Como este texto não vai sair mesmo no jornal, é melhor publicar no blog, antes que o filme desapareça do circuito.
Para os fãs, Tintim, a HQ de Hergé, sempre foi sinônimo do prazer proporcionado por uma boa história. A versão para o cinema, de Steven Spielberg, em 3D, não deve decepcionar os leitores. Spielberg é razoavelmente fiel aos originais, não literalmente, mas ao seu espírito. E qual é esse espírito? O da aventura, gênero no qual o cineasta costuma se sair bem. Pelo menos, nesse terreno fica livre de sua tendência à pieguice, à qual dá livre curso quando se dedica ao drama.
No plano do enredo, O Segredo do Licorne está muito bem servido como ponto de partida para a aventura. Temos os ingredientes ideiais – uma caça ao tesouro, cuja localização será decifrada através de mapas e códigos. Heróis dispostos a enfrentar qualquer perigo para encontrar a riqueza e vilões prontos a qualquer baixeza para conseguir o mesmo. Piratas, terras longínquas e exóticas, um certo grau de humor e, pronto: aí está a diversão garantida.
No plano visual, Spielberg faz um bom uso do 3D, isto é, comedido, sem exibicionismos. A técnica se coloca em função da narrativa e não o contrário, como tem sido a regra desde quando a indústria (re)descobriu nas três dimensões a salvação da lavoura para atrair o público às salas e aumentar o preço dos ingressos. Há quem se queixe do desconforto do 3D, do uso obrigatório dos óculos, e da dificuldade de leitura das legendas. Tudo isso é verdade. Mas também não deixa de ser um atrativo a mais do cinema, mesmo que, no fundo, fiquemos nos perguntando se a diversão não seria a mesma, e sem tanto alarde, com as boas e velhas duas dimensões.
De todo jeito, Spielberg utiliza bem a técnica de motion capture, que usa atores, para lhe captar o movimento e depois usá-lo no processamento digital do filme. Isso dá uma naturalidade interessante à animação, o que facilita a empatia com os personagens. Claro, há uma maneira spielberguiana de ver as coisas e esta está impressa em Tintim: se estamos diante de uma aventura, não há motivo para nos preocuparmos com pontos de repouso. O ritmo deverá ser de montanha-russa, mesmo que isso não esteja tão explícito no original. De qualquer forma, Spielberg é peixe n’água no universo de Tintim. O parentesco entre a criação de Hergé e Indiana Jones é mais que evidente. Até mesmo na maneira um tanto altiva, para usar um termo ameno, como olham os povos diferentes e desses países distantes onde vão viver suas aventuras.
Desse modo, Tintim é um filme de ação, em que a verossimilhança é aposentada em nome da movimentação pirotécnica. Por sorte, resguardam-se as figuras de humor imaginadas por Hergé, como os agentes secretos Dupont e Dupond (homófonos em francês), curiosamente chamados Thompson & Thompson em inglês. Quem legendou teve o bom senso de manter a grafia original das HQs. E também o Capitão Haddock, mostrado como um alcoólatra terminal, embora engraçado assim mesmo. Por sorte, Spielberg não fez de Haddock um abstêmio, conforme exigiria o pensamento politicamente correto vigente.
Mas seria um engano considerar o capitão borracho mero expediente cômico. À sua maneira, e apesar da bebedeira constante, Haddock representa o polo positivo da eterna luta entre o Bem e o Mal, sendo o outro lado representado por Rackham, o Terrível. Luta que se arrasta por gerações e passa de uma a outra como um legado sem fim. Quer coisa mais spielberguiana que isso?
Link de uma entrevista que dei ao site Cinema Velho: http://cinemavelho.com/entrevista-luiz-z…
Sempre se soube que a torcida deve ter peso no destino de um clube. Estão aí as maiores torcidas do País para não nos deixar mentir: o que seriam de Corinthians e Flamengo sem as imensas massas que seguem esses times com fé e coração, e fanatismo?
Mas, enfim, isso pode ser dito sobre qualquer dos nossos grandes clubes de massa, Palmeiras, São Paulo, Vasco, Grêmio, Náutico, etc. São as torcidas que fazem dos times instituições tão especiais. Sem elas, nada feito. Os clubes viram agremiações como as outras, sem qualquer aura que os diferencie. O clube do coração é mais. É a nossa segunda pátria, como dizia o grande crítico de teatro Décio de Almeida Prado.
E, de certa forma, se os clubes têm responsabilidade e contas a prestar à torcida, esta também tem suas obrigações para com os seus clubes. Por exemplo, um bom torcedor apoia seu time em todas as circunstâncias, e não apenas na época das vacas gordas. Juntos na saúde e na doença, como nos melhores casamentos. O torcedor fiel comemora o título e chora o rebaixamento. Cai, mas não deixa o time na mão. Continua a incentivá-lo, seja na disputa de um Mundial ou num humilde jogo da 2.ª, 3.ª ou 4.ª divisão. Assim é, e entendo que assim deve ser a relação entre clube e torcedor, porque, repito mais uma vez, o futebol é uma atividade diferente das outras, incomparável.
Agora, será que entre as obrigações da torcida se encontra a de pagar pela contratação de jogadores? Não sei e partilho minha dúvida com vocês diante dessa iniciativa do Palmeiras de vender cotas de R$ 100 aos torcedores para trazer o volante Wesley para o clube. Acho que Wesley seria uma excelente contratação para o Palmeiras e entendo que a torcida tenha todo o interesse em vê-lo no time. Mas deve enfiar a mão no bolso para isso? E quando o Palmeiras revendê-lo vai distribuir os dividendos com os torcedores que contribuíram para a compra? Como funciona esse negócio? É uma doação, uma compra, uma parceria?
