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Luiz Zanin

31.dezembro.2012 16:33:58

Bom 2013!

Gente que eu conheço e gente que eu não conheço passa todo dia por este blog. Deixam comentários, leem ou simplesmente dão uma espiada no que este escriba semeou por aqui.

A todos o meu muito obrigado por mais um ano de companhia e a todos, todos mesmo, os meus votos de um 2013 muito bom.

Que o país melhore e que nós melhoremos com ele. Ou vice-versa.

Até 2013!

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31.dezembro.2012 16:30:18

No

Depois de 15 anos à frente de uma ditadura sangrenta, Augusto Pinochet resolveu submeter-se a um referendo popular para lhe garantir mais oito anos no poder. Pinochet lá estava desde setembro de 1973, quando derrubou o governo socialista de Salvador Allende. Como se sabe, plebiscitos e referendos, feitos sob ditaduras, costumam ser favoráveis a quem detém os cordões do poder. No Chile a história foi outra. É desse fato verídico que trata, sob forma ficcional, este excelente No, de Pablo Larraín.

O filme teve carreira vencedora antes de estrear comercialmente. Ganhou a Quinzena dos Realizadores, em Cannes, faturou o prêmio de público da Mostra de São Paulo e é um dos nove finalistas que disputam as cinco vagas ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Está com tudo.

Vendo-o, compreende-se por quê. Larraín dribla o que poderia ser o monótono relato de bastidor de uma votação. Faz um filme trepidante, cheio de emoção e paixão – nunca deixando de lado o raciocínio e a reflexão política que são esteios fortes do seu cinema. No é o fecho de uma trilogia informal da experiência traumática do
Chile sob o regime militar de Pinochet, que começara com Tony Manero e Post Mortem.

Esse ânimo do filme vem muito da maneira como ele é dirigido, de forma rápida e direta, com um sentido de urgência de todo adequado à época em que os fatos aconteceram, em 1988, com pressão crescente pela redemocratização. Em um filme histórico, captar o momento é tudo. Mas essa energia vem também do ator mexicano Gael García Bernal, que interpreta com fôlego o publicitário René Saavedra, contratado para dirigir a campanha do Não. Fundamental também é o registro em U-Matic, suporte de vídeo utilizado na época pelos telejornais. Dá a impressão de que vemos a História (com agá maiúsculo) sendo desdobrada à nossa frente.

René assume a campanha num momento em que tudo os que os opositores a Pinochet queriam era marcar posição. Não tinham a menor esperança de vencer e havia quem nem quisesse participar para não emprestar credibilidade a um jogo de cartas marcadas. A diferença, com a entrada de René, é que posturas negativistas, ou apenas românticas, são descartadas em favor de um realismo militante. Ao invés do chororô ou da nostalgia, entra uma atitude assertiva, de quem está olhando para o futuro com confiança.

Em suma, René vendia o Não como quem vende um bom produto. Aproveita a estreita margem de manobra concedida pela ditadura para manter a aparência de pleito democrático e consegue jogar no espaço pequeno que lhe é concedido. Com sua energia e bom humor, parece porta-voz de uma visão de mundo francamente republicana. Combate uma ditadura e mostra que, para vencer, às vezes é preciso isolar certo fanatismo fundamentalista de quem tem razão.

No é o tipo de filme que não perde nunca seu suspense, mesmo que o desfecho seja amplamente conhecido. Revisita uma página importante da história chilena e latino-americana, e o faz em ritmo de thriller político como havia muito não se assistia.

 

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A Música segundo Tom Jobim, Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim

Sudoeste, de Eduardo Nunes

Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes

Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat

Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti

Mr. Sganzerla – Signo da Luz, de Joel Pizzini

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Beto Brant

Tropicália, de Marcelo Machado

Febre do Rato, de Claudio Assis

Raul Seixas – O Início, o Meio e o Fim, de Walter Carvalho e Marighella, de Isa Grispum Ferraz

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Habemus Papam, de Nanni Moretti

Mistérios de Lisboa, de Raul Ruiz

Fausto, de Alexander Sokurov

A Separação, de Ashgar Farhadi

Cosmópolis, de David Cronenberg

Um Alguém Apaixonado, de Abbas Kiarostami

Holy Motors, de Leos Carax

O Porto, de Aki Kaurismaki

As Neves do Kilimanjaro, de Robert Guédiguien

No, de Pablo Larraín

 

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27.dezembro.2012 18:06:25

Viúvas

Ninguém pode dizer que a história de Viúvas não seja bem bolada. No longa do argentino Marco Carnevale, a veterana Graciela Borges é Elena, uma cineasta que no momento faz um documentário cujo tema são as várias formas de amor. Uma daquelas banalidades para TV. Está filmando quando lhe chega a má notícia – o marido passou mal e está internado, em estado grave, num hospital. Lá chegando, ela recebe outro choque. O marido foi levado por uma jovem amiga, Adela (Valeria Bertuccelli), que vaga pelos corredores, desconsolada, sem qualquer intenção de disfarçar o desespero. A esta altura, o leitor esperto já terá adivinhado do que se trata.

A novidade de Viúvas é tratar dessa questão delicada com alma aberta e livre de preconceitos. Bem, esta expressão “livre de preconceitos” precisa ser repensada. Ninguém é totalmente isento dessas ideias pré-concebidas que nos plantam na cabeça vida afora. Precisamos fazer esforço (às vezes hercúleo) para matizá-las e, no melhor dos casos, relativizá-las ou até vencê-las. Mas é difícil. Trabalho para uma vida inteira. Ainda mais, como no caso de Viúvas, quando envolve questões como fidelidade, traição, ciúmes e barreiras de gerações.

Dito desta forma, parece é pretensão demais tratar tudo isso num filme. Ainda mais quando Carnevale pretende calibrar seu foco num ponto qualquer entre o drama e a comédia. O que é possível (a chamada comedia all’italiana fez isso o tempo todo ), sem dúvida, mas exige um certo esforço. Talento. E inspiração. Carnevale se socorre de outra referência nesse quesito – Pedro Almodóvar. Bebe em algumas referências de base do espanhol. Por exemplo, através presença da transsexual Justina (Martin Bossi), que trabalha como doméstica de Graciela e dá graça e desfaçatez a um punhado de situações que, de outra forma, poderiam parecer sem sal.

De outro lado, a inspiração almodovariana aponta para uma cumplicidade entre mulheres que é o ponto sempre mais tocante nos filmes do espanhol. E que, muitas vezes, é atingido pela via do absurdo. Situações ilógicas, ou que desafiam a lógica fálica dos machões. Só que é bem difícil atingir esse ponto em que a estranheza parece não apenas razoável como necessária e tocante. Carnevale, através desse expediente, injeta ternura no filme, mas não consegue lhe dar verdadeira grandeza.

No todo, fica uma impressão de superficialidade. Tudo é simpático, enternecedor, às vezes engraçado, mas Viúvas não parece ter aquela característica aderente dos filmes realmente bons, que é de permanecer bom tempo com a gente, às vezes para o resto da vida. Não é o caso.

 

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27.dezembro.2012 18:01:19

O Mineiro e o queijo

“O Mineiro e o Queijo” é um ato de amor do diretor Helvecio Ratton. Mineiríssimo ele próprio, o cineasta documenta essa iguaria brasileira que é o autêntico queixo mineiro. Ao fazê-lo, não deixa de apontar uma contradição inesperada. Fabricado de maneira artesanal em pequenas fazendas do interior de Minas, foi praticamente sitiado em seu estado natal. Após um decreto federal de 2000, estabelecendo normas sanitárias rígidas, o queijo produzido a partir de leite cru, como os tradicionais da Serra da Canastra, do Serro e do Alto Paranaíba, não podem mais ultrapassar as fronteiras de Minas.

Essa limitação provoca prejuízos aos pequenos produtores. Muitos deles dizem que continuam a fabricar o produto por puro amor. Ou porque seus pais e avós o fizerem e eles não querem interromper a cadeia tradicional. Alguns se renderam e passaram apenas a produzir e vender o leite – o que dá menos dor de cabeça e mais lucro. São exceções, em todo caso. A maioria teima em prosseguir. O documentário dá voz a esse pessoal.

E esse é ponto mais positivo de um filme que, se fosse pura denúncia, cairia na chatice. Ratton tem a sensibilidade de conduzir o espectador a um delicioso passeio pelo interior de Minas. As paisagens, o sotaque característico, o bom humor matreiro com que narram suas dificuldades são saborosos como um pão de queijo.

