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Luiz Zanin

Acabo de saber da morte de Ernesto Sábato, aos 99 anos. Quase um século. Bem, na minha opinião, foi um dos grandes, ao lado de seus conterrâneos Cortázar e Borges e do nosso Guimarães Rosa, para ficar nos contemporêos.

Lemos muito, mas o que fica de sedimento? Eis a questão. Nunca pude esquecer algumas coisas que li escritas por Sábato. O Túnel, quem sabe sua obra mais famosa, e De Heróis e de Tumbas, sua obra-prima. Esse livro continua comigo. Continuará, sempre.

Sábato, que foi em muitos sentidos (mas não no pior deles) um escritor engajado, sabia imprimir na palavra a estranheza da realidade. Daí a sensação de vertigem que se tem ao ler De Heróis e de Tumbas, em especial a parte final, sobre uma misteriosa conspiração de cegos. Poderosa metáfora. Mas vai além da metáfora e nos toca em algum ponto recôndito do inconsciente. É leitura para toda a vida.

Enfim, muito haveria a se dizer sobre Sábato. Por enquanto, fico me perguntando quem terá sido maior: ele, Borges ou Cortázar?

Mas, penso agora, para que discutir essa trivialidade? Cada um, à sua maneira, provocou em nós esse estranhamento da realidade para que despertássemos um pouco do nosso sono e torpor e pudéssemos enxergar.

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RECIFE – Olá, amigos: um post rapidinho (a quick one) só para dizer que estou no Recife para a cobertura do Cine PE, festival que vi nascer (fui júri no primeiro ano) e tenho acompanhado ao longo das edições sucessivas. À medida que as coisas forem acontecendo por aqui, você vai saber neste blog. E, claro, no Caderno 2, pelas matérias que vou enviar.

Hoje é a abertura, no Cine Teatro Guararapes, com direito a homenagem ao melhor de todos os tempos – Pelé. Sim, um festival de cinema pode prestar seu tributo ao Rei, mesmo ele não repetindo, nas telas, o que fazia em campo. Mas como isso seria possível?

Para traçar essa trajetória, o documentarista Evaldo Mocarzel entrevistou Pelé e incluiu em seu filme cenas de suas atuações em filmes como Fuga para a Vitória, Pedro Mico e Os Trombadinhas. Entre elas, uma cena erótica que Pelé teve a maior dificuldade em realizar, inibido que estava pois sua partner era a própria mulher do diretor do filme. O doc, chamado Cine Pelé, será apresentado hoje à noite.

Acabei de falar com o diretor do festival, Alfredo Bertini, e ele me disse que o Rei está a caminho, em voo fretado.

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29.abril.2011 08:50:55

Natimorto

Um pouco, ou melhor, muito da trip literária do autor passa direto para o filme. Natimorto, o livro, é um autêntico exemplar da, digamos, cosmovisão de Lourenço Mutarelli. Um travo bastante amargo da existência, um tom chegado ao dostoievskiano, o encerramento em si, o culto do espaço fechado, o humor um tanto sórdido. Não se disfarça, aqui, que a literatura, como em muitos outros casos, possa ser uma espécie de epifenômeno catártico, bem ou mal resolvido. Na verdade, a escritura parece funcionar como função curativa, destinada a tamponar neuroses, mas este é outro departamento de análise.

Na história, o protagonista é alguém que faz leituras de tarô naquelas imagens de mau gosto impressas em maços de cigarro, ali colocadas para, supostamente, dissuadir fumantes. Ele se une a uma cantora sem voz, também ela fumante inveterada. E ambos passam a morar juntos num quarto de hotel. Ele não quer deixar o aposento; ela dá suas saidinhas. E é tudo. Ou, por outro lado, esse fiapo de história pretende abarcar um mundo, caso tivesse eficácia.

O personagem, sem nome, é interpretado pelo próprio Mutarelli; a cantora afásica, pela atriz Simone Spoladore. Há um desnível de atuação entre os dois, que poderia ter até beneficiado o filme. Afinal, ele é feioso, desajeitado, ensimesmado , e não precisa fazer qualquer esforço para expressar o mal-estar que aquela situação está lhe causando; constrangimento que poderia ser traduzido como mal-estar no mundo, o que é bem o tema de fundo do filme como do livro. Ela é intensa, expressiva, cheia de vitamina sexual.

O diretor faz o que pode para manter a tensão dentro do ambiente fechado que lhe propõe a peça literária. Inclusive, o trabalho fotográfico, de Lito Mendes da Rocha, é dos mais interessantes, opressivo. O que funciona menos é esse desenvolvimento de neurose sem tema, que fica rodando em círculos sem conseguir se desenvolver. A impressão de neura repetitiva se impõe num ritmo cansativo que dá voltas em torno do seu próprio vazio. Qualquer terapeuta sabe como uma neurose pode ser chata, em especial para o próprio neurótico. No caso do personagem interpretado/vivido por Mutarelli, esse círculo sem fim da ruminação existencial não é interrompido por qualquer sacada que o ilumine ou quebre. Apesar das insinuações finais, é ele o seu próprio canibal.

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28.abril.2011 09:46:58

Eu Matei Sherazade

Uma jornalista estrangeira julgou que fazia um cumprimento a Joumanna Haddad ao dizer que não sabia como ela conseguiu publicar uma revista erótica em sua língua materna. Joumanna, editora da revista Jasad, ofendeu-se. E a coisa piorou quando a estrangeira completou: “No Ocidente não estamos familiarizados com a possibilidade de existirem mulheres árabes liberadas como você”, disse. Joumanna deu uma resposta malcriada, alguma coisa do tipo que não se sentia tão excepcional assim e que a jornalista, na verdade, tinha uma visão preconceituosa sobre o Oriente em geral e sobre a mulher árabe, em particular.

Mas tarde, e um pouco mais calma, a libanesa Joumanna Haddad, nascida em 1970, arrependeu-se da irritação e começou a escrever tentando entender sua reação defensiva. O resultado, depois de vários rascunhos e textos parciais, é o livro Eu Matei Sherazade, que contém o conveniente subtítulo Confissões de uma Árabe Enfurecida.

De fato, não se vê serenidade neste livro que funciona um pouco como tentativa de autocompreensão e outro tanto como desabafo. É um texto enragé e, com suas limitações, não deixa de ser elucidativo sobre a condição da mulher árabe como, da maneira que deseja a autora, uma espécie de convite a que questionemos nossas certezas ocidentais mais arraigadas. Uma delas, com certeza, é ter da mulher árabe a imagem de um rosto coberto por um véu, ou, pior, um corpo escondido por uma burca, submissa ao marido, calada e reprimida. “Não moro numa tenda, não ando de camelo e não pratico a dança do ventre”, avisa.

Ao contar parte de sua própria vida, Joumanna fornece outro retrato à nossa consideração. Ela mesma filha de uma família culta e conservadora, diz que se formou a partir da leitura de livros tirados da ótima biblioteca paterna. O volume que mais a influenciou na adolescência? Nada menos que Justine, os Malefícios da Virtude, do Marquês de Sade, que leu aos 12 anos. Antes, a garota havia atravessado As Ilusões Perdidas e ela mesma se pergunta como não naufragou no imenso abismo existente entre Balzac e o Divino Marquês. Na prateleira libertina do pai colheu ainda Henry Miller e autores árabes, que alternava com Hugo, Nabokov, Flaubert, Sthendal e Proust. Não admira que tanta variedade, dentro da qualidade, tenha forjado um espírito livre.

Ou melhor, um espírito por se libertar, porque Joumanna sabe que a liberdade é um trabalho e muitas vezes se sente como ave a se debater entre grades. Seu espírito voa, mas é consciente de pertencer a uma cultura opressiva à qual não se rende. O relato dessa luta tem muita beleza e encantamento. Poderia mostrar, talvez, um pouco mais de profundidade, qualidade que costuma vir acompanhada a serenidade. Talvez isto fique para depois. Há um tempo para a raiva e outro para a reflexão.

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Samuel Titan Jr., professor da Universidade de São Paulo e pesquisador do Instituto Moreira Salles, diz que a maior dificuldade foi selecionar os artigos de Roger Bastide para o livro, em meio a um sem-número de textos de alta qualidade que também poderiam entrar. “Ele escrevia sem parar e publicava tudo, num processo contínuo de esforço de compreensão do País”, diz. Abaixo, trechos da conversa do organizador de Impressões do Brasil com o Estado.

