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Luiz Zanin

30.junho.2011 08:29:11

Maria Stuart, de John Ford

Talvez em Mary Stuart, Katherine Hepburn tenha o grande papel de sua vida. Ela é nada menos que estupenda ao interpretar a trágica rainha da Escócia que renega o grande amor de sua vida para manter o poder. Mesmo assim o perde assim, como perde a vida no confronto com a rainha da Inglaterra, Elizabeth. Katherine, que durante a filmagem mantinha um caso com o diretor John Ford, dá mostras aqui de uma entrega completa ao papel. Esse é um dos pontos altos do filme.

O outro, o absoluto equilíbrio com que Ford conduz a trágica intriga palaciana. Como estamos aqui longe do universo em geral associado ao diretor – o do western – poderia haver o temor de certo ranço, muitas vezes presente no filme histórico transformado em museu de imagens. Nada disso. O rigor dos planos, o despojamento dos meios e a concentração com que Ford distribui os elementos visuais fazem de Mary Stuart uma grande experiência cinematográfica. Ford não faz um museu da história; faz com que ela renasça, com todo o frescor diante dos nossos olhos.

Katherine, mais uma vez, é responsável por essa sensação de vida. Em especial quando surge, de volta à Escócia depois de haver passado 30 anos na França. Numa corte formada por conspiradores, em dois ou três diálogos, ela consegue distinguir quem são seus inimigos e aliados. Quem poderá lhe valer na hora da dificuldade e quem está apenas bajulando e trocará de barco na primeira tempestade. A arte de Ford consiste em apresentar a complexa disputa pelo poder sem qualquer firula discursiva. Com poucas frases e um trabalho sábio na composição das imagens, ele nos traz para dentro dessa guerra travada à distância entre as duas mulheres. Como o próprio Ford dizia, rabugento, ele era um homem do cinema mudo. Homem de poucas palavras. Habituado a resolver suas dificuldades de expressão contando apenas com a força das imagens, sem a muleta do verbo. Quando o sonoro chegou, John Ford estava pronto para enfrentá-lo, sem baratear sua forma de expressão. Isso é o que o faz grande.

De modo que somos conduzidos pelo drama de Mary Stuart através dessa forma suntuosa em que Ford o inscreve. Mary é toda poderosa quando aparece em primeiro plano ao chegar e sentar-se ao trono; é pequena quando renuncia ao Conde Bothwell (Frederic March) e sai por uma porta que parece engoli-la. É enorme quando os olhos de Katherine brilham e enfrentam os juízes, colocados num plano superior. Depois se fragiliza ao saber da morte do amado e ao consentir sentar-se na cadeira – ela que encarara em pé seus algozes. Por fim, é grandiosa no momento terrível do cadafalso.

O drama de Mary Stuart poderia ser descrito como o da intermitência do poder, sua oscilação, que se expressa no corpo da rainha.

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Recebo, com alegria, a notícia de que Meia Noite em Paris, o mais recente filme de Woody Allen, está indo muito bem de bilheteria. De acordo com a assessoria de imprensa, o filme aumentou em 12% seu público em relação à semana anterior, quando o que se espera é queda de uma semana para outra.

Ou seja: mais pessoas estão descobrindo o filme e o boca a boca está funcionando. As pessoas veem e recomendam aos amigos. Com isso, forma-se um círculo virtuoso. Quando isso acontece com uma obra de inteligência há motivos para comemorar. Nem tudo está perdido, como sustentam os apocalíticos.

Nesse ponto, me lembro de Ariano Suassuna. Ele costuma dizer que o cachorro tem a má fama de gostar só de osso. “Ofereçam ao cachorro um filé mignon e vão ver se ele não prefere a carne!”, diz o mestre.

Verdade. Quando você só oferece porcaria ao público, não deve se surpreender com o seu (mau) gosto. Se o biscoito fino for ofertado com competência, ele também terá seus consumidores.

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No domingo, torcedores do River Plate transformaram Buenos Aires em inferno depois que seu time caiu para a 2ª divisão. Vocês devem ter visto. O River precisava ganhar do Belgrano por pelo menos 2 a 0 para evitar a queda, a primeira em sua veneranda história de 110 anos. Empatou em 1 a 1. Metade da Argentina ficou de luto. A outra metade, ou quase, a do Boca Juniors, deve ter ficado em festa. É assim. A dor não espanta ninguém. A explosão de fúria, sim.

Foi lá, poderia ter sido aqui. Poderia se dar em qualquer lugar do mundo onde o futebol é mais que um jogo ou um entretenimento. As comemorações da conquista do Barcelona na Liga dos Campeões causaram transtornos na capital da Catalunha. Por aqui, já vimos, por exemplo, como a torcida do Corinthians reagiu mal à desclassificação da Libertadores diante do mesmo River Plate, no Pacaembu. A torcida do Santos ficou em fúria na Vila Belmiro quando o time perdeu do Corinthians num daqueles jogos repetidos do malfadado Campeonato Brasileiro de 2005. A do Coritiba saiu quebrando tudo quando o Coxa desceu. Exemplos se multiplicam. São fatos deploráveis, claro, que infelizmente fazem parte do mundo do futebol.

Atitudes como essas não são, como dizem colegas mais apressados, fruto dos tempos modernos. Nesse nosso tempo de desencanto, sem grandes causas coletivas, as multidões encontrariam no futebol válvula de escape para instintos tribais. A tese é atraente. No entanto, encontramos registros de distúrbios e pancadarias no mais longínquo passado futebolístico. O escritor Lima Barreto era um dos que deploravam o futebol por causa da rivalidade que despertava. Via nele não fator de identificação nacional, como alguns anteviam, mas traço de desunião entre estados rivais como São Paulo e Rio de Janeiro. Tinha esperança de que o futebol, ainda novidade em seu tempo, não passasse de moda passageira. Pobre Lima.

Não é só. Fazendo pesquisa para um livro sobre futebol e cinema, descobri a notícia de um filme de 1921 que registrava tremenda pancadaria no Parque Antártica por ocasião de um jogo. De acordo com o registro jornalístico “Os torcedores do Paulistano e do Palestra Itália foram presos por delírios nervosos, onde é cinematografada uma rixa entre senhoritas”. Até as senhoritas, veja você.

Não precisava ser assim. Todos nós já assistimos, também, a reações magníficas por parte de torcedores frustrados. A própria torcida do Corinthians, louca de dor, começou a apoiar o time no mesmo momento em que ele caía para a Segunda Divisão. O mesmo para a torcida do Atlético Mineiro que, ao final da partida em que o time caiu, cercou o ônibus, não para hostilizar jogadores, mas para cantar o hino do clube e dizer a eles que estavam solidários na mesma dor. Haviam caído juntos e juntos haveriam de subir.

A paixão clubística pode se manifestar de diferentes formas. Em seus extremos, pode ser amor incondicional ou ódio irracional. Duas faces da mesma moeda, pois assim é o homem. O anjo e o demônio habitam em nós. Haverá meios de controlar esse radicalismo da paixão sem por isso extingui-lo e, com isso, neutralizar a força propulsora que faz o futebol ser o que é? Essa é a questão.

Qual Santos? Durante a semana muita gente se divertiu em imaginar o que poderia dar Santos x Barcelona numa partida do Mundial Interclubes. Pergunto: qual Santos? Qualquer um de nós pode dar a escalação do Barcelona para esse jogo de dezembro com margem mínima de erro. Mas como saber qual time o Santos mandaria a campo no Japão? Contará ainda com Ganso e Neymar ou já terão saído para a Europa? Terá ainda Elano, Arouca, Danilo, Rafael, etc. ? Essa incerteza quanto à manutenção dos melhores times é a entropia maior do futebol brasileiro.



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Estava chegando ao jornal quando recebi a notícia da morte de Gustavo Dahl. Redigi rapidamente uma matéria para o Caderno 2, mas adianto algo aqui no blog. Pela notícia, Dahl morreu em Trancoso, na Bahia, de enfarte fulminante. Tinha 73 anos e era gerente do CTAV, do MinC.

Dahl vivia há muito tempo imerso na política cinematográfica. Foi gerente comercial da Embrafilme, na época da presidência de Roberto Farias e ocupou vários outros cargos, inclusive a presidência da Ancine, assim que a agência foi criada. Estava agora no CTAV e teve a iniciativa de reviver a Revista Filme Cultura, importante forum de reflexão do pensamento cinematográfico brasileiro de certa época. No último número da nova fase da revista escreveu um artigo muito bonito sobre o crítico do Estadão, Rubem Biáfora.

