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Luiz Zanin

Há muitos anos escrevi uma crônica sobre Nelson Cavaquinho. Nunca mais a vi. Agora, encontrei-a no acervo do jornal. Leia aqui.

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18.maio.2012 18:28:18

Três mil posts!

Este é o post número três mil deste blog.

Não pense que não fiquei surpreso quando entrei nas estatísticas do site e descobri esse número. Desde 2006. Será que é muito, será que é pouco?

Também há mais de 18 mil comentários aprovados, sem contar os spams, é lógico.

Descobri, com o tempo, que passa muita gente pelo blog. Gente que lê, gosta ou não gosta, ou fica indiferente e não comenta. Soube deles apenas pelas estatísticas, que são números frios. Mas, de qualquer forma, suponho que alguns dentre esses cerca de 8 mil pageviews por semana possam ler o que vai por aqui.

Enfim, três mil posts, grandes, médios ou pequenos. É muito texto. Como vocês me aguentam?

De minha parte, devo confessar: tem valido a pena.

Agradeço aos que por aqui passam e simplesmente leem, discretamente.

Um grande abraço a todos os que se dão ao trabalho de comentar as maltraçadas deste escriba.

Vamos em frente.

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16.maio.2012 11:57:48

Comissão da Verdade

Para falar com franqueza, o estranho é que o Brasil tenha demorado tanto tempo para instaurar a tal Comissão da Verdade. Parece um procedimento óbvio para um País que passou por uma longa ditadura militar, durante a qual tantos crimes foram cometidos. A ditadura terminou em 1985. Em 1989 tivemos a primeira eleição direta para presidente. Desde então vivemos em plena democracia. É tempo demais para fatos traumáticos ficarem acobertados por um silêncio obsequioso.

A leniência do Brasil com criminosos fica mais evidente quando se compara a passividade local com o que aconteceu em países latino-americanos também vítimas de ditaduras como Argentina, Chile e Uruguai. Nestes, os criminosos do regime, mandantes e torturadores, foram julgados e alguns condenados. É bom frisar. Não responderam por seus crimes apenas policiais sádicos, cujos baixos instintos eram instrumentalizados pelo regime, mas os mandantes, dos superiores imediatos até as esferas mais altas, pois estes são os grandes responsáveis. Há ainda alguns desses graúdos cumprindo pena, como Jorge Videla na Argentina. Foi “presidente”. Está atrás das grades.

Essa diferença sempre me pareceu devida a razões culturais. Somos mais maleáveis (no mau sentido do termo). Mais transigentes. Mais “cordiais”. A própria transição para a democracia se deu de forma pacífica, negociada, de modo que não ficassem feridas abertas. O que é uma ilusão. Uma ditadura de 20 anos produz cicatrizes por gerações. Há ainda pessoas vivas, em plena atividade, que sofreram na pele (literalmente) os efeitos da ditadura. Seus filhos estão aí. Há pessoas que perderam os pais, como o nosso amigo e colunista Marcelo Rubens Paiva. Enfim, cicatrizes é que não faltam.

E elas não fecharão nunca se tudo não for dito, de uma vez por todas. É por isso que uma Comissão da Verdade, desde que trabalhe para valer, terá uma função terapêutica sobre a Nação, ao contrário do que dizem os que temem “revanchismo”.

Essa comissão expressa, sem tirar nem pôr, o direito inalienável de todos os povos que é o de conhecer a sua História. E isso inclui conhecer não apenas os fatos heroicos e positivos, mas também (e sobretudo) os mais dolorosos, aqueles que, justamente por isso, não querem e não podem calar.

Portanto, por mais que incomode a determinados setores, a Comissão da Verdade, até para honrar seu nome, deverá ir ao fundo dos fatos, por assim dizer. Investigar o destino dos desaparecidos, esclarecer as circunstâncias da sua morte e a localização dos corpos. E assim por diante. Precisa saber quem ordenava os atos da repressão, quem comandava a tortura como política de Estado. Precisa esclarecer os elos entre o aparelho da repressão e os colaboradores civis, ligação até agora pouco esclarecida, e por razões óbvias.

Depois de um longo tempo de silêncio e vergonha, a Nação precisa enterrar seus mortos. De maneira literal e também figurada.

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Neymar foi ao Congresso Federal e provocou o maior tititi. Os parlamentares comportaram-se como tietes. Bateram bola com o jogador e pediram autógrafos. Alguns pediram assinatura até nas maletas de couro.

Todo mundo se escandalizou. Ouvi insinuações de falta de decoro ou coisa assim.