Vamos começar pelo princípio. Como foi a ideia de reunir esses textos de Roger Bastide num livro?

Na verdade, uma ideia muito simples. Todos nós da USP tínhamos lido o belo ensaio da Gilda Mello e Souza, a abertura do livro Exercícios de Leitura, no qual ela se refere aos artigos de Bastide que, cientista social por vocação, foram consagrados às letras e às artes. Essa faceta ficou meio esquecida, de modo que fomos atrás dos artigos. Alguns foram fáceis de encontrar, como os que ele escreveu para o Estadão, outros não. Por exemplo, a conferência que ele pronunciou para a exposição de arte francesa, foi publicado como uma separata publicada em 1938, pela Aliança Francesa. A pesquisa inicial era para trazer à luz textos de Lévi-Strauss, Jean Maugué e Bastide, mas havia uma desproporção: dois textos de Lévi-Strauss e dois do Maugué, e uma infinidade de textos de Roger Bastide. Resolvemos então separar as águas: publicamos os textos do Maugué e do Lévi-Strauss na revista da Biblioteca Mário de Andrade e dedicamos um livro ao Bastide.

Além da quantidade, o que chamou a atenção nesses textos do Bastide?

O fato de eles formarem um todo orgânico, dando conta da evolução do intelectual francês morando no Brasil. Primeiro ele se interessa por temas franceses, discorre sobre eles para o público local; em seguida, vai incorporando os temas brasileiros ao repertório da sua reflexão.

Foi uma característica da “missão francesa” no Brasil. Eles chegam, vão tomando pé do País e começam a refletir sobre ele em suas obras.

Sim, e quem fica mais, incorpora mais o Brasil, como foi o caso do Bastide, que ficou mais do que todos. Ele vai embora em 1954; fica, portanto, quase 20 anos por aqui.

E também o que chama a atenção é a diversidade de temas que ele aborda.

Sim, a impressão é de uma curiosidade, de um espírito muito irrequieto, que se interessa por tudo, literalmente. E, dessa variedade, ele consegue tirar uma grande originalidade de abordagem. Por exemplo, acho que um dos ensaios mais bonitos é Igrejas Barrocas e os Cavalinhos de Pau, de sabor bem proustiano. É um dos ensaios em que fica mais claro o movimento do estrangeiro, que se interessa pelo que é diferente, mas, para entender, precisa referenciá-lo ao que é familiar. Um movimento pendular muito nítido.

O olhar dele sobre São Paulo também é muito interessante, não?

Ah, é fantástico! É o espanto do estrangeiro que chega e se depara com o quê? Com o quarto da empregada nos apartamentos. É uma sacada maravilhosa: ele percebe que os brasileiros levaram a Casa Grande & Senzala para a residência vertical. Ele lia com muita atenção o Gilberto Freyre, o que mostra o tamanho da imersão dele nas coisas brasileiras. Lia os intelectuais brasileiros e observava o dia a dia nas cidades.

E escrevia, escrevia…

Você não imagina o trabalho que tivemos para selecionar, porque o material é enorme. Ele escrevia ensaios em bases semanais, no mínimo. E sobre tudo: de exposições de pinturas a reflexões políticas. Publicava tudo. Viajava muito e escrevia suas impressões. Há artigos dele publicados em jornais de Recife e Salvador, por exemplo. Desse material, privilegiamos o que tinha corte ensaístico. É também a passagem dele, do professor ao intelectual, ao ensaísta. Ele começa a escrever sobre pintores franceses, até chegar a uma leitura estética do candomblé em Ensaio de uma Estética Afro-Brasileira, que foi publicado no Estadão.

Esses textos permitem refletir sobre a influência que Bastide exerceu sobre a intelectualidade brasileira, não?

