Houve uma quase coincidência de datas entre a primeira conquista da Libertadores pelo Corinthians e os 30 anos de uma derrota histórica da seleção brasileira. Dia 4 de julho de 2012 o Corinthians ganhava do Boca Juniors no Pacaembu e levantava a taça continental pela primeira vez. Trinta anos antes, no dia 5 de julho de 1982, o Brasil perdia para Itália por 3 a 2 e era desclassificado da Copa do Mundo da Espanha.
O que uma coisa tem a ver com a outra? Mais do que se pensa. O Corinthians, em sua conquista, tornou vitoriosa uma concepção de jogo pragmática, de resultado, que não encanta mas resolve. Trinta anos antes, com a derrota da exuberante seleção de Júnior, Falcão, Cerezo, Zico, Sócrates e Éder, abria-se uma discussão que ainda não terminou, entre o futebol que encanta, mas não vence, e o futebol de resultado, sem graça, mas que acaba por se impor.
A discussão permanece porque, para a nossa geração, a derrota do Brasil em 1982 teve o peso simbólico da perda da Copa de 1950 para a geração anterior. Cada qual com sua tragédia. Entre as mil interpretações para a derrota de 1950, ficou uma, como a versão mais fidedigna: o excesso de confiança (a síndrome do já ganhou) aliado à falta de raça. Os brasileiros teriam tremido diante da combatividade de Obdulio Varela e seus companheiros da seleção uruguaia. Da derrota de 1982 ficou a impressão inicial de pura fatalidade. E, para outra facção, a de que futebol bonitinho já era: num tempo de supremacia física e tática rígida, é preciso ser pragmático se quisermos chegar a algum lugar.
As duas derrotas deixaram os brasileiros pasmos. Paulo Perdigão disse que, após o Maracanazzo de 1950, deixara de crer em Deus. Nós, os de Sarriá, em 1982, perdemos a fé no equilíbrio das estrelas e na ordem do universo. Ficamos órfãos, nus, na chuva.
Vivemos essas décadas sob pressão psicológica: a de que o futebol arte seria algo do passado, romântico e, no limite, irresponsável. Algo como o futebol de exibição, de focas amestradas, malabaristas da bola, mas que nada mais conseguem diante da solidez de outras escolas. Nesse ínterim, ganhamos duas Copas jogando de modo prático, com momentos esparsos de brilho, em 1994 e 2002.
Daí se entende que essa geração traumatizada por 1982 se sinta gratificada quando vê ressurgir o futebol arte em sua forma vencedora – por exemplo, no Santos de 2002 e 2010, e, em especial, no Barcelona de Xavi, Iniesta e Messi. Esses times seriam provas empíricas de que a beleza vence. Ou que também pode vencer. Mas o que tivemos este ano foi nova reversão de expectativas. O Santos, apesar de ter mudado seu estilo de jogo, era ainda o time da moda no Brasil. Perdeu inapelavelmente do Corinthians nas semifinais da Libertadores. O Barcelona, o modelo de futebol para o mundo, foi desclassificado pelo Chelsea. Corinthians e Chelsea, dois times aparentados, como o são Santos e Barcelona, disputarão o Campeonato Mundial de clubes no Japão.
É o futebol de resultado dando as cartas? Ou aprenderemos de vez que existe mais de uma maneira de vencer, e que algumas são apenas mais belas do que outras?
* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão
- Bela avaliação entre os tempos do futebol!! – Nasci em Nov/72, na copa de 82 realmente me identifiquei com aquela foto do garoto publicadao no JT…mas por quê? – porque era um futebol de arte e pra frente(ainda mais entoada por música)..hoje, sou corinthiano e não sou brasileiro, no futebol…totalmente diferente! O Corinthians pode ser pragmático, mas é diferente do pragmatismo que a seleção de hoje opera…tá na cara, certo!! – pra começar não existe ainda uma seleção.
Prezado Zanin,
Tive a felicidade de assistir a seleção na preparação do mundial de 82, e afirmo para voce que não se tratava do tão afamado “futebol arte”, mas sim de um time composto por verdadeiros craques em sua essencia, e que por isso mesmo, e não por esquemas táticos, transformaram aquele time em um show de habilidades surpreendentes, que deixavam todos estasiados pelo seu espetáculo. Perdeu sim por fatalidade, pois tinha uma boa defesa e uma ataque espetacular, que naquele dia não teve a eficiência de tirar a diferença…… sorte dos italianos ???? sim ….eu creio….Comparando com o Corinthians não podemos dizer que é um futebol pragmático, feio, mas um time que compete por suas próprias capacidades, de bons e diciplinados jogadores, que dão o máximo de si, e com isso busacando o resultado almejado….. méritos dos ambos os técnicos ??? SIMMMM……o que faria o tite com a seleção de 82 e o que faria o telê com o Corinthinas de hoje ?? Não dá para saber com exatidão, mas certamente o futebol apresentado por ambas não seria muito diferente !!!! Grande Abraço, Renato Saad
Santos e Barcelona aparentados? KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK…
desculpe, não resisti !
O fanatismo tomando o lugar da sensatez. Santos e Barcelona, times aparentados?
Por favor… Por mais que seja difícil ser imparcial quando se discute futebol, já que você se dispôs a fazê-lo, faça-o com mais seriedade. Comparar a eliminação do Santos com a derrota da Seleção de 82… é de chorar.
O Corinthians é um time de esquema tático, disciplinado, e de modo algum, chato de assistir, como a Seleção Brasileira.
Claro, para você, não ser o seu time já é demérito.
2013
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006
Para continuar lendo o Estadão, faça já o seu cadastro. É rápido e fácil.
Seus dados serão guardados de forma segura e não serão compartilhados.
Quero me cadastrar Sou assinante Já sou cadastradoEm instantes, você receberá uma mensagem no e-mail .
Clique no link fornecido e crie sua senha.
Importante!
Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail está ativado.
Deixe um comentário: