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Luiz Zanin

Alguns leitores interpretaram como queixa o meu post “Falta de tempo para pensar”. Não é não. Só constatação. Sobre essa condição contemporânea, que é a de estar imerso num continuum de notícias, ofertas, informações. Sem espaço, trégua e intervalo.

Outro dia, em Brasília, eu estava numa van indo para o hotel e, de repente, houve um silêncio. Por um momento, ninguém falou. Logo surgiu alguém para dizer, incomodado: “Nossa, que silêncio, hein?” Como se estivéssemos diante de alguma coisa indesejada, quase obscena. Eu disse a ele (mas, no fundo, a mim mesmo). “Curta esse silêncio, amigo, pois é a mercadoria mais rara em nosso mundo”.

Preservar esse espaço próprio, essa zona interior de silêncio, me parece a mais urgente das tarefas. Talvez, no limite, algo impossível de conseguir, mas que precisa ser tentado.

É o que chamo do espaço de reflexão: essa zona interna, livre do delírio consumista do dia a dia. Em nome da sanidade, temos de lutar pela preservação desse espaço interior.

É existencialmente ecológico.

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04.outubro.2011 15:04:44

Sem tempo para pensar

Acabou o Festival de Brasília, estou no aeroporto esperando o voo para São Paulo. Checo e-mails e vejo que amanhã começam as sessões de imprensa para a Mostra de São Paulo, que já tem coletiva marcada para sábado (sim, sábado!) de manhã. Um festival emenda no outro, uma mostra segue outra, como num continente único, sem definição, sem fronteiras, sem tréguas. Não temos tempo para pensar. E, no entanto, teimosamente eu penso. Logo, existo.

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05.julho.2011 19:36:25

Melancolia

Do filme falou-se muito pouco, já que estavam todos (ou quase todos, sejamos justos) ocupados com duas ou três bobagens que o diretor Lars von Trier disse na coletiva de imprensa em Cannes. Vi Melancolia hoje de manhã. É cedo para fazer uma crítica (nem sei quando vai estrear). Mesmo porque quero deixá-lo decantar em mim, como se faz com certos vinhos. Tudo o que posso dizer é que o filme é um espanto. Como disse a Rô, que o viu ao meu lado, não há uma única imagem banal em todo o filme!

Mais ainda surpreendente quando se pensa que vivemos na época da absoluta banalização das imagens. Grande filme.

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Ainda discutimos os limites entre documentário e ficção.

Godard escreveu a seguinte frase:
“Todos os grandes filmes de ficção tendem ao documentário, como todos os grandes documentários tendem à ficção”.

A frase é do final dos anos 1950, quando ele era crítico de cinema e cineasta iniciante; não havia ainda feito Acossado, seu primeiro longa.

De ficção?

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Nunca entendi direito por que Pauline Kael, crítica por 30 anos da New Yorker, e muito influente por aqui nos anos 60 e 70, tinha caído de moda no Brasil. Parece que hoje ninguém a lê.

Pois eu leio, pelo menos de vez em quando. Folheando seu livro I Lost It at the Movies, a propósito de Sindicato de Ladrões, acho que descobri o motivo de Pauline ter sido esquecida: ela escreve claro, e foi isso que caiu de moda.

Hoje parece de bom tom escrever críticas de cinema de um jeito retorcido, com frases que têm de ser lidas e relidas várias vezes até que façam algum sentido. No mais das vezes, por mais que você torture o texto, não consegue extrair dele sentido algum. É uma profissão de fé na obscuridade, um terrível vício acadêmico.

Abaixo, um exemplo do texto de Pauline Kael, que escrevia como gente. E para gente.

“A tentativa de criar um herói para a audiência de massa é um desafio e uma grande armadilha. Sindicato de Ladrões enfrenta o desafio, mas cai na armadilha. A criação de um simples herói é um problema que não ocorre com freqüência em filmes europeus, nos quais o esforço é despendido em criar personagens que nos toquem mais por sua humanidade – sua fraqueza, sua sabedoria, sua complexidade – do que por suas dimensões heróicas. Nossos filmes (i.e., norte-americanos), entretanto, negam a fraqueza humana e as complexidades sobre as quais os europeus tanto insistem. É como se nos recusássemos a aceitar a condição humana: não queremos ver-nos em trapaceiros, em seres traídos e covardes. Queremos heróis, e Hollywood os produz com um estalar de dedos.”

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Muito bom o filme argentino que vi agora de manhã -  “Carancho”, aqui traduzido por Abutres. Faz parte da Mostra de Direitos Humanos, que começa na sexta. Tem direção de Pablo Trapero e interpretação de Ricardo Darín, que faz o “carancho” do título, isto é, o cara que vive das indenizações dos acidentados no trânsito. Ele é quem entra em contato com as famílias das vítimas, batalha das indenizações, dá uma porcentagem às vítimas ou às famílias e fica com a parte do leão.

O “abutre” não age só. Faz parte de um esquema de advogados, com conexões com a polícia. Mas o que interessa mesmo é a fluência com que a história é contada, a ambivalência do personagem principal e também da mulher por quem se apaixona, uma médica jovem. Ambivalência aqui é o seguinte: o trabalho do cara é repulsivo, mas nem por isso deixamos de simpatizar com o personagem. Pode?

Espero que o filme não dê motivos a despertar mais um daqueles inúteis Fla-Flus, que retornam sempre que um produto dos hermanos é lançado por aqui  – qual é o melhor cinema, o brasileiro ou o argentino? Acho a discussão meio supérflua, mesmo porque estamos longe de conhecer a maior parte da produção argentina – só o filé mignon chega ao Brasil. E os filmes ruins? E os filmes banais, sem serem ruins? E os rotineiros? Não contam?