Sem dúvida. O ensaio sobre Machado é um divisor de águas. Antonio Candido não deixa de falar que mudou sua leitura de Machado de Assis a partir dele. A influência sobre Dona Gilda Mello e Souza foi total. Ele orientou a tese dela, O Espírito das Roupas, texto que hoje vemos como muito referenciado às ideias de Bastide. E você toma o último ensaio do livro Sociologia e Literatura Comparada e vê como ali estão ideias que Candido desenvolveria no seu Formação da Literatura Brasileira. É bonito ver esses projetos intelectuais que vão ganhando corpo no diálogo entre mestres, discípulos e colegas. Bastide foi fundamental.

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Ufa! Deu tudo certo e conforme o planejado os quatro grandes se classificaram para as semifinais. Os “pequenos” se comportaram como bons coadjuvantes e dificultaram as coisas para os favoritos, mas não a ponto de estragar a festa. Apenas valorizaram os vencedores, porque, afinal, nenhum dos quatro semifinalistas teve vida fácil. Em graus diferentes, Ponte Preta, Oeste, Portuguesa e Mirassol venderam caro a desclassificação, mas terminaram por deixar o campo apenas com isso, com os elogios destinados aos que lutaram e perderam com dignidade.

Poderia ter acontecido de maneira diferente? Poderia, mesmo porque já somos, digamos assim, experientes demais para acreditar em teorias conspiratórias ou jogos de cartas marcadas. É verdade que no futebol, como na própria vida, há mais coisas do que sonha a nossa vã filosofia. Mas não a ponto de ficarmos especulando sobre resultados dirigidos. Existe, é verdade, toda uma arte para elaborar a tabela de modo que os resultados esperados sejam alcançados, mas isso dentro das regras do jogo. Regras que, como se sabe, são estabelecidas por quem manda nesse jogo. E esse jogo dizia que, por uma série de razões, a principal das quais de ordem econômica, era preciso que os times de maior torcida e expressão chegassem todos às etapas finais do campeonato em condições de se tornarem campeões. É isso, e nada mais. Ai dos pequenos, como dizia, se não me engano, um imperador romano, e não estava falando em corridas de bigas, mas da guerra para valer.

Nessa guerra simbólica, por nós amada, que é o futebol, tudo se passa de outra maneira. Gostamos de dizer que é o esporte mais popular do mundo, porque grande é a sua imprevisibilidade. É o único dos esportes coletivos em que um time de menor qualidade técnica pode vencer outro, mais poderoso, em uma partida. Portanto, os quatro grandes do futebol paulista estiveram expostos à eliminação nesse formato de jogo único e disputa por pênaltis, em caso de empate. Não ocorreu nada disso, mas poderia ter acontecido. A zebra não deu as caras e, daqui para frente, pode acontecer qualquer coisa, literalmente.

Não é para ficar no muro, mas, quanto mais penso nos quatro times, mais os vejo como equivalentes. Santos e São Paulo me parecem ter os melhores jogadores, se formos pensar em individualidades. Mas o Palmeiras tem solidez e o Corinthians é o único que pode se dedicar com exclusividade ao Campeonato Paulista – o que não parece nada, mas é uma senhora vantagem na reta final. Mas o que acontecerá quando se encontrarem frente a frente? Vai depender do momento e cada jogo construirá a sua história. Afinal, clássico é clássico e vice-versa, como já pronunciou um dia o grande frasista Jardel. Há quem se arrisque mais e pense que São Paulo e Palmeiras seriam levemente favoritos nos confrontos contra o Santos e o Corinthians. Mas eu, em particular, não deposito um único centavo no prognóstico. Cada jogo terá sua história, como também poderia ter dito Jardel. Ou Vicente Matheus ou Neném Prancha, ou qualquer dos filósofos do futebol, que somos todos, no fundo.

De qualquer forma, quaisquer que sejam as críticas que podemos fazer a esse Paulistão, teremos um fim de semana dos mais emocionantes. Dois grandes clássicos, em partida única. Quer dizer, qualquer erro será fatal, qualquer atuação apagada não poderá ser compensada em um jogo seguinte. Tudo será resolvido lá, em 90 minutos, ou nos pênaltis, hipótese pouco recomendável para cardíacos.

O que se pode esperar é que apareça o futebol em alto nível, coisa que ainda não aconteceu. Algumas das equipes têm jogadores que podem tirar o jogo da região do óbvio. Esperamos que essa situação de jogo único – com adrenalina total – os inspire ao invés de inibi-los. Podemos criticar essa fórmula, mas são os jogos decisivos que temperam os craques e separam as crianças dos adultos, como se diz em certos ambientes.