Seus três longas merecem revisão: O Bravo Guerreiro, Uirá e Tensão no Rio. Faz uns dois ou três anos revi O Bravo Guerreiro e achei-o interessante. Claro, é aquela estética que muita gente pode considerar datada, mas que tem a sua força. Participei de um debate no MIS sobre esse filme com Claudio Weber Abramo, que atacou-o impiedosamente. Uirá e Tensão no Rio precisam ser revistos. Uirá me pareceu muito belo quando o vi pela primeira vez. Resistirá a uma releitura? Não sei.

Conversei diversas vezes com Gustavo e mantínhamos relação cordial. Acho que o vi pela última vez no Festival de Recife (Cine PE) deste ano. Mas desta vez não nos falamos. Eu estava indo apressado para alguma parte e ele, pegando um elevador. Pensei: fica para a próxima vez. Não vai ficar.

Uma vez fiz uma matéria com ele, sobre o projeto de um documentário que ele queria dirigir sobre o cinema latino-americano. Acho que não saiu do papel. Mas talvez tenha deixado um roteiro. Nunca mais ouvi falar no assunto.

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Em Potiche, de François Ozon, Catherine Deneuve é a mulher bibelô. Pelo menos no início da história. Muito bem casada com o industrial Robert, vivido por Fabrice Luchini, Suzanne, sua personagem, faz parte da decoração do lar. É o ponto inicial dessa comédia que, como as boas obras do gênero, não se limita apenas a fazer rir. O riso é salutar. O riso é crítico. E o riso de alto nível é cáustico e esclarecedor. Temos alguma coisa dessa natureza iluminista neste filme que concorreu ano passado no Festival de Veneza.

Transformada de uma hora para outra em presidente de uma fábrica de guarda-chuvas, Suzanne encontra uma vocação até então insuspeita para o comando. Para compor o quadro da comédia, entra em cena também Gérard Depardieu como Babin, político comunista (inspirado em Georges Marchais, dirigente histórico do PC francês) com fraco por mulheres burguesas.

A primeira coisa a ser dita sobre o filme é a facilidade com que Catherine Deneuve se entrega à comédia. Grande atriz, exibe timing para o humor, o que nem sempre é óbvio. Está muito engraçada, e, especialmente quando contracena com Depardieu. Formam um duo afinado, de dar gosto. Dois veteranos, de alta estirpe, agora entregues a papéis em aparência mais ligeiros, e sob a direção de um cineasta jovem.

Outro ponto a destacar é justamente sobre a trajetória de Ozon. Cineasta invulgar. Talvez não tenha feito nenhuma obra-prima, mas seus filmes são sempre interessantes. E variados tanto do ponto de vista da temática como da estética. Suspense psicológico em Sob a Areia, noir em Swimming Pool, musical em 8 Mulheres, fantástico em Ricky. E agora uma comédia. Mas não uma comédia sem consequências. Existem algumas sutilezas na maneira como é construída.

Por exemplo, no visual quase naïf, que remete à época em que se ambienta – anos 1970, num lugar bucólico do norte da França, Sainte Gudule. Tudo parece colorido demais, os traços nítidos em excesso, como se os personagens existissem numa espécie de conto de fadas, ou numa fábula moral de apenas uma dimensão. Algo, no entanto, destoa, e torna mais complexa essa imagem chapada, como se lhe adicionasse os matizes insuspeitados logo de início.

Baseada numa peça de teatro de Barillet e Grédy, Potiche fala da condição feminina. Numa época, 1977, quando os movimentos feministas eram muito atuantes. Mas fala também do presente francês, quando Nicolas Sarkozy tornava-se impopular e os franceses talvez lamentassem a não eleição da candidata socialista Ségolène Royal. No entanto, Deneuve conta que, para compor a personagem de Suzanne, inspirou-se muito mais em Elizabeth Guigou, que foi ministra da Justiça durante o governo socialista de Lionel Jospin.

Potiche celebra o poder feminino – algo com o qual vamos nos acostumando, meio aos trancos, aqui mesmo, no Brasil.



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Top Models – Um Conto de Fadas Brasileiro, de Richard Luiz, passa perto de ser um filme bem-sucedido. A proposta de base é muito boa: entrevistar algumas das mais famosas modelos brasileiras e ouvir o que têm a dizer sobre a profissão. Na verdade, são convidadas a falar sobre a vida, o que resulta curioso pois se trata de métier incomum e, portanto, de biografias originais.

