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Luiz Zanin

04.novembro.2011 16:31:32

A Pele que Habito

Há uma estranha subversão em A Pele que Habito. Primeiro, de Almodóvar em relação a si mesmo. Onde aquelas cores, a exuberância, a alegria que se mescla com tanta graça à tristeza de viver? Aqui, pelo contrário, temos um discurso frio, de cores atenuadas, mais propícias ao suspense terrível construído a partir de Mygale, um romance de Thierry Jonquet publicado em 1984, e a referência bastante explícita a Les Yeux Sans Visage, de Georges Franju (1959).

Segundo, subversão da própria maneira de apreciação deste filme que, ao contrário de outros como Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela  ou Volver, que se dão de imediato e nos conquistam cara, não causa tanta impressão à primeira vista, mas permanece com o espectador, como que trabalhando às escuras, em seu inconsciente. É um Almodóvar frio, e sabiamente terrível, como talvez nunca tenhamos visto.

Também à primeira vista, estão aí os temas caros ao diretor, como a mudança de sexo, as relações de poder, etc. Mas esses elementos se dispõem de outra forma, numa espécie de melodrama gelado, cruel e inquietante.

Claro que tudo vem do personagem de Antonio Banderas, o cirurgião plástico em busca de uma terrível vingança, mas também de uma mulher idealizada. Vera (Elena Anaya) construída a partir de Vicente, é retrabalhada, à exaustão e de maneira cirúrgica, para corresponder a uma imagem perdida. Impossível também não se lembrar de Hitchcock e sua obra-prima, Um Corpo que Cai, com o personagem Scottie, de James Stewart, buscando na outra a imagem perdida de Madeleine (Kim Novak). Há isso em A Pele que Habito, mas como que potencializado por um toque perverso a mais. Uma outra volta do parafuso.

Claro que existem toda a sorte de leituras psicanalíticas possíveis para essa história. A mais plausível, talvez, diga respeito ao mistério sobre o corpo próprio, o corpo sexuado, a diferença entre os sexos. O transexual seria o que tem a melhor ideia do funcionamento desse corpo, pois, por assim dizer, já esteve nas duas margens do rio. Pode-se pensar, por ignorância, que esta seja uma questão contemporânea, privativa de uma época em que a cirurgia para troca de sexo já virou quase rotineira. Mas basta pensar na mitologia e em Aristófanes, citado no Banquete, de Platão, sobre o ser andrógino que estaria na origem dos sexos; separado, esse ser uno teria dado origem ao macho e à fêmea, ao homem e à mulher. A androginia, vista assim, seria expressão da nostalgia de um estado original, inscrito no inconsciente coletivo, que ganha sua forma poética na mitologia.

Almodóvar trata, de maneira ficcional, todas essa questões difíceis de serem colocadas em palavras. A Eva futura se constrói por subtração e vive na nostalgia da forma original mítica, que é a união dos sexos. Por trabalhar, ainda que de maneira parcial, essas questões atemporais,A Pele que Habito fica remoendo no inconsciente do espectador. Uma lição de abismo.

(Caderno 2)

comentários (29) | comente

29 Comentários Comente também
  • 04/11/2011 - 17:34
    Enviado por: Marcos Alexandre

    Há de se reconhecer que Pedro Almodóvar é dos poucos diretores na atualidade que se mantêm fiel à essência do cinema. Não se deixou levar – espera-se que não o faça – à sedução das concessões comercais. Talvez por isso, seus filmes alcancem uma regularidade entre bons e ótimos.

    Nesta sua estréia no gênero thriller, muda o foco no seu habitual olhar dramático e familiar, lançado em tons coloridos sobre o universo feminino. Não por acaso, seus protagonistas são sempre mulheres, de forte personalidade. Nesse “A Pele que Habito”,
    Almódovar se encontra novamente com Antonio Banderas, 19 depois de terem trabalho juntos no filme Ata-me.

