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Luiz Zanin

08.maio.2013 10:24:12

O novo blog

Quando comecei este blog, em 2006, pensei que seria experiência de pouco tempo, de meses, talvez um ou dois anos no máximo. Algumas pessoas falavam que manter um blog era submeter-se a uma espécie de escravidão voluntária. Bem, ele está aqui até hoje. Sem prazo para terminar.

A satisfação obtida com o blog é tamanha que, sem que ninguém me pedisse, abri outro, exclusivo de futebol, http://ojogodezanin.wordpress.com. O motivo é que alguns leitores estranhavam a intrusão de textos de futebol num blog sobre cultura. Agora limito-me a reproduzir, neste blog, as colunas semanais de futebol que publico na versão impressa do jornal às terças-feiras. O resto do material, comentário de jogos, ou qualquer outra coisa relativa a futebol, vai para O Jogo de Zanin – meu assim batizado blog alternativo.

Mas escrevo tudo isso para dizer o seguinte: ao longo destes sete anos de atividade como blogueiro notei uma mudança de perfil do distinto público. No início, o blog recebia muitos comentários diários. Alguns deles desaforados. Era o tempo em que o blog era completamente aberto aos comentários e os trollers se aproveitavam disso. Tive muito trabalho com eles, em especial em posts polêmicos como os que trataram de uma visita do então papa Ratzinger ao Brasil, ou sobre uma por mim suposta fascistização da sociedade brasileira. Eles entraram para detonar. E tive de defender o espaço.

Depois, foi introduzida uma política de moderação de comentários que achei muito razoável. Já que o blogueiro se torna responsável por aquilo que publica, nada mais justo que modere os comentários do seu blog. E selecione os que julga dignos de serem publicados. Uma vez autorizado um comentarista, ele não mais precisaa de moderação. Tem entrada livre no pedaço. Desse modo, o blog perdeu em número de comentários mas ganhou em qualidade – o que foi muito bom, a meu ver.

Mas, de uns tempos para cá, notei nova mudança: o número de comentários caiu muito. De início fiquei preocupado. Será que a audiência tinha caído? Mas verifiquei que não. Recebemos um relatório semanal de atividade do blog e o número de visitas e pages-view não havia diminuído. Pelo contrário, aumentara. Ou seja, as pessoas continuavam a visitar o blog e, com sorte (minha), a lê-lo.

Porém, notei que os leitores, hoje, preferem compartilhar ou recomendar os posts nas redes sociais a comentá-los. Desse modo, os posts de sucesso não são mais aqueles que têm maior número de comentários, mas os que são mais partilhados no Facebook ou no Twitter. Ou seja, o comentário dos posts migrou do blog para as redes sociais, o Face, em especial.

Mesmo assim, e sabendo que tudo muda, para dizer a verdade sinto falta dos comentários tradicionais, feitos no próprio blog. Hoje, só o que entra é spam. O comentário cedeu espaço à recomendação de leitura. Pelo menos neste blog. Não sei se nos outros ocorreu o mesmo.

De qualquer forma, parece que a ferramenta blog mudou. E talvez seja preciso compreender essa mudança se quisermos preservá-la.

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01.abril.2013 19:35:42

Meu querido milhão

Cá estou de volta, depois de um belo mês de ócio.

A boa surpresa veio no relatório semanal que recebo das atividades deste blog: ultrapassei meu primeiro milhão de page-views. Não adianta virem me dizer que é pouco, ou que tal ou qual astro da música sertaneja faz isso em um dia. Ou talvez em uma hora. Não interessa. Sinto-me um homem rico. Sou do tempo em que se dizia que para virar um milionário era preciso apenas gramar para juntar o primeiro milhão de dólares. O resto viria como consequência.

Não sei se é verdade. Mesmo porque, por deficiência de geração, ficar rico nunca esteve entre meus objetivos. Sempre fui mais ambicioso.

Mas, enfim, não me ocorre nada melhor, em face deste primeiro milhão de acessos ao blog, que agradecer a vocês, que têm a paciência de me suportar por aqui. Obrigado mesmo.