(Coluna Boleiros, 26/4/2011)

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Roger Bastide (1898-1974) veio ao Brasil em 1938 para lecionar sociologia na então recém-criada Universidade de São Paulo. Aqui chegou para substituir ninguém menos que Claude Lévi-Strauss, o nome mais forte do estruturalismo. Como seu antecessor, Bastide também mergulhou de cabeça na cultura do país de adoção. Trazia na bagagem a formação humanística europeia, sedimentada na velha França e, em boa parte, usou-a para interpretar a cultura nova com a qual se deparava.

Visitou o País de alto a baixo, tentou entendê-lo e, sobretudo, escreveu muito sobre ele. Deixou livros fundamentais como Psicologia do Cafuné e Estudos Afro-Brasileiros. Mas também imprimiu sua marca em artigos para jornais, catálogos de exposição e revistas. Impressões do Brasil (Imprensa Oficial), com organização e prefácio de Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. resgata esses textos há muito fora de circulação sob a forma de um livro luxuoso, com edição caprichada, papel de alta qualidade e muito bem ilustrado. É um prazer para o leitor voltar-se para o texto tão iluminador de Bastide, e sob condições tão atraentes.

Impressões do Brasil se compõe de onze artigos, de tamanhos variados. Há desde o artigo de jornal, breve (brevidade dos jornais de então, que podiam abrigar textos de até uma página, sem qualquer sentimento de culpa) até ensaios de maior fôlego, que eram publicados em capítulos, como as novelas de folhetim, com periodicidade semanal. Da coletânea constam quatro artigos originalmente publicados neste jornal: Igrejas Barrocas e Cavalinhos de Pau (1944), O Oval e a Linha Reta (1944), Ensaios de uma Estética Afro-Brasileira (1948-1949) e Estética de São Paulo (1951).

É curioso ver como os artigos, dispostos em ordem cronológica, testemunham o processo de ambientação do intelectual francês no Brasil. O primeiro, Pintura e Mística (1938) trata de uma questão mais geral, expressa pelo título, ou seja, de como a arte, em especial a pintura, aproxima-se da mística pela busca de restauração de uma unicidade perdida (uma representação da Queda, claro). Da mesma forma, no segundo, Presença da África (1940), é sobre um tema da pintura francesa – a presença de personagens oriundos das colônias na representação pictórica de grandes artistas – que ele se debruça.

Mas logo começam a surgir textos que mostram a profunda imersão de Bastide na cultura brasileira. E, no primeiro exemplar dessa espécie, Machado de Assis, Paisagista (1940), Bastide dá prova de leitura absolutamente original do nosso maior escritor. A singularidade de abordagem já vem explícita no título. Foi preciso uma sensibilidade outra, um olhar estrangeiro, para detectar um erro recorrente na análise de Machado, que o classificava como um mau paisagista, um escrito avesso à descrição de ambientes e do entorno físico das suas histórias. O engano tomou forma de anedota na frase famosa “As casas de Machado de Assis não têm jardim”. Pelo contrário, como mostra Bastide, a natureza está bem presente à narrativa machadiana, apenas que profundamente integrada à estrutura da trama. Basta pensar em um dos seus romances maiores, Dom Casmurro, necessariamente ambientado na cidade litorânea, que dá outro sentido aos “olhos de ressaca” de Capitu e inclui a possibilidade do mar revolto, que carrega Escobar e sela para sempre a dúvida em Bentinho. Hoje essa presença implícita da natureza na obra de Machado é quase um lugar-comum. Mas foi preciso um leitor francês para percebê-la e apontá-la a todos.

Essas sacadas se sucedem, de ensaio em ensaio. Em O Oval e a Linha Reta, Bastide discute a predileção de Lasar Segall pela linha curva. Como não era um formalista, não se contenta em detectar a persistência de uma escolha formal, mas mostra como era lhe era necessária para um determinado tipo de expressão. Havia ideias em jogo e estas pediam determinada forma e não o contrário. Luminosos também são os ensaios consagrados ao barroco (Igrejas Barrocas e Cavalinhos de Pau, A Volta do Barroco e Variações sobre a Porta Barroca) e também aquele em que Bastide evoca a sua cidade de adoção (Estética de São Paulo). Por fim, é no caudaloso Ensaio de uma Estética Afro-Brasileira que reencontramos Bastide em seu universo preferencial, uma mística que se aproxima da arte, sem que uma se reduza a outra.

