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Luiz Zanin

Não gostei. O projeto de Depois da Terra, da franquia Will-Jaden Smith, entregue a M. Night Shyamalan, destaca-se por uma obviedade atroz. Parece uma contradição em termos, mas existem obviedades que, de tão ostensivas, parecem até originais. Dão até a falsa impressão de que trazem algo novo.

A história em si é mais que manjada: a espécie humana finalmente conseguiu inviabilizar a vida na Terra e foi obrigada a colonizar outros planetas. A espécie é ameaçada de várias maneiras, mas por uma em particular. Aqui, uma ideia interessante, em meio à mesmice: há um ser terrível, chamado “ursa” que, apesar de cego, detecta a presença de seres humanos pela presença de hormônios que estes secretam quando estão com medo. Alguns humanos especiais, que não sentem medo, ou conseguem dominá-lo, são preparados para combater esses seres monstruosos. O personagem de Smith pai é um desses privilegiados, chamados “fantasmas”.

Numa aventura cheia de perigos, ele, ferido, precisará orientar o filho, Jaden, para que este enfrente desafios terríveis para um garoto de 13 anos. Enfim, aqui caímos naquela falta de originalidade total em que o menino ensina o homem e este lhe transmite uma, digamos assim, tradição. Relação pai e filho, a sempre presente armadilha para enredos sentimentaloides.

E há o desenho visual dos blockbusters que, cada vez mais facilitado pela tecnologia computadorizada, não mais enseja qualquer desejo de originalidade. Tudo é muito rotineiro, já visto, como se os filmes se repetissem. Essa facilidade provoca uma espécie de preguiça mental, como se imagens vertiginosas, conquistadas com tanta facilidade, pudessem substituir uma boa história. Não podem. Esses filmes são sempre os mesmos, com pequenas variantes para que pareçam novos. Variações em torno do óbvio.

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Há algo de muito forte, e ao mesmo tempo muito mecânico neste Três Mundos, de Catherine Corsini. O que existe de intenso é, além do estilo de filmagem, essa fricção entre instâncias diversas da sociedade francesa. O que às vezes parece artificialmente construído é a maneira como essas pessoas tão diversas se encontram e interagem. A força vem da sinceridade que a diretora mostra ao ser atingida por um estado de coisas com o qual não concorda e que agride a sua consciência. A maneira como essa indignação se arranja em uma obra dita de arte é um artifício da narração cinematográfica.

Vejamos: Al Raphaël Personnaz é um jovem ambicioso, que tem tudo para celebrar na vida. Empregado numa próspera agência de venda de automóveis, ele vai se casar com filha do patrão e assumir o negócio. Na farra que precede o casamento, uma despedida de solteiro entre amigos, Al atropela um desconhecido. O acidente é testemunhado por Juliette (Clotilde Hesme), que por acaso estava à janela de sua casa. A vítima é casado com Vera (Arta Dobroshi). Vem a acontecer que o atropelado vem da Moldávia e já vive alguns anos na França, na condição de trabalhador ilegal. Ele, a mulher, os amigos e toda uma comunidade que pratica o trabalho “noir”, como todos sabem, a começar pelas autoridades que, no entanto, se negam a legalizá-los. É um dos dramas da Europa, relacionado com a crise econômica, guerras e outras amenidades do mundo contemporâneo. Vem sendo retratada com certa constância pelo cinema que se importa com seu meio social.

De toda forma, esses três personagens, escolhidos para representar três mundos distintos, que coabitam no interior da sociedade francesa, são invulgares. A começar por Juliette que, ao contrário de se conformar com o testemunho impotente de algo que não está certo, se importa e tenta intervir. Depois por Vera, que também é um exemplo de inconformismo e disposição de ir à luta, de uma forma quase suicida. Por fim, Al, que deu um mau passo, mas não é de modo algum um canalha embrutecido. Arrepende-se do que fez, embora o tenha feito sem intenção de dano e, depois de um começo hesitante, parece sinceramente disposto a providenciar algum tipo de reparação à vítima e família.

