O Dia em que Não Nasci começa com uma impressão subliminar. A moça alemã, em escala pelo aeroporto de Buenos Aires, ouve uma canção de ninar entoada por uma jovem mãe. Algo, que não sabe definir, é despertado em sua memória afetiva. E esse indefinível dá início a uma busca, envolvendo mais uma história da época da ditadura militar na Argentina.
O filme de Florian Micoud Cossen busca evitar os facilitários desse quase gênero. Maria (Jessica Schwarz) não fala uma palavra de espanhol e nem aprenderá milagrosamente o idioma para salvar a cara do roteirista. Com essa dificuldade de comunicação, enfrentará os problemas da busca que se propõe em Buenos Aires. Claro, há o expediente do policial charmoso que fala perfeitamente o alemão, mas mesmo esse expediente não compromete a credibilidade da história.
De qualquer forma, será o fato de Maria permanecer no escuro a maior parte do tempo que emprestará ao filme o encanto que tem. Afinal, estamos falando de um tempo de brumas, em que pessoas eram assassinadas e seus filhos adotados por colaboradores do regime sem que ninguém ficasse chocado. Era a ordem natural das coisas.
De modo que a trajetória de Maria será desfazer anos depois essa “ordem natural” e reencontrar-se com um passado que nem ela própria sabia existir. O filme, embora dirigido por um alemão nascido em Tel-Aviv, reflete essa necessidade argentina de saber o passado – conhecê-lo, custe o que custar. Mesmo que o preço seja perder-se na cidade, no sentido literal e no metafórico, como insinua uma das tantas cenas marcantes desse belo filme.
Muito impactante o novo filme de Tata Amaral, Hoje. Reflexão sobre os resíduos deletérios da ditadura na figura de uma ex-miltantante (Denise Fraga), atormentada pelo passado. Na história, Vera (Denise) compra um apartamento novo com um dinheiro que, de certa forma, a deixa com a sensação de culpa perante o passado. A digestão dos anos de chumbo tem sido feita de maneira muito lenta, e tímida, no Brasil. “Hoje” é um filme de exceção. Teremos de falar muito sobre ele.
Na parte dos curtas, a melhor surpresa foi Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas, que exuma, de modo criativo, a história do filme Manhã Cinzenta e do seu diretor Olney São Paulo, que foi preso pela ditadura e morreu de câncer poucos anos depois de solto, com 42 anos de idade. Foi, de longe, o melhor programa da noite. O curta (quase um média, de 25 minutos) é envolvente do ponto de vista formal, mesclando imagens do filme de Olney tomadas em vários suportes com depoimentos sobre o caso. “Fiquei com medo no início da sessão que as pessoas não seguissem a história, mas acho que curtiram bem o filme”, disse Dantas.
De fato, em termos de cinema narrativo, Ser Tão Cinzento representa um risco. Afinal, poucas pessoas conhecem o caso que motivou o diretor a fazê-lo. A história é a seguinte: em 8 de outubro de 1969, um Caravelle foi sequestrado pelo grupo armado MR-8 e desviado para Cuba. Consta que um dos sequestradores teria levado a bordo uma cópia de Manhã Cinzenta, de Olney São Paulo, e promovido uma sessão durante o voo para o grupo de passageiros sequestrados. Como consequência, o cineasta, que não tinha nada a ver com o caso, foi preso e as cópias do filme, apreendidas e destruída.
Olney foi processado e torturado, até ser absolvido em 1972. Do filme, restou apenas uma cópia, escondida uma lata com título trocado na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, no Rio, informou ao Estado o filho do cineasta, Olney São Paulo Filho. É a que existe. Manhã Cinzenta incorpora peças documentais a uma ficção à La Terra em Transe, inclusive com imagens da Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro.
No primeiro dia de competição, o público do Cine Brasília curtiu o documentário As Hiper Mulheres, que já havia sido exibido no Festival de Gramado. Riu muito em certos trechos da projeção e aplaudiu demoradamente no final. Em certo sentido, essa reação é uma surpresa, embora o filme tenha sido bem recebido também em Gramado.