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24.abril.2011 23:31:21

Ricky

Em muitos sentidos, Ricky, de François Ozon, é um filme desconcertante. No principal deles, pela mistura de um realismo estrito com o universo do fantástico, aquele em que as coisas não acontecem segundo a lógica vulgar.

Na história, Katie (Alexandra Lamy) é uma operária, que tem uma filha, Lisa (Mélusine Mayance), e se apaixona por um colega de trabalho, o espanhol Paco (Sergi Lopez). Da união, nasce um bebê, Ricky (Arthur Peyret) que se revelará pouco comum.

São muitos elementos heterogêneos, o que faz o espectador temer pelo equilíbrio do filme. Por um lado, Ozon procura mostrar de maneira completamente despojada um cotidiano da vida operária na França. Tudo muito correto, porém sem qualquer luxo. Emprego monótono, uma filha para criar, um apartamento tanto confortável quanto acanhado – nada na vida de Katie tem algum brilho em particular. A não ser quando fica grávida e dá à luz um bonito bebê.

Há aí uma interessante mudança de perspectiva, que se expressa no estilo de filmar. Se antes tínhamos uma câmera “objetiva”, que registrava um dia-a-dia sem qualquer glamour, agora, com a presença de Ricky, é como se realidade ganhasse novo brilho. O mundo adquire outro sentido, outra, digamos assim, poética, quando uma nova vida se inicia. Passa-se de um ponto de vista “neutro” para um olhar encantado, em que o elemento mágico pode se insinuar na trama de maneira confortável. Não que o espanto esteja ausente diante do maravilhoso. Mas ele logo é assimilado e, o que poderia ser considerado uma aberração pelo olhar laico, logo é visto, pela mãe, como um dom, algo extraordinário. Entre outras coisas, Ricky é um estudo sobre a maneira como as mães enxergam seus filhos. Um olhar todo especial, como se sabe, e muito pouco objetivo.

De certa forma, Ricky é mais um passo na construção da trajetória desse cineasta nada usual. Ozon gosta de introduzir elementos de estranheza em suas histórias, como forma, por um lado, de livrar-se da camisa de força do realismo extremo. E, também, como maneira de desvendar um pouco do que existe de mistério sob a aparência óbvia das coisas. Assim, por exemplo, em Sob a Areia, há um misterioso desaparecimento de pessoa que altera toda a vida da protagonista. Em Swimming Pool – à Beira da Piscina, o fascínio de uma mulher por outra desvenda a faceta obscura da personalidade de uma escritora. E, no ainda inédito no Brasil, Potiche, uma dona de casa sofre radical transformação e converte-se em ativista política. Não são filmes para serem analisados à luz do realismo: contêm elementos díspares, que não parecem caber no mesmo espaço e, no entanto, conseguem ser dispostos de forma coerente.

Ozon mexe-se com esses filmes às vezes desconfortáveis com a mesma naturalidade com que Ricky parece relacionar-se com seu corpo. Há muitos ingredientes heterogêneos nesse filme estranho. O cotidiano entorpecedor imposto às classes populares, a voracidade da mídia, os limites da ciência médica, o conformismo – tudo parece acomodar-se nesse corpo monstruoso mas do qual o diretor consegue extrair uma curiosa beleza. O remédio para a mesmice, parece nos dizer Ozon, é dar asas à imaginação. Em seus melhores momentos, o filme voa.

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21.abril.2011 10:36:24

Minha Versão do Amor

Baseado no belo livro de Modercai Richler, Minha Versão do Amor mistura ingredientes pouco usuais em receitas de comédias românticas, gênero em que alguns enquadram este filme de Richard J. Lewis. Seu protagonista, Barney Panofsky (Paul Giammati), é o que se poderia chamar de protótipo do politicamente incorreto: bebe, fuma e prevarica. Mesmo assim (ou talvez por isso mesmo), conta com a simpatia do público.

