De modo geral o cinema busca o jovem no que ele tem de problemático. Drogas, desorientação, rebeldia, angústia diante da sexualidade, a natural confusão de quem está ingressando na vida adulta.
Romance de formação, de Julia de Simone, tenta um caminho novo. Busca a excelência e a afirmação, ao invés das hesitações tão comuns em certa faixa etária. Mostra, simplesmente, a maneira como quatro jovens procuram se destacar em suas respectivas profissões. Um é um pianista prodígio, que estuda na Alemanha. Outro, um estudante de direito internacional em Harvard. Uma garota cursa literatura em Stanford. E um rapaz de Minas, de família pobre, mudou-se para o Rio, para estudar no IME.
Claro, pode-se dizer que o tom é calibrado de modo a enaltecer um certo empreendedorismo que, se é moda em termos de modelo a ser dotado pela sociedade como um todo (um elogio do self made man), aqui parece apenas preocupado em valorizar o esforço individual desses jovens. Não há proselitismo político, nem arenga liberal sobre as virtudes do esforço de cada um – o que implicaria crítica imediata a qualquer tipo de ação social, com a desculpa de que se alguns conseguem, todos podem chegar lá. O documentário não entra nesse campo minado que costuma virar um fla-flu interminável entre esquerda e direita, uma contenda que, no Brasil, vive permanentemente envenenada.
Não há nada disso e, diga-se o que se quiser, é reconfortante ver pessoas moças que não reclamam, não responsabilizam os outros por seus problemas e não medem esforços para se superar. Sabem o que querem, têm um interesse real em assuntos que não costumam comover gente da sua idade, e vão em frente.
Conclusão: é impossível não simpatizar com eles. Mesmo se, numa leitura mais “social”, pudéssemos lembrar de muita gente que, mesmo tendo as características favoráveis desse quarteto, não gozou da mesma sorte ou obteve as mesmas oportunidades. De qualquer forma, há que reconhecer que todos eles se aferraram às suas chances com muita garra.
Assim, só nos cabe admirar uma jovem como Victoria Saramago, que foi aos Estados Unidos fazer seu doutorado de literatura e hoje é professora e escritora. Ou William Cortopassi que, graduado em química em Minas, veio para o Rio estudar farmacologia. Há um desejo por trás do esforço: o pai morreu de câncer quando ele era adolescente e agora quer pesquisar sobre a doença. Fábio Martino foi menino prodígio e hoje estuda piano na Alemanha e dá concertos. Caetano Altafin estuda em Harvard e está se especializando em direito corporativo.
Nao sabemos muito bem no que irão se tornar e até aonde podem ir. Mas é evidente que são, desde já, protagonistas de histórias de sucesso, orgulho dos pais, amigos e conhecidos. O documentário que os elogia é também construído de maneira muito simples, com entrevistas, mas também os mostrando em seu cotidiano, invariavelmente estudando, perseguindo seus ideais e, nos intervalos, tentando levar vidas normais. Nesse filme,que é um elogio ao esforço, há também lugar para o prazer.
Há muitos anos escrevi uma crônica sobre Nelson Cavaquinho. Nunca mais a vi. Agora, encontrei-a no acervo do jornal. Leia aqui.
Melhor falar pouco desse início meia boca do Campeonato Brasileiro. Duas rodadas, com os paulistas começando muito mal, e agora uma interrupção para as datas Fifa, um espaço para os jogos da seleção brasileira. Não há por que se queixar. Todos nós sempre reivindicamos que os jogos da seleção não trombassem com outros disputados pelos times, em especial aqueles que têm jogadores convocados. Nada mais justo, portanto, que essa pausa.
Será bem aproveitada? O começo não foi mal. Pelo menos vimos um bom primeiro tempo contra a Dinamarca, com três gols, e depois, o relaxamento “natural” no segundo tempo, quando o jogo ficou muito tedioso e a Dinamarca marcou o seu, ainda que impedido. Agora temos pela frente os Estados Unidos, o México e a Argentina. São bons desafios e poderão dar alguma ideia do que poderá fazer a seleção na Olimpíada.
Talvez possa trazer a medalha de ouro, a nova “obsessão” nacional. E por que coloquei obsessão entre aspas? Porque não acredito nela. Acho que é algo que estão tentando nos vender. Eu, pelo menos, e todas (mas todas mesmo) pessoas que me cercam, não estão nem um pouco obcecadas com a medalha olímpica. Se vier, legal. Se for impossível, não é isso que vai mudar o preço do dólar.