E me aguardem. Porque agora, tocado pela fortuna, tomei gosto pela coisa. Virei ambicioso. Quero um segundo milhão.

 

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13.março.2013 22:41:14

A Argentina e o papa

BUENOS AIRES- Quis o acaso que eu estivesse em férias na Argentina quando o Cardeal Bergoglio foi eleito papa Francisco 1.

A princípio a reação pareceu fria. Na avenida principal da cidade, a 9 de julio, o trânsito seguia seu caos habitual. Como os motoristas argentinos buzinam, meu Deus! Brinquei com o porteiro do hotel: ” vocês estão com tudo, hein? Messi em grande fase, agora o papa; não deixaram nada pra nós”. Gentil, me respondeu: ” Vocês tem o Neymar”. Gracias.

Enfim, as pessoas cuidavam de suas vidas. Depois, fui a uma loja atrás de uma bolsa e, no fim da compra, a lojista não aguentou e perguntou o que achávamos do papa argentino. Cumprimentei-a e devolvi a pergunta. O que ela achava? Estava emocionada, disse, porque era católica praticante. Repeti com ela a brincadeira que tinha feito com o porteiro. Me respondeu: ” sim, aqui temos tudo, menos uma presidenta”. Há uma má- vontade generalizada em relação a Cristina Kirchner.

Não unânime, porém. Perguntei como estava a situação a um motorista de táxi e ele me deu uma reposta simples: ” Para quem trabalha está muito bom. São os poderosos que detestam os Kirchner, não o povo.” Acredito que tenha razão.

De qualquer forma, logo após o anúncio, em meio às ocasionais patriotadas, a mídia começou a se lembrar dos atritos entre o conservador Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, e os Kirchner, em torno de questões como casamento homossexual, aborto, eutanásia, etc.  Exumou-se, também, a extrema tolerância da Igreja argentina com a ditadura militar.  Enfim, o ufanismo, pelo menos num primeiro momento, veio temperado por uma certa racionalidade.

À noite, houve comemoração popular em frente à Catedral de Buenos Aires, que, por ironia, fica ao lado da  Plaza de Mayo, a algumas dezenas de metros da Casa Rosada, sede do governo.  Foi discreta. Um comentarista e TV disse mesmo que, se fosse no Brasil ou no México, haveria carnaval nas ruas, praças lotadas, etc.  Aqui, predominou a discrição, embora, claro, sinta-se a emoção dos argentinos, em especial daqueles que têm fé. Nada de muito exagerado.

Como o argentino é muito politizado, havia outras manifestações concorrentes. Estudantes e professores em greve, mulheres que exigem creches para os filhos, etc. Todas na Plaza de Mayo e adjacências. Por um momento, os jornalistas temeram que as manifestações políticas e a religiosa se enfrentassem. Mas conviveram. Ou talvez tenham se ignorado mutuamente. Logo, todo mundo foi dormir.

Amanhã é outro dia e, com papa ou sem papa, há que ganhar a vida, e não está fácil para ninguém.

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11.fevereiro.2013 20:18:14

Papas

 

 

Michel Piccoli

A notícia movimentou a segunda-feira morna de carnaval: Bento 16 vai renunciar, e até já tem data para deixar o Vaticano. Diz que a idade e a saúde frágil já não permitem o desempenho de suas funções. Cabe-nos respeitar. A decisão é raríssima – acontece pela primeira vez desde o século 15. 

Boa ocasião, portanto, para rever um filme extraordinário, sobre uma situação não idêntica mas parecida, a do papa que não deseja assumir o trono de Pedro. Habemus Papam é o filme de Nanni Moretti, um dos melhores do ano passado e, na humilde opinião deste que vos escreve, o melhor. Abaixo, reproduzo o texto escrito quando do seu lançamento comercial:

 

O Vaticano já foi cenário de coisas pouco santas, como as intrigas da Guerra Fria em As Sandálias do Pescador, ou mesmo palco de crimes hediondos, como na terceira parte de O Poderoso Chefão, em que um papa é assassinado. Nunca, no entanto, serviu de cenário para a humanização maior de alguém ungido pela infalibilidade como neste Habemus Papam, de Nanni Moretti.