Mas há que se reconhecer uma coisa: nos filmes bons, eles sabem narrar uma história, colocar uma situação com toda a força, sem serem redundantes, confiando no poder da imagem e na inteligência do espectador. Um certo cinema brasileiro, vertente majoritária, parece que ficou muito dependente da televisão. Tem a vocação de dar tudo mastigado, explicar tudo à exaustão, como se tivesse medo de que o espectador não entendesse a “mensagem”. Isso tira muito da naturalidade do relato, da sua fluência e leveza, em suma.

Isso temos de aprender com eles. O assunto não se esgota por aqui.

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28.julho.2010 13:28:55

Ruído na tradução

Hoje de manhã tomei um café com uma ex-colega de redação. Ela me apresentou o marido e, papo vai papo vem, ele me falou de um livro que acabara de lançar nos Estados Unidos. Perguntei sobre o que era. Ele me resumiu o tema da seguinte forma:

As estratégias de gestão de empresas são basicamente norte-americanas. Foram difundidas pelo mundo todo, de forma acrítica, sem levar em conta culturas locais. Os estrangeiros vêm aos EUA, fazem seus MBAs e aplicam em seus países o que aprenderam. Ou aprendem essas técnicas em seus países, através de outros professores, o que dá na mesma. Aplicam o conhecimento recém-adquirido tintim por tintim. E depois ficam surpresos quando não colhem os resultados esperados.

“É que dados específicos da cultura local não são levados em conta, assim cria-se um ruído”, explicou o marido da minha colega. Um ruído cultural. E deu um exemplo: “numa escola de samba, a adesão dos participantes é total, porque todos fazem parte daquela cultura; numa empresa, isso não acontece”.

Por mais que as corporações tentem vender a ideia de que “estamos no mesmo barco”, “fazemos parte de uma família”, ou de que “isto é um time”, os funcionários sempre ficam com a impressão de que estão sendo vítimas de uma impostura. E não aderem ao projeto da empresa. Não o sentem como seu. Há um ruído na comunicação, algo que se perde na tradução, como no belo filme de Sofia Coppola, Lost in Translation. Que, por sinal, foi muito mal traduzido em português.

O papo todo não durou mais do que cinco minutos. Aprendi muito.

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Existem o bem e o mal? Hoje, a tendência pós-moderna seria dizer que tudo isso é relativo. O que é o bem para um, é o mal para outro.

Ou ainda, que bem e mal encontram-se mesclados no ser humano. Só raciocínios toscos (como o do cinema comercial por exemplo), acreditam que bem e mal podem ser separados de maneira nítida e estanque nesse tecido de contradições que é o ser humano. Chamamos a essa posição simplista de maniqueísmo. E a evitamos como praga.

No entanto, o filósofo francês Alain Tourraine acha que é premente, no mundo contemporâneo, sabermos distinguer o bem do mal.

Para isso, assume uma posição humanista, dialogando com o velho iluminismo de inspiração francesa.

É bom ou mau voltarmos a essa antiga questão?

Leia aqui artigo no El Pais.

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Fim de semana punk, de plantão. Quer dizer: sem fim de semana. Aproveitei para rever O Terceiro Homem, de Carol Reed, estimulado pela leitura de Cidadão Cannes, de Gilles Jacob, em que o diretor do festival, em suas memórias, lembra-se da cena, belíssima, em que Alida Valli passa impassível por Joseph Cotten, depois de ter enterrado (desta vez para valer) seu amante, Harry Lime (Orson Welles). Marc Ferro, em seu clássico Cinema e História, diz que o modelo de Anna, personagem de Alida, é Antígona. Entre a lei natural e a lei da cidade, fica com a primeira. Faz todo o sentido. Volto ao assunto, talvez num artigo.

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Em seu blog, Pierre Assouline fala do roteirista Jean Aurenche, demonizado pela nouvelle vague, em especial por François Truffaut em seu artigo Une Certaine Tendance du Cinéma Français.

O post discute a trajetória desse “escritor de cinema”, que considerava (vejam bem a fórmula) o roteiro como “carta de amor endereçada ao cineasta”.

O motivo da intervenção é um documentário feito sobre a dupla Aurenche-Bost para uma série de TV que programa os filmes que tiveram origem nos roteiros escritos por eles.

Tudo isso é interessante, ainda mais porque sempre tem a ver com a pergunta de difícil resposta: o que significa escrever para cinema?

Durante muito tempo os roteiristas foram desvalorizados, muito em função da própria nouvelle vague e também, por que não?, do próprio Cinema Novo, com a ênfase na mise-en-scène e o relativo desprezo ao texto.

O próprio Glauber, que escrevia roteiros oceânicos, e era também homem de texto, nunca deu muita importância ao roteiro. Este seria como uma espécie de ensaio preliminar sobre o que iria filmar. Depois, na própria filmagem, e na montagem, é que o filme iria se resolver.

A filmagem seria uma espécie de negação dialética do roteiro.

Hoje, a ideia talvez seja outra, os roteiristas estão organizados, nos festivais existem sempre as oficinas de roteiro e há mais gente disposta a aceitar que a qualidade do texto inicial pode em alguma medida ser decisiva para o filme que se deseja fazer.

Mesmo assim, talvez sejam poucos os que admitam que, se existe algum problema no cinema brasileiro, ele está no roteiro, como andaram dizendo alguns consultores americanos de roteiro.

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