Obsessão mesmo, se o termo cabe, é com a Copa do Mundo. Vai ser muito triste se o Brasil realizar a sua segunda copa e não ganhar de novo, como aconteceu em 1950, na famosa catástrofe do Maracanã diante do Uruguai. E quem pode dizer, hoje, que o Brasil é favorito para 2014? Não é. Em termos técnicos, está atrás de, pelo menos, três seleções – Espanha, Alemanha e Holanda. Talvez atrás, até mesmo, do Uruguai, que fez uma bela figura na última copa, enquanto nós tivemos desempenho pífio. E que dizer da Argentina, sempre difícil? E se Messi resolve jogar a mesma coisa que joga pelo Barcelona, o que será de nós?
Enfim, visto de hoje, o nosso destino na próxima copa é mais do que incerto. Daí a importância da Olimpíada. Não tanto trazer o famoso ouro, mas ver até que ponto os nossos jovens podem ir. Porque, com alguns reforços que receberá dos mais velhos, o time olímpico será mesmo a base para 2014. Ou alguém vislumbra outros nomes que não os de Neymar, Pato, PH Ganso, Leandro Damião, Lucas & Cia?
Outro desafio será devolver à seleção o interesse que o torcedor lhe devotava em outras eras. Essa paixão tornou-se exclusiva dos clubes. O torcedor morre por seu clube de coração. Não vejo o mesmo amor pela seleção. Lembro da época em que a seleção era o máximo para todos nós. Não conseguíamos dormir em véspera de jogos de Copa do Mundo, tamanha a tensão. Era uma loucura, uma grande história de amor entre o torcedor e a seleção que, infelizmente, arrefeceu. Nem poderia ser de outra maneira. Depois de décadas vendo seleções que não tinham sequer um jogador do Brasil convocado, depois de vê-la excursionar por todos os países, menos em sua própria terra, era previsível que a baixasse e se tornasse apenas uma vaga simpatia. Conseguiremos reverter essa relação morna durante a Copa e fazê-la entrar de novo em ponto de ebulição? Talvez, mas não tenho certeza.
Na primeira sequência de Adorável Pivellina, uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi), procura por seu cão num jardim. A câmera (na mão) a acompanha. Patti não encontra o cachorro fujão (ele reaparecerá depois), mas acaba por achar uma criança sozinha, num balanço, a garotinha de que fala o título em italiano.
A mãe deixou um bilhete e uma foto, e mulher resolve adotar a pequena Asia (Asia Crippa), apesar da insistência do marido, Walter (Walter Saabel) em entregar o caso à polícia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que tem grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha e a integra à vida da pequena trupe.
O filme embarca logo de saída em um tom documental que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas, afinal, onde está a história?
Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa reside, exatamente, na observação do acontecimento vivido, nessa espécie de simulacro “da vida como ela é”, tão rente ao real quanto seja possível ao cinema. No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que, por acaso, se situa na Itália, mas poderia ser em qualquer lugar, e aqui mesmo, no Brasil.
A situação é universal e, ao mesmo tempo, italianíssima. Tudo se passa nos arredores de Roma, naqueles arrebaldes meio desolados, cheios de edifícios populares e que foram locação favorita de alguns filmes de Pier Paolo Pasolini. A referência a Pasolini, aliás, se amplia num passeio à feia praia de Óstia, onde ele foi assassinado por um garoto de programa, em 1975.
De qualquer forma, é sempre um desafio para o diretor (no caso uma dupla, o austríaco Rainer Frimmel e a italiana Tizza Covi) manter o interesse do espectador num projeto como este.
Eles vencem a aposta com uma série de trunfos nas mãos. Primeiro, a criança é encantadora, de fato. Mas, se sabe, péssimos filmes também são feitos com crianças adoráveis. É que, no caso, os “dotes” da menina Ásia Crippa são utilizados com inteligência pela dupla. Há, também, a espontaneidade dos atores naturais, que fazem os personagens como se interpretassem as próprias vida, o que é bem caso. Em especial, a figura de Patti, com seus cabelos vermelhos e ar protetor de mamma romana. Com diálogos improvisados, o filme adquire frescor notável.