Ora, o primeiro dever de um jornalista é não ser ingênuo. Sei bem que em ano eleitoral é sempre conveniente posar ao lado de algum famoso. Pode ter havido alguma coisa nesse sentido.

Por outro lado, Neymar é mesmo um ídolo. Conquistou essa condição. Onde aparece, é notado. Todos os olhares se voltam para ele. Todo mundo quer se aproximar. Tocá-lo. Ganhar um suvenir. É coisa do ídolo.

Pelé tem isso. Ali, idem. Fidel Castro tinha. Me lembro da presença do Comandante no Teatro Karl Marx em Havana, anos atrás. Quando ele surgiu era impossível desviar o olhar para o outro lado. É o magnetismo do olhar.

Portanto, se tietagem houve, ou ridículo, ou oportunismo, tudo bem. Fica o registro.

Mas fica também a alegria da presença de um ídolo do futebol ainda entre nós. Alguém capaz de despertar tanta paixão e atenção. Ou preferiam que já estivesse na Europa?

E há também a má vontade com os políticos. Eu também tenho. Preferia que fossem de outro jeito, mais honestos, mais preparados, mais trabalhadores.

Acontece que não nasceram lá. Alguém os colocou em seus postos. Seus eleitores.

O Congresso pode ser péssimo. Prefiro-o aberto, livre e imperfeito, como é agora, do que fechado ou cerceado, como na época da ditadura.

 

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06.março.2012 17:45:22

País de aproveitadores

Parei o carro no posto de costume, perto de casa, para abastecer. Peguei o hábito porque o tal posto cobra um preço justo e a gasolina, em aparência, é ok. Pelo menos, o motor do meu velho Vectra nunca protestou.

Não é que, na hora de pagar, reparei que o preço tinha sido aumentado em 40 centavos o litro?!

Perguntei ao frentista se o dono havia mudado. Ele deu um sorriso e entendeu o motivo da pergunta: “É a greve, né, doutor, eles aproveitam para aumentar o preço, no Brasil é assim”.

E ainda me consolou: “o senhor volta na semana que vem que já baixou de novo”.

Então, tá. Aposto que se você puxar conversa com o dono do posto, ele vai dizer que no Brasil ninguém presta, que todos os políticos são corruptos e etc e tal.

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Recebi agora há pouco, do cineasta Roberto Gervitz, um abaixo-assinado de apoio à Comissão da Verdade. Transcrevo abaixo o documento e as assinaturas.

MANIFESTO DOS CINEASTAS BRASILEIROS
EM APOIO
À COMISSÃO DA VERDADE

Nós, cineastas brasileiros, expressamos a nossa preocupação com as frequentes manifestações de militares confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito. Todos os cidadãos brasileiros têm o direito de conhecer o que foram os 21 anos de ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. É preciso que a Comissão da Verdade, instituída para esclarecer fatos obscuros daquele período, em que foram cometidas graves violências institucionais, perseguições, torturas e assassinatos, tenha plenas condições e apoio da sociedade brasileira para realizar essa tarefa histórica. Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes. Estaremos atentos para que tal comissão seja composta por pessoas comprometidas com a democracia e com a verdade.