O filme faz um pequeno retrospecto histórico e explica como esse queijo mineiro, que hoje conhecemos, vem de uma tradição de quase 300 anos. Essa maravilha culinária no princípio era apenas uma forma inteligente de conservar o leite. Curado (amadurecido), o queijo durava o suficiente para alimentar os habitantes e tropeiros por semanas, isso num tempo em que refrigeração artificial não passava de sonho.

Esse processo foi sendo depurado por um artesanato que fez da necessidade alimentar uma festa do paladar. E esse sabor é extremamente variado. Como dizem os pequenos fabricantes, cada região tem o seu queijo, com suas características próprias. Um meia cura da Serra da Canastra se distingue com facilidade de outro do Serro. Um dos fabricantes diz: “Me perguntam o segredo. Eu digo que só vindo para a Canastra, senão é impossível fazer um queijo como o nosso.”

Dizem mais: as diferenças de sabor de região para região são explicáveis pelo solo e clima distintos, mas elas também existem, de forma sutil, mesmo nos queijos do mesmo local. Cada fazendinha produz o queijo a seu modo, embora usando receitas ancestrais semelhantes, de modo que um não tem o mesmo gosto do outro. Há coisas ainda mais intrigantes. Dentro de uma mesma fazenda os queijos também diferem, dependendo de quem os manipula. Um casal diz que os quatro filhos são queijeiros; produzem a partir do mesmo leite, com a mesma técnica, no mesmo lugar, com o mesmíssimo instrumental, e cada um deles faz um queijo de personalidade própria. Coisas do artesanato.

 

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25.dezembro.2012 13:06:12

No balanço da bola *

Amigos, no fim de ano, com exceção de alguns campeonatos estrangeiros, a bola para. E, quando a bola para, sobra tempo para pensarmos o futebol de maneira mais geral. Livres das preocupações do dia a dia, das paixões clubísticas, dos destinos da seleção, pensamos em abstrato. Isto é, pensamos melhor.

Por isso, outro dia chamaram minha atenção as palavras de Tostão, ainda refletindo sobre a vitória do Corinthians no Mundial de Clubes. Disse que havia três maneiras de jogar hoje em dia. A do Barcelona, que é um caso único. A dos demais europeus, na qual o Corinthians, em parte, se integraria (e isso explicaria porque venceu o Chelsea). E a dos sul-americanos, nosotros, de tática antiquada e precária técnica.

Bem, estranhei a ausência de menção a qualquer escola brasileira que fosse. Acabou-se, a tal “escola brasileira”? Esse era um ponto que queria discutir com vocês. Não temos mais um jeito brasileiro de jogar? Ele não conta mais na ordem das coisas? Já existiu, ou foi ilusão nossa? Dilui-se na geleia do mundo global? Foi miragem feliz que se desfaz em contato com a realidade? Existiu um dia e, como tudo que existe sobre a Terra, acabou por morrer? Quando o grande cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini falava em “futebol de poesia”, referindo-se justamente à seleção de 1970, elogiava algo que não existia? O historiador Eric Hobsbawm, referindo-se à mesma seleção de 1970 disse que, depois de vê-la jogar, ninguém podia negar ao futebol a condição de grande arte. Estaria falando bobagem? Exagerando? Ou evocando um passado que não volta mais? Dúvidas…

No presente, o Barcelona pratica seu estilo único, que encanta a maioria. Posse de bola, marcação à frente, troca de passes, paciência para abrir espaços e esperar o melhor momento de fazer o gol. Parece, hoje, virtualmente insuperável. Embora perca de vez em quando, como todo time de futebol. Depois vêm os outros times, que alternam a forma de marcação, mas também defendem e atacam trocando passes e sem rifar a bola. E, por fim, o estilo tosco latino-americano, brasileiro em particular, feito de chutões, levantamentos de bola sobre a área, marcação lá atrás. Uma tristeza!

