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Luiz Zanin

17.junho.2011 14:35:23

À Meia-noite em Paris

Até quem não gosta de Woody Allen tem gostado deste Woody Allen. Por que, teria ele errado a mão em Meia-noite em Paris? Nada disso. É o mesmo Woody de sempre, inventivo, engraçado, profundo. Quer dizer, um artista em sua maturidade, que não se cansa de escavar em seu inesgotável imaginário na busca de novas histórias para retrabalhar velhos temas. Quem é muito ligado em novidades não nota isso. Novidades passam como o vento, e em geral é tudo bobagem. Nada fica. O velho e bom Allen permanece. Acontece que esse filme tem tanta leveza que mesmo gente ranzinza ou ávida pela última “grande obra” lançada pela indústria do entretenimento parece capaz de desfrutá-lo. O que é ótimo. Faltam humor e inteligência ao mundo.

E é com inteligência e humor que Allen trabalha em À Meia-noite em Paris, um conceito em aparência complexo: existe uma idade de ouro da humanidade ou ela é só construção mental de quem vive insatisfeito em seu próprio tempo?

Essa questão, na verdade fascinante, ganha corpo na figura do escritor Gil (Owen Wilson), que se encontra em Paris com a noiva chatinha e os futuros sogros, riquíssimos. Gil é uma alma que poderíamos chamar de romântica. Ou de civilizada, dependendo do ponto de vista. O contraponto aqui é entre a Europa, refinada, suposta amante das artes, e os Estados Unidos, brutalizados pelo dinheiro. Civilização x barbárie. Uma dicotomia meio tosca (como quase todas), muitas vezes utilizada pelos europeus em causa própria, mas raramente por um norte-americano, como Allen. Também é verdade que Woody Allen hoje consegue filmar na Europa e não em seu país. Fatos são fatos.

De qualquer forma, a mística europeia – a de Paris, em particular – historicamente provocou um êxodo da intelligentsia norte-americana para lá nos anos 1930 e 30. Zelda e Scott Fitzgerald, Hemingway e Gertrude Stein frequentavam-se e a outros europeus na diáspora, como os espanhóis Picasso, Salvador Dalí e Luis Buñuel. Todos em Paris, centro do mundo, de outro mundo que não o nosso. Estaria lá e naquele tempo a tal idade de ouro? Pode ser, pode não ser.

Allen usa um expediente de ficção científica, a viagem no tempo, para debater a questão. Mistura figuras reais a personagens imaginárias, como o próprio Gil e também as dulcíssimas Adriana (Marion Cotillard) e Gabrielle (Léa Seydoux). Ambas francesas e incumbidas de “mostrar” a Gil as ambivalências da idealização, por um lado. E também certa sabedoria da vida, simples como gota d’água, aquela que consiste em aproveitar o melhor possível o tempo que nos é dado, já que é tudo o que temos. Talvez haja algum didatismo na maneira como esse teorema se demonstra em À Meia-noite em Paris. Como se Woody Allen tivesse medo de que o público não o seguisse de todo.

Ninguém pode culpá-lo por esse receio, e só podemos agradecê-lo e curtir mais este filme solar, daqueles raros a nos dar alguma esperança que não pareça fraudulenta ou ingênua.

comentários (6) | comente

6 Comentários Comente também
  • 18/06/2011 - 21:53
    Enviado por: ALEXANDRE AMARAL

    O que me impressiona em um bom Woody Allen é que ninguém quer ir embora da sala de cinema. Vi no Livraria Cultura, lotação esgotada e enquanto tinha letreiro ninguém arredou o pé. Bom para todo mundo.
    Uma delícia. Agora é esperar o Almodóvar……e la nave va.

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  • 24/06/2011 - 00:39
    Enviado por: Tatiana

    Realmente delicioso. Recomendo!

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  • 07/08/2011 - 22:49
    Enviado por: Cristiane Pimenta

    Delícia de filme! Maravilha entrar na viagem de Woody Allen! Apreciem!!

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  • 07/08/2011 - 22:56
    Enviado por: Bruno

    Parabéns pela resenha! o filme é maravilhoso, mesmo! de quatro em quatro anos o woody allen faz um filme sensacional e vários legais! hehe

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  • 01/11/2011 - 13:04
    Enviado por: Ricardo Tavares

    Olá Zanin…. como sempre muito bom ler seus textos por aqui.
    Acabo de ver “à meia-noite em Paris”. Nunca considerei Woody Allen um cineasta genial, mas um grande cineasta com momentos e referências geniais, que conseguiu produzir personagens universais e acima de tudo continua a ter a ousadia de ser um humanista preocupado com a existência, em meio à pasmaceira e chatice intelectuais em que estamos chafurdados todos nós. Então, pra quem ainda preserva alguma apreensão e inteligência, é impossível não curtir Woody Allen e se ver espelhado em vários de seus personagens centrais. Em “à meia noite…” todos os temas retornam numa estrutura leve, otimista, hilária (a cena em que o detetive foge do palácio de versalhes seguido pelos gritos da rainha chamando os guardas, é simplesmente de chorar de rir), o debate sobre “as eras de ouro”, mediada pelos carros que viajam no tempo, somado à crônica caricatural da elite republicana americana e seu beletrismo estúpido em meio à Paris “solar”, nos mostra o velho Allen em um grande momento, como quase sempre

    Abraços

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  • 23/12/2011 - 19:18
    Enviado por: Meus dez melhores estrangeiros de 2011 - Luiz Zanin - Estadao.com.br

    [...] Meia Noite em Paris, de Woody Allen (EUA). Leia crítica [...]

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