Como a Igreja não gosta que mexam com seus mitos sagrados, alguns religiosos protestaram contra Moretti, assim como fizeram com o muito mais inofensivo O Código da Vinci. No caso de Habemus Papam, a Igreja, do seu ponto de vista é claro, até que tem certa dose de razão. Isso porque o filme, se por um lado pode ser visto de maneira um tanto superficial apenas como uma comédia dramática às vezes divertida e outras vezes tocante, no fundo traz um veio crítico nada desprezível.

A história é a de um conclave, reunido para escolher o novo papa depois da morte do anterior. Penetrar na pompa desses bastidores eclesiásticos, com toda a força das imagens, é um dos méritos de Moretti como diretor experimentado, no auge de sua capacidade formal. A força das imagens é tamanha que mesmo leigos talvez fiquem impressionados com a religiosidade que delas emana.

O efeito é grandioso, porém enganador, porque Moretti, sábio e astuto como apenas um artesão de longa prática sabe ser, começa logo a movimentar as peças que corroem a engenhoca cerimonial por dentro. A principal delas, uma fina ironia que faz com que toda pompa e circunstância comecem a parecer irrisórias. Risíveis, no limite; mas é bom que se diga que a delicadeza do diretor não lhe permite uma galhofa irresponsável. Sua estratégia é apenas, digamos assim, descorar um pouco a púrpura dos cardeais e desidratar-lhes a postura demasiado composta. Em uma palavra, ele humaniza os sacerdotes evidenciando suas fraquezas, ciúmes, desejos de poder, tédio e medo. Durante a votação, alguns rezam para não serem eleitos, tendo por cenário nada menos do que os afrescos da Capela Sistina, onde se dão os debates.

A aplicação dessa estratégia de desmistificação se dá sobre todos os personagens, de maneira geral, mas é ainda mais intensa sobre o protagonista, o cardeal francês que, para sua surpresa, acaba eleito por seus pares para ocupar o trono de Pedro. Aceita, mas a responsabilidade lhe pesa demais e não consegue ir à sacada da residência papal, na Praça São Pedro, em Roma, para saudar a multidão de fiéis. Um psicanalista ateu (o próprio Moretti) é convocado para ajudar o novo papa a vencer a sua inibição.

Falar de tudo isso é muito simples, e a “trama” não deixa de ser de uma facilidade extrema. Um homem aceita um cargo e, ato contínuo, descobre-se incapacitado para assumir. Tivesse ele um emprego comum e daria um passo atrás, sem qualquer problema. Renegociaria a sua promoção ou, no limite, pediria demissão da empresa e iria repensar a vida num resort no sul da Bahia, digamos. Fica mais difícil para um papa fazer a mesma coisa. Não apenas pela expectativa despertada em milhões de pessoas de todo o mundo, mas porque, ao aceitar, seu nome se reveste da aura santa da infalibilidade. Ora, como conciliar o poder do infalível com a fragilidade extrema do homem? Fica difícil. E, dessa contradição, nasce uma situação dramática pouco comum.

Por outro lado, a veia cômica de Moretti faz com que a dramaticidade da situação seja temperado por um humor de primeira, refinado e nunca óbvio. Ele próprio faz o psicanalista também cheio de problemas com sua mulher e que deverá consertar a cabeça do novo pontífice. Para isso, deverá permanecer no interior do Vaticano, junto com os cardeais do mundo inteiro durante tempo indeterminado. Não saem por uma questão de segurança. O mundo não pode saber do drama íntimo que está se passando no interior dos muros sagrados. E, desse modo, Moretti terá a ideia de proporcionar aos seus colegas cardeais algum tipo de entretenimento, para passar o tempo. O espectador verá por si mesmo em que consiste essa diversão terapêutica.

