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Luiz Zanin

Não poderia haver lugar mais adequado. Nesta quinta-feira, 31, às 19h30, no Auditório Armando Nogueira, no Museu do Futebol, será dado o pontapé inicial para o 3.º Cinefoot. Sim, o Festival de Cinema de Futebol, criado e dirigido pelo fluminense doente Antonio Leal. Refeito da desclassificação do seu time diante do Boca Juniors, Leal já pôs em campo o festival em sua cidade, o Rio. Agora é a vez de São Paulo.

E, nada melhor para começar do que uma homenagem ao aniversariante do ano, o Santos Futebol Clube. Na sessão inicial, dois títulos se referem ao alvinegro (e agora azulão) da Vila Belmiro - Canal 100: Santos Tricampeão e o Milésimo Gol, e Cem Anos de Futebol Arte, de Lina Chamie. Para completar, Canarinhos Gaúchos. Prestigiando a sessão de abertura, uma presença ilustre – o ex-jogador checo Josef Jelinek, que enfrentou o Brasil na final da Copa de 1962. Vencemos por 3 a 1. Sem Pelé. Mas com Garrincha, Didi e Vavá.

O festival vai de quinta, 31 a 5 de junho e divide-se entre dois campos: terá sessões no Museu do Futebol e no Reserva Cultural, o cinema do ex-jogador do Olympique de Marseille e hoje são-paulino Jean-Thomas Bernardini.

São duas casas naturais para abrigar um festival de filmes de futebol – o belo museu dedicado ao esporte e o cinema cujo dono um dia abandonou os gramados depois de romper os ligamentos do joelho.

O Cinefoot tem também a missão combater a ideia de que futebol e cinema não casam. Ou, pelo menos, não casam bem. Se, de fato, é difícil imitar na tela as emoções de um jogo ao vivo, a verdade é que não faltam bons filmes sobre o esporte mais popular do mundo.

Para prová-lo, o Cinefoot escalou uma bela seleção de filmes atuais e outros nem tanto. Uma grande pedida deve ser o inédito Meninos de Kichute, de Lucas Amberg; Rivellino, de Fábio Katudjian, é um filmaço.

São apenas dois exemplos entre vários outros, de longa e curta-metragem, de ficção ou documentais, brasileiros e estrangeiros. Com essa pausa no Brasileirão, quer programa melhor? E é tudo de graça.

CINEFOOT

Museu do Futebol. Pça. Charles Muller; Reserva Cultural. Av. Paulista, 900. Grátis. Até 5/6. www.cinefoot.org

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Nathalie (Audrey Tautou, de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) vive um casamento perfeito. Daí se entende o desamparo em que cai quando perde o marido. Viúva, tenta, sem muita convicção, refazer a vida. Entrega-se ao trabalho como forma de terapia, o que não é incomum, ainda mais hoje.

Esse é ponto de partida deste A Delicadeza do Amor, de David e Stephane Foenkinos. Informa-se que a obra cinematográfica é baseada no livro de David, um escritor de sucesso na França. Autor relativamente jovem, diga-se também, já que David nasceu em 1974. No Brasil, ele é editado pela Rocco.

Enfim, leva jeito também como diretor, embora procure não inventar nada. Talvez exatamente por isso. Vai no simples. Apenas coloca Nathalie num ambiente um tanto estranho e déplacé, deslocado vagamente do seu meio habitual. Se estamos na França, a firma em que ela trabalha, no entanto, é sueca. Comem uns estranhos biscoitos, os Krisprolls, e esbanjam polidez. Em especial quando a funcionária passa por aquele período difícil. No entanto, isso não impede que, depois do período sabático, ela se veja dividida entre a corte do patrão e um dos funcionários.

O fiapo de história é esse, e mais os seus desdobramentos. O importante é o tom meio fabular do relato e o fato que A Delicadeza do Amor pareça, de certa forma, um filme sobre seres “disfuncionais”. As pessoas também parecem deslocadas desse nosso mundo e de sua curiosa ética; meio que fora de foco numa sociedade ultracompetitiva, na qual o homem é o lobo do homem, segundo a velha frase de Hobbes para definir a sociedade sem Estado.