    Lembro-me de que Billy Wilder dizia que “um bom filme é aquele capaz de prender a atenção do espectador de tal forma que ele esqueça que está em um cinema”. Almodóvar consegue isso aqui.

    A crtícia do Zanin me parece apropositada: na feliz comparação com o clássico “Um Corpo que Cai; na leitura dos elementos psicológicos presentes no filme; na relação que estabelece com a filosofia e na explicação do pano de fundo, quase que uma aula sobre sexualidade.

    Como leitor assíduo desse blog e de seu autor (ainda no tempo apenas do jornalismo impresso), estava com saudades dessas críticas mais pontuais, como na análise de filmes de estréia. É que ultimamente – e isso é compreensível, necessário e bom – só havia textos sobre festivais e mais festivais.

    Um abraço!

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  • 05/11/2011 - 09:55
    Enviado por: Rogério de Moraes

    Entregou a surpresa do filme sem pudor. Não pode.

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  • 05/11/2011 - 14:52
    Enviado por: Mônica

    Zanin, qual a surpresa do filme? A de que Vera é Vicente! De qualquer forma, excelente crítica, vou me tornar assídua a esse espaço. Só não posso deixar de confessar que estou aliviada de já ter assistido ao filme, assim pude ser surpreendida . Grande abraço,

    Mônica

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  • 05/11/2011 - 20:40
    Enviado por: Rogério de Moraes

    Mônica e Cláudia já responderam.

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  • 05/11/2011 - 23:17
    Enviado por: Patrícia

    Amei o filme e adorei a crítica. Só acho que o tom talvez não tenha sido exatamente esse.

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  • 08/11/2011 - 22:15
    Enviado por: Eder Gelano

    Não gostei do spoiler, mas tudo bem.

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  • 11/11/2011 - 14:51
    Enviado por: Fabiano Oliveira

    Mais um grande filme de Almodóvar sobre um assunto que nunca antes foi tão atual e polêmico sobre o uso do próprio corpo. Criado sobre uma perspectiva angustiante, que faz o espectador a avaliar conceitos sobre sexualidade. Revelar surpresas não é bom pra que não a teve.

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  • 11/11/2011 - 17:43
    Enviado por: Flaviana

    Poxa, ainda bem que já assisti ao filme… surpresa relatada… que chato!

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    • 11/11/2011 - 19:13
      Enviado por: Zanin

      Vou estragar mais surpresas de vocês: rosebud é um trenó e Diadorim é mulher. E, na Paixão de Cristo, o herói morre no final. Tá bom assim? abs.

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    • 15/11/2011 - 00:29
      Enviado por: Anônimo

      A crítica foi excelente,mas é ético entregar a surpresa do filme?!Ainda bem que eu também assisti o filme antes,caso contrário ficaria muito decepcionado.

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  • 12/11/2011 - 00:05
    Enviado por: Rogério de Moraes

    Resposta madura. A certa altura deve mesmo ser difícil descer do pedestal. Na crítica “legitimada” pelo tempo e pelo papel impresso, há que se ter muito cuidado com a soberba. O erro mora na desatenção, na displicência e na desconsideração com o leitor.

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    • 12/11/2011 - 21:23
      Enviado por: Zanin

      Quem sobe em pedestal corre o risco de cair de boca. Mas não é porque se tem um blog que se deve aceitar passivamente qualquer tipo de comentário, não é? abs.

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    • 16/11/2011 - 12:15
      Enviado por: Danielle

      Rogério, comentário muito apropriado e pertinente sobre o criador da crítica. Também concordo também faltou ética profissional ao revelar a surpresa do filme, bem como também faltou humildade em reconhecer o erro.

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  • 14/11/2011 - 15:23
    Enviado por: Marcos S Silva

    Zanin,

    O filme fica nadando na memória. Gostei da crítica e dos paralelos!