Tudo é muito bom em Habemus Papam, do roteiro imaginativo às imagens excepcionalmente bem construídas por Moretti. Mas, se tivermos de observar o filme em seus elementos, nada supera a interpretação marcante de Piccoli, patético e intenso, em sua pungente humanidade de alguém escolhido para uma tarefa acima de suas forças. Deve-se dizer que o filme, sendo de Moretti, atira também em outras direções. O da fábula da moral psi: como submeter à psicanálise, técnica baseada na sinceridade mais completa consigo mesmo, alguém cuja subjetividade é vigiada por toda a estrutura eclesiástica? Fábula de moral política: num mundo em que todos, de alguma maneira, desejam o poder, como considerar alguém que o recusa? Fábula do absurdo: por que não envolver toda a comunidade eclesiástica num animado torneio de vôlei enquanto os pilares do seu mundo bambeiam?

Essas propostas distintas, por vezes contraditórias, entre o riso, a reflexão séria e a compaixão humana, se entrechocam e se comentam neste brilhante Habemus Papam.

 

Tramas vaticanas

As Sandálias do Pescador (1968), de Michael Anderson, baseada no best-seller de Morris West. No quadro da Guerra Fria, um antigo prisioneiro político da União Soviética (Anthony Quinn) é eleito papa, como última esperança de impedir uma guerra nuclear entre as superpotências.

O Poderoso Chefão 3 (1990), de Francis Ford Coppola. Na sua tentativa de legalizar a família Corleone, Michael (Al Pacino) enreda-se cada vez mais com o crime organizado internacional. Culmina com o assassinato do papa João Paulo I num complô envolvendo a máfia siciliana, o Banco Ambrosiano e a loja maçônica P2.

O Código da Vinci (2006), de Ron Howard, baseado no romance de sucesso internacional de Dan Brown. A história reconstrói uma trama conspiratória, com palco de ação no museu do Louvre, que culmina na revelação de um “segredo” sobre a vida de Jesus: ele teria se casado e tido filhos com Maria Madalena. A Igreja recomendou o boicote dos fiéis ao filme.

Nanni Moretti

Nanni Moretti (1953) está na primeira linha do cinema italiano contemporâneo, com seus filmes engajados, irônicos e críticos da política de seu país. Não é também a primeira vez que examina a questão religiosa, muito presente na Itália: em 1985 fez La Messa è Finita (A Missa Acabou) em que interpreta um sacerdote jovem. Palombella Rossa (1989) já é uma obra de conteúdo explicitamente político. Em Caro Diário (1993), Moretti faz como que um documentário de si mesmo, em primeira pessoa e dividido em três episódios. Num deles, narra uma grave doença da qual foi vítima. Com O Quarto do Filho (2001), comovente drama sobre a morte de um menino, vence a Palma de Ouro em Cannes. Adversário ferrenho de Silvio Berlusconi, satiriza o ex-premiê italiano no impiedoso O Crocodilo (2006). Nanni tem um cinema no bairro do Trastevere, em Roma, o Nouvo Sacher, destinado ao cinema de autor. É também produtor. É dele a produção de César Deve Morrer, dos irmãos Taviani, vencedor do Urso de Ouro no recém-encerrado Festival de Cinema de Berlim.

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15.outubro.2012 12:16:32

Professores…

 

Um dia, um professor de português do curso secundário bolou um método original de avaliação. O aluno não precisaria decorar regras de gramática ou acentuação. Bastaria manter uma espécie de diário, no qual faria uma redação por dia, que ele leria e corrigiria. Pronto. Comecei a escrever, adquiri hábito e não parei até hoje. Não me lembro do seu nome. Obrigado, professor.

Muitos e muitos anos depois, outra professora bolou um igualmente original método de avaliação. Em seu curso de Filosofia fomos convidados a fazer uma pesquisa, com tema livre, que ela orientaria até a redação do texto final.

Eu era, além de aluno de Filosofia, pós-graduando da Psicologia e tentava uma dissertação de mestrado sobre Freud. A coisa não andava. Perguntei se podia usar esse tema de pesquisa e ela não viu problema. Leu o que eu já tinha escrito, recomendou-me nova bibliografia, acompanhou minhas iluminações e dúvidas, e leu meu trabalho final. Além de ser aprovado em sua disciplina, pude escrever uma dissertação de mestrado bem mais consistente.

