Apesar do título que remete ao conto de Hemingway, As Neves do Kilimanjaro inspira-se no poema Les Pauvres Gens, de Victor Hugo. Não se trata de adaptação, mas de um ponto de partida para o diretor Robert Guédiguian, conhecido pelo apreço à temática social. Nesse caso, Hugo lhe fornece o mote ideal, pois seu poema fala da solidariedade entre os pobres. Não podendo contar com mais ninguém, são os desassistidos que, com seus poucos recursos correm em socorro dos seus próximos.
E, no entanto, como verá o espectador, o início desse belo e duro filme nada tem da visão romântica de Hugo e indica exatamente o contrário. Como em quase todos os trabalhos de Guédiguian, estamos em Marselha, seu ponto de observação a partir do qual lança seu olhar sobre o mundo globalizado.
E é deste mundo que se trata desde o início, quando vemos alguns personagens num sorteio pouco usual que acontece na zona portuária. Nesse sorteio, feliz é quem não for contemplado, pois os que tiverem seus nomes tirados ao acaso perderão seus empregos. A empresa precisa enxugar seus quadros e exige demissões. Desse modo, o líder sindical Michel, com longo passado em defesa da categoria, entende que a maneira mais justa de escolher os demitidos é fazer o sorteio. Ele inclui seu próprio nome entre os passíveis de demissão, embora não precisasse fazer isso. E, como outros 19 infelizes colegas, tira a “sorte” às avessas.
A partir desse começo, o filme parece que vai se encaminhar para os problemas do desemprego e da inutilidade que sente um homem forçado a permanecer em casa, sem trabalho. Ainda mais alguém como Michel (Jean-Pierre Darroussin), casado com uma mulher cheia de personalidade como Marie-Claire (Ariane Ascaride, mulher do diretor e sua atriz-fetiche). Mas um fato abrupto, um assalto à mão armada, muda toda a perspectiva de Michel, dos seus planos imediatos de futuro, que incluíam uma viagem à África, à fé que deposita em seus colegas de trabalho.
Essa reversão de expectativas é o que o filme de Guédiguian tem de mais interessante. E de mais forte. Quando pensamos que a trama vai se encaminhar para o ramerrão, para a choradeira, à esta altura meio inócua, dos efeitos da globalização sobre a crise dos empregos e a debilitação dos direitos sociais conquistados ao longo do século 20, ele simplesmente nos puxa o tapete. E nos encaminha para uma dimensão que não estávamos preparados para assistir – a discussão a fundo da questão ética. O que pode justificar um crime como o roubo? Será que um antigo militante de esquerda, crítico da ação policial, pode se valer da própria polícia na defesa do seu patrimônio? Não será, como o próprio Michel se pergunta em determinado momento, um insuportável “aburguesamento” de quem no passado lutou contra o sistema?
São perguntas que todas as pessoas com certa consciência social já se fizeram um dia. Em As Neves do Kilimandjaro elas retornam de maneira abrupta, incisiva e cheias de complexidade. Aqui, o cinema político não se limita a fazer denúncias, mas esmiúça, sem piedade, as contradições internas presentes no próprio pensamento da esquerda.
Nem por isso – é bom que se diga – se torna um filme de tese. Um desses chatíssimos exemplares de ideias preconcebidas, cujos personagens são criados apenas para servir de veículo a uma demonstração exemplar. Pelo contrário, Michel, Marie-Claire e outros tipos que convivem com o casal são personagens críveis, cheios de vida, emocionantes em sua contraditória humanidade. Sempre há de se escolher um lado, ao contrário do que prega o cínico relativismo contemporâneo. Mas essa escolha não se dá sem sofrimento e contradições. Cavar um espaço possível da solidariedade nessa maré de individualismo é o desafio proposto por As Neves do Kilimandjaro.
Áporo
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se
Carlos Drummond de Andrade
Numa das sessões anteriores de Las Acacias, um senhor comentou que o diretor havia descoberto uma maneira fácil de fazer um filme: colocar uma câmera e registrar a viagem de dois personagens, sem que nada aconteça.