Em A Delicadeza do Amor (La Délicatesse) as pessoas, apesar de seus desejos e conflitos, parecem seres de exceção nesse nosso ambiente contemporâneo. Não tentam puxar o tapete umas das outras, e mesmo o mundo corporativo nem de longe se assemelha a uma selva. A tal ponto que um patrão disputa a mulher com um subalterno e nem por isso pensa em se valer da superioridade hierárquica para resolver a parada em seu proveito.

Bem, talvez seja um comentário lateral a esse filme que se desenvolve segundo um certo ar e lógica de fábula. Mas tem a ver com seu espírito geral e condiz com o título. Pois a grande questão (uma delas pelo menos) da atualidade diz respeito à perda desse sentimento de gentileza entre seres humanos. A delicadeza, hoje em dia, parece pouco menos que uma polidez formal, uma questão de verniz e maneiras. Talvez fosse a hora de trazer à baila essa grande questão que é a delicadeza dos sentimentos nas relações. Pode parecer meio idealista, quixotesco até, mas poucas coisas seriam tão urgentes. O mérito do filme é tê-la colocado em seu centro.

(Caderno 2)

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SENTENÇA PROFERIDA EM 1587 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO

 

(Autos arquivados na Torre do Tombno, armário 5, maço 7)
“Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e
dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas
públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os
quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi
arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido
comvinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta
e sete filhos; de cinco irmãsteve dezoito filhas; de nove comadres
trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove
filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete
filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três
filhas. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do
sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em
cinquenta e três mulheres”. Não satisfeito tal apetite, o malfadado
prior, dormia ainda com um escravo adolescente de nome Joaquim Bento,
que o acusou de abusar em seu vaso nefando noites seguidas quando não
lá estavam as mulheres. Acusam-lhe ainda dois ajudantes de missa,
infantes menores que lhe foram obrigados a servir de pecados orais,
completos e nefandos, pelos quais se culpam em defeso de seus vasos
intocados, apesar da malícia exigente do malfadado prior.

( agora vem o melhor )

“El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos
dezessete dias do mês de Março de 1587, com o fundamento de ajudar a
povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e, em
proveito de sua real fazenda, o condena ao degredo em terras de Santa
Cruz, para onde segue a viver na vila da Baía de Salvador, como
colaborador de povoamento português. El-rei ordena ainda guardar no
Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o
processo”.

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30.maio.2012 09:34:21

Romance de Formação

 

De modo geral o cinema busca o jovem no que ele tem de problemático. Drogas, desorientação, rebeldia, angústia diante da sexualidade, a natural confusão de quem está ingressando na vida adulta.

Romance de formação, de Julia de Simone, tenta um caminho novo. Busca a excelência e a afirmação, ao invés das hesitações tão comuns em certa faixa etária. Mostra, simplesmente, a maneira como quatro jovens procuram se destacar em suas respectivas profissões. Um é um pianista prodígio, que estuda na Alemanha. Outro, um estudante de direito internacional em Harvard. Uma garota cursa literatura em Stanford. E um rapaz de Minas, de família pobre, mudou-se para o Rio, para estudar no IME.

Claro, pode-se dizer que o tom é calibrado de modo a enaltecer um certo empreendedorismo que, se é moda em termos de modelo a ser dotado pela sociedade como um todo (um elogio do self made man), aqui parece apenas preocupado em valorizar o esforço individual desses jovens. Não há proselitismo político, nem arenga liberal sobre as virtudes do esforço de cada um – o que implicaria crítica imediata a qualquer tipo de ação social, com a desculpa de que se alguns conseguem, todos podem chegar lá. O documentário não entra nesse campo minado que costuma virar um fla-flu interminável entre esquerda e direita, uma contenda que, no Brasil, vive permanentemente envenenada.

Não há nada disso e, diga-se o que se quiser, é reconfortante ver pessoas moças que não reclamam, não responsabilizam os outros por seus problemas e não medem esforços para se superar. Sabem o que querem, têm um interesse real em assuntos que não costumam comover gente da sua idade, e vão em frente.

Conclusão: é impossível não simpatizar com eles. Mesmo se, numa leitura mais “social”, pudéssemos lembrar de muita gente que, mesmo tendo as características favoráveis desse quarteto, não gozou da mesma sorte ou obteve as mesmas oportunidades. De qualquer forma, há que reconhecer que todos eles se aferraram às suas chances com muita garra.