Dela, eu lembro o nome. Obrigado, professora Marilena Chauí.

São apenas dois exemplos de como professores podem mudar – para melhor – a nossa vida. Abrem portas, fazem-nos ver uma vocação ali onde nada enxergávamos.

Obrigado a todos os mestres. Tão desvalorizados, tão mal pagos. Um país que se leva a sério põe a educação em primeiro lugar.

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28.setembro.2012 00:10:35

O ursinho do Protógenes

 

Fui almoçar num shopping e, para fazer a digestão, resolvi ver um filme. Não era grande a oferta, como em geral acontece nos cinemas de shoppings. Mas um deles me chamou a atenção: Ted, aquele que o deputado Protógenes Queirós foi ver com o filho de 11 anos e ficou escandalizado. Bom, tudo o que pode escandalizar um deputado já é digno do meu interesse. Entrei.

Uma nota: não compartilho dessa bobageira atual de que “todos os políticos são corruptos, isso ou aquilo, etc”. Não posso aceitar esse tipo de preconceito porque, como em todas as categorias profissionais, há entre eles os bons, os maus e os medianos. Além disso, somos nós que os elegemos. Então, cada crítica que a eles fazemos se volta sobre nós, como por um efeito de espelho. Mas, afinal, tendo a achar que são pessoas experientes, com visão adulta do mundo, cidadãos de horizontes mais ou menos largos, até mesmo pela convivência com o poder, que impõe um pacto realista entre o sujeito e o mundo. Portanto, o que teria esse filme que provoca escândalo no deputado Protógenes?

Tem o seguinte: Ted é uma espécie de fábula politicamente incorreta sobre adultos que não conseguem crescer. Vemos o personagem de John, na infância, ganhando o tal ursinho de pelúcia e, num determinado momento, implorando para que ele ganhe vida e seja seu companheiro pela existência afora. De algum modo, o desejo é atendido e a fábula tem início. (A história é narrada por uma voz off, tão séria que se torna zombeteira. Parece narração de alguns filmes dos Coen ou de Von Trier).

Enfim, há um pulo no tempo, e então reencontramos os dois personagens, John, agora vivido por Mark Whalberg, e o urso, que adquiriu voz adulta. Ambos continuam amigos e, agora, companheiros de farra. Mulherengos, bebem e fumam maconha em tempo integral. Ted, o urso, é particularmente desbocado. Solta palavrões dos mais cabeludos. Bastam  rudimentos de inglês para perceber que as legendas brasileiras atenuam bastante as frases – talvez para relativo alívio do deputado Protógenes.

O filme, dirigido por Seth MacFarlene, alterna bons e maus momentos. Flerta com o lado anárquico, mas tem um fundo conservador, apesar das aparências. A amizade entre o homem e seu brinquedinho de estimação é perturbada pela entrada em cena da namorada de John, a fatal Mila Kunis. Ela quer casar. Mas não quer casar com um cara de 35 anos cujo melhor amigo é um ursinho safado.

Mas, em seu todo, Ted é uma boa comédia. As frases, algumas ao menos, são bem boladas e provocam riso. Um pouco porque, numa época repressiva como a nossa, transgressões provocam alegria e nos fazem sonhar com um mundo menos sisudo. Por outro, vindas da boca de um ursinho de pelúcia, tais barbaridades ficam ainda mais surpreendentes e, portanto, risíveis.

Parece que, num primeiro momento, o deputado Protógenes quis proibir o filme (como se tivesse poderes para tanto) e agora se contenta em alterar a classificação etária, aumentando-a de 16 para 18 anos. Há de ter seus motivos, inclusive porque levou seu filho de 11 anos para ver um filme recomendado a maiores de 16.

Convém lembrar: no Brasil, moças e rapazes de 16 anos podem votar. Não é obrigatório, mas, caso queiram, podem ir às urnas e eleger deputados como Protógenes. Mas são considerados, pelo deputado, mentalmente incapazes de rir de maneira sadia com o alegre besteirol do ursinho Ted.

Isto é Brasil ou não é?