Há ainda algumas complicações na trajetória dessa trinca de protagonistas, o que aumenta a tensão entre eles, como se verá. O filme tem essa ambição de chamar atenção para um drama social, sem deixar de lado os aspectos subjetivos que o alimentam e o tornam ainda mais complexo e de difícil solução. O artificialismo quase folhetinesco de algumas situações é amplamente compensado pela consciência das consequências que a história expõe. Os três estão colocados na berlinda. Mas, talvez, a posição mais ingrata seja a de Juliette. Afinal, ela não estava diretamente envolvida no drama. Não, pelo menos até resolver tomar uma posição e, então, assumi-la até as últimas consequências. Por um imperativo ético, ela vê-se obrigada a ir até o fim, uma vez começada a ação.

Francamente naturalista, essa trama é filmada com vigor, simplicidade e espontaneidade.

No fundo, Três Mundos é um drama da consciência e da responsabilidade. Dimensões que a condição narcísica da modernidade faz questão de ignorar.

 

 

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30.maio.2013 12:24:13

Faroeste caboclo

Fosse nos anos 1960, o filme poderia ser denominado de faroeste do Terceiro Mundo à maneira de Rogério Sganzerla. No final dos anos 1970, inícios dos  1980, quando surge a música, agora transformada em longa-metragem, cabe bem no título de Faroeste Caboclo.

Faroeste deve atrair os fãs de Renato Russo e da Legião Urbana. Mas música é música e filme é filme – e enquanto tal deve ser considerado. Partindo do tema do amor bandido, René Sampaio constrói uma obra cheia de sensualidade e energia. Não apenas pela dupla Fabrício Boliveira e Ísis Valverde nos papéis centrais, mas também pela familiaridade de ambientação em cidades que ele conhece tão bem, Ceilândia e o Plano Piloto de Brasília. Aos olhos do preconceito nacional, Brasília é a terra dos políticos e dos corruptos, alías tidos como sinônimos. No filme, Brasília aparece como é, uma cidade com vida própria, intensa e cheia de contradições.

Desse modo, Faroeste Caboclo parece mesmo um filme com jeito de rua, carne e ossos, e não um desses produtos anódinos e artificiais, que não cheiram e nem fedem e perfazem a maior parte da produção nacional. Faroeste tem estilo, jeito próprio e cacoete, embora, talvez, venha a receber críticas por não ser tão “sujo” quanto poderia ser, dada a sua inspiração inicial.

Em todo caso, o enredo proposto por Renato Russo e desenvolvido por René Sampaio é muito bom. Fala do nordestino João (Fabrício Boliveira) que deixa Santo Cristo para o sonho de uma vida melhor em Brasília. Encontra-se com o primo e traficante Pablo (vivido pelo uruguaio César Troncoso) e com ele passa a trabalhar. Conhece a garota Maria Lúcia (Ísis Valverde), filha de um senador (Marcos Paulo). O romance entre os dois é perturbado pela intromissão de Jeremias (Felipe Abib), que também cobiça a moça e faz parte do tráfico de drogas da região.

A linguagem audiovisual é ágil e, em algumas cenas, dialoga com o western spaguetti e, pela proximidade, com Tarantino. Conta com a figura carismática de Boliveira, uma revelação, e a midiática Ísis, a periguete da novela Avenida Brasil. Formam um bom par. A trilha sonora é envolvente. Tudo somado, resulta num filme de boa dinâmica, que tem trunfos para ser um sucesso de público. Em especial junto ao público jovem, que mantém viva a memória de Renato Russo. Contribui para essa expectativa o tratamento aberto dado ao uso da maconha, retratado aqui sem apologia, mas também sem preconceito.

Mais interessante ainda é a maneira como contempla a diferença de classes abissal no Brasil e os caminhos que essa fricção pode se abrir. Fossem tempos mais românticos e Maria Lúcia poderia ser uma “pobre menina rica” como a da época da bossa nova. Agora, é uma garota um tanto desmiolada, que alimenta paixão por um rapaz que deseja mudar de vida e tem de lutar por isso. Há uma óbvia beleza nesse amor trágico e radical, ainda mais em tempo calculista como o nosso. O amor transborda a lógica e a subverte.