Por coincidência (ou não), li há pouco o excelente livro O Barça – Todos os Segredos do Melhor Time do Mundo (Editora Qualitymark), escrito pelo jornalista italiano Sandro Modeo. O cabra é muito bom. Já havia lido dele um livro sobre o técnico José Mourinho. Modeo sabe do que fala. E usa vários recursos intelectuais e artísticos para entender – e explicar – o fenômeno do futebol. Até física quântica. De acordo com ele, o futebol de ponta praticado no mundo oscila entre o modelo holístico do Barcelona e o flexível proposto por Mourinho. Nada mais. Excluída dessas alternativas, estaria a “galáxia sul-americana”, cujo DNA seria avesso ao “futebol total” adotado no mundo civilizado. Seria o Corinthians de Tite a primeira exceção? Assunto vasto: voltaremos a ele.

Um ótimo Natal a todos.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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23.dezembro.2012 16:29:26

O Impossível

Em O Impossível, de Juan Antonio Bayona, as cenas do tsunami impressionam (embora as do filme de Clint Eastwood, Além da Vida, sejam melhores). Mas, a bem da verdade, elas representam apenas uma pequena parte do filme. O centro da história (que dizem baseada em fatos reais) é sobre uma família de americanos (casal e três filhos), em férias na Tailândia, atingida pelo tsunami de 2004 que devastou o país.

Durante a catástrofe, a família se dispersa. A mãe, Maria (Naomi Watts), se salva de maneira improvável junto com o filho mais velho, Lucas (Tom Holland), mas ela fica muito ferida. Não sabem se o pai, Henry (Ewan McGregor), e os dois garotos mais novos pereceram ou estão vivos. O foco narrativo fica quase o tempo todo sobre a personagem de Naomi e seu filho.

As cenas do pós-acidente natural são tão fortes quanto as das próprias ondas devastando tudo de imprevisto. O país vira o caos e ninguém sabe onde estão seus familiares. São vidas à deriva. E ninguém sabe se suas pessoas próximas continuam vivas, o que é improvável, ou se pereceram sob as águas. O atendimento hospitalar é precário e a experiência de cada sobrevivente transforma-se numa temporada no inferno.

O filme tem cenas bastante duras e seria mais convincente se abolisse a ideia de que deve manipular sentimentos do público. É inútil. A emoção já está lá, garantida por cenas fortes através das quais podemos nos compadecer dos personagens. É redundante, portanto, fortalecê-las com um tipo de música chantagista que, ao invés de reforçar a emoção, faz com que nos sintamos desconfiados dela, com um pé atrás.

Não se trata apenas da overdose musical, embora este seja o sintoma mais notável da fragilidade dramatúrgica de O Impossível. Pelo menos é o sintoma mais audível. Ele faz parte de um tom geral apelativo que acaba por neutralizar o que poderia haver de sentimentos mais autênticos na história. O fato de ser “baseado em fatos reais” não importa tanto no momento em que estamos vendo uma obra de ficção. Se envolvente, ela criará empatia entre o público e os personagens, ainda que estes sejam frutos da pura imaginação do autor.

No mais, o filme é bem feito e bem interpretado. Não fosse tão manipulador e lacrimoso, talvez causasse efeito maior.

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21.dezembro.2012 08:23:59

A Negociação

Neste A Negociação o agora maduro Richard Gere é um milionário investidor, Robert Miller. Precisa vender sua firma por uma quantia altíssima, pois tomou empréstimo alto para um investimento que depois se revelou furado – uma mina de cobre na Rússia. O tempo é o da bolha imobiliária, a crise que produz efeitos na economia global até hoje.

Miller é muito bem casado com Ellen (Susan Sarandon) e sua filha, Brooke (Brit Marling) o ajuda a tocar o negócio. Sessentão, Miller mantém um caso extraconjugal com uma deslumbrante pintora francesa (Laetitia Casta), possessiva e apaixonada. Ou seja, caminha na corda bamba. Mas nunca se pode dizer o quanto as coisas estão mal a não ser quando elas de fato começam a ficar piores. Um acidente de carro vai revolucionar a vida do milionário de uma maneira como ele jamais poderia pensar. E, grande negociador, o fará enfrentar uma negociação para o qual talvez não estivesse preparado.

Filme bem transado, A Negociação, poderia se dizer, fica no “quase”. Por momentos, pensamos que vai desenvolver sua história a ponto de se tornar um grande filme. Como não chega à grandeza, torcemos para que seja ao menos um ótimo filme. Mas nem a esse nível consegue chegar. Alguma espécie de timidez intrínseca parece paralisar o diretor Nicholas Jarecki justamente quando se encontra prestes a fazer alguma coisa diferente com o tema. Por exemplo, entrar nas entranhas do mercado especulativo e ver que tipo de gente se dedica a essa atividade com tanta convicção.