Assim, só nos cabe admirar uma jovem como Victoria Saramago, que foi aos Estados Unidos fazer seu doutorado de literatura e hoje é professora e escritora. Ou William Cortopassi que, graduado em química em Minas, veio para o Rio estudar farmacologia. Há um desejo por trás do esforço: o pai morreu de câncer quando ele era adolescente e agora quer pesquisar sobre a doença. Fábio Martino foi menino prodígio e hoje estuda piano na Alemanha e dá concertos. Caetano Altafin estuda em Harvard e está se especializando em direito corporativo.

Nao sabemos muito bem no que irão se tornar e até aonde podem ir. Mas é evidente que são, desde já, protagonistas de histórias de sucesso, orgulho dos pais, amigos e conhecidos. O documentário que os elogia é também construído de maneira muito simples, com entrevistas, mas também os mostrando em seu cotidiano, invariavelmente estudando, perseguindo seus ideais e, nos intervalos, tentando levar vidas normais. Nesse filme,que é um elogio ao esforço, há também lugar para o prazer.

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Há muitos anos escrevi uma crônica sobre Nelson Cavaquinho. Nunca mais a vi. Agora, encontrei-a no acervo do jornal. Leia abaixo:

 

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29.maio.2012 09:02:19

E aí, seleção?

Melhor falar pouco desse início meia boca do Campeonato Brasileiro. Duas rodadas, com os paulistas começando muito mal, e agora uma interrupção para as datas Fifa, um espaço para os jogos da seleção brasileira. Não há por que se queixar. Todos nós sempre reivindicamos que os jogos da seleção não trombassem com outros disputados pelos times, em especial aqueles que têm jogadores convocados. Nada mais justo, portanto, que essa pausa.

Será bem aproveitada? O começo não foi mal. Pelo menos vimos um bom primeiro tempo contra a Dinamarca, com três gols, e depois, o relaxamento “natural” no segundo tempo, quando o jogo ficou muito tedioso e a Dinamarca marcou o seu, ainda que impedido. Agora temos pela frente os Estados Unidos, o México e a Argentina. São bons desafios e poderão dar alguma ideia do que poderá fazer a seleção na Olimpíada.

Talvez possa trazer a medalha de ouro, a nova “obsessão” nacional. E por que coloquei obsessão entre aspas? Porque não acredito nela. Acho que é algo que estão tentando nos vender. Eu, pelo menos, e todas (mas todas mesmo) pessoas que me cercam, não estão nem um pouco obcecadas com a medalha olímpica. Se vier, legal. Se for impossível, não é isso que vai mudar o preço do dólar.

Obsessão mesmo, se o termo cabe, é com a Copa do Mundo. Vai ser muito triste se o Brasil realizar a sua segunda copa e não ganhar de novo, como aconteceu em 1950, na famosa catástrofe do Maracanã diante do Uruguai. E quem pode dizer, hoje, que o Brasil é favorito para 2014? Não é. Em termos técnicos, está atrás de, pelo menos, três seleções – Espanha, Alemanha e Holanda. Talvez atrás, até mesmo, do Uruguai, que fez uma bela figura na última copa, enquanto nós tivemos desempenho pífio. E que dizer da Argentina, sempre difícil? E se Messi resolve jogar a mesma coisa que joga pelo Barcelona, o que será de nós?

Enfim, visto de hoje, o nosso destino na próxima copa é mais do que incerto. Daí a importância da Olimpíada. Não tanto trazer o famoso ouro, mas ver até que ponto os nossos jovens podem ir. Porque, com alguns reforços que receberá dos mais velhos, o time olímpico será mesmo a base para 2014. Ou alguém vislumbra outros nomes que não os de Neymar, Pato, PH Ganso, Leandro Damião, Lucas & Cia?

Outro desafio será devolver à seleção o interesse que o torcedor lhe devotava em outras eras. Essa paixão tornou-se exclusiva dos clubes. O torcedor morre por seu clube de coração. Não vejo o mesmo amor pela seleção. Lembro da época em que a seleção era o máximo para todos nós. Não conseguíamos dormir em véspera de jogos de Copa do Mundo, tamanha a tensão. Era uma loucura, uma grande história de amor entre o torcedor e a seleção que, infelizmente, arrefeceu. Nem poderia ser de outra maneira. Depois de décadas vendo seleções que não tinham sequer um jogador do Brasil convocado, depois de vê-la excursionar por todos os países, menos em sua própria terra, era previsível que a baixasse e se tornasse apenas uma vaga simpatia. Conseguiremos reverter essa relação morna durante a Copa e fazê-la entrar de novo em ponto de ebulição? Talvez, mas não tenho certeza.