Bom e estimulante, Faroeste Caboclo parece tão autoconfiante que passa por cima de algumas inverossimilhanças. Uma delas é João ter um primo gringo traficante em Brasília. Outra, a maneira como entra e sai nos apartamentos do Distrito Federal. Mas, se olharmos bem, existe um tom mesmo de fábula nessa história toda e podemos nos dispensar dessa obsessiva prova da verdade sempre que nos confrontamos com o cinema e sua exigência de realismo. Alguém pede realismo a Tarantino, para citá-lo mais uma vez? Não. Exigimos ritmo, enquadramentos originais, humor, uma dinâmica que nos envolva e nos leve para dentro da história. Por que não fazer o mesmo com Faroeste Caboclo?

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O lançamento de Trabalhar Cansa em DVD (Lume) permite a revisão de um dos mais interessantes filmes brasileiros dos últimos anos.  Dirigido pela dupla Juliana Rojas/Marco Dutra, o longa se situa em ponto excêntrico ao atual dilema do cinema brasileiro: ora produzimos para a tela grande o “mais do mesmo” televisivo, cortejando o mercado de maneira subalterna; ora, por reação, contemplamos um experimentalismo estéril, destinado aos egos do diretor e seu círculo de amigos, e também a uma crítica de aduladores. Quem fica de fora nos dois casos? O público, submetido ora ao pragmatismo da rotina ora à irrelevância que passa por vanguarda.

Trabalhar Cansa busca seu espaço em outra parte. Síntese de realismo e gênero fantástico, inova na linguagem cinematográfica, sem esquecer que o cinema não é mero exercício formal, mas também instrumento crítico do real.

A trama fala da trajetória divergente de casal. Ele acabou de ser demitido da empresa e começa a se sentir à margem da sociedade. Ela decide realizar o sonho do negócio próprio e abre um mercadinho.

Otávio (Marat Descartes) e Helena (Helena Albergaria) não sabem, mas têm sonhos e pesadelos complementares. Ele perde sua referência social ao ser desligado da empresa. Ela, muda de perspectiva e atitude ao passar de dona de casa a patroa. São alterações subjetivas que geram consequências na vida prática. O filme mostra algo que se poderia definir como o progressivo embrutecimento de marido e mulher. Perdendo o papel de provedor, ele perde o rumo e, por reação, muda seu relacionamento com as pessoas. Ela, progressivamente desumaniza-se no contato com seus empregados.

O próprio estabelecimento comercial que ela começa a explorar torna-se, de certo modo, uma metáfora dessa perda de humanidade. Por exemplo, há nas paredes uma estranha umidade que não para de crescer e não parece ter causa aparente. O ambiente começa a tomar o ar fantasmagórico e pressente-se a existência de monstros, reais ou imaginários a assombrar o local. O mundo torna-se estranho para uma pessoa que se tornou estranho a ele, como Helena.

Nada disso se dá por acaso, ou por mero divertimento da dupla de diretores. O que se nota é um agudo comentário político sobre o nosso tempo e o nosso modo de ser no vácuo do ultracapitalismo moderno. Nesse mundo em que as relações se liquefazem, para usar um tema caro ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Não existe espaço humano num ambiente em que as relações de patrão e empregado se estereotipam pela hierarquia e as corporações funcionam segundo preceitos fascistas – como bem detectou o cineasta francês Nicolas Klotz em A Questão Humana. É dessa anomia monstruosa, com aparência de normalidade, que fala Trabalhar Cansa, estupenda estreia de dois jovens diretores.

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29.maio.2013 13:03:41

A Datilógrafa

Não são apenas norte-americanos – e brasileiros – que fazem comédias românticas. Os franceses também. E, sem dúvida, com um toque de originalidade, a julgar por este  A Datilógrafa, de Régis Roinsard.