Por fim, introduz-se um elemento de suspense em toda essa situação. Quem será essa mãe, que abandonou a “pivellina” encantadora, ou, pelo menos, a deixou emprestada por algum tempo à outra? Essa pergunta fica implícita, rondando o filme e, embora não formulada de todo, lhe dá um dinamismo psicológico notável. Não conseguimos evitar a pergunta implícita: e com quem ficará a pequena no final?
Palma de Ouro: Amour, de Michael Haneke – com menção aos atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (França)
Grande Prêmio: Reality, do diretor Matteo Garrone (Itália)
Melhor Diretor: Carlos Reygadas, pelo filme Post Tenebras Lux (México)
Melhor Ator: Mads Mikkelsen pela atuação em Jagten (Dinamarca)
Melhor Atriz: Cristina Flutur e Cosmina Straton pelos papéis em Beyond The Hills (Romênia)
Melhor Roteiro: Beyond The Hills, do diretor Cristian Mungiu (Romênia)
Prêmio do Júri: The Angel’s Share, do diretor Ken Loach (Reino Unido)
Câmera de Ouro (melhor filme de diretor estreante): Beast of The Southern Wild, do diretor Benh Zeitlin (EUA)
Melhor curta-metragem: Silent, de L. Rezan Yesilbas (Turquia)
Não estive no festival e obviamente não tenho o que dizer sobre os filmes. A única coisa a registrar é que Na Estrada, de Walter Salles, que despertou tanta expectativa, saiu de mãos abanando.
A Bia Lessa me pediu uma relação dos cem livros que haviam definido a minha formação. A ideia, parece, é para um evento na Rio + 20. Fui escrevendo ao sabor da memória. Claro que devo ter deixado montanhas de fora, ausências das quais vou me arrepender. Não contei os livros. Não sei se são cem, ou mais, ou menos. Não quis indicar um cânone. Apenas citar livros que me são muito queridos, me acompanham vida afora e dizem muito sobre quem sou, ou quem gostaria de ser. Se for útil, dê uma olhada.
Freud. A interpretação dos sonhos
Mal-estar na cultura
Marx. O capital
Manuscritos econômico filosóficos
Nietszche. A genealogia da moral
Assim falou Zaratrusta
Descartes. Discurso do Método
Meditações metafísicas
Sartre. O que é a literatura?
Os caminhos da liberdade
As palavras
André Bazin. Qu’est ce que le cinéma?
Ismail Xavier. Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal, Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome,
Jean-Claude Bernardet. Brasil em tempo de cinema
Cineastas e imagens do povo
Paulo Emílio Salles Gomes. Artigos no Suplemento Literário do Estadão
Cinema: uma Trajetoria no subdesenvolvimento
Albert Camus. A peste
A queda
Platão. Banquete
Oswald de Andrade. João Miramar
Manifesto antropofágico
Mário de Andrade. Macunaíma
Raduan Nassar. Lavoura arcaica
Flaubert. Madame Bovary
Bouvard e Pécuchet
Balzac. As ilusões perdidas
Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas
Primeiras estórias
Sagarana
Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas
Dom casmurro
Roberto Bolaño. Os detetives selvagens
Júlio Cortazar. O jogo da amarelinha
Jorge Luís Borges. Obra completa
Ernesto Sabato. De heróis e de tumbas
Gabriel Garcia Marquez. Cem anos de solidão
Mário Vargas Llosa. Conversa na catedral
Érico Veríssimo. O tempo e o vento
Jorge amado. Dona Flor e seus dois maridos
Os velhos marinheiros
Graciliano Ramos. Angústia
Memórias do cárcere
Hemingway. Contos completos
Por quem dobram os sinos
O sol também se levanta
Faulkner. O som e a fúria
Palmeiras selvagens
Giovanni Papini. palavras e sangue
André Gide. A porta estreita
Louis Ferdinand Céline. Voyage au bout de la nuit
Alberto Moravia. O conformista
William Shakespeare. Hamlet
O rei lear
Miguel de Cervantes. Dom quixote
Novelas extraordinárias
Edgard Allan Poe. O relato de Arthur Gordon Pym
Historias extraordinárias
Hermann Melville. Moby Dick
Bartleby
Maquiavel. O príncipe
Thomas Hobbes. O leviatã
Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa
Observador do escritório
Jacques Lacan. Les écrits
Seminário sobre a ética
Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil
Gilberto Freyre. Casa grande e senzala
James Joyce. Ulisses
Os dublinenses
Antônio Callado. Quarup
Marcel Proust. Em busca do tempo perdido
Michel de Montaigne. Les Essais.