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16.setembro.2012 20:21:10

O charme do Lido

Parte dos fundos do velho Cassino da era fascista

 

 

Quando você ouve falar em festivais de cinema (há um em cada cidade, a cada dia do ano), é preciso saber que o de Veneza foi o primeiro evento do gênero no mundo. O pioneiro.

Sua primeira edição foi em 1932, com a Itália sob o regime fascista de Benito Mussolini. Portanto, o festival, cujo nome completo é Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, tem exatos oitenta anos de idade e cumpriu, neste 2012, sua 69 edição. Por que a disparidade entre número de anos e de edições ? Porque, no início, a mostra era bienal. E também foi interrompida durante os anos da guerra.

Aliás, a Mostra faz parte de uma entidade mais ampla, a Biennale di Venezia, que agrega manifestações de dança, teatro e artes plásticas, além do cinema. É um ente importantíssimo no quadro da cultura italiana.

A outra coisa a saber é que o Festival de Veneza não se realiza exatamente na Veneza histórica, aquela dos canais, das gôndolas, da Praça São Marcos e da Ponte dos Suspiros, cartões postais da Itália que fazem da cidade dos Doges um dos destinos turísticos mais procurados.

O festival fica no Lido, uma ilha comprida como o mapa do Chile, de 18 quilômetros e extensão e fininha, que dista uns 10 minutos de vaporeto da Praça São Marcos. Se você desce no aeroporto Marco Polo, o percurso ao Lido é maior e leva uns 40 minutos. De barco, óbvio.

No Lido montou-se a estrutura do festival. O antigo Cassino (o Casinò), um exemplar da pesada arquitetura fascista, quadradona, é a sede do festival, o seu centro nervoso. Em seus três andares distribuem-se as salas de imprensa, a de entrevistas coletivas e toda a burocracia do evento. Fervilha de gente durante os 11 dias de festival e permanece vazio o resto do ano. Há também no Cassino duas salas de cinema. As outras, maiores, alojam-se ao seu lado. A Sala Darsena, desconfortável, porém de boa técnica de som e imagem, é onde se dão as sessões de imprensa e tem uns 1500 lugares. Ao seu lado, a Sala Grande faz jus ao nome e abriga as sessões oficiais, de terno e gravata e mulheres de soirée. As celebridades chegam a ela pelo tapete vermelho, que simboliza o glamour do festival.

Falta dizer que existe, em frente ao Cassino, um estranho e enorme buraco, agora coberto, mas ainda assim incômodo. O que aconteceu? Faz alguns anos, sentindo a necessidade de construir um novo Palácio do Cinema, a direção do festival embarcou num ambicioso projeto. Depois de idas e vindas, falta de dinheiro, polliticagens, etc, as obras começaram. Quando foram colocar as fundações do novo Pallazzo, encontraram amianto, resto de antigas construções e hoje material banido por seu caráter tóxico. Na impossibilidade de eliminar o amianto, as obras foram interrompidas – parece que para todo o sempre – e o buraco lá ficou, como símbolo da incompetência e da falta de planejamento. “O que faremos com o buraco? Vamos tapá-lo”, declarou, com todas as letras, o presidente da Bienal, um septuagenário de ar aristocrático chamado Paolo Baratta.

Esses desarranjos são sinais evidentes, metáforas de um estado de coisas crônico: o Lido não tem condições de abrigar um evento desse porte. De 1932 para cá, o festival cresceu muito. Atrai gente de todas as partes do mundo, entre os quais mais de 3 mil jornalistas credenciados. Essas pessoas precisam ver os filmes, dispor de infraestrutura para realizar seu trabalho, fazer entrevistas e ter acesso à internet, e também necessitavam ser hospedadas e nutridas.

O Lido não comporta nada disso. Existe um pequeno número de restaurantes, que não dão conta do afluxo extraordinário de clientes durante a Mostra. A rede hoteleira é ínfima. Além de hotéis de luxo como o Excelsior e o Cipriani (que fica em outra ilha na laguna), existe uma série de pequenos “albergos”, de duas ou três estrelas, que cobram preços de hotéis de luxo. Não é difícil encontrar diárias de 200 ou 300 euros em hotéis pelos quais, no Brasil, se pagaria, digamos, 80 ou 100 reais a noite. Multiplique o euro por 2,50 e você terá ideia de quanto custa se hospedar no Lido durante a Mostra. Passado o festival, os preços desses hotéis despencam para 60 ou 70 euros por dia.