Simples, mas não simplório, A Datilógrafa conta a história de uma mocinha do interior, Rose Pamphyle (Déborah François), destinada a casar com um garagista, mas que decide tentar a sorte numa cidade maior, Lisieux, no caso. Ela se candidata ao emprego de secretária em uma agência de seguros, mas a entrevista é um fracasso. A não ser por um detalhe – a garota revela-se uma datilógrafa impressionante, com velocidade de campeã.

Sim, a palavra esportiva se aplica no caso. Estamos nos anos 1950 e na época eram comuns os campeonatos de velocidade entre as datilógrafas, em especial nos Estados Unidos, mas também um pouco em toda parte. O novo patrão, Louis Echart (Romain Duris), dá o emprego a Rose, contanto que ela concorde em participar desses concursos de atletismo datilográfico. A contragosto, a moça concorda.

O filme é de época e ganha uma direção de arte interessante. É bastante colorido e envolto em atmosfera de fábula. Como se, de fato, ao evocar o clima dos anos 1950, nos viesse à cabeça certa aura romântica. Eram, de fato, os anos em que saíam do imediato após-guerra. As sociedades europeias haviam se reconstruído e, de certa maneira, americanizavam-se, dada a influência mundial que os Estados Unidos ganharam após a campanha contra os nazistas. A Guerra Fria ainda não era tão explícita, e o mundo, ou parte dele, podia sentir essa sensação de bem-estar que se tem quando o perigo imediato foi afastado. Se os anos 1960 são os anos rebeldes, os 1950 são tidos sempre como os anos dourados da bonança. Esse é o tom do filme, mas passado apenas em filigrana, à contraluz, e nada explícito.

O que se tem é apenas essa mocinha, cujo dom natural para a velocidade é desenvolvido, tentando agradar a um jovem reticente como Louis. Há, também, na trama o espírito competitivo da França em relação aos Estados Unidos. Afinal, antes de ser desbancada por Nova York no imaginário mundial, Paris julgava-se o centro do mundo inteligente. Existe esse ar de revanche francês, porém leve, e feito com muita elegância, como convém ao europeu que não se curva à vulgaridade do Novo Mundo embora corteje seus modismos.

Vendo-o assim, A Datilógrafa ameaça transbordar os limites do gênero a que o julgávamos circunscrito. Há alguns mistérios e assimetrias que não cabem de hábito numa comédia romântica clássica. Caso mais notório da estranha relação entre Louis e Rose, ela morrendo de desejo de cair nos braços do patrão, ele cegamente empenhado numa competição meio sentido. Ainda mais que, para preparar sua pupila para os concursos, usa de técnicas de fato torturantes.

Desse modo, e por outros detalhes que convém não comentar, A Datilógrafa é, ao mesmo tempo comédia romântica e questionamento do próprio gênero, inclusive do happy end obrigatório.

Mais misteriosa ainda fica se atentarmos para o título original francês, Populaire (Popular), muito mais ambíguo que o anódino título escolhido para o lançamento no Brasil.

 

 

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Filmes de escola têm pelo menos duplo interesse. Escolas são universos interessantes em si mesmos. Além disso, podem funcionar como microcosmos da sociedade como um todo. São, também, espaços privilegiados de conflitos, já que servem de palco para uma fase crucial na socialização das pessoas. Daí o sucesso permanente de títulos como o antigo Ao Mestre, com Carinho e do muito mais recente Entre os Muros da Escola.

O diretor de O que Traz Boas Novas, Philippe Falardeau, pode se gabar de ser muito original em sua abordagem desse universo. Situa-se no Canadá francês, o Quebec, um dos modelos de civilidade do mundo. Mesmo lá, tragédias acontecem, e uma professora, Martine, aparece morta de modo inesperado, e em plena sala de aula.

Dadas as circunstâncias, ninguém quer substituir a mestra. A classe, compreensivelmente, está traumatizada; é mais que um luto e existem outros sentimentos dos alunos em relação à professora desaparecida.