De qualquer jeito que seja, não me cheira bem. Acho que se um torcedor quiser mesmo auxiliar seu clube tem um caminho muito mais fácil para fazê-lo – associar-se. Fazer parte do quadro associativo e lutar para que o poder no seu clube seja disputado por eleições diretas, como já acontece com vários deles. É a melhor maneira de se prevenir contra o continuísmo dos cartolas, a principal praga que acomete o nosso futebol.
Por formação, não acredito muito em escolher culpados pontuais e achar que, eliminado determinado nome, todos os problemas serão resolvidos com isso. O que quero dizer é que as algumas pessoas podem ser nefastas mesmo. Mas, muito pior do que elas é a estrutura que lhes permite se eternizarem no poder. Sua arma, torcedor, é fazer parte para valer do seu clube. E, quando não estiver satisfeito com os dirigentes, votar na oposição. É a melhor forma de influir no resultado, sem ter de bancar a contratação de jogador.
* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão
A vitória de O Artista era esperada. O que não se esperava é que vencesse tão bem. Afinal, das cinco categorias consideradas principais (filme, direção, ator, atriz e roteiro), levou três. A de ator já era dada como perdida para George Clooney. Cogitava-se que a direção ficaria com Scorsese, de modo a equilibrar um pouco o resultado. Mas não. A de ator ficou com Jean Dujardin e a direção, com Hazanavicius. A vitória, assim, foi acachapante. Hugo Cabret ficou com um bom número de prêmios, mas todos no segmento técnico. Os troféus “artísticos” penderam todos para a produção franco-belga. O que torna essa edição do Oscar digna de entrar para a história. Menos pelo filme, em si, e mais pelo cosmopolitismo do resultado.
Claro, a vitória da França é de importância inestimável, algo a ser valorizado. Basta pensar o que aconteceria por aqui se o Brasil vencesse, não o Oscar de melhor filme estrangeiro que perseguimos como ao Graal, mas o de melhor filme, pura e simplesmente. Talvez tivéssemos de providenciar uma semana extra de feriados apenas para acomodar as festividades. É possível que a França não tenha a mesma obsessão por reconhecimento, mas, ainda assim, não deixa de ser um marco, mesmo para eles. Ainda mais para um país que, por ironia, é um dos poucos que conseguem manter seu mercado interno saudável, defendendo-se da invasão indiscriminada dos blockbuster norte-americanos. (O mercado interno francês é ocupado entre 40% a 50% pelo filme nacional contra 10% a 15% no caso brasileiro.) Desse modo, a vitória de O Artista é algo de alta simbologia, por mais que por trás dela esteja um produtor esperto. Cinemas que se levam a sério acabam reconhecidos, mesmo pelo maior concorrente.
Outro aspecto a ser valorizado é o prêmio ao iraniano A Separação. Há o aspecto político da coisa, que não deixou de ser contornado, com sutileza, no discurso do vencedor Asghar Fahardi, que chamou a atenção para o peso cultural do seu país, em geral ignorado diante da contingência internacional. Sem ser diretamente político, A Separação desvenda tamanha sutileza na apreensão de sentimentos contraditórios que só pode ser obra de uma cultura sofisticada. Portanto, digna do nosso respeito e admiração. O fato de a Academia ter reconhecido a qualidade estética dessa obra apenas a valoriza como instituição. Mostra que sabe ir além dos seus limites, bastante devassados pela impiedosa reportagem do Los Angeles Times sobre a sua composição (94% são brancos, 77%, homens, mais da metade passou dos 60 anos).
Com tudo isso, essa Academia envelhecida, branca e masculina, em tese pouco porosa à novidade, soube reconhecer a qualidade de A Separação, que não era apenas o melhor concorrente estrangeiro do Oscar, mas, talvez, o melhor dos filmes que lá estavam em julgamento. Isso para não falar de A Árvore da Vida, o esplêndido e ambicioso trabalho de Terrence Malick, que venceu o Festival de Cannes, mas não pareceu merecedor de nenhuma das três estatuetas a que estava indicado. Santo de casa não faz milagres. A Academia reconhece a arte até certo ponto, mas Malick também já seria exagero.