Dirigido por Leonardo Sette, Carlos Fausto e Tukumã Kuikuro, Hiper Mulheres tem por tema um ritual de afirmação feminina nas tribos do Alto Xingu. Mas o filme não entrega seu propósito logo de cara. No início, se sabe apenas que se trata de um ritual de cânticos indígenas, que passa de geração em geração e tem de ser recuperado, justamente por uma índia que se encontra doente. Mais tarde, veremos que o ritual, de cantos belíssimos, se fundamenta na afirmação da sexualidade feminina. É um filme sobre a vida, memória e a transmissão problemática da tradição.
Filme, digamos assim, etnográfico, em geral tem dificuldade com o público, mas, neste caso, os diretores conseguiram dar uma dramaturgia interessante ao ritual mostrado. Do ponto de vista do público, o que conta a seu favor, além da beleza das imagens e da própria narrativa, é o conteúdo sexual embutido no tal ritual, o que o torna muito engraçado. As legendas também ajudam, traduzindo a linguagem indígena em termos coloquiais, o que contribui para aproximar a obra do público. Por fim, a edição é muito inteligente, dando uma dinâmica de ficção a um filme que teria aparência de documentário observacional, embora seja perceptível a encenação dos atores, representando seus próprios papeis. Aliás, Leonardo Sette ganhou o Kikito de montagem em Gramado.
A sexualidade é um tema um tanto proscrito nos filmes sobre índios. Talvez porque prevaleça a imagem inconsciente do bon sauvage, que não deveria ser “conspurcada” pela sexualidade. Na literatura é diferente. No romance Maíra, de Darcy Ribeiro, a sexualidade indígena, vista como tão natural, chama a atenção.
Também em Quarup, de Antonio Callado, há uma espécie de elogio à utopia sexual indígena. Mas, no cinema, esse aspecto é ocultado. As Hiper Mulheres nos devolve esse aspecto reprimido e o faz pelo ponto de vista feminino, o que o torna ainda melhor. Na primeira visão, o filme é impactante. Revisto, parece um tanto redundante em certas passagens.
Zé Dirceu apareceu de sopetão no Seminário Novas Perspectivas para o Cinema Brasileiro, hoje de manhã. Ontem, havia faltado à sua palestra. Dirceu falou uns 10 minutos e recordou sua relação com o cinema, que, segundo ele, vem desde os idos de 1968, quando ele era presidente da UEE (União Nacional dos Estudantes). Lembrou que, naquele ano de greve, a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia transformou-se num fórum de cursos e de debates. E também de projeções de filmes e discussões cinematográficas. Isso tudo eu vi, quando era, na época, do movimento secundarista. Zé Dirceu lembrou também do tempo em que viveu em Cuba, no exílio, e trabalhou no Icaic, o Instituto de Cinema Cubano. Mexia com filmes brasileiros e de outros países e matava a saudade do País. “No exílio, se a gente não trabalhar muito fica louco”, disse. Foi um improviso simples e legal.
A má notícia veio logo em seguida. Cacá Diegues, que seria a atração agora à tarde, não veio. Diz que está doente, segundo me informou uma pessoa da assessoria de imprensa. O interessante é que Cacá e Zé Dirceu estiveram em campos opostos no malfadado debate sobre a Ancinav, projeto que acabou arquivado.
A maior polêmica do Festival de Brasília dissolveu-se por si só, como naquela propaganda de leite em pó, aquele que dissolve sem bater. José Dirceu, bête noire da mídia nacional viria falar no seminário sobre Novas Perpectivas do Cinema Brasileiro, o que rendeu controvérsias em jornais diários, revistas semanais e redes sociais. Alegando que não poderia chegar a tempo, pois estaria com Lula em Paris, Dirceu não apareceu. Deixou a cadeira vazia, fotógrafos e cinegrafistas na mão com pautas não cumpridas, e toda uma plateia (pró e contra) frustrada. À noite, Dirceu lança seu livro de memórias aqui mesmo em Brasília. Não há de faltar.