Pois bem, é exatamente esse não-acontecer que o diretor de Las Acacias, de Pablo Giorgelli, põe para funcionar até fazer dele o seu melhor aliado. Por paradoxo, Las Acacias poderia ser definido como um road movie, um dos gêneros mais movimentados do cinema. Mas trata-se de um filme de estrada peculiar.
A rota que une os dois personagens é entre a fronteira do Paraguai e Buenos Aires. Dois, não, três, porque a mulher que sobe ao caminhão de Ruben (German de Silva), leva um bebê no colo. Depois, mas muito depois mesmo, saberemos que a mulher (Hebe Duarte) se chama Jacinta e a criança, Anahi. O próprio caminhoneiro é, no início, um personagem anônimo, de pouca fala e pouquíssimas gentilezas.
Ao longo do percurso vamos descobrindo, por uma palavra aqui, um gesto ali, uma expressão facial acolá, algo do passado dessas pessoas. Nada discursivo, nada explícito. Frases, gestos e expressões insinuadas, contidas, que, por isso mesmo, produzem o máximo de significado. Assim, se no começo da viagem até mesmo um gole d’água não é digno de ser compartilhado, depois, o simples gesto de jogar fora um cigarro pode passar por ato de solidariedade.
Las Acacias é mais um exemplo de como o cinema argentino – ou pelo menos a parte dele mais visível para nós – é capaz de tirar o máximo do mínimo. Se o cinema “de autor” brasileiro, com raras exceções, deixa-se levar pelo instinto pedagógico e suas reiterações “para que o espectador entenda a mensagem”, o argentino confia numa narrativa mais lacunar e elíptica. Sem que isso, na verdade, represente qualquer dificuldade adicional de comunicação. Pelo contrário: o público ao qual esses filmes são dirigidos, bem diferente daquele que vai em busca de block busters, gosta que lhe respeitem a capacidade de compreensão. Para essa parcela da plateia potencial do cinema, a emoção não é um sentimento a ser buscado a marteladas, com música melosa e frases feitas. Quanto menos explícita estiver, mais pode aflorar – exatamente como acontece nesse sutil As Acácias.
Da mesma forma, não é necessário construir toda a biografia do personagem para que o público entenda a sua “psicologia” ou suas motivações. Do pouco que ficamos sabendo do passado de Ruben, podemos compreender alguma coisa do seu comportamento. O mesmo em relação a Jacinta. E, claro, Anahi será essa presença sem palavras, com seu choro e seu olhar que, sem qualquer pieguice, despertará alguns sentimentos no personagem. Aqui também haveria risco para o derramamento emocional, porque criança, em cinema, já se sabe…Mas Giorgelli providencia para que a presença de Anahi seja cercada até mesmo de um certo suspense em determinados momentos do filme.
Na verdade, Las Acacias é um trabalho bastante simples, em aparência, em que a paisagem monótona serve de contraponto à aparente aridez dos personagens. Sabemos como é difícil despojar uma história dos seus penduricalhos e simplesmente fazê-la render com a presença de personagens fortes, que vão se mostrando aos poucos, e conquistando o público.
Prestando-se atenção ao filme, veremos que, na realidade, acontece muita coisa nele. Muita coisa é dita, por exemplo, sobre as condições do continente, em que trabalhadores passam de um país a outro em busca de melhores meios de sobrevivência. Tudo é dito, nas entrelinhas, sem qualquer discurso, ou queixa. As coisas são como são e, na tela, elas apenas se apresentam como tal, sem qualquer julgamento ou comentário. Esses, se existirem, ficam por conta do espectador. Mas ,antes de tudo, é por essa emoção refinada, desse anti road movie, que esse espectador é conquistado.
(Caderno 2)
Há nas redes sociais uma mal disfarçada satisfação com a notícia do câncer de laringe de Lula. Uma das modalidades do preconceito é sugerir que o ex-presidente se trate no SUS.