Então aparece um candidato à vaga, um argelino, Monsieur Bachir Lazhard (Mohamed Fellag, ótimo). Surge com um belo currículo, mas, como se verá, ele também não é um professor convencional. Não está no Canadá apenas para melhorar de vida e, como mestre, tem lá seus procedimentos pouco usuais na época da nova pedagogia. O que dizer de um professor que reintroduz noções básicas de disciplina, adota Balzac como texto de ditado e manda colocar as carteiras em linha reta e não mais no círculo democrático em que estavam dispostas?

Lazhard pode parecer um conservador e mesmo um reacionário em meio a novos métodos educacionais. No entanto, ele tem seus trunfos: coloca o interesse dos alunos acima de tudo, dá-lhes uma referência e, heresia, faz com que a garotada se abra e fale sobre aquilo que a escola inteira prefere calar – a morte da professora.

E, para falar a verdade, O que Traz Boas Novas (tradução literal do nome árabe do professor) traz algumas coisas novas àquele país rico e seguro de si. O valor de um abraço caloroso numa sociedade que valoriza a fria contenção. E o poder regenerador da franqueza quando se imagina que ocultar verdades incômodas seja o melhor negócio.

 

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Em alemão antigo Walachai significa terra distante. É também o nome de uma pequena comunidade de imigração alemã na serra gaúcha. Onde nasceu a diretora Rejane Zilles que volta à sua terra neste filme terno e, ao mesmo tempo, informativo sobre uma das vertentes da formação cultural brasileira.

Walachai e outras pequenas comunidades serranas ficam a cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Tão próximas da metrópole, parecem, no entanto, saídas de outro tempo e de outro lugar. Essa atemporalidade é bem flagrada no documentário. Por exemplo, quando se nota que os habitantes, embora muitos deles já nascidos no Brasil, falam com certa dificuldade o português. A língua é o alemão. Ou um tipo particular de alemão. Uma espécie de dialeto, trazido de outras regiões e cozinhado aqui no hemisfério sul.

De tal modo que nem brasileiros nem alemães entendem direito a língua que se fala em Walachai. É quase um idioma fechado, uma variante do alemão culto e talvez formado por outras influências linguísticas.

Mas, claro, o dado linguístico é apenas um entre tantos aspectos deste filme terno e interessante. Há a memória ligada à língua, como os moradores lembrando da obrigatoriedade do ensino do português nas escolas, que passou a vigorar no governo de Getulio Vargas e, em especial, a partir de 1942, quando o Brasil posicionou-se em favor dos Aliados. A partir desse instante, italianos, japoneses e alemães moradores do Brasil passaram a ter problemas. Eram “inimigos” ou, pelo menos, suspeitos. E as escolas das colônias, que antes ensinavam nos idiomas de origem, tiveram de adaptar-se ao português. A realidade presente em Walachai mostra os limites dessa imposição. Em casa as pessoas continuaram a falar seu alemão particular e assim o transmitiram aos filhos.

Há também o lado rural, o apego que os habitantes têm à terra e a independência de quem não precisa prestar contas a patrões. Por outro lado, já vários moradores trabalham em uma fábrica de calçados, submetendo-se à disciplina laboral. As duas formas de trabalho convivem, mas o apego à independência, que parece ter os dias contados, ainda é uma característica dos pequenos proprietários.

Se um bom documentário também se faz pela escolha dos personagens adequados, pode-se dizer que Rejane foi feliz na eleição dos seus. A velha senhora que, aos 91 anos ainda toca os sinos da igreja e cuida do cemitério, o historiador informal que registra em cadernos o cotidiano da cidade, o casal de agricultores, a mulher que rompeu um relacionamento para não ter de deixar seu pedaço de chão – todos eles compõem um painel amoroso e multifacetado dessa pequena comunidade.

