineavam os campos nos quais a moçada se divertia.
Esses campos foram se multiplicando pela cidade à medida que o esporte se tornava popular. Jogava-se bola em qualquer canto e não apenas nas várzeas. Onde houvesse um terreno baldio, montavam-se traves improvisadas, arranjava-se uma bola e o futebol era praticado. Em falta de campo, jogava-se nas ruas, nas praias, no fundo das casas, onde fosse possível. Essa versatilidade refletia a paixão brasileira pelo jogo da bola.
A nostalgia da várzea, penso, recapitula em nossas cabeças a página mais bonita da aclimatação do chamado esporte bretão no Brasil. Trazido por um filho de ingleses, Charles Miller, o futebol, de início, foi esporte de elite. Negros não jogavam. Brancos pobres também não tinham acesso aos clubes fechados onde era praticado.
Porém, o fascínio exercido pelo futebol logo começou a se exercer sobre o povo brasileiro – de todas as classes e raças. E, como em sua essência é um esporte democrático, pois não precisa de grandes recursos para ser jogado, logo começou a ser praticado por todos e em toda parte.
Os excluídos da primeira fase do futebol, incluíram-se e começaram a jogar. Ocuparam campos, colocaram traves, fundaram clubes nos bairros. O povo humilde apropriou-se do esporte que o encantava. E seu meio de expressão eram os campos de várzea, instalados nas periferias (físicas ou simbólicas) das cidades. Nesses campinhos precários, depois engolidos pela especulação imobiliária, e não nos campos bem delineados da elite, nasceu a mágica escola brasileira de futebol – hoje em franca dissolução.
Além disso, as paixões humanas encenadas num jogo de futebol estão presentes tanto num campo de terra onde se afrontam dois bairros rivais quanto numa bilionária final de Champions League.
Como dizia Nelson Rodrigues – o brasileiro que com mais lucidez enxergou a essência do jogo – “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeareana”.
Repercutiu bastante a entrevista do ex-jogador alemão Paul Breitner, campeão do mundo de 1974, ao Canal ESPN. Foi interessante mesmo.
Poderia gastar páginas e páginas comentando o aspecto formal da fala de Breitner. Resumo numa frase. Ele fala com o tom de voz um oficial da SS em filme americano da 2ª Guerra Mundial. Não é chegado a nuances e vive em estado de certeza inabalável.
Mas, deixando esse aspecto de lado, Breitner disse muita coisa certa. E também muita bobagem, a meu ver. Detonou a Premier League inglesa com a desfaçatez de quem se livra de um mosquito incômodo. Mas, simplificações à parte, deu uma dentro: disse que os ingleses se renderam ao culto do dinheiro, achando que com isso fariam um bom futebol. O que são aqueles times, são ingleses?, pergunta. E eu também pergunto: verdade, mas nas outras ligas europeias isso é muito diferente?
Sobre o Brasil, Breitner diz que vegetamos na Idade Média futebolística. Estamos desatualizados: “Vocês vivem em 2002”, Nesse ponto, acho que foi até bonzinho. A meu ver, a última vez que uma seleção do Brasil jogou à brasileira foi não em 2002, mas em 1982. Naquela fatídica Copa da Espanha, na eliminação pela Itália em Sarriá, desacreditamos do nosso estilo e o jogamos fora.
Como perdemos a confiança em nós mesmos, e como os europeus nunca nos levaram muito a sério (a não ser quando, para sua surpresa, ganhávamos Copa atrás de Copa), o terreno ficou aplainado para o que viria a seguir. Ou seja: o abandono de uma ideia de jogo própria, a adoção do modelo exportador-extrativista de jogadores jovens e o consequente sucateamento do futebol praticado dentro do país.
O Brasil passou a viver de sucessos esporádicos e confiou em que a vitória viria pela adoção de um modelo que se anunciava único. Assim como nos anos 1990 julgava-se que a economia liberal significava o fim da História, no jogo da bola falou-se numa espécie de “futebol mundial”, que seria praticado por todos, seguindo o modelo europeu. A variação viria apenas pela qualidade dos jogadores em campo. E essa qualidade, claro, estaria concentrada no próprio continente europeu, berço do capitalismo e capaz de organizar o jogo de maneira a atrair os talentos do mundo todo e, num processo circular, torná-lo lucrativo como nunca fora.
Dessa forma, estabeleceram uma espécie de utopia futebolística em que os melhores jogariam contra os melhores, enquanto o resto do mundo se contentaria com o papel de plateia e fornecedor de matéria-prima. Exportamos o artista e pagamos para vê-lo pela TV, depois de devidamente burilado pela cultura futebolística europeia. Nos países periféricos os times se tornaram biodegradáveis, tendo de se refazer a cada temporada depois de vender suas estrelas. Sem atletas radicados em seus países de origem, as seleções nacionais se desnacionalizaram, Batizaram esse processo com o nome de “futebol global”.