Em compensação, para quem julgava que o encontro seria morno com a ausência de Dirceu, Luiz Carlos Barreto, o famoso Barretão, disparou: segundo ele, há muitos cineastas individualistas, que só pensam em seus projetos pessoais e nunca no cinema brasileiro em seu conjunto. Dizendo que, como nordestino (é de Sobral, no Ceará), costuma matar a cobra e mostrar o pau, declinou a quem se referia: “Meus queridos Fernando Meirelles e Walter Salles jamais puseram seu prestígio e talento a serviço do projeto do cinema brasileiro. Pensam apenas em seus filmes. “
O público de Brasília curtiu o documentário As Hiper Mulheres, que já havia sido exibido no Festival de Gramado.
Filme, digamos, etnográfico, tem dificuldade com o público, mas, neste caso, os diretores conseguiram dar uma dramaturgia interessante ao ritual mostrado. O que conta, além da beleza das imagens e da própria narrativa, é o conteúdo sexual embutido no tal ritual, o que o torna muito engraçado.
É um tema, que eu saiba, um tanto proscrito nos filmes sobre índios. Talvez porque prevaleça a imagem inconsciente do bon sauvage, que não deveria ser conspurcada pela sexualidade. Não sei. Me lembro da leitura do romance Mayra, de Darcy Ribeiro, no qual era a sexualidade indígena, vista como tão natural, que chamava a atenção. Se não me engano, há algo disso também em Quarup, de Antonio Callado. Mas, no cinema, é menos. De qualquer forma, uma boa sessão. Para falar a verdade, revisto, o filme perde um pouco em surpresa e se torna algo redundante.
Na parte dos curtas. Os de animação foram Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, que venceu Gramado; e o ultra sintético Bom Tempo, com um minuto e meio de duração. O primeiro se deixa embalar pela poética de Lupicínio Rodrigues, num estético espedaçamento do corpo amoroso. Interessante.
Ser Tão Cinzento exuma, de modo criativo, a história do filme Manhã Cinzenta e do seu diretor Olney São Paulo, que foi preso pela ditadura e morreu de câncer poucos anos depois, com 42 anos de idade. Foi, de longe, o melhor programa da noite.
Já A Fábrica investe no realismo para mostrar como a mãe de um preso consegue introduzir um celular na prisão para dá-lo ao filho. Há uma virada improvável no fim da história, que põe um bom trabalho a perder.
Foi isso. Apesar das repetições, um bom começo, vai.
Daqui pouco estamos indo para o Cine Brasília para a primeira noite da mostra competitiva. O primeiro longa concorrente é As Hipermulheres, um belo filme de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro. Já vimos em Gramado. Dos curtas também já vi Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo. Além dele, há Bom Tempo e A Fábrica. Minha curiosidade maior é em relação a Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas, sobre o cineasta Olney São Paulo, diretor de Manhã Cinzenta. Esse filme de Olney ficou famoso ao ser projetado num avião sequestrado em 1969. A história é boa demais. Vamos ver o filme.
Amigos, claro que posso estar enganado, mas dois times me impressionaram nesta última rodada e acho que ambos têm cheiro e pedigree de campeão. Refiro-me, claro, a Vasco da Gama e São Paulo.
Ambos protagonizam, por caminhos diferentes, os jogos mais eletrizantes da rodada. O Vasco fez uma exibição sinfônica sobre o pobre Cruzeiro e o solista desse concerto foi Diego Souza, com três gols, um mais bonito do que o outro, o terceiro simplesmente de placa. Já no São Paulo, o que me impressionou foi a entrega, a disposição de buscar um resultado melhor depois de estar perdendo por dois de diferença, e no campo do adversário ainda por cima. Se Rivaldo tivesse acertado aquele toque por cobertura, e proporcionado a virada ao seu time, o jogo entraria para a épica do Morumbi. Mesmo o empate foi notável.