(Caderno 2)
Premiados:
1) Melhor filme
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Tão Forte e Tão perto”
“Histórias Cruzadas”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Meia-Noite em Paris”
“O Homem que Mudou o Jogo”
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”
2) Melhor direção
“O Artista”, de Michel Hazanavicius
“Os Descendentes”, de Alexander Payne
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen
“A Árvore da Vida”, de Terrence Malick
3) Roteiro adaptado
“Os Descendentes”, de Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash
“A Invenção de Hugo Cabret”, de John Logan
“Tudo Pelo Poder”, de George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon
““O Homem que Mudou o Jogo”, de Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin
“O espião que Sabia Demais”, de Bridget O’Connor e Peter Straughan
4) Roteiro original
“O Artista”, de Michel Hazanavicius
“MIssão Madrinha de Casamento”, de Annie Mumolo e Kristen Wiig
“Margin Call – O Dia Antes do Fim”, de Written by J.C. Chandor
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen
“A Separação”, de Asghar Farhadi
5) Melhor ator
Demián Bichir em “A Better Life”
George Clooney em “Os Descendentes”
Jean Dujardin em “O Artista”
Gary Oldman em “O Espião que Sabia de Mais”
Brad Pitt em “O Homem que Mudou o Jogo”
6) Melhor ator coadjuvante
Kenneth Branagh em “Sete Dias com Marilyn”
Jonah Hill em “O Homem que Mudou o Jogo”
Nick Nolte em “Guerreiro”
Christopher Plummer em “Toda Forma de Amor”
Max von Sydow em “Tão Forte e Tão Perto”
7) Melhor atriz
Glenn Close em “Albert Nobbs” (Roadside Attractions)
Viola Davis em “Histórias Cruzadas” (Touchstone)
Rooney Mara em “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
Meryl Streep em “A Dama de Ferro” (The Weinstein Company)
Michelle Williams em “Sete Dias com Marilyn”
8) Melhor atriz coadjuvante
Bérénice Bejo em “O Artista”
Jessica Chastain em “Histórias Cruzadas”
Melissa McCarthy em “Missão Madrinha de Casamento”
Janet McTeer em “Albert Nobbs”
Octavia Spencer em “Histórias Cruzadas”
9) Melhor documentário
“Hell and Back Again”
“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”
“Paradise Lost 3: Purgatory”
“Pina”
“Undefeated”
10) Melhor filme estrangeiro
“Bullhead” (Bélgica)
“Footnote” (Israel)
“In Darkness” (Polônia)
“Monsieur Lazhar” (Canadá)
“A Separação” (Irã)
11) Melhor animação
“Um Gato em Paris”, de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli
“Chico & Rita”, de Fernando Trueba e Javier Mariscal
“Kung Fu Panda 2”, de Jennifer Yuh Nelson
“Gato de Botas”, de Chris Miller
“Rango”, de Gore Verbinski
12) Melhor direção de arte
“O Artista”
“Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2”
“A Invenção de Hugo Cabret” (Dante Ferreti, Francesca Lo Schiavo)
“Meia-Noite em Paris”
“Cavalo de Guerra”
13) Melhor fotografia
“O Artista”
“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret” (Robert Richardson)
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”
14) Melhor figurino
“Anônimo”, de Lisy Christl
“O Artista”, de Mark Bridges
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Sandy Powell
“Jane Eyre”, de Michael O’Connor
“W.E.”, de Arianne Phillips
15) Melhor curta documentário
“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”
“God Is the Bigger Elvis”
“Incident in New Baghdad”
“Saving Face”
“The Tsunami and the Cherry Blossom”
16¨) Melhor montagem
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“O Homem que Mudou o Jogo”
17) Melhor maquiagem
“Albert Nobbs”
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”
“Dama de Ferro”
18) Trilha Sonora
“As Aventuras de Tintim”, de John Williams
“O Artista”, de Ludovic Bource
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Howard Shore
“O Espião que Sabia Demais”, de Alberto Iglesias
“Cavalo de Guerra”, de John Williams
19) Melhor canção
“Man or Muppet”, do “Os Muppets”, música e letra de Bret McKenzie
“Real in Rio”, do filme “Rio”, música de Sergio Mendes e Carlinhos
Brown, letra de Siedah Garrett
20) Efeitos especiais
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Gigantes de Aço”
“Planeta dos Macacos: a Origem”
“Transformers: O Lado Oculto da Lua”
_______________________________________________________________________________
Resumo da premiação
O Artista: filme, direção, ator (Jean Dujardin), figurino, trilha sonora
A Invenção de Hugo Cabret: fotografia, direção de arte, edição de som, mixagem de som, efeitos especiais
Os Descendentes: roteiro adaptado
Histórias Cruzadas: atriz coadj. (Octavia Spencer)
A Dama de Ferro: maquiagem, atriz (Meryl Streep)
Os Homens que não Amavam as Mulheres: montagem
Toda Forma de Amor: ator coadjuvante (Christopher Plummer)
Meia Noite em Paris: roteiro original
Quem ganha o Oscar? O filme francês que homenageia o cinema americano ou o filme americano que homenageia o cinema francês? Claro, sempre pode haver zebra. Mas o mais provável é que um dos dois, ou O Artista (dez indicações) ou A Invenção de Hugo Cabret (11 indicações) leve o Oscar principal na noite de hoje.
Se isso acontecer mesmo, tudo seguirá um script coerente, mas que indica, talvez, a existência de algo mais profundo sob a banalidade da superfície. Qual seria esse ponto comum? Os dois filmes falam, por caminhos e estilos diversos, da mesma coisa. Celebram o cinema, ou pelo menos, um tipo de cinema. E o fato de serem os grandes finalistas talvez aponte para uma crise de identidade nessa arte já mais que centenária. A Academia de Hollywood, uma espécie de termômetro ou inconsciente coletivo do cinema, em sua vertente dominante, pode ter intuído o que esses filmes têm de comum, e os levado até o fim da disputa como os favoritos por representarem suas próprias inquietações enquanto categoria. De comemoração superficial da indústria cinematográfica, o Oscar 2012 arrisca-se a ser, involuntariamente, reflexão sobre a sua arte.