Há uma reação, também, de várias pessoas que trataram doenças graves pelo SUS e foram muito bem atendidas pelo serviço público de saúde. O cineasta Carlos Reinchenbach é uma delas.
Enfim, a truculência corre solta, não respeitando sequer a saúde de um semelhante.
Das contrainiciativas, uma me parece a mais interessante. Cortar “amizades” do Facebook ou “seguidores” de twitter que estejam se refestelando com o drama alheio.
Ninguém é obrigado a aguentar preconceito, brutalidade e falta de humanidade. Fora com eles.
Não haveria mesmo melhor jeito de homenagear o centenário de Nino Rota que exibir Amarcord, o clássico memorialístico de Federico Fellini e ponto alto da parceria entre o músico e o cineasta. A projeção será hoje, às 20h, na plateia externa do Auditório Ibirapuera, em noite que, espera-se, seja cheia de estrelas para saudar esses dois gênios do cinema.
Nino, nascido em 1911, foi compositor prolífico, com nome feito na música clássica italiana. Durante mais de 50 anos de atividade, escreveu quartetos, sonatas, óperas, balés e corais. Mas foi mesmo sua atividade como autor de notáveis trilhas sonoras de filmes que lhe deu a fama. Trabalhou com a nata dos diretores de sua época – Luchino Visconti (O Leopardo), Francis Ford Coppola (Chefões 1 e 2), Elio Petri e Mario Monicelli. O trabalho com Fellini o celebrizou. Não apenas pela qualidade das músicas, mas pela duração da parceria.
Músico discreto, Nino Rota não deixou grande legado em termos de entrevistas, textos ou depoimentos sobre si mesmo. Coube ao falastrão Fellini, em seus numerosos encontros com a imprensa e biógrafos, relatar o que era trabalhar com Nino. De acordo com Fellini, Nino era um “outro de mim mesmo, um irmão”. Criavam juntos, numa parceria de trabalho nunca marcada pela rispidez, mas às vezes pela astúcia. Nino era malandro e sabia impor sua visão musical ao diretor, que sabia cheio de idiossincrasias, sem contestá-lo de maneira aberta.
Era assim, segundo a versão de Fellini. “Durante a filmagem, eu usava uma trilha sonora provisória, música tirada de discos. O problema é que depois eu me apegava a essas músicas e queria mantê-las no filme”.
Nino nem se alterava. Concordava com Fellini que o melhor mesmo seria conservar aquelas músicas e que outras melhores não haveria. Ao mesmo tempo que dizia isto, tocava de leve algum tema no piano, como se dedilhasse ao acaso. Fellini ouvia e se interessava: “Mas o que é isso que você está tocando aí?” Nino respondia: “Nada, uma bobagem que me veio agora à cabeça”. Claro que acabava tocando o tema inteiro que já havia composto e este se impunha como a trilha natural para o filme. Adeus às músicas às quais Fellini já se havia se apegado. Estavam esquecidas.
A dupla Fellini-Rota é uma parceria que nasce meio por acaso e desde o primeiro filme-solo de Federico, Abismo de um Sonho, de 1953 (Antes, em 1951, havia feito Mulheres e Luzes, com Alberto Lattuada). Desse modo, resmungando e trapaceando, seguiriam juntos de modo ininterrupto (com exceção do episódio Agência Matrimonial, no filme coletivo O Amor na Cidade) até Ensaio de Orquestra, de 1979, ano da morte de Nino Rota. Fellini ainda faria alguns filmes sem Nino, Cidade das Mulheres, E La Nave Va, Ginger & Fred, Entrevista e a A Voz da Lua.
Mas com Nino fez o melhor, entre as quais as obras-primas A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, A Doce Vida (também apresentado pela Mostra em cópia restaurada), Oito e Meio e o próprio Amarcord.
