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Luiz Zanin

12.agosto.2011 11:10:45

A Árvore da Vida

A Árvore da Vida, de Terrence Malick, é aquele tipo de filme que costuma resistir à análise. Se o pegamos por um lado, escapa pelo outro. Se nos concentramos em um tema, deixamos escapar o todo. Se vamos ao conjunto podemos deixar fugir os detalhes, tão importantes nesta obra. O fato de Malick sabiamente não conceder entrevistas nos deixa livres para interpretar a obra como bem entendermos e dentro dos limites da nossa capacidade. A nada somos induzidos, a não ser pelo estranho poder que emana da tela quando vemos este filme.

Por um lado, é uma obra sensorial, isto é, que nos atinge, em primeiro lugar, pela força das imagens. Em especial aquelas do começo do mundo, em que são traçadas as linhas gerais do Big Bang, do nascimento do universo, a formação das galáxias e dos planetas, o surgimento da vida e a evolução. Quanta ambição cósmica, em descrever em imagens algo que é da ordem do imponderável, pensável talvez em termos de hipóteses e equações da física quântica.

Depois, há o fator humano, em sua escala comparativamente mínima em relação ao universo. Dentro desse microcosmo, uma escala ainda mais reduzida – uma família norte-americana, nos anos 1950. Uma tragédia, a morte de uma criança. Depois, a descrição de uma infância dura, passada em companhia de um pai autoritário e uma mãe cheia de amor. Temos alternâncias dentro do tempo, com essa criança, agora adulta, em sua vida vazia num mundo que perdeu a transcendência.

O homem é esse nada diante do universo. Mas o homem é esse universo em si mesmo, quando visto da sua perspectiva. Poeira cósmica e ser divino, ao mesmo tempo. Infinitamente pequeno e infinitamente grande, dependendo do ponto de vista que o contempla. São as indagações que surgem, e parecem estruturar A Árvore da Vida.

É um filme religioso? Em certo sentido, sim, a começar pelo título, que evoca a Bíblia e a árvore que estaria no centro do Jardim do Éden. Mas é também de uma religiosidade especial, metafísica, por assim dizer. É como se Malick descrevesse, de forma exaustiva, a humana condição (em especial a infância de Jack) para buscar alguma coisa que vai além dela. No plano espiritual, talvez. No terreno da filosofia, como arte da preparação da morte. Ou, ainda na dimensão de uma metapsicologia que pressinta a expansão do Eu em uma dimensão cósmica.

Como todo filme de amplo espectro, A Árvore da Vida não se reduz a qualquer dessas circunstâncias. É possível que englobe todas e seja como uma daquelas bonequinhas russas, que esconde outra em seu interior e assim sucessivamente. Poderíamos interpretá-lo intensivamente, e ele ainda guardaria novas camadas de compreensão. Aliás, essa é uma das marcas da grande obra. É inesgotável. A Árvore da Vida é como a perplexidade que sente o homem ao contemplar estrelas numa noite fria. A presença do eterno e do infinito pode lhe causar tremor. Mas também esperança, quem sabe?

comentários (7) | comente

7 Comentários Comente também
  • 12/08/2011 - 23:01
    Enviado por: Rogério de Moraes

    Acabo de ver o filme. No final, só conseguir pensar no narrador esportivo Milton Leite: Que beleza!!! Mas falando sério, é obra inesgotável, como bem disse. A maior prova disso é as pessoas gostarem do filme e não saberem dizer porque gostaram. Ou seja, que beleza!!!!

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  • 13/08/2011 - 01:29
    Enviado por: Vítor Figueiredo

    Assisti agora pouco o filme, estou no dos que acha o filme uma obra-prima. Fiquei contente em saber que os dois críticos que eu mais admiro no país, ou seja, vc e o Inácio Araujo exaltaram o filme. Vi que tiveram outros críticos que não gostaram, acharam pretencioso, paciência, nem todo mundo vai curtir, mas espero que os que curtirem saiam com mais beleza e pensamento pela vida, que é o que tentaram passar para os leitores vc e o Inácio, isto é, perplexidade pela obra em si.

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  • 15/08/2011 - 11:35
    Enviado por: Bruno

    Certas sequências trazem sensações que estão lá no fundo da memória do espectador. E que não têm nomes. A gente vê e sente, e alguma coisa faz lembrar de uma época remota da nossa vida. Ou anterior a ela. É emblemática a tomada em que o filho pede à mãe algo do tipo: “Me conte uma história de um tempo em que eu ainda não era nascido.”

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  • 15/08/2011 - 18:37
    Enviado por: Fred

    Sinceramente, achei um cruzamento de Discovery Channel com filosofia barata e religiosidade digna de uma igreja evangélica de fundo de quintal. Fazer filme filosófico é difícil, o autor tem que estar à altura do desafio para não escorregar nem no vazio e nem no pretensiosismo. Malick não se mostrou à altura do desafio e fez um filme vazio de conteúdo, ainda que esteticamente belo -não belíssimo, apenas belo.

    Melancolia é inifinitamente mais cinema.

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  • 16/08/2011 - 22:58
    Enviado por: Vítor Figueiredo

    Interessante sempre quando se fala de “A árvore da vida” fala-se em “Melancolia”, uns falam bem de um para falar mal do outro, outros falam bem dos dois (parece o caso do Zanin), vi o filme do Malick aqui em Brasília que acho que estreiou aqui graças ao Brad Pitt, ironicamente agradeço muito ao Pitt rs, já que o circuito mais “alternativo” aqui em Brasília anda falido com o fechamento dos cinemas do Tênis Clube, do CasaPark e com o cine-brasília em eterna crise, espero que Melancolia estreia logo por aqui e que o complexo unibanco arteplex comece logo a funcionar (previsto para outubro), pois bem, Brasília é a capital do país, imagina outras capitais como deve estar? Noves fora Rio de Janeiro (onde morei quase toda minha vida) e São Paulo, vivemos um tempo de miséria no dito cinema de “arte” em todo Brasil.

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  • 02/12/2011 - 17:27
    Enviado por: Matheus Nahkur

    Também estou entre os que saíram do filme em estado de graça, e consideram-no uma obra-prima. É curioso ver a reação das pessoas. Aqui mesmo, acima, um leitor afirma que o filme traz filosofia barata e que Malick não está à altura de tratar do assunto. Talvez não saiba que o diretor se formou “summa cum laude” – com a maior das honras – em Filosofia em Harvard. E ensinou a matéria no Massachusetts Institute of Technology. Rs

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  • 23/12/2011 - 19:18
    Enviado por: Meus dez melhores estrangeiros de 2011 - Luiz Zanin - Estadao.com.br

    [...] A Árvore da Vida, de Terrence Malick (EUA). Leia crítica [...]

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