Gere está muito bem no papel, diga-se. E vai até onde o filme lhe permite ir. Não é retratado como um canalha acabado, mas como homem que sabe o que sua profissão impõe. “A vida funciona assim”, diz ele, à guisa de desculpa, para a esposa traída. Aliás, o elenco é o ponto forte da produção. Susan Sarandon comporta-se com a elegância de sempre, mesmo que seu papel passivo não dê chances a grandes voos, a não ser num solo final bastante interessante. Tim Roth faz um policial obstinado, Michael Bryer, que quer pegar Miller de todo jeito. Mesmo usando de expedientes pouco ortodoxos. Enfim, ninguém é muito santo nessa história, a não ser Brooke, colocada de maneira um tanto improvável como alguém que se mete nesse tipo de atividade e não deseja sujar as mãos. Mais que a amante, a filha será o pomo da discórdia na família.

A história toda é bem armada, mas uma anatomia completa desse “funcionamento da vida”, uma fisiologia do capital especulativo e uma taxinomia dos tipos de ser humano envolvido nesse ramo talvez fossem corrosivos demais para os limites que um filme comercial se impõe. Nesse sentido, acaba sendo um tanto decepcionante, embora funcione como boa diversão. Tem ritmo e o elenco não deixa a peteca cair. Tudo muito profissional. Mas onde está a alma?

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Um enorme tigre de Bengala, um menino, ambos em um bote perdido no mar imenso, sol e chuva, fome e medo – e fé. Eis os ingredientes deste incrível As Aventuras de Pi, de Ang Lee, adaptado de um livro de Yann Martel, aqui publicado pela Nova Fronteira. A história é relatada por Pi já na meia-idade (Irrfan Khan) a um jornalista em busca de uma narrativa que o faça acreditar em Deus.

A aventura é a do próprio Pi Patel, filho de um dono de zoológico na Índia. Pi na verdade se chama Piscine Patel, mas prefere ser confundido com a letra grega Pi, aquele número que define a razão entre o perímetro de uma circunferência e seu diâmetro (qualquer estudante conhece o famoso 3,14… etc.). É um número irracional, pode se estender ao infinito e era tido como sagrado na Antiguidade. Assim, o garoto prefere ser associado a um dos mistérios da matemática que à mitológica Piscina Molitor, em Paris, tão admirada por seu pai que o inspirou na escolha do nome do filho.

O fato é que os negócios do zoo vão mal e é preciso tentar vida em outro país. A família embarca num navio rumo ao Canadá, mas ventos e tempestades mudam os projetos humanos. Após uma tempestade, o jovem Pi se verá num bote de salvamento em companhia de uma zebra, um orangotango fêmea, uma hiena e o tal tigre de Bengala que, aliás, tem nome e prenome: chama-se Richard Parker.

Na entrevista, por telefone do México, onde estava lançando seu filme, Ang Lee conta como conheceu essa história, encantou-se por ela, mas, de certa forma, temia filmá-la, pois antevia as dificuldades em transformar o material literário em cinema de estrutura sólida. Optou pelo 3D porque este serviria à fantasia e também porque seria um desafio a mais para este cineasta que vive de enfrentá-los.

O taiwanês Ang Lee de fato encara qualquer tipo de gênero. Tornou-se conhecido com o pequeno filme de costumes Banquete de Casamento (1993). O humanista Comer, Beber, Viver (1994) de certa forma seguia o anterior. Mas em seguida, vamos encontrá-lo adaptando Jane Austen em Razão e Sensibilidade (1995). Em seguida, Tempestade de Gelo (1997), imersão radical no mal-estar norte-americano, para alguns o seu melhor filme e, se não for o melhor, o mais duro e implacável. O Tigre e o Dragão (2000), que lhe dá o Oscar, é sua visita ao mundo das artes marciais. A “volta” ao Ocidente se dá com um inesperado Hulk (2003), mas a grande surpresa estava por vir no trabalho seguinte - O Segredo de Brokeback Mountain, o famoso filme dos caubóis gays que lhe deu o Leão de Ouro em Veneza em 2005. Em 2007, ele se volta para uma trama totalmente oriental,Desejo e Perigo, que, de novo em Veneza, o torna um raro diretor que pode colocar dois Leões de Ouro na estante.