E há, claro, a presença da diretora, o “ponto de vista” do autor. Sempre se volta ao lugar de nascença com certa expectativa de que tudo continue na mesma. Somos, nesse aspecto, como crianças a exigir que as histórias sejam contadas sempre do mesmo jeito. Ora, as coisas humanas mudam, e nem sempre para melhor. Apesar do imobilismo aparente de comunidades como Walachai, algo se move e talvez a corrói. Delicada, Rejane registra indícios, quase sem comentá-los. Ora é fábrica que, apesar da perda de liberdade oferece compensações, ora são os mais jovens já atraídos por dimensões que a cidadezinha não oferece, ora é o avanço das propriedades maiores, que tira competitividade aos sítios de produção artesanal, base do sustento dos antigos moradores. É o registro delicado de algo que talvez não tenha tanto futuro assim.

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Era uma Vez na Anatolia, do turco Nuri Bilge Ceylan, é uma espécie de objeto cinematográfico não identificado, destoante em meio à banalidade dominante. Ele é longo (150 minutos) ao invés de sintético, como recomenda o manual do comércio. Sua trama é rarefeita e não explícita. Seu tempo é lento e não acelerado. Entrega sua história aos poucos e não por completo. Trabalha mais nas lacunas do que no preenchimento completo de todos os espaços. Para resumir: é um filmaço, que pede um espectador à altura do seu grau de elaboração.

Passa-se, em sua quase totalidade, na planície semidesértica onde um grupo de homens busca um cadáver enterrado. Há um crime, e isso fica claro desde o início. Nos carros viajam os dois homens que já confessaram ter matado alguém. Viajam também policiais, um médico, um promotor, um militar, dois cavadores com suas pás. O criminoso confesso (sim, porque um dos dois toma à frente) é um homem de rosto trágico. Ele diz não se lembrar direito do lugar onde enterrou o corpo, apenas que foi à sombra de uma “árvore redonda”. A busca atravessa a madrugada.

Enquanto isso, os homens conversam. Falam do que se fala quando é preciso matar o tempo. Falam sobre a próstata do promotor, que deve estar com problemas porque ele pede a toda hora que o carro pare para fazer xixi. Falam da vida. Numa parada, o promotor conta ao médico uma estranha história, a de uma mulher jovem e “magnífica”, que disse que ia morrer num determinado dia e numa determinada hora. E isso de fato aconteceu. O médico busca uma explicação racional para o fato. Mas a história fica assim, jogada, entre parênteses, para fazer sentido, talvez, já mais para o final.

Há também a parada num vilarejo situado no meio do nada, quando a caravana é recebida pelo líder local. Ele dá de comer e de beber a todos. Quem serve a refeição é a filha do chefe, moça de rosto lindo. Quando ela dá comida a um dos supostos criminosos, ele chora. Por quê? Não se sabe. Mas pode-se conjeturar. E guardar a informação para depois. A beleza excessiva causa um sentimento tanto de deslumbramento quanto de tristeza. Mas essa é uma interpretação e um dos subtemas de Anatolia: qual o espaço da beleza nesse mundo rude?

Só isso? Não, muito mais. Há desdobramentos que convém não revelar, mesmo porque o mais interessante do filme é esse processo mesmo de descoberta. Em seu verso mais popular, Antonio Machado dizia que “No hay camino, se hace camino al andar”. O “caminante”, no caso o espectador, terá de ir fazendo o seu próprio percurso no entendimento da história à medida que se deixar tocar por ela. E ao mobilizar sua sensibilidade e inteligência em busca dessas frestas abertas pela narrativa e que são em si extremamente reveladoras.

Resta dizer que a história, em aparência banal e contada de modo lacunar, ambiciona algo muito maior do que aparenta. Ela é uma espécie de iceberg, que revela apenas parte relativamente pequena do seu todo, o mais importante ficando abaixo da linha d’água. Era o que Hemingway recomendava aos candidatos a escritor. O grande texto expõe de maneira imediata apenas parcela da sua real dimensão. O resto está nas entrelinhas, submerso, como um convite a ser decodificado e preenchido pelo leitor/intérprete. Com o grande cinema passa-se o mesmo. Ele exige um espectador ativo, participante, imaginativo, disposto a encontrar em si as ferramentas que lhe permitam explorar o universo insinuado na tela. Sem que tenhamos ainda chegado ao fim do semestre, Era uma Vez na Anatolia é, desde já, um dos grandes lançamentos do ano.