Jamais saberemos o que teria sido o cinema de Fellini sem a contribuição de Nino Rota. Filme e música se entrelaçam de maneira tão íntima que formam um só corpo – embora seja um prazer sublime ouvir essa música de altíssimo nível em separado. No entanto, é no conjunto filme-música que se exprime aquela cosmovisão libertária felliniana, tão terna quanto irônica. Aquela ideia de que o mundo é um imenso picadeiro, do qual todos nós fazemos parte.
Daí o tom circense imposto à trilha. Ou será que a trilha induzia o filme a esse registro? Pouco importa. Não sabemos o que teria sido do cinema de Federico Fellini sem Nino Rota. O que sabemos é que não seria o mesmo.
Em coletiva, foram anunciados os finalistas, que concorrem aos troféus Bandeira Paulista. Como você sabe, a Mostra é original nesse ponto. O público seleciona seus favoritos através dos votos após as sessões. Estes são submetidos ao júri especializado. Eis os filmes abaixo:
FICÇÃO
“A Casa”, de Zuzana Liová (República Tcheca, Eslováquia)
“Combat Girls”, de David Wnendt (Alemanha)
“Fim de Semana à Beira Mar”, de Pascal Rabaté (França)
“Montevidéu – O Sonho da Copa”, de Dragan Bjelogrlic (Sérvia)
“O Dedo”, de Sergio Teubal (Argentina, México)
“O Futuro”, de Miranda July (Alemanha, Estados Unidos)
“Olhando Espelhos”, de Negar Azarbayjani (Irã)
“Respirar”, de Karl Markovics (Áustria)
“Uma Família a Três”, de Pia Strietman (Alemanha)
“Uma Viagem”, de Nejc Gazvoda (Eslovênia)
“Vida que Segue”, de Geraldine Doignon (Bélgica)
“Vulcão”, de Runar Runarsson (Dinamarca, Islândia)
DOCUMENTÁRIO
“Além do Ícone”, de Hanna Swaka Hamaguchi (EUA)
“A Nave – Uma Viagem com a Jazz Sinfônica de SP”, de Luiz Otavio de Santi (Brasil)
“Batidas, Rimas & Vida: As Viagens de a Tribe Called Quest”, de Michael Rapaport (EUA)
“Calvet”, de Dominic Allan (Reino Unido)
“Halabja – As Crianças Perdidas”, de Akram Hidou (Alemanha)
“Jiro Dreams of Sushi”, de David Gelb (EUA)
“Making Of – Tropa de Elite 2”, de Alexandre Lima (Brasil)
“Marathon Boy”, de Gemma Atwal (Reino Unido, Índia, EUA)
“Sobre o Poder”, de Zaván (Espanha)
“Vai-Vai: 80 Anos nas Ruas”, de Fernando Capuano (Brasil)
É sempre assim, uma ideia parece simples e óbvia, depois que alguém a realiza. E esse descobridor de ovos de Colombo tem sido sempre, nos últimos anos, o genial Eduardo Coutinho. Depois de perceber algo evidente, que histórias reais podem ser interpretadas como ficções, e vice-versa, Coutinho subverteu os caminho do documentário com seu Jogo de Cena. Surge agora com outra dessas descobertas, que, depois de feitas, parecem tão evidentes –a de que as músicas desempenham função importante na memória afetiva das pessoas. Surge assim este soberbo As Canções.
Havia muito Coutinho notara a importância da música na vida das pessoas. Quem não se lembra daquele personagem de Edifício Máster que conclui seu depoimento interpretando My Way, a canção celebrizada por Frank Sinatra? Era tão forte que Coutinho, avesso a apoteoses, evitou terminar o filme com ela. Mas a ideia ficou e ele resolveu circunscrever a sua pesquisa pela intimidade a esse registro musical na biografia de cada um.
Nota-se uma tendência à depuração do quadro escolhido para as conversas. Em Jogo de Cena eram as poltronas vermelhas de um teatro. Agora é apenas uma cadeira negra e sobre fundo negro. A câmera parada, a pessoa e, vez por outra, a voz de Coutinho fazendo as perguntas. As canções e as histórias de vida.