Como se sabe, O Artista se situa no momento preciso da crise aberta pela chegada do cinema falado, entre o final dos anos 1920 e o começo dos anos 1930. Invenção que abre muitas portas e fechou outras. A partir de O Cantor de Jazz (1928), o público acostuma-se com o cinema falado e relega o cinema mudo à obsolescência. Astros, estrelas, diretores, técnicos e produtores são obrigados a se reciclar. É uma revolução. Alguns conseguem fazer a travessia, outros ficam pelo caminho. Um gênio como Charlie Chaplin hesita e posterga, o quanto pode, a entrada no falado. Ao fazê-lo, como num rito de sacrifício, vê-se obrigado a matar sua persona mais famosa e seu alter ego mais querido, Carlitos. É desse tempo em convulsão que fala O Artista, de Michel Hazanavicius.
Não é a primeira vez que o cinema aborda esse período crucial e cruel de sua história. Dois filmes já o fizeram, com brilho: Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, e Cantando na Chuva (1952), da dupla Stanley Donen-Gene Kelly.
Ambos são filmes da crise, porém expressos em tonalidades diferentes. Em seu furioso preto e branco, Wilder aposta na chave mais soturna; em suas cores profusas, música e dança, o de Gene Kelly é luz total. O musical de quem não suporta musicais. Por tudo isso, por certo, fez mais sucesso de público que seu concorrente em preto e branco. Mas, em linguagens opostas, ambos significaram a mesma meditação sobre o cinema em determinado momento.
Ambos, é verdade, se referem à transição do cinema mudo para o falado, mas foram feitos em outro momento crucial, quando a televisão se firmava como a grande geradora moderna de entretenimento e ameaçava, de novo, o cinema. A TV era a promessa de uma tela em cada casa, para cada família, para cada indivíduo. Adeus ao rito coletivo das grandes e luxuosas salas de cinema. Pelo menos era o que se pensava na época.
Se o futuro não foi tão sombrio, é verdade também que o espetáculo cinematográfico nunca foi o mesmo. Progressivamente foi se alterando para se realizar não apenas na sua destinação primeira e “natural”, a grande sala, mas também nas “pequenas salas” individuais, nos lares e, hoje, nas telas dos laptops, dos tablets, dos celulares, dos smartphones. Víamos os grandes astros e estrelas na dimensão de gigantes assustadores e sedutores, tais como aquela deusa vivida por Anita Ekberg que sai do painel de anúncio de leite para tentar o falso puritano em As Tentações do Doutor Antônio, de Federico Fellini. Hoje, podemos vê-los na dimensão de formigas. E conviver com eles no trem, no metrô, no avião, num momento de tédio na sala de espera do dentista. Haverá aura que resista a tanta banalidade e a tanta familiaridade?
Outros cineastas também o fizeram, em épocas mais recentes, a meditação sobre sua arte. Em seu grande momento de crise pessoal, Fellini transforma a inibição em sua maior obra-prima, Oito e Meio (1963), ao fazer do seu alterego Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) o cineasta que não consegue terminar seu projeto e nem dá conta de arrumar sua vida – a não ser projetando a ambos no mundo da fantasia. É o mais belo filme sobre o impasse jamais feito e uma homenagem crítica ao cinema como este nunca recebeu.
Em sua chave mais discreta, François Truffaut faz o seu Oito e Meio em A Noite Americana (1973), fazendo ele próprio o papel do diretor que enfrenta todas as dificuldades, inclusive o estrelismo da atriz principal (Jacqueline Bisset), que ameaça parar a produção ao se envolver com o partner, Jean-Pierre Léaud, alter ego de Truffaut nos seus filmes mais importantes, a partir de Os Incompreendidos (1959), seu longa-metragem de estreia.
Claro, nos dois projetos, havia o desejo manifesto de exorcismo de inibições pessoais e também a vontade de homenagem ao métier que haviam abraçado. Mas também assinalava outra dimensão. Saídos os dois de duas utopias autorais, Fellini do neorrealismo, Truffaut da nouvelle vague, viam-se obrigados a negociar seus desejos e estilos com a figura do produtor, que transforma os sonhos pessoais do artista na realidade econômica da arte. Ambos provaram que essa negociação era possível (pelo menos naquele tempo), embora dolorida e cheia de contradições. Convém não esquecer que um gênio como Fellini terminou tendo dificuldades para viabilizar suas produções. Alguns dos seus projetos não foram feitos, um pecado que a Itália deverá purgar até o fim dos tempos.
O cinema é a última das artes a representar-se a si mesmo. Outra, mais antigas, já o fizeram, e em obras célebres. Na peça dentro da peça, Hamlet faz o rei perceber que sabe tudo sobre o assassinato do pai. O teatro dentro do teatro revela. Ao glosar os romances de cavalaria e, em especial, ao se parodiar, o Quixote inaugura a literatura moderna como referência de si mesma. Ao colocar-se no centro do seu quadro Las Meninas, Diego Velázquez indica uma era em que o artista seria mais central que o soberano. Inicia, em especial, a era da representação, segundo análise de Michel Foucault em seu As Palavras e as Coisas. A era moderna, na qual não se indicam as coisas em si, mas através daquilo que as representam. A era do espelho. Em O Jogo da Amarelinha, Cortázar faz a literatura, autoconsciente, voltar-se contra si mesma no ato de produzir o novo. Como o escorpião, que, para se suicidar, pica a si mesmo, conforme diz na epígrafe.
De certa forma, o cinema, a última das artes, como todas as outras, reencontra-se e repensa seu caminho quando encena a si próprio nas telas. É como se fosse um momento de tomada de consciência, de pausa para respiração no ritmo industrial que o caracteriza e o deforma.