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24.maio.2013 18:35:06

Olhe pra Mim de Novo

 

A história de Sillvyo Lucio é de uma improbabilidade total. Nasceu mulher, era lésbica mas busca operação transexual que o/a transforme em homem. Os gêneros se misturam e nem o flexível idioma português parece suficiente para abarcar-lhe a complexidade. Em todo caso, Sillvyo, para arremate, vive no interior do Ceará, em pequena cidade da zona rural, lugar de costumes ancestrais, tradicionalista e machista.

Tal é o personagem que a dupla Claudia Priscilla e Kiko Goifman resolve retratar neste Olhe pra Mim de Novo. O título, claro, é um apelo ao entendimento, à compreensão. A sociedade brasileira, conservadora em seu todo, em que pesem fantasias de liberalidade tropical, etc, tem aceitado muita coisa. A união civil homossexual já é uma realidade. Mas muito caminho há de ser feito para a aceitação plena da diversidade sexual. Se é que acontecerá algum dia, dado o tabu envolvido.

E, nesses termos, o caso de Sillvyo Lucio é um exemplo levado a quase limite. Ele não apenas aspira à cirurgia de mudança de sexo, como deseja, antes que ela seja feita, ter um filho biológico com sua companheira, Widna. Esta é um caso à parte. Ela diz que, com Sylvio, é heterossexual, já que Sylvio é homem. Mas, caso se separassem, seria lésbica, porque gosta de mulher. Enfim, o plano da dupla seria, de alguma forma, mesclar os óvulos de cada uma para sintetizar um óvulo comum e depois o fertilizarem com espermatozoide buscado num banco de esperma. Obviamente, trata-se de uma fantasia genética, conforme explica uma médica a Sillvyo. Mas ele não desanima e segue sua busca.

E é uma busca tanto no sentido metafórico quanto literal, já que o documentário se estrutura como um road movie. Em seu périplo pelo Nordeste, acompanhado pela câmera, Sillvyo Lucio encontra outros personagens. Por exemplo, um grupo gay em uma das cidades. Passam também por uma clínica para pessoas portadoras de uma doença genética degenerativa. Conversam com a mãe cujo filho foi trocado na maternidade. Sillvyo é colocado para dialogar com essas pessoas e, aos portadores da doença genética, diz que, como elas, é discriminado pela sociedade. Essas incursões talvez tirem um pouco da força do conjunto.

No entanto, a energia do filme vem justamente do personagem. Ao narrar uma vida que, como se pode adivinhar, é feita de dificuldades desde a infância, Sillvyo não se permite um único instante de autopiedade. Assume sua sexualidade assim como encara os problemas, preconceitos e agressões que ela acarreta. De frente. Esse é o ponto forte do documentário, seu cerne vital, sua melhor substância. Ao confrontar a trajetória de Sillvyo com a de personagens também sofridos, a dupla de realizadores pode ter tentado universalizar a questão da intolerância. Cabe ao espectador julgar se essa decisão foi acertada. A meu ver enfraquece um pouco o andamento do filme.

Mas nunca a ponto de comprometê-lo. Porque Sillvyo é um exemplo e tanto de luta quixotesca contra o obscurantismo (como qualificar de outra forma quem se arvora a legislar sobre o desejo alheio?). E também por um motivo que merece ser notado, a alta qualidade cinematográfica presente na narrativa dessa história singular.