O que as pessoas cantam? De tudo, da bossa nova ao romântico, de Roberto Carlos a Noel Rosa. Talvez nem tenha sido a intenção, mas surge em filigrana toda diversidade desse continente a que chamamos música popular brasileira. Sem qualquer escolha, qualquer conceito ou preconceito, o brasileiro é um povo musical, que convive com a música o tempo todo, ouve, repete, cantarola. Com os amigos ou sozinho, debaixo do chuveiro ou enquanto prepara uma refeição, passa roupa ou lava a louça. A música o acompanha no dia a dia. Torna-se uma amiga, consolo, muleta, hábito psicológico. Mas, mais importante do que tudo, marca os grandes pontos de tensão de uma vida.
Em geral, momentos da vida amorosa. E então surge a música que chamamos de dor de cotovelo para dar expressão àquele momento em que pensamos que o mundo caiu pelo fim do caso de amor. Ou lembramos de uma pessoa querida, que partiu ou já morreu e gostava de determinada música. E a cantamos para trazer de volta a lembrança de quem já foi ou recordar e honrar a memória do morto. É o caso de um rapaz que se lembra da mãe e de uma determinada canção que ela amava e tenderíamos a chamar de brega, mas que leva o rapaz às lágrimas.
Sim, há muita emoção ao longo dessas Canções de Coutinho. Há, sobretudo, emoção, pois a sacada de mestre é essa: a canção funciona como uma espécie de nó em torno do qual as emoções se organizam. São, assim, metáforas de significados múltiplos, pontos vivos na memória afetiva das pessoas.
Há algo que podemos inferir daí. Por exemplo, há as músicas que se adéquam a determinada circunstância. É o caso da canção de dor de cotovelo na história dos abandonados. A música “fala” da sua história. Fala por eles. Mas há também a música que cola a determinada lembrança, por exemplo, no caso do rapaz que perdeu a mãe e chora ao lembrar da música favorita dela. Sempre há também a música que funciona, digamos, como puro significante. Ela estava presente em determinada passagem importante da vida da pessoa e associa-se a ela. Assim, ao cantá-la, a pessoa nem liga para a melodia ou para a letra, mas sim para aquilo que é evocado – é uma ligação quase inconsciente.
Sem querer – ou querendo muito – As Canções nos mergulha nesse complexo afetivo-memorialístico condensado às vezes numa única música. Todos temos uma história musical e uma trilha sonora da nossa existência.
(Caderno 2)
O documentário de Bettina Perut e Iván Osnovikoff parte de uma boa ideia, a de uma anatomia do culto chileno a Augusto Pinochet. É uma perspectiva original, uma vez que existe na opinião pública mundial uma repulsa generalizada ao golpe que depôs Salvador Allende em 1973 e deu início a uma longa e sangrenta ditadura comandada pelo general.
A dupla de documentaristas registra imagens e depoimentos durante a agonia, morte e cerimônia fúnebre de Pinochet para mostrar que até o fim o general teve seus adeptos, seguidores e fanáticos. E, não necessariamente se trata de gente que se poderia classificar de extrema-direita. Por exemplo, uma florista que tem sua banca na Plaza de Armas e vê na redemocratização o início dos seus problemas com a fiscalização. Ou o velho militante que hoje preside uma organização para cultuar a memória do general.
A ideia é boa, mas os problemas do documentário são muitos. Tivessem se limitado a fazer a radiografia nas hostes pinochetistas e o resultado teria sido melhor. Mas, para “ouvir o outro lado”, escolheram algumas pessoas da esquerda totalmente inconvincentes. Em especial um militante, que diz ter estado no Palácio La Moneda no dia do golpe e visto o cadáver de Allende. Ele se veste ora de guerrilheiro cubano, ora de Papai Noel. Tipo folclórico, sem credibilidade para esclarecer a divisão do país.
Além disso, do ponto de vista formal, há um abuso no uso do superclose, com bocas, dentes e línguas se agigantando na tela o tempo todo. Qualquer uso repetido de um recurso desses acaba por anulá-lo.