Euclides da Cunha. Os sertões
Dostoievski. Crime e castigo
Os irmãos Karamazov
O idiota
Victor Hugo. Os miseráveis
Stevenson. A ilha do tesouro
Choderlos de Laclos. Ligações perigosas
Theodore Dreiser. Uma tragédia americana
Henry Miller. Trópico de câncer
Kafka. O castelo
A metamorfose
Joseph Conrado. O coração das trevas
Lorde Jim
Eça de Queirós. Os Maias
Thomas Mann. A montanha mágica
Doutor Fausto
Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma
Clarice Lispetor. A paixão segundo G. H.
Leon Tolstoi. Guerra e paz
Eric Hobsbawm. A era dos extremos
Norberto Bobbio. Direita x Esquerda
De senectude
Homero. Odisséia
Plutarco. Vidas paralelas
Petronio. Satyricon
Essential Killing, de Jerzy Skolimovski, com Vincent Gallo. Prisioneiro escapa de um campo de concentração do exercito americano e, em fuga e faminto, atravessa uma implacável paisagem de inverno. O filme se reduz aos seus elementos mínimos, quase sem diálogos. O ator (e diretor americano Vincent Gallo) tem uma atuação primorosa, longe dos seus costumeiros personagens blasés, com cara de mau. Aqui ele é sofrimento puro, submetido apenas à dura necessidade de sobreviver. O paroxismo chega quando ele ataca uma mulher em situação inusitada. Apenas para se alimentar. Seco e despojado.
Adorável Pivellina, de Rainer Frimell e Tizza Covi.
Na primeira seqüência uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi) procura por seu cão.
Acaba põe encontrar uma criança, a garotinha de que fala o título em italiano.
A mãe deixou um bilhete, e mulher resolve criar pequena Asia (Asia Crippa), a criança , apesar da insistência do marido, Walter (Walter SaabeL) em entregar o caso à policia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que têm grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha.
O filme embarca num tom documental, que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas afinal, onde esta a história ? Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa está, exatamente, na observação do vivido.
No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que por acaso se situa na Itália, mas poderia ser aqui mesmo, no Brasil.
Hasta la vista!, de Geoffrey Enthoven, com Tom Audenaert, Isabelle de Hertogh, Gilles De Schrijver.
Apesar do tema e da sinopse fazerem que se tema pelo pior, o filme conduz bem a sua proposta. São três garotos, adolescentes, portanto cheios de hormônios, mas que enfrentam problemas sérios de saúde. Um deles é deficiente visual. Outro, está preso a uma cadeira de rodas. O terceiro sofre de uma doença terminal. Ouvem falar de um prostíbulo na Espanha, onde as profissionais atendem a casos como os deles e resolvem empreender uma viagem até lá. Naturalmente não podem contar com a colaboração de pais e médicos para o projeto. Têm de se virar sozinhos.
O jeito de enfrentar um assunto como esse – tão a feitio para comentários politicamente incorretos – é mesclar, com bastante senso de proporção, tanto o humor como a ternura. E é o que faz o diretor. Sai-se bem.
Flores do oriente, de Zhang Yimou (Playarte), com Christian Bale, Paul Schneider, Ni Ni, Tong Dawei.
A verdade a ser dita é que Zhang Yimou já foi mais incisivo. Basta lembrar o tempo em que fazia filmes como Lanternas Vermelhas ou O Sorgo, que encantavam tanto pelo visual apurado como pela profundidade. Depois que passou a fazer filmes em parceria algo ocorreu. Um decréscimo de densidade. O visual continua tão bom quanto era. Os personagens já nao são os mesmos nem tão bons. A dramaturgia sofre.
Aqui, parte-se de uma situação histórica verdadeira. O chamado Massacre de Nanquim, quando os japoneses invadiram aChina em 1937 e matavam quem encontrassem pela frente. Naquele frente da acao um ocidental Christian Bale que de pilantra e bon vivant, torna-se, de uma hora para outra, um benemérito e um herói .
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