Filho da técnica, o cinema encontrou na indústria seu veículo natural. Mas encontrou também a sua negação potencial como arte. Nascido como entretenimento de feira de variedades, foi renegado pelos próprios pais, os Lumière, que o classificaram como “invenção sem futuro”. Foi preciso um visionário, um ilusionista de profissão, George Méliès, para enxergar no cinema um meio ficcional virtualmente ilimitado, porque capaz de captar o movimento – isto é, o tempo.
E nesse ponto voltamos à Invenção de Hugo Cabret, que aparece como consequência lógica de toda a trajetória de Martin Scorsese. Esse erudito sem par do cinema contemporâneo, conhecedor de sua história e de seus meandros, homem que, da mesma maneira que Truffaut, considerou-se salvo pelo cinema quando talvez pudesse ter se tornado marginal por seu meio social na infância, retorna ao primeiro inventor dessa grande arte. Trata a precariedade engenhosa dos primeiros filmes de Méliès com os requintes tecnológicos de que agora dispõe. Como se quisesse, neste belo e singelo filme, juntar as duas pontas da história do cinema e dizer que, sim, apesar dos pesares, ele tem salvação. Desde que não renegue suas origens.
Talvez não seja mesmo por acaso que os dois maiores concorrentes ao Oscar comentem e celebrem o cinema dos primórdios. Como se fossem tentativas de recuperar alguma coisa desse sopro inicial, do frescor de uma arte que, apesar de tantos progressos técnicos, como o digital e o 3D, dá mostras de cansaço inequívoco quando visto em seu conjunto. Nesse retorno às fontes, há provavelmente um desejo de recuperar energia. Quando o cinema se vê a si mesmo, é sinal de crise. E também de vontade de renascer.
(Caderno 2)
E, assim sendo, vão aí os meus palpites, em negrito, para cada categoria. Façam o seu jogo, se isso os diverte. abs.
Melhor filme
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Tão Forte e Tão perto”
“Histórias Cruzadas”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Meia-Noite em Paris”
“O Homem que Mudou o Jogo”
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”
Melhor direção
“O Artista”, de Michel Hazanavicius
“Os Descendentes”, de Alexander Payne
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen
“A Árvore da Vida”, de Terrence Malick
Roteiro adaptado
“Os Descendentes”, de Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash
“A Invenção de Hugo Cabret”, de John Logan
“Tudo Pelo Poder”, de George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon
““O Homem que Mudou o Jogo”, de Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin
“O espião que Sabia Demais”, de Bridget O’Connor e Peter Straughan
Roteiro original
“O Artista”, de Michel Hazanavicius
“MIssão Madrinha de Casamento”, de Annie Mumolo e Kristen Wiig
“Margin Call – O Dia Antes do Fim”, de Written by J.C. Chandor
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen
“A Separação”, de Asghar Farhadi
Melhor ator
Demián Bichir em “A Better Life”
George Clooney em “Os Descendentes”
Jean Dujardin em “O Artista”
Gary Oldman em “O Espião que Sabia de Mais”
Brad Pitt em “O Homem que Mudou o Jogo”
Melhor ator coadjuvante
Kenneth Branagh em “Sete Dias com Marilyn”
Jonah Hill em “O Homem que Mudou o Jogo”
Nick Nolte em “Guerreiro”
Christopher Plummer em “Toda Forma de Amor”
Max von Sydow em “Tão Forte e Tão Perto”
Melhor atriz
Glenn Close em “Albert Nobbs” (Roadside Attractions)
Viola Davis em “Histórias Cruzadas” (Touchstone)
Rooney Mara em “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
Meryl Streep em “A Dama de Ferro” (The Weinstein Company)
Michelle Williams em “Sete Dias com Marilyn”
Melhor atriz coadjuvante
Bérénice Bejo em “O Artista”
Jessica Chastain em “Histórias Cruzadas”
Melissa McCarthy em “Missão Madrinha de Casamento”
Janet McTeer em “Albert Nobbs”
Octavia Spencer em “Histórias Cruzadas”
Melhor documentário
“Hell and Back Again”
“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”
“Paradise Lost 3: Purgatory”
“Pina”
“Undefeated”
Melhor filme estrangeiro
“Bullhead” (Bélgica)
“Footnote” (Israel)
“In Darkness” (Polônia)
“Monsieur Lazhar” (Canadá)
“A Separação” (Irã)
Melhor animação
“Um Gato em Paris”, de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli
“Chico & Rita”, de Fernando Trueba e Javier Mariscal
“Kung Fu Panda 2”, de Jennifer Yuh Nelson
“Gato de Botas”, de Chris Miller
“Rango”, de Gore Verbinski
Melhor direção de arte
“O Artista”
“Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Meia-Noite em Paris”
“Cavalo de Guerra”
Melhor fotografia
“O Artista”
“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”
Melhor figurino
“Anônimo”, de Lisy Christl
“O Artista”, de Mark Bridges
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Sandy Powell
“Jane Eyre”, de Michael O’Connor
“W.E.”, de Arianne Phillips
Melhor curta documentário
“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”
“God Is the Bigger Elvis”
“Incident in New Baghdad”
“Saving Face”
“The Tsunami and the Cherry Blossom”
Melhor montagem
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“O Homem que Mudou o Jogo”
Melhor maquiagem
“Albert Nobbs”
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”
“Dama de Ferro”
Trilha Sonora
“As Aventuras de Tintim”, de John Williams
“O Artista”, de Ludovic Bource
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Howard Shore
“O Espião que Sabia Demais”, de Alberto Iglesias
“Cavalo de Guerra”, de John Williams
Melhor canção
“Man or Muppet”, do “Os Muppets”, música e letra de Bret McKenzie
“Real in Rio”, do filme “Rio”, música de Sergio Mendes e Carlinhos
Brown, letra de Siedah Garrett
Efeitos especiais
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Gigantes de Aço”
“Planeta dos Macacos: a Origem”
“Transformers: O Lado Oculto da Lua”
Decifrar a vida de Rodolfo Walsh parece mais difícil do que resolver um dos intrincados casos policiais que seu detetive e alter ego Daniel Hernández parecia tirar de letra. No Brasil, já se conhecia de Walsh seu livro mais famoso, Operação Massacre, relato jornalístico da chacina macabra acontecida durante o governo do general Aramburu. Agora, a Editora 34 lança Variações em Vermelho e Outros Casos de Daniel Hernández, revelando sua faceta de escritor de novelas policiais. Hernández, seu detetive e alter ego, exerce a profissão de revisor em uma pequena editora. Usa as qualidades do ofício – minúcia, senso de ordem, fantasia – para desvendar crimes aparentemente inexplicáveis.