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28.maio.2012 16:53:04

Adorável Pivellina

Na primeira sequência de Adorável Pivellina, uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi), procura por seu cão num jardim. A câmera (na mão) a acompanha. Patti não encontra o cachorro fujão (ele reaparecerá depois), mas acaba por achar uma criança sozinha, num balanço, a garotinha de que fala o título em italiano.

A mãe deixou um bilhete e uma foto, e mulher resolve adotar a pequena Asia (Asia Crippa), apesar da insistência do marido, Walter (Walter Saabel) em entregar o caso à polícia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que tem grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha e a integra à vida da pequena trupe.

O filme embarca logo de saída em um tom documental que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas, afinal, onde está a história?

Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa reside, exatamente, na observação do acontecimento vivido, nessa espécie de simulacro “da vida como ela é”, tão rente ao real quanto seja possível ao cinema. No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que, por acaso, se situa na Itália, mas poderia ser em qualquer lugar, e aqui mesmo, no Brasil.

A situação é universal e, ao mesmo tempo, italianíssima. Tudo se passa nos arredores de Roma, naqueles arrebaldes meio desolados, cheios de edifícios populares e que foram locação favorita de alguns filmes de Pier Paolo Pasolini. A referência a Pasolini, aliás, se amplia num passeio à feia praia de Óstia, onde ele foi assassinado por um garoto de programa, em 1975.
De qualquer forma, é sempre um desafio para o diretor (no caso uma dupla, o austríaco Rainer Frimmel e a italiana Tizza Covi) manter o interesse do espectador num projeto como este.

Eles vencem a aposta com uma série de trunfos nas mãos. Primeiro, a criança é encantadora, de fato. Mas, se sabe, péssimos filmes também são feitos com crianças adoráveis. É que, no caso, os “dotes” da menina Ásia Crippa são utilizados com inteligência pela dupla. Há, também, a espontaneidade dos atores naturais, que fazem os personagens como se interpretassem as próprias vida, o que é bem caso. Em especial, a figura de Patti, com seus cabelos vermelhos e ar protetor de mamma romana. Com diálogos improvisados, o filme adquire frescor notável.

Por fim, introduz-se um elemento de suspense em toda essa situação. Quem será essa mãe, que abandonou a “pivellina” encantadora, ou, pelo menos, a deixou emprestada por algum tempo à outra? Essa pergunta fica implícita, rondando o filme e, embora não formulada de todo, lhe dá um dinamismo psicológico notável. Não conseguimos evitar a pergunta implícita: e com quem ficará a pequena no final?

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Palma de Ouro: Amour, de Michael Haneke – com menção aos atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (França)
Grande Prêmio: Reality, do diretor Matteo Garrone (Itália)
Melhor Diretor: Carlos Reygadas, pelo filme Post Tenebras Lux (México)
Melhor Ator: Mads Mikkelsen pela atuação em Jagten (Dinamarca)
Melhor Atriz: Cristina Flutur e Cosmina Straton pelos papéis em Beyond The Hills (Romênia)
Melhor Roteiro: Beyond The Hills, do diretor Cristian Mungiu (Romênia)
Prêmio do Júri: The Angel’s Share, do diretor Ken Loach (Reino Unido)
Câmera de Ouro (melhor filme de diretor estreante): Beast of The Southern Wild, do diretor Benh Zeitlin (EUA)
Melhor curta-metragem: Silent, de L. Rezan Yesilbas (Turquia)

 

Não estive no festival e obviamente não tenho o que dizer sobre os filmes. A única coisa a registrar é que Na Estrada, de Walter Salles, que despertou tanta expectativa, saiu de mãos abanando. 

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27.maio.2012 12:57:45

Meus cem livros

A Bia Lessa me pediu uma relação dos cem livros que haviam definido a minha formação. A ideia, parece, é para um evento na Rio + 20. Fui escrevendo ao sabor da memória. Claro que devo ter deixado montanhas de fora, ausências das quais vou me arrepender. Não contei os livros. Não sei se são cem, ou mais, ou menos. Não quis indicar um cânone. Apenas citar livros que me são muito queridos, me acompanham vida afora e dizem muito sobre quem sou, ou quem gostaria de ser. Se for útil, dê uma olhada.