Não se trata de embelezamento artificial, de uma espécie de pacote de primeira qualidade destinado a embalar uma história indigesta para parcela do público. Não. A forma aqui não é gratuita e compõe o personagem, tanto quanto aquilo que ele fala, ou que falam dele. Por isso, durante o percurso, Sillvyo é frequentemente filmado só, naquelas estradas desertas do semiárido. São imagens pungentes, que se incorporam à sua fala ou aos telefonemas que deixa na caixa postal da parceira. Diga-se o que se quiser, mas seu percurso é solitário e, de certa forma, desesperançado. O ser humano, cheio de energia, preso a um corpo que não sente como seu, alterna estados de espírito. Ora eufórico, ora reflexivo. No entanto, parece radicalmente só, como no momento mais tocante, quando se encontra com sua filha biológica. O diálogo entre eles, ou elas, além de revelador, é de cortar o coração. De quem o tiver, claro.

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Nelson Rodrigues é risco assumido no cinema. A chance de errar é altíssima, em razão de um texto expressionista, exagerado, que busca os tais desvãos da alma humana sem temer o apelo à caricatura. São tragédias que ficam a um milímetro do ridículo. Risco certo, mas que os cineastas adoram assumir. O mais recente destemido é Moacyr Góes, cujo currículo anterior em cinema não é de molde a recomendar (Dom, Maria, a Mãe do Filho de Deus, alguns filmes da Xuxa, etc.)

Pois bem, e não é que a Bonitinha de Moacyr Góes revela-se bastante aceitável? Mais que isso, é um bom filme, embora cultores ortodoxos de Nelson possam, com certa razão, queixar-se de que ele depurou o texto, numa versão em que imperam o bom gosto e certa assepsia. Argumento aceito, pode-se responder: e daí? Bonitinha continua sendo um bom filme e um texto poderoso. Sai-se bem atualizando essa “tragédia carioca”, montada pela primeira vez em 1962.

Ora, Bonitinha é uma tragédia de desfecho feliz, uma contradição em termos. Mas na verdade a réstia de luz entrevista no desfecho é conseguida a troco de muita treva durante todo o desenvolvimento da trama. Moacyr Góes acerta ao antever essa luminosidade do fim ao longo de todo o filme. É sua leitura, aceitável mesmo porque condizente com o texto. Além do mais, faz de Peixoto, um personagem mais digno e ambíguo do que se poderia prever.

A história é bem conhecida. Um industrial precisa arranjar casamento de conveniência para a filha, Maria Cecília (Letícia Colin), estuprada por cinco homens negros. Peixoto (Leon Góes, irmão do diretor) é encarregado de fazer a oferta ao pobretão Edgard (João Miguel), apaixonado pela também suburbana Ritinha (Leandra Leal). Um cheque de cinco milhões está disponível para Edgard se casar com Maria Cecília, a Bonitinha, e então salvar-lhe a honra.

Há algumas coisas que parecem datadas; fazia mais sentido no Brasil dos anos 50 0u 60 a compra de um genro para salvar a dignidade de uma moça de família deflorada nessas condições. Assim como o mal-estar ambiente da peça era o do pós-guerra, com o perigo do cataclismo atômico rondando a humanidade. Moacyr traz a trama para a atualidade e se o mundo já não teme morrer pela via nuclear, vive uma época de paranoia generalizada que nada fica a dever àquele tempo. Se a nenhum ricaço ocorre fazer o mesmo que tenta o dr. Werneck (Gracindo Jr.), é verdade que o falso moralismo impera e a dúbia ética das elites é tão perceptível quanto a atmosfera poluída das cidades. Nesse conjunto o dilema moral de Edgard encontra sentido. E atualidade.</CW>

O elenco é afinadíssimo. Não se poderia esperar menos de João Miguel, Leandra Leal e Gracindo Jr. Leon Góes, no entanto, supera-se e confere humanidade ao rematado canalha que interpreta. E a grande surpresa atende pelo nome de Letícia Colin, que faz uma Bonitinha intensa e ousada, sedutora e frágil, em sua sensualidade. O conjunto compensa deslizes como a bacanal trash do dr. Werneck ou os pouco convincentes flashbacks da curra. Nada é perfeito. Mas é bem aceitável.

 

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