O resultado é uma ode pinochetista, que aparece no lugar da pretendida radiografia da persistência da direita no país e suas raízes. Talvez tenha sido involuntário. Talvez.
(Caderno 2)
Se alguém for buscar referências cinematográficas para O Palhaço precisará de uma lista do tamanho de um dicionário para listá-las. De Federico Fellini ao cinema marginal, as “amizades” fílmicas de Selton Mello estão todas lá, funcionando como guias, porém não como grilhões. Essas referência s – e isso é o fundamental – aparecem diluídas e integradas a essa obra orgânica. Nota-se um tremendo salto evolutivo do cineasta Selton em relação à sua primeira experiência na direção, Feliz Natal, muito boa, porém talvez atravancada pelos acenos ao cinema dito “de arte”.
Em O Palhaço não há nada disso. Com seu ótimo background de cultura cinematográfica, quando visto, o filme parece feito do nada. Inspira-se na longa tradição mambembe do circo pobre brasileiro, e também universal, com suas figuras emblemáticas. O dono, que é também o palhaço veterano (Paulo José), com seu filho (Selton) em crise de identidade, passando pela equilibrista gostosa, a mulher gorda, a lona rasgada, os veículos caindo aos pedaços. É um protótipo, não um clichê.
O mundo do circo serve também para Selton discutir (possivelmente consigo mesmo) a questão da vocação artística. O estrelato concede muito e também cobra muito. É possível que um astro da TV (este outro circo), mesmo consagrado, fique em dúvida tanto quanto um palhaço iniciante. No fundo, domina a questão: o que se deve fazer nesta vida para sermos felizes? Para que estamos preparados? Devemos seguir nossa vocação, mas o que é uma vocação senão um chamado maior do que nós? E como descobri-la?
Essas perguntas passam nos bastidores (e às vezes em primeiro plano) deste filme de trama simples, visual rebuscado e interpretações inspiradas. A começar pelas de Paulo José e de Selton, mas a se registrar um solo de Moacir Franco, extraordinário como delegado de polícia, e a participação afetiva de Ferrugem.
Há certa melancolia de fundo em O Palhaço, mesclada ao humor, mas qualquer reflexão sobre a vida é assim mesmo. Bonita porém triste. Agricoce.
(Caderno 2)
Silvio Tendler ficou conhecido no Brasil como o cineasta da história recente do País. Em especial por Jango e JK, dois exemplares do documentarismo político, que tiveram muito boa resposta de um público sempre um tanto refratário ao gênero documental.
Com Tancredo, Tendler prossegue no mesmo continuum histórico, pois Juscelino, Jango e Tancredo são personagens cujas trajetórias se entrecruzaram em muitos momentos. Cada qual ficou marcado na consciência imediata histórica por um clichê dominante. JK, o estadista do desenvolvimentismo; João Goulart, o estancieiro com ideias de esquerda incapaz de levá-las adiante, por isso derrubado pelo golpe. E Tancredo?
Bem, Tancredo Neves fica, na consciência nacional machucada pela ditadura muito menos como o conciliador capaz de operar a transição, depois da derrota da emenda Dante de Oliveira (que restabelecia a eleição direta do presidente), que pela agonia de 38 dias, e a morte que impediu a sua posse.
Não por acaso, Tancredo, o filme, começa com as cenas diante do Incor, cujas imediações se transformaram em pátio dos milagres durante a doença do presidente eleito. Esse tom perpassa o filme, que escolhe mais o caminho da emoção que o da reflexão. A trajetória do personagem, reconstruída com material de arquivo e depoimentos de colegas e parentes (o neto Aécio Neves tem papel de destaque) serve bem para forjar uma hagiografia. Presta-se menos à compreensão de um personagem muito rico da História brasileira, que, como todos os outros do seu quilate, comporta nuances e pontos de ambivalência.
Arguto como era, Tancredo Neves talvez se espantasse com o perfil unidimensional que ganhou.
(Caderno 2)
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