Agora chega com esse estranho arrasa-quarteirão, que é um filme de aventuras, mas também meditação metafísica. Pura diversão, mas que faz pensar. Pensamento, mas que emociona. E diverte. Abaixo, a entrevista que o diretor concedeu ao Estado.

Como você conheceu o livro de Yann Martel e por que se interessou em adaptá-lo para o cinema?

Li o livro dez anos atrás, logo que foi editado. Um amigo meu apresentou o livro a mim e passamos a lê-lo, eu, minha esposa e filhos. Acho o livro muito inspirador e charmoso, também. É uma ótima história, mas que coloca alguns problemas para ser transformado em filme, por ser muito imaginativa. É uma história sobre a ilusão. E como levar a plateia numa viagem desse tipo? De qualquer forma, há alguns anos comecei a pensar que poderia se transformar num filme interessante e acabei por me envolver no projeto após muita hesitação.

Trata-se de um filme de aventuras, mas que vai muito além do limite desse gênero. De alguma forma, a história me lembrou o romance de Edgard Allan Poe, Arthur Gordon Pym. Um naufrágio seguido da luta mais renhida pela sobrevivência, que se transforma numa espécie de iluminação espiritual. Tem algo a ver?

Sem dúvida, a história aponta para outras coisas além da mera aventura. Há algo que de fato lembra a história de Poe, de luta pela sobrevivência, mas com um toque talvez religioso no fim. O problema de adaptação era levar o espectador a uma viagem emocional, sendo que Martel havia escrito uma história filosófica.

Outro aspecto interessante é a duplicidade de versões. Pi conta duas histórias e o espectador deve decidir qual delas é a melhor. Isso já estava no livro?

Na verdade, não. Achei que uma estrutura melhor seria ter dois narradores. O Pi adulto, que narra, recordando o que aconteceu 30 anos antes, e o Pi menino, que vive a sua aventura. Daí que são dois pontos de vista diferentes e que se alternam. E há um terceiro narrador, onisciente, em terceira pessoa. Para um filme que discute a fé, sob vários ângulos, acho que é interessante essa pluralidade de narrativas.

Gostaria que você falasse um pouco sobre a opção da filmagem em 3D. Esse recurso lhe deu melhores condições para contar a história?

Bem, eu creio que é uma maneira mais eficaz de introduzir os espectadores nesse mundo de fantasia que, afinal, é a história do filme. Era um recurso que estava à disposição. E é um filme aquático quase o tempo todo. Acho que o 3D casa muito bem com o mundo aquático, o mar, e todo o mistério que ele encerra.

Gostaria que falasse do elenco. Como foi trabalhar com atores indianos, em especial com Irrfan Khan, que é bastante carismático.

Ele foi o primeiro em que pensei. É um grande ator e bastante carismático. Mas o mais jovem também me impressionou muito, Suraj Sharma. O público acredita nele quando o vê na tela. Seu olhar é expressivo, espiritual. Nós o selecionamos entre mais de 3 mil garotos, que fizeram teste para o papel de Pi. Tivemos sorte de trabalhar com eles, e o encanto do filme se deve muito ao elenco.

Gérard Depardieu faz um pequeno papel na história. Como foi trabalhar com ele?

Acho que ele gostou muito de fazer esse papel do cozinheiro da embarcação. Deu um sabor todo especial a essa participação e enriqueceu muito o filme com ela.

Você venceu em Veneza duas vezes, uma com O Segredo de Brokeback Mountain e com Desejo e Perigo. Dois Leões, para filmes tão diferentes. Como faz para manter seu estilo diante de trabalhos tão diferentes? 

Você não é o primeiro a me fazer essa pergunta. Quando acho uma história atraente, busco a melhor maneira de contá-la. Acho que, por isso, a narrativa muda muito em função do que tenho para contar, do material que se oferece. Sou muito curioso. Acho que fico estimulado por esse tipo de desafio, ter histórias diferentes para contar e fazê-lo também de modo diferente. Acho ótima essa sensação de estar na beira do abismo, de sair da zona de conforto. Espero que minha carreira siga assim, sendo desafiado de filme para filme. Cada filme me ensina alguma coisa, e é assim que encaro a carreira de um diretor de cinema.

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