Elas começam meninas, enfrentam concorrência voraz, mudam-se cedo para o exterior, ganham muito dinheiro quando bem-sucedidas, enfrentam problemas com a balança e sabem que a carreira é curta. No fundo, têm trajetórias muito semelhantes às dos jogadores de futebol. Com a diferença de que são muito mais bonitas, para ficar apenas no campo das distinções óbvias. Ou alguém tem dúvida disso ao ver na tela Giselle Bündchen, Shirley Mallman, Carol Trentini, Isabeli Fontana e Raquel Zimmerman, entre outras?

Com um time desses, o filme procura ser mais expositivo que investigativo. Uma narradora em off, Alice Braga, apresenta-se como repórter. Diz que tem de ir atrás de histórias nunca antes contadas. E que, se já contadas, precisa encontrar meio de narrá-las de modo original. Talvez por isso fiquemos esperando por alguma coisa que o filme não nos entregará na ponta do balcão.

A estratégia é entrevistar o maior número possível de modelos e de outras pessoas envolvidas no mundo da moda: figurinistas, fotógrafos, maquiadores, etc. Enfim, todos os que compõem o circo fashion. Necessário dizer que não existe qualquer conotação pejorativa no emprego da palavra “circo”. Assim como não há quando se fala de circo da Fórmula 1, do futebol, do cinema, etc. Mas seria preciso uma alma de Fellini para flagrar a essência desse mundo.

Em Top Models, ouve-se muito as pessoas. Talvez fosse mais produtivo observá-las melhor. Ao falar, as pessoas podem se defender mais facilmente do que quando agem ou interpretam seus papéis sociais e profissionais. Palavras revelam e escondem. Assim, não se consegue evitar que as modelos falem mais platitudes ou obviedades do que seria desejável. Claro, pode-se objetar que mesmo banalidades podem dizer muito sobre a pessoa que as enuncia. Mas também é fato que muitos aspectos importantes são deixados de lado, ou tocados de raspão. Por exemplo, uma das moças, morena, fala do predomínio das loirinhas de olhos azuis, para as quais tudo é mais fácil do que para negras, índias e “étnicas”.

Essa conclusão se impõe quando vemos o absoluto predomínio das deusas louras provenientes do sul do País. O Brasil da passarela é louvado por sua diversidade, molejo, rebolado. Mas diversidade é o que menos se vê no mundo fashion. Outro assunto logo engavetado é a ditadura da magreza e a sua consequência, a anorexia mortal. Tema abordado, e logo varrido para debaixo do tapete.

Com essas insuficiências, ainda assim Top Models desvenda bastidores interessantes. Mas revela muito menos do que espera o espectador mais exigente.



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23.junho.2011 12:32:21

Carros 2

Até que dá para se divertir com Carros 2, da Pixar, a segunda animação da franquia, em um 3D meio sem razão de ser. Para quem não sabe, a idéia é transformar automóveis em gente, o que não deixa de ter eficácia. Carros, sabemos, não são máquinas como as outras. Apesar de entupirem as cidades modernas e as tornarem poluídas e insuportáveis, ainda mantemos com eles uma relação de afeto e familiaridade.

Os automóveis, nos venderam essa idéia há muito tempo, significam liberdade de movimentos e, por extensão, liberdade de alma. Coisas que vieram dos anos 50 e por aí ficaram, de um modo ou de outro. E há também o charme das corridas de Fórmula 1, etc.

Com tudo isso a favor, não podemos deixar de achar engraçada a relação de amizade entre um potente carro de corrida, Relâmpago McQueen, e Mate, um carro-guincho caindo aos pedaços, caipirão e  esperto. Eles vão juntos para corridas no Japão e na Europa, mas a trajetória de ambos será pontuada por trapaças, uma trama de espionagem e a interferência de um vaidoso carro de Fórmula 1 italiano, galanteador e direto rival de McQueen.

Como típica animação norte-americana, Carros tentará mexer com coisas demais e todas muito bem intencionadas, em especial a tese de que os espezinhados pela sociedade no fundo terão a última palavra, como é o caso de Mate. Meio piegas, para falar a verdade, mas é o tom normal desse tipo de filme.

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Neste meio de semana, todos voltam suas atenções para o Santos – mesmo os adversários, segundo os quais o Peñarol é o Brasil na Libertadores. O time da Vila, como bem destacou o colega Paulo Calçade em sua coluna, tem encontro marcado com a sua história. Amanhã, no Pacaembu, poderá reatar com uma tradição que vem desde os tempos de Pelé, quando se sagrou bicampeão da Libertadores (1962-1963) e bi mundial (contra Benfica e Milan). Apenas 90 minutos, ou quem sabe 120, ou talvez uma interminável disputa por pênaltis, separam o alvinegro da sua mais importante conquista desde os míticos anos 60.