Os dois times, Vasco e São Paulo, mostraram categoria, recursos e, acima de tudo, alma – que é o que decide um jogo ou um campeonato. Não estou dizendo que basta ter alma para que um agrupamento de cabeças de bagre se torne campeão. Mas é preciso ter alma para que um bom time se erga acima de suas possibilidades e chegue ao título. Vasco e São Paulo insinuaram, nessa rodada, que têm essa característica. Se mantiverem a chama, acho que vão levar a disputa pelo título brasileiro de 2011 palmo a palmo, até o final.
Digo isso embora o Corinthians esteja em segundo lugar, um ponto acima do São Paulo e dois atrás do Vasco. Mas, sinto, não vejo no Corinthians a mesma disposição, o mesmo estado de ânimo férreo que pode conduzir ao título. Friamente falando, é claro que está no páreo, mas o time de Tite me parece burocrático demais para um verdadeiro campeão. Enfim, daí a importância do jogo de domingo próximo entre o Timão e o Vasco, em São Januário. A partida tem ar de decisão – uma das tantas decisões de que é tecido um campeonato por pontos corridos.
Se vencer, ou mesmo empatar, o Corinthians pode botar um pouco de água na fervura vascaína. Mas, se o Vasco vencer, abre vantagem considerável. E, quando digo vantagem, não me refiro apenas à pontuação, mas à força moral que exibiria diante dos concorrentes diretos. É jogo para não se perder de jeito nenhum.
De qualquer forma, no seu jeito marcha lenta, o Corinthians, com a sofrida vitória sobre o Bahia, se mantém no páreo. O próximo jogo será decisivo para avaliar melhor suas pretensões.
E, falando nisso, o que dizer das pretensões dos outros paulistas? Bem, o Santos mostrou, sábado contra o Figueirense, uma quase total incapacidade de criação. Colegas têm falado na dependência de Neymar. Claro, mas convém lembrar que o time também não tinha Ganso e nem Elano. Ninguém para criar. Limitou-se a chutões, ligações diretas e chuveirinhos – provas definitivas da insuficiência de criatividade. Muricy diz que não jogou a toalha. Parece cada vez mais óbvio que não conta mais com o título, mas precisa manter a motivação do time em velocidade de cruzeiro para não ser pego na pasmaceira quando tiver de jogar o Mundial no Japão em dezembro. Foi o que aconteceu com o Internacional de Porto Alegre no ano passado, com o desfecho que conhecemos.
E quanto ao Palmeiras? Pode-se perguntar como um time pode tomar um empate diante de um adversário com dois jogadores a menos. O Palestra realizou a façanha. Quando terminou o jogo, fiquei ligado na TV esperando a coletiva de Luis Felipe Scolari. E Felipão não decepcionou. Quando alguém lhe perguntou o que faltava ao Palmeiras, respondeu que talvez faltasse um bom técnico. Ironias à parte, a frase talvez revele o mal-estar existente no clube. O Palmeiras parece minado pelas disputas internas. Por isso a equipe mostra-se sem fôlego em campo. O time é apenas sintoma de um mal maior.
BRASÍLIA. Aplausos para mestre Vladimir Carvalho por seu Rock Brasília – a Era de Ouro, ontem no Teatro Nacional. Vaias para a ministra Ana de Hollanda que, pelo jeito, continua com a popularidade em dia. E longos discursos políticos, em especial na boca do apresentador José de Abreu. Teve de tudo um pouco na abertura ontem do 44º Festival de Brasília ontem à noite num superlotado Teatro Nacional.
O festival começa com um filme premiado em Paulínia, tem seus primeiros competidores com ar de coisa já vista (As Hipermulheres, Trabalhar Cansa,) e só na quinta-feira apresenta o primeiro inédito, Hoje, de Tata Amaral.
Além disso, entidades locais como a ABCV (Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo) estão em briga com o festival e o cineasta Adirley Queirós retirou seu longa A Cidade É uma Só? da Mostra Primeiros Filmes.
A coisa está quente no Planalto.
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