Esses problemas de infra-estrutura parecem longe de alguma solução. A cada ano as autoridades dizem que vão tirar algum projeto da gaveta, mas nada acontece. Faz alguns anos, um prefeito de Veneza bolou o plano mirabolante de ancorar nas costas do Lido navios-hotéis para abrigar os convidados sem teto. A ideia, claro, não vingou.

O Festival de Veneza não é tão bem organizado como o de Berlim, ou tão comercial como o de Cannes, seus dois concorrentes europeus. Nem é tão voltado ao mercado, como o de Toronto, que agora o ameaça do outro lado do Atlântico porque as datas coincidem e os os americanos estão dando preferência aos canadenses. Mas, com tudo isso contra, Veneza ainda é insubstituível. Para a cidade, o evento é precioso porque, apesar das deficiências, injeta dinheiro considerável na economia. Hoteleiros, donos de restaurantes, alugadores de bicicletas, vendedores de sorvete e pizza – todos lavam a alma durante esses 11 dias de Mostra. Capitalizam-se para os tempos das vacas magras. Para os críticos e apreciadores do cinema de autor, também é fundamental, pois é para cá que ainda vêm os filmes mais desafiadores e estimulantes.

Há os problemas logísticos para a cidade.

O Lido faz sentido durante o festival e os meses quentes. Suas praias, logo em frente ao Cassino, são muito procuradas. Veem-se nelas as barraquinhas que os europeus alugam durante a temporada, para trocar a roupa e passar o dia. Em frente ao mar fica o mitológico Hotel des Bains, que todo cinéfilo digno desse nome sabe que foi locação para Morte em Veneza, de Luchino Visconti, baseado na novela de Thomas Mann. O Les Bains está fechado, em reforma. Quando reabrir será como uma espécie de ressort.

Quando chega o inverno, tudo acaba. O Lido vira um deserto.

Com todos esses desafios, tratados como se fossem doenças crônicas com as quais se pode conviver, o Festival de Veneza ainda mantém o seu encanto. Um charme decadente, digamos, mas irresistível.

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18.maio.2012 18:28:18

Três mil posts!

Este é o post número três mil deste blog.

Não pense que não fiquei surpreso quando entrei nas estatísticas do site e descobri esse número. Desde 2006. Será que é muito, será que é pouco?

Também há mais de 18 mil comentários aprovados, sem contar os spams, é lógico.

Descobri, com o tempo, que passa muita gente pelo blog. Gente que lê, gosta ou não gosta, ou fica indiferente e não comenta. Soube deles apenas pelas estatísticas, que são números frios. Mas, de qualquer forma, suponho que alguns dentre esses cerca de 8 mil pageviews por semana possam ler o que vai por aqui.

Enfim, três mil posts, grandes, médios ou pequenos. É muito texto. Como vocês me aguentam?

De minha parte, devo confessar: tem valido a pena.

Agradeço aos que por aqui passam e simplesmente leem, discretamente.

Um grande abraço a todos os que se dão ao trabalho de comentar as maltraçadas deste escriba.

Vamos em frente.

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16.maio.2012 11:57:48

Comissão da Verdade

Para falar com franqueza, o estranho é que o Brasil tenha demorado tanto tempo para instaurar a tal Comissão da Verdade. Parece um procedimento óbvio para um País que passou por uma longa ditadura militar, durante a qual tantos crimes foram cometidos. A ditadura terminou em 1985. Em 1989 tivemos a primeira eleição direta para presidente. Desde então vivemos em plena democracia. É tempo demais para fatos traumáticos ficarem acobertados por um silêncio obsequioso.