1. João Batista de Andrade
2. Roberto Gervitz
3. Lucia Murat
4. Manfredo Caldas
5. Luiz Carlos Lacerda
6. Jaime Lerner
7. Hermano Penna
8. Helena Solberg
9. David Meyer
10. Luiz Alberto Cassol
11. Renato Tapajós
12. Geraldo Moraes
13. Laís Bodansky
14. Luiz Bolognesi
15. Silvio Da Rin
16. Rosenberg Cariri
17. Toni Venturi
18. Joel Zito Araujo
19. André Kotzel
20. Paulo Morelli
21. Carlos Alberto Riccelli
22. Ana Maria Magalhães
23. Henri Gervaiseau
24. Zita Carvalhosa
25. Ícaro Martins
26. Rubens Rewald
27. Ruy Guerra
28. Daniela Capelato
29. Wolney Oliveira
30. Guilherme de Almeida Prado
31. Jorge Alfredo
32. Roberto Berliner
33. André Ristum
34. Carlos Gerbase
35. Omar Fernandes Aly
36. Renato Barbieri
37. Jeferson De
38. Alain Fresnot
39. Murilo Salles
40. Sergio Roizenblit
41. Gilson Vargas
42. Marcio Curi
43. Newton Canito
44. Isa Albuquerque
45. Rose La Creta
46. Rodolfo Nanni
47. Monique Gardenberg
48. José Joffily
49. Chico Guariba
50. Luiz Dantas
51. Tetê Moraes
52. Eliane Caffé
53. Walter Carvalho
54. Augusto Sevá
55. Eliana Fonseca
56. Daniel Santiago
57. Paulo Halm
58. Mariza Leão
59. Sergio Rezende
60. Jorge Durán
61. Miguel Faria
62. Jom Tob Azulay
63. Flavio Frederico
64. Tatiana Lohmann
65. Mauro Baptista Vedia
66. Claudio Kahns
67. Lauro Escorel
68. José Araripe Jr
69. Galuber Paiva Filho
70. Ricardo Pinto e Silva
71. Sergio Bloch
72. Ariane Porto
73. Cesar Charlone
74. Roberto Farias
75. Roberto Santos Filho
76. Oswaldo Caldeira
77. Ricardo Elias
78. Christian Saghaard
79. Pola Ribeiro
80. Tuna Espinheira
81. Lázaro Faria
82. Marina Person
83. David Kullock
84. Mara Mourão
85. Silvio Tendler
86. Sergio Machado
87. Cecília Amado
88. Edgard Navarro
89. Henrique Dantas
90. Cesar Cavalcanti
91. Dodô Brandão
92. Carolina Paiva
93. Guto Pasko
94. Carlos Dowling
95. Duarte Dias
96. Kleyton Amorim Marinho
97. Renato Ciasca
98. Rubens Xavier
99. Antonio Olavo
100. Luiz Carlos Barreto
101. Lucy Barreto
102. Paula Barreto
103. Bruno Barreto
104. Phillipe Barcinski
105. Cristina Leal
106. Tata Amaral
107. Eduardo Escorel
108. Alfredo Barros
109. Helena Ignez
110. Sergio Sanz

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A esta altura do campeonato acho que só quem vive em Marte ignora a história do colunista social de João Pessoa que diz na peça da publicidade que “trouxe toda a minha família, menos a Luiza, que está no Canadá.”

Bem, virou febre, não me pergunte por quê. Agora há pouco acabo de receber um e-mail de assessoria de imprensa dizendo que Luiza está voltando a João Pessoa nas asas da Gol. Possivelmente essa asneira viral faça parte de alguma campanha publicitária, e não apenas a do condomínio paraibano. Como saber? O que dizer dessas coisas?

Nada, a não ser o seguinte. Em princípio não tenho nada contra bobagem. Acho que a seriedade militante, o tempo todo, estraga o fígado mais que bebida ruim. Um pouco de besteira é o sal da vida. E atire a primeira pedra quem nunca se sentou numa mesa de bar, entre amigos e amigas, para tomar umas e outras e dizer abobrinhas. Tudo isso faz bem. Desopila.

O meu ponto é outro: o grau de besteirol a que estamos chegando parece ocupar todo o tempo livre das pessoas. Mas o que digo? Só o tempo livre, não. Esse nhenhenhem rola o dia todo nas redes sociais e em toda parte, durante o expediente, durante as chamadas horas laborais, quando deveríamos estar com a cabeça em outra parte, concentrados em nosso trabalho, no estudo, em qualquer coisa útil.

E estamos pensando em que? Na Luiza, que está, ou esteve, no Canadá. No Michel Teló, no Daniel e na Monique, na falsa grávida de quadrigêmeos, etc, etc. O mundo parece ter virado uma farsa full time, que pode ser sinistra ou engraçada, dependendo do ângulo do qual se olha.

Chega a hora em que a overdose de asneiras não nos deixa pensar em mais nada, ocupa todo o nosso espaço mental, porque tudo isso é muito invasivo, não adianta negar. E aí o caso fica preocupante.

Se é que, no meio do nossa pasmaceira embotada, ainda temos condição ou lucidez de nos preocuparmos com alguma coisa que não seja o BBB ou o destino da Luíza.

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1) Passo de forma lateral sobre essa história do BBB e do suposto estupro. Não acompanho nada disso, sorry, porque tenho mais o que fazer. Mas assisti à leitura da nota oficial da Globo, ontem, durante o Jornal Nacional. Vi alegações de advogados, e ponderações muito sisudas dos apresentadores, como se tratassem do assunto mais sério do mundo. Perdão, mas a história toda é de um ridículo atroz, e não sei como os envolvidos, a começar pelos participantes e terminando pela própria TV, não morrem de vergonha. Em tempos mais bem humorados, o tema seria objeto do riso universal.