    Quanto à polêmica da revelação, tudo bem, mas algumas pessoas achariam legal ler um pedido de desculpas. É tão difícil ser surpreendido!

    Abç

    Marcos

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  • 15/11/2011 - 09:50
    Enviado por: Aquiles

    Zanin,
    alguma referência ao sotaque bainês do Tigrão e a amizade de Almodovar e Caetano Veloso?

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  • 15/11/2011 - 09:51
    Enviado por: Aquiles

    Digo, baianês!

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  • 16/11/2011 - 03:10
    Enviado por: Carlos Eduardo

    Ainda bem que eu não me importo com as ditas surpresas. Não vi o filme ainda, mas saber dessas coisas me deixa com mais vontade ainda de ver. Fico mais atento ao que se passa na tela, as interpretações, a direção, a história. Gostei demais da crítica, pois crítica boa pra mim é assim, me faz ficar com mais desejo de ver o filme. Estava vendo algumas fotos do filme no Google e fiquei surpreso de ver um olhar de Victoria Abrial numa foto da atriz que faz Vera. Será que somente eu notei? Talvez no filme isso nem fique tão claro, mas na fotografia em questão é o mesmo olhar. Aquele olhar lacrimejante que somente Victoria Abril consegue. E com Almodovar dirigindo a mesma!
    Pois é, ela não está no filme, mas na foto, com certeza está, assim como Banderas! Pra mim os dois grandes atores dele!

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  • 16/11/2011 - 14:45
    Enviado por: André Bomfim

    É a primeira vez que vejo o crítico dar uma de spoiler e contar a surpresa fundamental do filme!!! Ainda bem que assisti antes de ler… Zanin, existe um acordo tácito entre crítica e leitores… Acho que vc quebrou esse pacto e não pretendo ler por motivos óbvios mais nenhuma de suas críticas…

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  • 16/11/2011 - 15:00
    Enviado por: André Bomfim

    Zanin, como crítico vc bem deve saber a diferença entre SURPRESA X SUSPENSE. No caso de Grande Sertão, por exemplo, o espectador mergulha na obra sabendo que Diadorim é mulher ou pelo menos prevendo essa virada… no caso em questão, a SURPRESA é parte da estratégia do roteiro. Ela existe para fabricar uma reação específica no público: de espanto, de incômodo, de estarrecimento… e vc como crítico não tem o direito de roubar dos espectadores essa espécie de gozo, de momento orgiástico diante da obra.

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    • 16/11/2011 - 15:41
      Enviado por: Zanin

      Bom, o próprio Guimarães Rosa pedia que não fosse revelado o segredo do Grande Sertão: Veredas. Mas, depois de Bruna Lombardi como Diadorim, o que fazer? abs.

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  • 16/11/2011 - 15:29
    Enviado por: Silvana

    Gostei muito do filme e confesso que, ao tentar falar sobre ele com minha irmã, que ainda não tinha visto, fiquei sem saber o que dizer. Só pude dizer que o tema é mais atual do que nunca e que o que ocorre no filme não é tão improvável. Acho que deve ser difícil para um crítico escrever sobre um filme desses com intensidade sem revelar a surpresa. Sugiro para isso citar no início do texto que se trata de uma crítica pós-filme. Na verdade, conheço pessoas que só procuram as críticas após assistirem às obras.

    O que mais me impressionou foi o fato de o homem conseguir atualmente recriar toda a aparência se um ser humano, mais ainda ser tão desconhecedor da mente humana. Essa sim ainda não pode ser manipulada com tanta eficácia. Ao ser traído por sua “obra de arte”, o cirurgião mostrou isso.

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  • 16/11/2011 - 19:44
    Enviado por: Carol

    Zanin, apreciei muito a crítica do filme, mas me decepcionei com sua postura em relação as criticas direcionadas à você. Um crítico não deveria saber lidar com as críticas?

    E sim, concordo com os leitores, é o grande momento do filme a descoberta. Não deveria estragá-la.

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