O que faz de um clássico um clássico? Essa pergunta bem vale ser feita quando se fala de Cabra Marcado para Morrer, de volta às telas em cópia restaurada. Afinal, o filme de Eduardo Coutinho é um desses (raros) casos consensuais do cinema brasileiro. Um daqueles sobre os quais mesmo quem não liga para temáticas sociais pelo menos mostra algum tipo de respeito.
E esse consenso, mesmo que a contragosto, já nos ajuda a buscar uma primeira resposta à questão. Um dos motivos pelos quais Cabra é um clássico é sua posição dentro da história recente do País. Filme sobre as Ligas Camponesas, interrompido pela ditadura, retomado no alvorecer da redemocratização, seu próprio modo de feitura o coloca em posição de alto simbolismo de todo um processo de 20 anos de lutas. Essa condição é transparente, mesmo para quem não viveu o período, mesmo para quem alimenta a ilusão de que política é coisa dos outros. Cabra permanece um universo à parte.
Mas, aí está: há, de maneira especial, o dispositivo que Coutinho inventou para dar continuidade a um projeto interrompido e então entramos no terreno propriamente cinematográfico. Não seria mais possível retomar o projeto inicial nas mesmas bases em que começou, ou seja, filmagens que reconstituíssem o assassinato de João Pedro Teixeira, com os próprios camponeses como atores. Era preciso encontrar uma forma a partir da qual a obra expressasse exatamente a fratura, a interrupção que foi a ditadura militar. O eixo passa então a ser a busca por Dona Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, e seus dez filhos, dispersados pelo golpe. Elizabeth fugira e se escondera até ser encontrada por Coutinho através de um filho dela. Essa mulher sem rosto e sem nome volta a ser uma cidadã através do filme.
Cabra Marcado Para Morrer é, então, a tentativa de reparação, através de uma obra de cinema, dessa fratura da História. Incompleta, é claro, porque nunca se recupera o que se perdeu nesse tipo de circunstância. Mas é ato de cidadania salvar o que se pode. E, nesse sentido, Cabra representa a tentativa mais bem sucedida de dar um sentido às sobras de guerra desse período. É, enfim, filme profundamente político, no que esse termo tem de mais nobre e complexo. Quer dizer, não política partidária, ou proselitismo, mas reflexão sobre a voragem da história em tempos difíceis e seus efeitos sobre destinos individuais. Dona Elizabeth Teixeira, a partir do filme, não apenas readquire rosto e identidade, mas torna-se um símbolo da resistência. Deve isso a Coutinho. Por isso, também, e por fazer a articulação tão perfeita entre indivíduo e sua circunstância, Cabra é um clássico do cinema brasileiro.
Por fim, se os personagens de Cabra Marcado para Morrer ganham com o filme, Coutinho se constrói por intermédio da obra. É em Cabra que ele lapida o dispositivo cinematográfico pessoal, a ser ainda aperfeiçoado em obras futuras. A técnica de entrevista, a consciência da interferência da câmera naquilo que filma, a exposição dos mecanismos da própria obra – tudo isso talvez não seja nem novidade e nem uso exclusivo de Coutinho. Mas a maneira como ele se apropria desse modo de fazer é muito particular. Forja, através de Cabra, uma ferramenta adequada para sua mão. Sob medida. Desse cinzel particular e inimitável sairão obras futuras como Santo Forte, Edifício Master, Jogo de Cena. A origem de tudo é Cabra Marcado para Morrer.
O que faz de um clássico um clássico? Rótulo. Apenasmente mais um rótulo. Como existem os inúmeros “ismos” nas diferentes manifestações artísticas.
Zanin, pretendo rever Cabra neste final de semana. Lembro-me que quando ele foi lançado ainda estava na faculdade (isso denuncia a idade!). Acho que sentirei o mesmo impacto. Adoro os documentários que o Eduardo Coutinho realizou posteriormente. Senti que ao resgatar a história de Elizabeth Teixeira, o diretor fez com que o público também se conscientizasse de tudo o que acontecia ao seu redor. Este também é um dos propósitos do cinema, especialmente dos documentários. Adorei o post. Abs.
Reveja, pois a cópia está linda. Abs.
responder este comentário denunciar abusoFinalmente assisti “Cabra” no domingo. Triste é constatar a forma como a ditadura abriu a ferida que separou, quase que definitivamente, os destinos dos filhos de Elizabeth.
O mais curioso é ver a reação cheia de cautela de alguns protagonistas ao dar seus depoimentos, mesmo com o processo de abertura em andamento. Quem disse que naquela época houve uma Ditabranda deveria ver este documentário.
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