Não é pouca coisa. É muita. Muito mais do que poderiam sonhar os torcedores quando este time de meninos foi montado e encantou a todos no primeiro semestre do ano passado. Desde então foram três conquistas – dois Paulistas e uma Copa do Brasil. A Libertadores seria a joia na coroa, a beatificar – ou melhor, santificar – toda uma equipe, do treinador ao roupeiro, incluindo o presidente, o conselho e o homem que serve cafezinho em Urbano Caldeira. Toda a comunidade santista sairia ganhando com essa conquista e, ouso dizer, até mesmo a oposição à atual diretoria dela se beneficiaria.

No futebol, se sabe, medem-se as coisas pelo resultado imediato. Não deveria ser assim, mas é. De modo que, dependendo do resultado do jogo no Pacaembu, toda uma filosofia de trabalho pode ser aprovada ou reprovada. Qual o principal ponto? De uma forma ou de outra as principais estrelas da casa foram mantidas. Neymar, com um imaginoso plano de carreira, e Paulo Henrique Ganso, ainda que contra sua vontade e da empresa que detém parte dos seus direitos.

Além disso, o time foi fortalecido em algumas posições e buscaram-se reforços significativos, como Elano. Quando o clube, por bobeira, perdeu o técnico Dorival Jr., e por um tempo andou à deriva, veio a grande tacada: a contratação de Muricy Ramalho. Em tempo recorde, Muricy consertou o ponto frágil do time, o setor defensivo. Mesmo na bacia das almas, tirou a equipe de uma situação difícil na Libertadores e ei-lo aí, na final do torneio, a uma partida do título.

A vitória dará credibilidade a todo esse trabalho. Mas deveríamos deixar a mesquinhez de lado e reconhecer que, qualquer que seja o resultado, o planejamento do Santos se revelou vencedor. Em um jogo tudo pode acontecer, mas o simples fato de chegar a uma final de Libertadores já é um tremendo passo.

Para vencer, o Santos terá de jogar muita bola. E suar. Uruguaio não se entrega e o Peñarol vem a São Paulo certo de que pode vencer. Time por time o do Santos é melhor. Mas, como sabemos desde criancinhas, nem sempre o tecnicamente melhor vence. Entram na parada outros fatores, como o imponderável e a raça, ou seja, a vontade férrea de vencer e a convicção inabalável de se pode fazê-lo.

Já sabemos, desde 1950, do que são capazes os uruguaios. Na verdade, sabemos desde muito antes, quando nossos dois adversários e vizinhos, Uruguai e Argentina, eram terríveis asas negras de clubes e seleções. A tal ponto que se cunhou a expressão “platinismo” para designar os que achavam que os nossos amigos-rivais próximos seriam sempre melhores que nós no campo de jogo.

Muita coisa aconteceu desde então. O futebol brasileiro firmou um estilo e conquistou um número inédito de títulos mundiais. Já o Uruguai entrou em decadência futebolística da qual apenas agora se recupera.

Com esses ingredientes, Santos x Peñarol tem tudo para ser inesquecível. No encontro de 1962, o Santos venceu, na terceira das três partidas decisivas, por 3 a 0. Jogou com Gilmar, Mauro, Dalmo, Zito, Lima e Calvet, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. O time dos sonhos.



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20.junho.2011 09:35:35

Viagem Proibida

Viagem Proibida é o último suspiro do grande Vittorio De Sica (1901-1974). Inspirado em novela de Luigi Pirandello, tem como par central a ainda belíssima Sophia Loren e Richard Burton, sempre às voltas com problemas de saúde e alcoolismo, mas dono de carisma difícil de igualar.

Ainda mais quando se põe na pele de um personagem neurótico e muito sofrido como o nobre siciliano que se vê na contingência de renunciar ao seu amor em nome de uma ordem paterna. Tal é a história imaginada por Pirandello, agudo observador da sua Sicília natal. A história começa com a abertura de um testamento. Nele, o patriarca deixa expressas suas vontades, distribui ordens e propriedades, e determina casamentos, que se realizarão conforme seus desejos. Um deles terá de ser celebrado entre um dos seus filhos, Antonio, e uma moça pobre da região, Adriana, interpretada por Sophia, que ama em segredo, e é amada, pelo outro irmão, Cesare (Burton).