A arrogância de Breitner deve ser entendida neste contexto eurocêntrico. Assim como a sua contrapartida lógica, do outro lado do balcão: a humildade resignada com que suas palavras são ouvidas e acatadas entre nós. Com honrosas e raras exceções.
* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão
Domingo preparei-me para ver a Ponte Preta dar um baile no Palmeiras. Certo, há o peso da camisa e, entre os dois clubes, uma senhora diferença em termos de títulos ganhos. Para começar, o Palmeiras é octocampeão brasileiro. Nada menos. Mas, como diz o jargão, futebol é momento. E, no momento, a querida Macaca joga muito melhor. Aliás, acho que é o time mais acertado do campeonato. Mais que todos os chamados grandes. Palmeiras incluído.
Além do mais, o Palmeiras vem tendo uma trajetória das mais acidentadas. Irregular, apenas para usar um termo ameno. Ainda mais que entrava em campo no reduto adversário e sem alguns dos seus titulares. No entanto, o que se viu foi um time que mereceu amplamente a vitória por 2 a 1. Com ela, se credencia para o seu próximo compromisso, contra o Libertad, do Paraguai, na quinta, pela Libertadores.
Quem diria que, depois de goleado por 6 a 2 pelo Mirassol, o Palmeiras viveria a bonança atual? Ninguém, que eu saiba. A pergunta que o torcedor se faz, no entanto, é outra, e mantém viva uma ponta de desconfiança: até quando os bons tempos vão durar?
Ninguém pode responder ao certo. A julgar pelo que se viu no Moisés Lucarelli, o treinador Gilson Kleina encontrou uma formação bastante próxima do ideal (mesmo se admitirmos que o ideal só exista na nossa cabeça, nunca na vida real). Mas também não é preciso mistificar. O que vimos foi um time esforçado, com muita disciplina tática e aplicação.
Virtudes que anularam o melhor toque de bola da Ponte que, também vamos reconhecer, está acima dos outros mas não chega a ser nenhum Barcelona. Destaca-se, mas no nível médio pífio apresentado até agora pelo Paulistão.
Enfim, uma montanha-russa como a que tem sido vivida pelo Palmeiras só é possível num esporte como o futebol. Não é que não tenha lógica, mas a lógica do futebol parece ser diferente daquela do dia a dia, da chamada lógica aristotélica, que funda o nosso senso comum. O bom senso nos diz que um time melhor do que o outro sempre ganha. Pela experiência, que contradiz a lógica, sabemos que em geral isso acontece mesmo. Mas nem sempre. E vivemos na expectativa da exceção. Esperamos pelos casos, nem tão raros assim, em que um time superior perde de um inferior.
Mas mesmos esses termos – superior e inferior – são insatisfatórios. O que significam, de fato? Em geral, que um dos times tem jogadores mais famosos e bem pagos que o outro. Ou um técnico conhecido, já dono de vários títulos. Ou uma camisa de tradição. Pois bem, tudo isso pode ser anulado por um adversário de menos nome, que esteja num dia de sorte, ou tenha a inteligente humildade tática para anular o mais forte. O terrível, no caso do confronto de domingo, é que o Palmeiras tenha sido o azarão e não o contrário.
No entanto, é essa instabilidade que garante emoção ao futebol. Mesmo quando tão mal administrado como o nosso.
* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão
Até que o clássico São Paulo x Corinthians foi bom, mas a rodada serviu para confirmar, se ainda isso fosse necessário, a falência da atual fórmula dos campeonatos estaduais, do Campeonato Paulista em particular.
Digo isso sem qualquer satisfação. Diferentemente de alguns colegas e amigos queridos, não desejo, nem de longe, a extinção dos campeonatos regionais. Pelo contrário. Os de minha geração começaram a gostar do futebol através do campeonato regional. Entramos para o mundo do futebol pelo caminho do estadual. As nossas grandes rivalidades, nossas maiores alegrias e frustrações deviam-se a ele. As vitórias que mais contavam eram contra nossos rivais mais próximos. As derrotas que mais doíam, idem. Além disso, há o fator histórico. O Campeonato Paulista começou em 1902! Como desprezar essa antiguidade, essa tradição?
Pois bem, exatamente por reconhecer a importância, todo o seu valor simbólico para a torcida é que não podemos concordar que seja disputado com esse tipo de fórmula estranha. Dezenove rodadas para decidir oito finalistas! É coisa demais, sem dúvida. Ocupa muitas datas, abriga times demais, atravanca o nosso tempo, o dos clubes e dos jogadores. Ninguém, em sã consciência, pode estar satisfeito. O público reage à sua maneira: abandonando os estádios. Mesmo times que dispõem de astros famosos sofrem com bilheterias minguadas. Todo mundo sabe que essa primeira fase de nada vale. Ou vale pouco para garantir o interesse da galera. De modo que as pessoas, sensatamente, guardam o sagrado dinheirinho para as próximas fases, quando aí sim os jogos se tornam decisivos e mais emocionantes.