Freud. A interpretação dos sonhos
Mal-estar na cultura

Marx. O capital
Manuscritos econômico filosóficos

Nietszche. A genealogia da moral
Assim falou Zaratrusta

Descartes. Discurso do Método
Meditações metafísicas

Sartre. O que é a literatura?
Os caminhos da liberdade
As palavras

André Bazin. Qu’est ce que le cinéma?

Ismail Xavier. Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal, Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome,

Jean-Claude Bernardet. Brasil em tempo de cinema
Cineastas e imagens do povo

Paulo Emílio Salles Gomes. Artigos no Suplemento Literário do Estadão
Cinema: uma Trajetoria no subdesenvolvimento

Albert Camus. A peste
A queda

Platão. Banquete

Oswald de Andrade. João Miramar
Manifesto antropofágico

Mário de Andrade. Macunaíma

Raduan Nassar. Lavoura arcaica

Flaubert. Madame Bovary
Bouvard e Pécuchet

Balzac. As ilusões perdidas

Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas
Primeiras estórias
Sagarana
Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas
Dom casmurro

Roberto Bolaño. Os detetives selvagens

Júlio Cortazar. O jogo da amarelinha

Jorge Luís Borges. Obra completa

Ernesto Sabato. De heróis e de tumbas

Gabriel Garcia Marquez. Cem anos de solidão

Mário Vargas Llosa. Conversa na catedral

Érico Veríssimo. O tempo e o vento

Jorge amado. Dona Flor e seus dois maridos
Os velhos marinheiros

Graciliano Ramos. Angústia
Memórias do cárcere

Hemingway. Contos completos
Por quem dobram os sinos
O sol também se levanta

Faulkner. O som e a fúria
Palmeiras selvagens

Giovanni Papini. palavras e sangue

André Gide. A porta estreita

Louis Ferdinand Céline. Voyage au bout de la nuit

Alberto Moravia. O conformista

William Shakespeare. Hamlet
O rei lear

Miguel de Cervantes. Dom quixote
Novelas extraordinárias

Edgard Allan Poe. O relato de Arthur Gordon Pym
Historias extraordinárias

Hermann Melville. Moby Dick
Bartleby

Maquiavel. O príncipe

Thomas Hobbes. O leviatã

Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa
Observador do escritório

Jacques Lacan. Les écrits
Seminário sobre a ética

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil

Gilberto Freyre. Casa grande e senzala

James Joyce. Ulisses
Os dublinenses

Antônio Callado. Quarup

Marcel Proust. Em busca do tempo perdido

Michel de Montaigne. Les Essais.

Euclides da Cunha. Os sertões

Dostoievski. Crime e castigo
Os irmãos Karamazov
O idiota

Victor Hugo. Os miseráveis

Stevenson. A ilha do tesouro

Choderlos de Laclos. Ligações perigosas

Theodore Dreiser. Uma tragédia americana

Henry Miller. Trópico de câncer

Kafka. O castelo
A metamorfose

Joseph Conrado. O coração das trevas
Lorde Jim

Eça de Queirós. Os Maias

Thomas Mann. A montanha mágica
Doutor Fausto

Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma

Clarice Lispetor. A paixão segundo G. H.

Leon Tolstoi. Guerra e paz

Eric Hobsbawm. A era dos extremos

Norberto Bobbio. Direita x Esquerda
De senectude

Homero. Odisséia

Plutarco. Vidas paralelas

Petronio. Satyricon

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Essential Killing, de Jerzy Skolimovski, com Vincent Gallo. Prisioneiro escapa de um campo de concentração do exercito americano e, em fuga e faminto, atravessa uma implacável paisagem de inverno. O filme se reduz aos seus elementos mínimos, quase sem diálogos. O ator (e diretor americano Vincent Gallo) tem uma atuação primorosa, longe dos seus costumeiros personagens blasés, com cara de mau. Aqui ele é sofrimento puro, submetido apenas à dura necessidade de sobreviver. O paroxismo chega quando ele ataca uma mulher em situação inusitada. Apenas para se alimentar. Seco e despojado.

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