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Luiz Zanin

08.fevereiro.2012 12:42:48

A filósofa e o cinema

Muito boa a entrevista que o nosso amigo Humberto Pereira fez com a filósofa Olgária Matos para o site Digestivo Cultural. Fui aluno da Olgária no curso de Filosofia da USP, no ano em que ela voltava da França para lecionar. Era, e creio ainda é, uma estudiosa da Escola de Frankfurt. O que diz sobre o cinema brasileiro não é muito agradável. Mas dá o que pensar. Confiram abaixo.

 

 

Ainda sobre o culto contemporâneo às imagens, você ressalta que para Benjamim o cinema apresenta na tela a alma do moderno: a cidade como sujeito histórico de decisão e humanidade. E uma metrópole, para Benjamim, é o sujeito histórico moderno, com os subúrbios se constituindo no “estado de sítio das cidades”. Da perspectiva benjaminiana, como você vê filmes brasileiros recentes, como “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”, “5 Vezes Favela”?

Olgária - O cinema brasileiro contemporâneo não é propriamente cinema, pois pratica uma espécie de pseudosociologia. As pessoas não vão ao cinema para assistir a um comício ou a uma aula de sociologia. O cinema brasileiro tem muita dificuldade de lidar com as complexidades e contradições: a “subjetividade” se reduz ao social. Se a direita explica a violência inteiramente pelo psíquico, pelo “caráter” ou pela “natureza”, a esquerda explica tudo pela sociedade. Ninguém enfrenta o que escapa a essas determinações, o enigma da vida, como foi o caso singular e comovente do filme documentário “Ônibus174″, dirigido pelo José Padilha. A questão do destino e do acaso que rege muito de nossa condição.

A íntegra da entrevista, você confere aqui.

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4 Comentários Comente também
  • 08/02/2012 - 20:38
    Enviado por: Marcio AR

    Zanin, ótima entrevista. Também tive aula com Olgaria Mattos, que de fato é a maior conhecedora da Escola de Frankfurt e do Maio de 68 francês, no Brasil. Tudo muito pertinente e, à maneira de Walter Benjamim, bastante melancólico. A modernidade ou a pós-modernidade é um pós-nada. Literalmente, a sensação que se tem ao final da entrevista é que não há saída. O mundo/a modernidade anda sozinho/a para onde quer e somos apenas seus marionetes. Tem algo de trágico, e, acima de tudo, deprimente.

    Veja esses trechos (entre aspas):

    “tudo isso depende de tempo disponível para pensar, o que não se tem mais, dado o estado de mobilização permanente em que todos se encontram: da infância à velhice, todos atarefados com coisas irrelevantes do ponto de vista do bem-viver no sentido moderno: o estresse como ideal cultural é pós-moderno.”

    “(…) Como o fetichismo é inversão entre sujeito e objeto, também na religião se verifica o mesmo fenômeno que no mercado. Não são os fiéis que devem se elevar até o divino, os valores “santos”, o aperfeiçoamento de si nos valores considerados sagrados, mas o contrário, o sagrado desce às necessidades dos fiéis, adaptando-se a eles, como de resto acontece o mesmo na educação: não são as crianças que devem ser “elevadas” para ter acesso ao patrimônio cultural da humanidade, mas é a escola que deve se adaptar ao meio social da criança, etc., quer dizer, ela permanece prisioneira do realismo de sua condição social e este passa a ser a medida de sua compreensão do mundo.”

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  • 08/02/2012 - 23:37
    Enviado por: Douglas Lisboa

    Olá Zanin,
    Acredito que essa questão ultrapassa a barreira do cinema e invade também o meio acadêmico e social. Sendo um pouco clichê: é reflexo de uma mentalidade positivista e cientificista que rege a nossa busca por “respostas” aos fenômenos naturais. Podemos explicar e racionalizar, psicologizar e socializar, com a ciência ou entregar à fenômenos e experiências religiosas. Ou um misto dos dois, para evitar dualismos simplistas.

    Por outro lado, discordo que seja a questão do destino ou acaso no cinema, mais próximas de uma razão de fé, mas talvez a simplificação didática por estratégia comercial, artística, política ou outras. “As pessoas não vão ao cinema para assistir a um comício ou a uma aula de sociologia.” – Mas foram ver Tropa de Elite e os filmes citados no exemplo, por isso são sucesso de bilheteria e não pseudo-aulas de sociologia. A questão cotidiana (sem querer ser um retrato da violência), do acaso enquanto complexidade que não pode ser reduzida a apenas uma relação de causa-efeito é visto em muitos (mas nem todos) filmes de festival. Mas ficam restritos a um circuito muito pequeno, sem interesse de distribuidoras e exibidores.

    O cinema brasileiro contemporâneo não pode, nem deve ser reduzido, a esses filmes. Traçar um perfil de toda uma produção heterogênea me soa um pouco estranho.

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  • 23/02/2012 - 19:35
    Enviado por: André Felipe

    Caro Luiz Zanin,

    também fui aluno da professora Olgária. Guardo com carinho uma passagem que tive com ela. Uma vez fui à sala da professora, fora do período de aula, perguntar algo sobre o trabalho final. Bati à porta, ela consentiu que entrasse. Assim que adentrei, percebi que a professora deveria estar muito ocupada, pois tinha um livro nas mãos e outros quatro, abertos, sobre sua mesa. Disse que voltaria outra hora, que não queria atrapalha-la. No entanto, pelo contrário, a professora Olgária me atendeu de forma tão solícita e prestativa que considero ter sido uma aula de magnanimidade.

    A professora, sabiamente, identificou este caráter proselitista que permeia a maioria dos filmes nacionais, que é, de certa forma, contra-producente porque ao invés de seduzir, professa e, assim, mais afasta a platéia do que a conquista. Já discutimos as causas aqui. O Daniel Piza falava em um complexo de culpa por parte dos cineastas, que vindos das classes mais favorecidas se sentiam obrigados a realizar filmes “politicamente corretos”, ainda mais, por serem finaciados através da lei Rouanet. Claro que esta perspectiva não se aplica à totalidade da produção, mas precisa ser discutida. Até porque reflete na seleção feita pelos festivais internacionais.

    Zanin, pensando nisto, qual é o papel da crítica neste estória? Será que a crítica, de maneira geral, não exerce uma certa patrulha em favor desta perspectiva que professora Olgária critica, onde a subjetividade é suprimida pelo social?

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    • 23/02/2012 - 22:21
      Enviado por: Zanin

      Francamente, não sei André. É um caso para pensar. Mas é bem provável que tenhamos o nosso quinhão de responsabilidade nisso tudo. Qual o remédio? Ser cada vez mais críticos e menos proselitistas, a meu ver. abs.

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