2) Já o naufrágio do Costa Concordia seria outro caso de ridículo supremo, não tivesse terminado de forma trágica, com o custo de vidas humanas. Um mastodonte daqueles, encalhar nas rochas por, supõe-se, um ato de exibicionismo do comandante, é o fim da picada. O affair do capitão covarde tem sido comentado de várias formas, algumas inteligentes. A  Itália, numa profunda crise de identidade pós-Berlusconi, tomou-o como fato simbólico: afinal, somos uma nação de Schettinos ou de De Falcos? Não está na hora de todos dizermos, como De Falco, “Vada a bordo, cazzo” ?

Li hoje, na Folha, a brilhante análise de Contardo Calligaris sobre o tema da covardia. Cita vários autores, incluindo Shakespeare. Estranho é que ninguém, que eu saiba, tenha feito a ligação do caso do capitão italiano com uma das mais célebres obras da literatura, Lorde Jim, de Joseph Conrad, que trata exatamente disso, do ato covarde que persegue o homem ao longo da vida. E no ambiente náutico, ainda por cima, o mesmo do malfadado Capitão Schettino.

Será que ninguém mais lê Conrad hoje em dia?

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Em Terraferma, de Emanuele Crialese, um velho capitão salva um grupo de clandestinos na costa italiana e os abriga em sua casa, contrariando a legislação que o obrigava à denúncia. Em Il Villaggio di Cartone, o veterano diretor Ermano Olmi imagina uma igreja abandonada, onde um velho padre (Michael Lansdale) esconde da polícia um grupo de refugiados. Em seu primeiro longa-metragem, o estreante Gian Alfonso Pacinotti, conhecido cartunista, prefere uma alegoria. L’Ultimo Terrestre fala de uma suave invasão de alienígenas na Itália. Seres sensíveis, os ETs não aguentam por muito tempo os hábitos brutais do país e tratam de dar o fora.

Coincidência temática? Nada disso. Esses são apenas três dos dez filmes italianos, que participaram do recém-encerrado Festival de Veneza, a falar, direta ou indiretamente, do problema da imigração dita “clandestina” no país. Todos com parti-pris claro em favor dos imigrantes, e contra as forças mais cavernícolas da direita italiana, que tentam fazer dessa questão social um mero caso de polícia.

Um tanto surpresos com a frequência com que esse tema era abordado no festival, alguns jornais falaram em “fixação dos cineastas pelos imigrantes”. “Ora”, responde Crialese, “os filmes refletem apenas o país em que vivemos”. De acordo com o cineasta, romano de nascimento, basta um mínimo de sensibilidade para simpatizar com essas pessoas que tentam buscar nova vida na Itália e se dispõem a arriscar a pele por isso. Crialese, está claro, não suporta a atitude do governo Berlusconi, que procura, por todos os meios, criminalizar esses indivíduos. E Crialese tolera pouco, também, a mentalidade de boa parte dos seus concidadãos que, sentindo-se ameaçados em seu modo de vida, culpam os imigrantes pela crise do país. “Nos últimos anos tenho duvidado da nossa civilidade”, diz Crialese. Por isso ele saúda a coincidência de tantos filmes sobre o assunto que seria, acredita, sintoma de que uma parte da população italiana deseja tratar essa questão de maneira civilizada.

Crialese acha absurdo um país que no passado mandou para o exterior milhões de seus concidadãos agora trate tão mal quem o busque para morar. Seu filme anterior, Novo Mundo, fala da situação inversa, a saga da imigração italiana à América, entre o final do século 19 e começo do 20, quando os italianos eram os forasteiros. “Talvez seja esse passado de emigrantes a contribuir para nos deixar desconfortáveis diante do outro, do estrangeiro”, especula.

De qualquer forma, a atitude policialesca diante de uma questão social e humanitária tem despertado a consciência de setores mais esclarecidos da sociedade italiana, sejam eles da esquerda ou da própria Igreja. Mesmo uma ala de conservadores não concorda com a legislação truculenta criada para o governo para, supostamente, resolver o problema.

O trabalho cinematográfico com esse tema pode vir no registro realista e emocionado de Terraferma, ou sob a forma da consciência cristã de Il Villaggio de Cartone ou ainda da ficção científica de L’Ultimo Terrestre.

Pode vir também na chave da sátira cruel, como é o caso de um dos mais polêmicos filmes apresentados em Veneza. Cose dell’altro Mondo, do napolitano Francesco Patierno, coloca o ator Diego Abatantuono como um pequeno empreendedor do Vêneto que não se furta dizer o que pensa dos imigrantes. Numa cena polêmica, ele dá uma entrevista a uma TV local e recomenda aos estrangeiros que “Peguem seus camelos e voltem para casa”. A ficção de Patierno faz com que os imigrantes, tantas vezes “convidados” a se retirar, sigam o conselho e deixem de vez a Itália. O que aconteceria se isso se concretizasse? É do que trata o filme, pois os italianos, em especial os do Norte, sabem muito bem que há trabalhos essenciais que eles próprios não querem mais fazer.
O filme causou tanta polêmica que acabou atacado por ninguém menos que Luca Zaia, presidente da região vêneta, uma espécie de governador de Estado no modelo italiano. “Nos retrataram como racistas, mas isso não é verdade”, acusa Luca Zaia, indignado. Zaia é membro da Liga Norte, o partido de ultra direita, separatista, que faz parte da coalizão de apoio a Berlusconi. É um político jovem, nascido em 1968.