A própria vida de Walsh (1927-1977) parece uma história de caminhos que se bifurcam. Filho de imigrantes irlandeses, foi criado em orfanato entre os 10 e os 13 anos depois de a família ter caído na miséria durante a crise econômica argentina (1930-1953). Exerceu vários ofícios, entre os quais o de lavador de pratos e limpador de janelas até se empregar na Editora Hachette, como revisor e, em seguida, graças ao fato de ser bilíngue, como tradutor do inglês. Nesse métier, verteu para o espanhol obras de Raymond Chandler e Ellery Queen, entre outros. Ele próprio passou a escrever nesse gênero e ganhou uma menção honrosa por seu conto Las Tres Noches de Isaías Bloom de um júri que tinha entre seus membros Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.
Tendo pertencido a um grupo de extrema direita na juventude, o Walsh adulto passou para o lado oposto. A repercussão de Operação Massacre, publicado em 1957, cresce a cada reedição e o torna um nome famoso. Em 1959 viaja a Cuba e participa da consolidação da agência Prensa Latina, em companhia de Gabriel García Márquez. Mas é lembrado na ilha dos irmãos Castro não apenas por sua atividade jornalística, mas por haver decifrado uma mensagem que permitiu descobrir os preparativos para a invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Walsh era atento a detalhes e sinais. A dica para a investigação que redundou em Operação Massacre havia sido uma frase simples, solta por alguém durante uma noite, num bar.
De volta à Argentina, Walsh desenvolve intensa atividade literária e jornalística, mas se envolve progressivamente com a política. Em 1973 entra no movimento Montoneros, da esquerda armada peronista. Com a ditadura de 1976, cai na clandestinidade. Menos de um ano depois é metralhado, depois de haver postado uma carta na qual denunciava os crimes do regime militar. É um entre os milhares de “desaparecidos” da ditadura argentina.
Esse é o escritor, de vida agitada e pena fina, que está se redescobrindo.
O volume Variações em Vermelho contém, além do texto-título, mais quatro relatos, além de um pequeno ensaio do próprio Walsh sobre a literatura policial, um posfácio do tradutor Sérgio Molina e uma notícia biográfica do autor.
Nos cinco contos, o detetive informal é o revisor Daniel Hernández, sempre em auxílio do seu amigo, o delegado Jiménez, este um protótipo do senso comum, honesto e até inteligente, mas pouco apto a transpor as fronteiras do pensamento convencional.
O esquema de narrativa é aproximadamente o mesmo em todas as histórias. O relato do crime, sempre um assassinato, o mistério absoluto que o cerca ou, pelo contrário, as evidências que incriminam alguém de maneira demasiado óbvia e, por fim, a reunião em que Daniel desfila sua implacável lógica para uma plateia composta do delegado, dos suspeitos e, claro, do culpado.
Difícil é dizer qual dos contos é o mais interessante. Cada qual apresenta seu encanto particular. No primeiro, A Aventura das Provas de Prelo há, por assim dizer, o nascimento do detetive Daniel Hernández, num ambiente que é o do seu trabalho. De fato, o tradutor e intelectual Raimundo Morel encontra-se na editora Corsário e discute com Daniel as provas de sua última tradução. Volta para a casa e cinco horas depois é encontrado morto. É o primeiro caso de Daniel Hernández em socorro do delegado Jiménez e, nele, o detetive trabalha sobre as próprias provas da tradução para deduzir e chegar às suas conclusões.
O conto Variações em Vermelho traz uma típica situação do gênero – o problema da porta fechada: como alguém, suspeito de um crime, pode ter se fechado por fora e sido encontrado no próprio local do delito? Assassinato à Distância fornece outro enigma: como encontrar um crime e, portanto, um assassino, num caso em que tudo inclina à ideia de suicídio? A Sombra de Um Pássaro tem a elegância de uma solução puramente poética. E nenhum dos relatos supera em concisão, nem em humor, o enxuto Três Portugueses Embaixo de um Guarda-chuva (Sem Contar o Morto).