Mais ainda: Barney (o título original do filme é Barney’s Version) enfrenta uma acusação de homicídio e, em crise, revê sua vida em flashback. Relembra seus altos e baixos e, inclusive, sua grande história de amor com Miriam (Rosamund Pike). O filme é abertamente comercial e não deixa de ter interesse. Um divertimento de qualidade. Giammati é grife do cinema indie e ator envolvente. Em especial num tipo de papel que domina, quando tenta parecer sério…sem se levar muito a sério. Escola Woody Allen, por assim dizer.

Mas aqui ele terá de enfrentar outros desafios. Sua história se estende por várias décadas e o personagem precisará encarar o desafio da decadência – sempre um problema para o ator. Vai bem, mesmo porque o roteiro tira o sumo de um livro bastante acima da média e o coloca à disposição do diretor. É pena que Lewis decida, na última parte da trama, deixar de lado o tom auto-irônico e satírico, e desabe para um melodrama lascado. Daquele tipo destinado a “resgatar” o personagem, como se isso fosse necessário. Nesse ponto, o filme desaba um pouco.

Se Giammati vai bem, quem dá show como pai de Barney é Dustin Hoffman, no papel de Izzy Panofsky, um policial meio cafajeste e bem engraçado. Ator é ator.

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21.abril.2011 08:27:04

Bróder

Há alguma coisa de diferente em Bróder, de Jeferson De e precisamos ter sensibilidade para o percebermos. Ok, à primeira vista estamos de novo na periferia de São Paulo, com personagens que tentam driblar as condições desfavoráveis e viver da maneira a mais decente possível. Mas, desta vez, existe um olhar novo, cheio de frescor, que coloca o filme em outro patamar, para além das suas possíveis limitações.

Os tais personagens – os principais, pelo menos – são três amigos de infância, Jaiminho (Jonathan Haagensen), Pibe (Silvio Guindane) e Macu (Caio Blat), que vivem de maneiras muito diferentes no presente. Jaiminho tornou-se jogador de sucesso, atua na Espanha e espera ser convocado para a seleção brasileira; Pibe formou-se em direito e tenta iniciar a carreira a duras penas; Macu vive na fronteira do mundo do crime. Ou seja, um é rico, em via de se tornar milionário; o outro é remediado; e o terceiro é um pobre diabo, de vida complicada e companhias mais do que suspeitas.

A novidade, como se disse, está no tipo de olhar que é lançado a esses personagens. Não é paternalista e nem atenua conflitos. Constrói um retrato complexo da periferia paulistana, no qual a violência vive presente, mas não sob a forma de um determinismo trágico. A esperança também faz parte do modo de vida das pessoas, e não de uma maneira piegas. Ou seja, há um rigor de visão, que não concede nem ao obrigatório banho de sangue do “gênero” favela movie e nem entra no bom-mocismo do filme-ONG. Evita essas duas armadilhas.

Bróder respira a sinceridade de quem de fato mergulhou naquele mundo e pode entendê-lo. Sem preconceitos. Com ternura e também com rigor. Muito do resultado foi obtido, por certo, pela imersão de Jeferson De e equipe na comunidade do Capão Redondo, onde a história é ambientada. Caio Blat é um exemplo: embora branco, vira um autêntico “negão” em sua caracterização de Macu. Veste a pele do personagem. O mesmo empenho pode ser notado no resto do elenco, incluindo a mãe (Cássia Kis) e o pai (Ailton Graça), formando uma família interracial na qual os conflitos, e também a ternura se exprimem.

Projetos como Bróder e outros, como Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos (vários diretores), são sintomas de que algo está acontecendo no às vezes monótono audiovisual brasileiro. A periferia do sistema econômico, antes pintada por artistas oriundos da classe média (como no tempo do Cinema Novo), agora se retrata a si mesma. Começam a surgir obras de artistas cuja sensibilidade foi moldada nessa mesma periferia e agora começam a colocá-la na tela, livres do olhar muitas vezes estereotipado (quando não preconceituoso) com que antes era retratada. Esses filmes representam a inversão de uma perspectiva que data de pelo menos 50 anos de história cultural no Brasil. Não é pouca coisa.

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