Outros filmes, como Là Bas e Io Sono Li também colocam os imigrantes no centro da trama. Là Bas é a estreia de Guido Lombardi na direção e relata o encontro entre um jovem africano que desembarca na Itália e seu tio, traficante de drogas. O filme foi rebatizado de “Gomorra Negra”, alusão ao trabalho de Matteo Garrone baseado no livro de Roberto Saviano sobre a máfia napolitana.

Já Io Sono Li, de Andrea Segre, escolhe uma chave poética, narrando o caso de amor entre uma mulher de Chioggia, província do Vêneto, e um imigrante chinês. “Esses filmes servem para resgatar a dignidade humana dos estrangeiros”, diz o diretor. “A demagogia do medo apenas serve para perdermos a ocasião de um crescimento da nossa civilidade”, acredita.

Os números reais da imigração para a Itália podem ajudar a compreender o fenômeno. A entrada de estrangeiros aumentou 1000% nos últimos dez anos. Já chegam a 7% da população total, e esse número aumenta para até 20% nas regiões mais desenvolvidas e industrializadas do Norte e do Nordeste. Desse modo, as questões relativas à imigração passaram a ocupar um posto privilegiado nos veículos de comunicação (14% do tempo de telejornais é consumido no assunto).

No entanto, em sondagens de opinião pública, imigrantes são a preocupação principal apenas para 6% dos cidadãos, enquanto a economia, o emprego e o custo de vida respondem por 55% das inquietudes da população. Outro dado: a questão da segurança, tão associada aos imigrantes, ocupa 55% do tempo televisivo, mas só é a principal preocupação para 10% da população.

Tais disparidades entre os assuntos eleitos como prioritários pela mídia e as reais preocupações dos cidadãos fazem um ensaísta como Ilvo Diamanti escrever em artigo no La Repubblica (12/9/2011) que se trata de uma “Clara tentativa de construção política e mediática da insegurança, que induz a enfatizar o medo dos outros”. Faz todo sentido, ainda mais quando se sabe que a porção majoritária da mídia italiana é dominada por Berlusconi e seus aliados.

Enfim, não é nada original eleger um bode expiatório em tempos difíceis. O que talvez haja de novo é a percepção dos cineastas, talvez inconsciente, de que a manipulação do medo é uma questão política, que precisa ser enfrentada e desconstruída. Através do cinema, que é a arma à sua disposição.

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17.setembro.2011 10:51:01

Caos aéreo. Só no Brasil?

Este post não é um desabafo. Já estou em casa e calminho. É apenas uma advertência a interessados.

Caos aéreo só existe no Brasil, como às vezes os brasileiros parecem acreditar? Nada mais enganoso. Minha volta de Veneza foi um inferno. O avião da Lufthansa saiu do aeroporto Marco Polo com duas horas de atraso e as desculpas mais variadas. Primeiro, o avião havia atrasado em seu aeroporto de origem. Depois havia uma falha no computador de bordo. Em seguida, era o tempo em Frankfurt que não permitia aterrisagens. Cascata.

Todos foram avisados de que perderiam suas conexões e novos voos teriam de ser remarcados. Seríamos encaminhados a hotéis na cidade para esperar o novo check-in.

Mas chegamos a Frankfurt ainda em tempo teórico de pegar o avião da TAM para o Brasil. Foi uma correria infernal por aquele aeroporto imenso, sem que houvesse um único funcionário, da TAM ou da Lufthansa, empresas parceiras, para nos ajudar. O pessoal da imigração alemão também não tinha a menor pressa. Contemplava os nossos passaportes como se tivéssemos todo o tempo do mundo à disposição. Há algo de sádico no burocrata.
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Ainda assim, conseguimos pegar o avião para o Brasil. Na última hora, suados, ofegantes e estressados.

Claro que as malas não chegaram a São Paulo. Perderam-se na conexão feita às pressas.

O funcionário da TAM, que atendia às reclamações de bagagem extraviada em Cumbica, perguntou como havia sido o meu voo. Disse a ele que preferia não responder à pergunta.

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