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Luiz Zanin

23.dezembro.2013 20:37:41

A Grande Beleza

Nas primeiras cenas vemos um grupo de turistas no Capitólio. Um deles desmaia. Excesso de calor? Pode ser. Naquela cidade, a temperatura é infernal durante o verão. Mas pode ser outra coisa também. Como se sabe, o excesso de beleza é fatal para algumas pessoas. Uma visita ao Museu do Vaticano, ou a simples visão da Cidade Eterna num dia de luz clara, podem conduzir ao desmaio, a um mal-estar indefinido, a um desfalecimento diante do êxtase. Afinal, estamos em Roma. E numa Roma especial, transfigurada – a de A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino. Roma, lembra o protagonista, não é para principiantes. Loba velha, ela pode te devorar.

É o que pode estar acontecendo a Jep Gambardella, interpretado por Toni Servillo. Gambardella não é somente um cronista social, ele é “o” cronista, o escriba da burguesia em festa. Aquele que conhece todas as pessoas “que contam”, e é por elas conhecido. Talvez temido, talvez desprezado, ou odiado, nessa combinação bastante comum da vida social, Jep é um carro-chefe da mundanidade.

Após as cenas iniciais, há o corte para uma sequência barulhenta, que, logo descobrimos, se passa no apartamento de Gambardella, um Pallazzo cujo terraço tem vista para o Coliseu. Na festa, uma pequena multidão de deslumbrados, “toda” a Roma. Muito ruído, música alta, bebida à rodo, algaravia cortante e constante. Um excesso em cujo centro, desconfia-se, more o vazio. Será esse o tom do filme – uma dialética entre o excesso e o vácuo. É desse modo, parece, que Sorrentino toma o pulso do seu país. Uma grande cultura subterrânea, ruínas que hoje sustentam uma elite cafajeste e oca.

Jep Gambardella é um bobo dessa corte. Ao mesmo tempo, aproveita-se dela. Fez sua vida à custa da camada social que, no fundo, despreza. Escora-se num feito do passado, a publicação de um livro que teve relativo sucesso 40 anos atrás, para sustentar seu ego no presente. Mas esse recurso parece cada vez menos eficaz quando o personagem tem 65 anos de idade e portanto perdeu o direito às ilusões. No entanto, Gambardella continua cegamente a seguir sua rotina de noites em recepções sociais, acordar tarde, sair cada vez com uma mulher diferente, ter sempre a frase mais cáustica na boca, etc.

Parece também evidente que Sorrentino estabelece um elo forte com o grande cinema italiano dos anos 1960. É fácil ver em A Grande Beleza a reelaboração atualizada do clássico A Doce Vida, de Federico Fellini, ou diálogo com a chamada Trilogia da Incomunicabilidade, de Michelangelo Antonioni, em especial com A Noite. Naquela época Fellini e Antonioni percebiam que a sociedade organizada no pós-guerra daria com os burros n’água. Não havia saída honrosa para o super consumismo que já se anunciava, para o espetáculo tornado permanente, para o aviltamento dos ricos em busca de um prazer sem fim. Essa percepção, numa sociedade como a italiana, remete obrigatoriamente ao declínio do Império Romano, que tem no festim de Trimalquião, descrito por Petrônio em Satyricon (filmado por Fellini), seu símbolo mais forte da queda.

A Grande Beleza é, assim, um filme da decadência. Sobre o esplendor e a miséria da decadência, porque o ocaso de uma civilização pode ser tanto assustador como fonte de inspiração.

Cotação: ÓTIMO

 

 

 

 

comentários (3) | comente

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3 Comentários Comente também
  • 27/12/2013 - 20:03
    Enviado por: SERGIO PRIOR

    A religiosidade, melhor dizendo, a transcendência parece ter papel central no filme de Sorrentino. Se por um lado há a crítica escrachada ao bispo cotado para ser Papa, a freira de 104 anos, que fez voto de pobreza, é mostrada de uma maneira caridosa, realçada pelo vôo dos pássaros num céu encantador de Roma ao entardecer.
    Gambardella detona a sociedade consumista à qual a Itália foi reduzida no pós-guerra, é verdade, mas vai buscar a real beleza que a arte que foi deixada nos castelos, que ele tem acesso via um de seus conhecidos (“um homem de confiança”). Talvez Gambardella tenha se apercebido que ainda há beleza na vida sim, só que há necessidade de uma bela “peneirada”, e que merecem encontrar o papel através de sua escrita. Em suma, Zanin, será que o Gambardella é tão nocivo assim?

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  • 12/01/2014 - 15:48
    Enviado por: LC

    Estava um calor infernal aqui no RJ e resolvi ver esse filme por mera curiosidade, p fugir da rua. Não percam, é muito interessante. Saí do cinema exatamente com a imagem do banquete de satíyricon. Além disso, a personagem principal do filme é absolutamente irresistível: a cidade de Roma !!!

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  • 16/01/2014 - 08:05
    Enviado por: Sonia wiedmann

    Encher os vazios com tonéis de superficialidades e vidas falsas, festas que mascaram ou tentam mascarar a decadência milenar da humanidade, o desmascaramento da arte contemporânea, a alegria da simplicidade conjugal, a destruição irônica de uma prepotente história de vida, um homem mundano mas tremendamente lúcido de sua miséria humana, tudo isto no majestoso cenário de Roma que abriga e fulmina com sua beleza. Um filme para ser revisto inúmeras vezes. Excelente!

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