Já temos um campeonato de pontos corridos, como o Brasileiro, que premia a regularidade. Deve continuar assim. É a fórmula sensata e justa. Entre outras qualidades, tem efeito pedagógico sobre os clubes. Eles aprendem que a falta de planejamento traz consequências terríveis e que não dá para remediar nada com atitudes de última hora e na base do desespero. Basta lembrar o que aconteceu com o Palmeiras ano passado. Bem, o exemplo não é feliz porque o Palestra parece indiferente a qualquer pedagogia. Mas, veja o Corinthians, de rebaixado a campeão do mundo, em trajetória meteórica.
Enfim, já basta que o nosso principal campeonato siga essa fórmula de disputa que, repito, é justa, racional e tem toda a razão de ser. Não é preciso que as outras sigam o mesmo figurino, mesmo quando o adotam apenas em parte como é o caso do Paulista. Nele, a racionalidade dos pontos corridos vira aberração. Vale apenas para a primeira fase, em que todos se enfrentam apenas uma vez. Já está comprovado que o público não engole essa fórmula. Resta que os cartolas se convençam. Mas isso é o mais difícil.
Craque em crise? Neymar voltou a marcar. E daí? Daí, nada. Todos sabíamos que voltaria a fazer gols, a jogar bem, a encantar. Os mais experientes sabem que mesmo os maiores, como Pelé, Gerson, Rivellino e outros atravessaram más fases. Depois voltaram a jogar bem. Craque não é máquina. Neymar, como todos, tem direito à sua má fase de vez em quando. Mas tem muita gente que lucra em promover tempestade em copo d’água.
* Coluna originalmente publicada no Caderno de Esportes do Estadão
Caso alguém aparecesse numa produtora de cinema com o enredo do menor de idade, que assume o disparo do sinalizador na tragédia de Oruro, não teria a menor chance de ser aceito. Jamais seu roteiro seria transformado em filme.
Por não ser verdadeiro? Não, por ser inverossímil. Quando as circunstâncias se encaixam de maneira tão certinha, uma peça na outra, movimentando mecanicamente a silenciosa engrenagem de isenção de responsabilidades, o roteiro parece artificial demais. O público não acredita. Abandona o cinema e exige o dinheiro do ingresso de volta.
Volto a dizer: pode ser que a verdade seja essa mesma, por improvável que pareça? Pode. Mas é preciso um esforço de imaginação, de tolerância, de boa fé e confiança ilimitada no outro para que faça sentido.
Ainda se o responsável, atormentado pela culpa, se apresentasse sozinho, vá lá. Mas ser levado pelo advogado da torcida organizada, que tem 12 dos seus membros detidos na Bolívia, já seria um pouco demais. E, lance final, ser o sujeito em questão menor de idade, com todas as atenuantes que a legislação brasileira garante a essa condição, bem, aí já é demais.
É possível que seja assim? Não sei. Devemos ouvi-lo. Todos têm o direito de apresentar sua versão e tentar mantê-la em pé. Inclusive o rapaz que assumiu a culpa e, escudado pelo advogado da torcida organizada, sustenta o seu lado dos fatos, por inacreditável que seja. A realidade não tem obrigação de ser lógica. A ficção, sim. Então, que se dê e ele o benefício da dúvida. Mas vamos ficar atentos à investigação que, esta sim, deve ir até as últimas consequências.
Afinal, em meio a essa teia intrincada de versões, detrás desse muro de palavras que se interpõe entre o que vemos e o que aconteceu no estádio do San Jose, subsiste um dado real, inarredável, pesado como chumbo em sua evidência. Qual é esse fato, que pesa toneladas sobre a consciência de todos e, desde já, empana o brilho desse torneio? A morte de Kevin Beltrán Espada, 14 anos. Não foi uma morte acidental nem foi uma fatalidade.Kevin não foi atingido por um raio ou desapareceu num terremoto; foi morto por artefato de fabricação humana, disparado por mão de homem. Kevin já não é deste mundo. Pertence à terra do nunca mais, aquela do poema de Poe. Never more. Não existe nada de tão concreto como a morte.
Os leitores me perdoem o tom lúgubre desta coluna, mas todos os que entendem o futebol como afirmação de vida estão um pouco assim. De luto. A começar pelos jogadores do Corinthians e o técnico Tite, que não têm nada a ver com isso e se encontram compreensivelmente chocados. E também a imensa maioria da torcida, composta por gente de bem, que ama seu clube e jamais pensaria em causar-lhe tamanho constrangimento. A eles, minha solidariedade.
Férias. Saio em férias por um mês e assim os leitores descansam durante quatro semanas. Volto dia 2/4, oxalá em novo clima e com essa história já esclarecida. Um filósofo disse que a verdade mora no fundo de um poço. Nem por isso podemos desistir de procurá-la. Devemos isso a Kevin.
* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão
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