O filme, embora não possa ser considerado um dos grandes de quem tem no currículo títulos como Ladrões de Bicicleta, Vítimas da Tormenta, Milagre em Milão e Umberto D, para citar apenas suas obras-primas, possui um sentido de observação muito interessante dos aspectos mais conservadores da sociedade italiana. Siciliana, em particular. Ordem paterna não se discute. Mesmo que sua observância traga infelicidade a todos, cumpre-se e ponto final. Ainda mais quando é revelada post mortem, sem que o patriarca esteja presente sequer para ser contestado. Os mortos governam os vivos, como se sabe desde Shakespeare e Hegel. Isso, na Sicília dos primeiros anos do século 20, hierarquizada ao extremo, parece ainda mais verdadeiro do que em outras épocas e geografias. É o peso da História, de que falava outro siciliano ilustre, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, de O Leopardo.

Não faltam elementos de melodrama nas etapas dessa Viagem Proibida. De Sica, ao longo dos anos, foi adocicando a inspiração neorrealista da qual se nutriu na juventude. Aliás, entre os neorrealistas, teve trajetória particular. Foi ator de sucesso antes de se tornar diretor. Continuou atuando (e bem) mesmo depois de se tornar cineasta mundialmente conhecido – é dele, por exemplo, a magnífica composição do impostor Emanuele Bertone em De Crápula a Herói, de Roberto Rossellini.

Os últimos anos de De Sica foram menos inspirados que seu período neorrealista, durante o qual fez suas principais obras em parceria com o roteirista Cesare Zavattini, ideólogo do movimento. Depois envolveu-se com um tipo de cinema mais comercial, veículo para a estrela internacional em que Sophia Loren havia se convertido. La Loren era casada com o poderoso produtor Carlo Ponti, que a impunha em papéis às vezes pouco adequados. Em Viagem Proibida, por exemplo, aos 40 anos, linda, é verdade, interpreta uma ingênua rapariga em flor.

Em nome do diretor, do inegável carisma dos intérpretes e também da nobre origem literária da obra, passa-se por cima de muita coisa. E acabamos envolvidos nessa história de amor impossível e trágico, ambientada num mundo que já não é mais o nosso, história que só faz sentido no interior de uma mentalidade que nos é estranha.

E há também, claro, o sentido cinematográfico de De Sica, que não se perde mesmo nesse ponto final de trajetória. As paisagens da Sicília são tocantes. Aquele mundo, transfigurado na prosa de Pirandello, ganha aqui contorno romântico, certa aura de universo perdido, reencontrado apenas na memória. É uma sociedade antiquada, vista por um cineasta maduro, em meados dos febris anos 1970.

Não que Viagem Proibida soasse muito contemporâneo na Itália de 1974. Como a sociedade que retrata, a siciliana de antes da 1ª Guerra Mundial, soa um tanto antiquado, fora de seu tempo. A Itália daquela época já era diferente tanto do imobilismo do início do século 20 quanto do febril pós-guerra de 1945, quando o neorrealismo emergiu. Já não era também o mundo de De Sica. Esse anacronismo romântico não é o menor dos encantos deste filme.

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18.junho.2011 11:29:24

Estrada Real da Cachaça

Ainda não tive tempo (nem energia, depois da viagem a Fortaleza) para escrever uma crítica de A Estrada Real da Cachaça, que entrou sexta-feira em cartaz. Nem estas maltraçadas se propõem a ser uma crítica. São apenas uma recomendação.

Vale a pena ver o documentário de Pedro Urano sobre a inserção da “branquinha” na cultura brasileira. Dos cultos afro às festas de toda espécie, no interior e no litoral brasileiros, está lá, impávida, a cachaça.

Evitando o insípido tom moralista tantas vezes empregado quando o assunto é bebida alcoólica, e apenas dando à pinguinha a dignidade tantas vezes outorgada ao vinho e outras beberagens nobres, Estrada Real da Cachaça mostra como a cultura é feita de vários ingredientes, alguns dos quais líquidos, e dos quais não podemos prescindir.

Muito bem filmado e inventivo, o documentário é também uma pequena história da colonização e dos engenhos no período português do Brasil. Bebe quem quiser, mas o doc dá água na boca. Evoé.

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