O prazer dessas narrativas é puramente literário. O leitor atento encontra nelas a sombra de Bustos Domecq, pseudônimo que encobria a coautoria de Jorge Luis Borges e Bioy Casares. Domecq é autor de Seis Problemas para Dom Isidro Parodi, “detetive” que se encontra encerrado num cárcere e, portanto, impossibilitado de empreender qualquer investigação factual. Seus limites são os de sua mente – e esta se mostra suficientemente ampla para decifrar, apenas pela dedução lógica, os mais complicados crimes. É a vitória da inteligência pura, costuma-se dizer. Mesmo com mais mobilidade que Parodi, Daniel Hernández usa apenas as suas “pequenas células cinzentas”, para falar como Hercule Poirot, o personagem célebre de Agatha Christie.
Hernández é personagem da primeira fase da carreira literária de Rodolfo Walsh. Logo ele descobriria que existem fatos avessos à racionalidade, que não podem ser compreendidos apenas pela “inteligência pura”. Em especial se acontecem na então convulsionada América Latina.
(Sabático)
Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry (o mesmo diretor de As Horas, O Leitor e Billy Elliot) é o relato de um trabalho de luto. De um menino e, talvez, de uma nação. Oskar (Thomas Horn) tem pai ideal Thomas (Tom Hanks). Ele brinca com o filho, estimula sua imaginação, trata-o como ser inteligente e é bastante inventivo. Num dia preciso, 11 de setembro de 2001, esse pai sai de cena. Resta a Oskar honrar sua memória seguindo a única pista deixada: uma chave, dentro de um envelope no qual há uma palavra escrita – Black.
A missão autoimposta de Oskar será percorrer os distritos de Nova York atrás dessa pessoa – mas será que a palavra se refere mesmo a alguém com esse nome? Nessa história tão intrigante quando em tese comovente entram também em cena uma mãe meio ausente, Linda (Sandra Bullock) e um personagem insólito (Max von Sydow), que não fala e se comunica apenas através de bilhetes.
O filme, baseado no romance de Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (Rocco) é, de fato, mais um tentativa artística de superar o trauma do atentado às Torres Gêmeas. A questão política é limada de propósito e o que se vê é o efeito sobre uma pessoa comum, uma criança, que não entende bem o que se passou e tenta colocar um pouco de ordem e lógica num mundo que obviamente não as tem.
A estrutura do filme é engenhosa e não cai nos clichês habituais, pelo menos na maior parte do tempo. Pena que, na parte final, Daldry carregue a mão no melodrama, talvez receoso de que as pessoas não tenham se comovido o suficiente com o que viram antes. Bobagem. Sobriedade não faz mal a ninguém. E, por certo, faz um bem danado ao cinema. Mesmo assim, pela boa construção do início e pelas descobertas que o garoto Oskar faz sobre a humanidade à medida que tenta desvendar o seu mistério, o filme vale.
(Caderno 2)
Em seu primeiro trabalho após a série Harry Potter, o ator Daniel Radcliffe, agora aos 22 anos, continua às voltas com o sobrenatural. Em A Mulher de Preto, de James Watkins, baseado no livro de Susan Hill, ele faz o jovem advogado Arthur Kipps, incumbido de um caso difícil. Ele deve tratar dos assuntos pendentes de uma propriedade, abandonada depois que o dono faleceu. O próprio Kipps não se encontra em bom estado. Viúvo, pois a mulher morreu de parto, cria sozinho um filho de três anos de idade, e não encontra grande motivação em viver.
O filme começa nesse tom soturno e assim vai até o fim. É filme de época, em que carruagens convivem com os primeiros automóveis, fotografado em tons escuros e cheio de tipos suspeitos. A morte ronda cada fotograma, ou, pelo menos, essa parece ser a intenção do diretor Watkins. Daí que a missão de Kipps, arriscado de perder o emprego, será das mais espinhosas. A mansão abandonada fica perto de uma localidade litorânea. Ninguém quer hospedar o advogado e muito menos auxiliá-lo em seu trabalho. Kipps só encontra hostilidade e desconfiança. Parece que uma maldição paira sobre o povoado e ela pode ter origem na velha casa que, periodicamente, fica isolada pela maré.
Existe um quesito básico para um filme de terror: criar uma atmosfera assustadora. Como fazê-lo? Inovando ou buscando novas formas? Watkins encontra sua resposta ao apoia-se em tudo o que o gênero já usou e consagrou. Não dá um passo fora do previsto. Mobiliza todas as artimanhas e receitas manjadas. Todas mesmo. Pequeno povoado com gente assustada, casa decrépita e isolada, com cemitério no jardim, pântano fumegante nas proximidades. E, sim, sustos que se escondem atrás de cada porta, rangidos noturnos, fantasmas que aparecem primeiro de maneira dissimulada, depois cada vez mais atrevidos. A reciclagem do mesmo destina-se a produzir medo na plateia, em especial no público teen.
Público que, aliás, tem acorrido em peso às pré-estreias do filme e enchido as salas com gritinhos de medo e sua torcida aflita pelo ex-Harry Potter. Sim, porque A Mulher de Preto, apesar do ar british e, portanto, mais sóbrio que seus congêneres do outro lado do Atlântico, não disfarça a vocação de terror para consumo adolescente, a começar pela escalação do astro inglês para o papel principal.
Falemos dele. Radcliffe “interpreta” como lhe é possível e típico. Ou seja, com ausência habitual de expressão. Precisaria de um pouco mais dessa qualidade para o papel. Afinal, seu personagem é um ser marcado pela dor, pois perdeu a mulher jovem, e de maneira cruel. Mas Kipps é vivido com a abulia característica de Radcliffe. Um alheamento que, até certo ponto, consegue ser aproveitado pela direção ao fazer dele um profissional tão apático que parece prestes a perder o emprego. Depois, quando colocado em situação de perigo e enfrentamento, deveria mudar um pouco a expressão monocórdia. Não consegue.