A leniência do Brasil com criminosos fica mais evidente quando se compara a passividade local com o que aconteceu em países latino-americanos também vítimas de ditaduras como Argentina, Chile e Uruguai. Nestes, os criminosos do regime, mandantes e torturadores, foram julgados e alguns condenados. É bom frisar. Não responderam por seus crimes apenas policiais sádicos, cujos baixos instintos eram instrumentalizados pelo regime, mas os mandantes, dos superiores imediatos até as esferas mais altas, pois estes são os grandes responsáveis. Há ainda alguns desses graúdos cumprindo pena, como Jorge Videla na Argentina. Foi “presidente”. Está atrás das grades.

Essa diferença sempre me pareceu devida a razões culturais. Somos mais maleáveis (no mau sentido do termo). Mais transigentes. Mais “cordiais”. A própria transição para a democracia se deu de forma pacífica, negociada, de modo que não ficassem feridas abertas. O que é uma ilusão. Uma ditadura de 20 anos produz cicatrizes por gerações. Há ainda pessoas vivas, em plena atividade, que sofreram na pele (literalmente) os efeitos da ditadura. Seus filhos estão aí. Há pessoas que perderam os pais, como o nosso amigo e colunista Marcelo Rubens Paiva. Enfim, cicatrizes é que não faltam.

E elas não fecharão nunca se tudo não for dito, de uma vez por todas. É por isso que uma Comissão da Verdade, desde que trabalhe para valer, terá uma função terapêutica sobre a Nação, ao contrário do que dizem os que temem “revanchismo”.

Essa comissão expressa, sem tirar nem pôr, o direito inalienável de todos os povos que é o de conhecer a sua História. E isso inclui conhecer não apenas os fatos heroicos e positivos, mas também (e sobretudo) os mais dolorosos, aqueles que, justamente por isso, não querem e não podem calar.

Portanto, por mais que incomode a determinados setores, a Comissão da Verdade, até para honrar seu nome, deverá ir ao fundo dos fatos, por assim dizer. Investigar o destino dos desaparecidos, esclarecer as circunstâncias da sua morte e a localização dos corpos. E assim por diante. Precisa saber quem ordenava os atos da repressão, quem comandava a tortura como política de Estado. Precisa esclarecer os elos entre o aparelho da repressão e os colaboradores civis, ligação até agora pouco esclarecida, e por razões óbvias.

Depois de um longo tempo de silêncio e vergonha, a Nação precisa enterrar seus mortos. De maneira literal e também figurada.

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Neymar foi ao Congresso Federal e provocou o maior tititi. Os parlamentares comportaram-se como tietes. Bateram bola com o jogador e pediram autógrafos. Alguns pediram assinatura até nas maletas de couro.

Todo mundo se escandalizou. Ouvi insinuações de falta de decoro ou coisa assim.

Ora, o primeiro dever de um jornalista é não ser ingênuo. Sei bem que em ano eleitoral é sempre conveniente posar ao lado de algum famoso. Pode ter havido alguma coisa nesse sentido.

Por outro lado, Neymar é mesmo um ídolo. Conquistou essa condição. Onde aparece, é notado. Todos os olhares se voltam para ele. Todo mundo quer se aproximar. Tocá-lo. Ganhar um suvenir. É coisa do ídolo.

Pelé tem isso. Ali, idem. Fidel Castro tinha. Me lembro da presença do Comandante no Teatro Karl Marx em Havana, anos atrás. Quando ele surgiu era impossível desviar o olhar para o outro lado. É o magnetismo do olhar.

Portanto, se tietagem houve, ou ridículo, ou oportunismo, tudo bem. Fica o registro.

Mas fica também a alegria da presença de um ídolo do futebol ainda entre nós. Alguém capaz de despertar tanta paixão e atenção. Ou preferiam que já estivesse na Europa?

E há também a má vontade com os políticos. Eu também tenho. Preferia que fossem de outro jeito, mais honestos, mais preparados, mais trabalhadores.

Acontece que não nasceram lá. Alguém os colocou em seus postos. Seus eleitores.

O Congresso pode ser péssimo. Prefiro-o aberto, livre e imperfeito, como é agora, do que fechado ou cerceado, como na época da ditadura.

 

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