Seria injusto colocar sobre os ombros de Radcliffe toda a responsabilidade. Grande parte dela repousa sobre a absoluta falta de ambição em mostrar algo diferente do já visto milhares de vezes. É possível até que A Mulher de Preto faça sucesso exatamente por causa dessa redundância. Às vezes o que é alvo de crítica torna-se a maior virtude comercial de um lançamento. Mas, claro, esse tipo de cálculo mercadológico só funciona para quem se contenta com mais do mesmo. Do cinema, espera-se pelo menos algum tipo de inovação, mesmo que pontual, para rejuvenescer velhos gêneros. Senão, para que refazê-los? Se a resposta for, “por dinheiro”, ok. Contra negócios não há argumentos. Mas é só isso.
(Caderno 2)
A Invenção de Hugo Cabret, indicado a 11 categorias ao Oscar mostra um Martin Scorsese ávido por novidades, aos 69 anos de idade. Mas esse filme é também como a consequência lógica do desenvolvimento da sua carreira.
Em termos de novos desafios, este é seu primeiro filme que poderíamos definir como dedicado ao público infanto-juvenil, e também o primeiro em que utiliza a técnica de 3D. Por outro lado, é como se fosse a consequência inevitável de uma vida dedicada ao cinema, à sua história, à preservação de obras ameaçadas, ao culto aos pioneiros.
A história de Hugo Cabret, baseada no livro de Brian Selznick (edição brasileira da SM, 2007) é como um presente oferecido a Scorsese, tantas são as conexões do material literário com a própria experiência de vida e de cinema do diretor.
A esta altura, acho que a maioria das pessoas já conhece os traços gerais da trama, sem mencionar detalhes capazes de estragar o prazer de quem for ver o filme pela primeira vez. Mas, enfim, vamos lá. O garoto que dá título à obra (interpretado por Asa Butterfield) perde o pai e passa a ajudar o tio alcoólatra na manutenção dos relógios de uma estação de trens em Paris. O pai (Jude Law) lhe deixou um autômato avariado que, ao que parece, é capaz de escrever. O desafio de Hugo é consertar o tal robô e receber a mensagem. Para isso, Hugo, que é muito engenhoso e bem dotado para as coisas mecânicas, “pede emprestadas” algumas peças de um velhinho, dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley).
Pronto. O resto é com você, espectador. Prepare-se para ser levado a um mundo fantástico em que mecanismos sofisticados da relojoaria rivalizam, em complexidade, com os sentimentos humanos.
Que o mundo da técnica tem conexões com o universo dos afetos imaginários todo mundo sabe. Daí o fascínio pelos mecanismos dos relógios, que afinal medem o tempo, matéria da qual somos feitos – e desfeitos. Fascínio também pelos autômatos, esses seres construídos à imagem e semelhança do homem, que brinca de ser Deus. O autômato seduz, atrai e assusta. Seu caráter híbrido inquieta. E O Inquietante é a tradução que Paulo César Souza encontra para um texto clássico de Freud, Das Umheimlich, que tem sido traduzido como O Estranho, de maneira geral. O que importa é que Freud cita no texto os Contos Noturnos, de E.T.A. Hoffman, em especial a narrativa O Homem da Areia, no qual figura a boneca mecânica Olímpia, pela qual um jovem se apaixona. O autômato, estranho porque é humano e não é. É mecânico, mas pode parecer real.
Mistério dos autômatos, mistério ainda maior das imagens em movimento, do seu realismo que assustava as pessoas ao verem um trem que parecia avançar sobre elas. O cinema era uma magia, no sentido literal do termo. E Scorsese recorda, é claro, o primeiro homem a ter pressentido no cinema uma grande potencialidade ficcional. Um fabuloso meio de criar histórias, tanto plausíveis quanto perfeitamente imaginárias, isto é, absurdas e, no entanto, ganhando realidade quando projetadas numa tela. Estamos falando de Georges Méliès (1861-1938), o criador do cinema-espetáculo, autor de mais de 500 filmes, entre os quais o clássico Viagem à Lua.
A Invenção de Hugo Cabret é, assim, não apenas uma maravilhosa diversão para o público infanto-juvenil, num 3D que nunca se preocupa em ser exibicionista, mas também uma das mais bonitas homenagens que o cinema já prestou a si mesmo.
Em A Invenção de Hugo Cabret reencontramos Martin Scorsese e sua posição única entre os cineastas. Dos contemporâneos, ele é o que possui a maior erudição. Viu milhares de filmes, estudou-os, sofreu e amou com eles, tentou extrair suas lições técnicas e implicações éticas. Basta assistir a seus dois documentários consagrados ao cinema – um ao cinema norte-americano; outro, ao italiano – para ficarmos convencidos de que Scorsese ama, de fato, a arte que abraçou. Não aquele amor bobo, lacrimoso, pró forma. É um amante que conhece perfeitamente as manhas do seu objeto de desejo e não o ama menos por isso.
Desse modo, não poderia deixar de comemorar, no sentido profundo do termo, o criador de formas e ilusões que foi Méliès. A Invenção de Hugo Cabret é homenagem a outra invenção, aquela que seus próprios criadores, os Irmãos Lumière, haviam chamado de “sem futuro”, e, na verdade, se transformaria na grande arte do século 20. E, talvez, do século 21, mas isso ainda está em aberto.
(Caderno 2)
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