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Luiz Zanin

 

Dirigindo-se ao público de Paris quando da apresentação do seu novo filme, Hors Satan (Fora de Satã), o diretor Bruno Dumont avisou que seria preferível vê-lo numa cópia em 35 mm. Justificou de forma um tanto estranha: a velha película em 35 milímetros é algo que pertence ao mundo da química. Ora, o ser humano é bioquímico em sua composição orgânica. Desse modo, haveria uma sorte de “afinidade” insubstituível entre o cinema analógico de base química e seu destinatário, o espectador, bicho de arquitetura bioquímica. Os materiais de formação seriam compatíveis, o que não se dá no caso do digital.

O interessante é que o discurso se deu numa sessão em que Fora de Satã, que fora captado em 35 mm no processo de filmagem, seria projetado digitalmente. O episódio é lembrado no texto de abertura da revista Cahiers Du Cinéma de novembro de 2011, que traz em sua capa o título Adieu 35 – La Révolution Numérique Est Terminé (Adeus 35 – a Revolução Digital Acabou). E terminou no sentido de que chegamos ao fim de um inexorável processo de passagem do analógico ao digital, que começou mais ou menos em 1990 e agora tem o seu desfecho.

A revista constata que, até agora, o espectador ainda pôde escolher se queria uma projeção digital ou em 35 mm nas salas disponíveis em sua cidade; a partir de 2012, isso será quase impossível, pelo menos na França, Paris em particular. A antiga projeção em película sobreviverá na Cinemateca Francesa e em algumas salas de arte. As outras todas já terão passado para a fronteira do formato digital.

É um pouco o que acontece por toda a parte, mas alguns países estão mais adiantados do que outros. O Brasil encontra-se na rabeira dessa corrida digital, na companhia de alguns países africanos. Defasado, o País enfrenta ainda vários transtornos quando tem de se mover no âmbito do mundo digital.

Os atropelos sentidos pelos cinéfilos que seguem religiosamente a Mostra de Cinema de São Paulo são testemunhos da confusão no setor. Cópias projetadas com janelas inadequadas, sessões canceladas porque o HD do filme “não rodava”, ou a senha antipirataria não chegara, cópias cujas legendas eram impossíveis de acessar, filmes travados no meio da sessão, etc.: tudo isso se viu e a causa não era desleixo ou incúria da organização da Mostra. O que existia era descompasso entre a realidade do Brasil e a dos países que enviavam filmes – sempre em digital – para serem exibidos.

Para se ter ideia, a média mundial de digitalização das salas nos principais países do planeta cinema é da ordem de 50%; no Brasil, esse número para em meros 14%. Isso quer dizer que 86% das 2.200 salas brasileiras ainda fazem projeção em 35 mm, embora os estudos prevejam para 2015 a extinção total do suporte.

Alguns cinéfilos até comemoram esse atraso pois, é bom que se diga, o digital está longe de ser unanimidade. Espectadores mais exigentes queixam-se das imagens chapadas, sem textura ou profundidade, do cinza sem gradações, de problemas no som. O cineasta Carlos Reichenbach sempre gosta de lembrar que com o 35 mm o cinema havia chegado à sofisticação visual da pintura; o digital haveria um recuo nesse trabalho com texturas, volumes e cores.

Quando a música passou do vinil para o CD ouviram-se queixas semelhantes e, até hoje, alguns melômanos sustentam que o som digital seria liso, plano, sem o “corpo” do som analógico de um bolachão bem gravado, ouvido num aparelho de som de ponta, com uma agulha perfeita.

É discussão para um século inteiro e, como os discos de vinil acabaram voltando à moda, a pedido de colecionadores mais exigentes, pode-se pensar também na sobrevivência teórica do cinema em 35 mm, mesmo que seja apenas em guetos mantidos por devotos. O grosso, mesmo, vai todo para o cinema digital, e isso é inexorável.

O digital se impõe por vários motivos, o principal deles de ordem econômica. É muito mais barato para os distribuidores mandar aos cinemas um arquivo pela internet, ou um disco rígido contendo o filme, do que pagar pelo frete de centenas de cópias de 35 mm, no caso dos grandes lançamentos. Essas cópias, acomodadas em oito ou dez latas pesavam dezenas de quilos, são difíceis de estocar e sofrem com a ação do tempo, embora, em boas condições, uma cópia em 35 mm permita até umas mil exibições. Mas não há como comparar a praticidade entre um sistema e outro.

Além do mais, o digital não precisa ser o vilão dos cinéfilos de fino trato, dos apreciadores cordon bleu de filmes de arte, que ainda torcem o nariz para a matriz digital. Os próprios frequentadores da Mostra, atormentados pelas trapalhadas digitais, foram brindados com a inesquecível e impecável exibição digital de dois clássicos restaurados como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, e Taxi Driver, de Martin Scorsese. Falar mal dessas projeções seria exercício de pura impertinência.

A rigor, ninguém é contra o digital por uma questão ideológica, mas contra o “mau” digital. Assim, nesse ano em que a revolução digital terminou, foram vistos manifestos e petições, não contra o digital, mas contrários à qualidade apresentada. Uma petição dos críticos (http://www.gopetition.com/petition/31415.html) diz que o digital, que deveria democratizar o acesso ao cinema pelo custo mais barato, ao invés disso tem patrocinado um “verdadeiro massacre ao trabalho de cineastas, fotógrafos, diretores de arte, figurinistas, técnicos de som e até atores”. Citam como exemplo a projeção de Ervas Daninhas, de Alain Resnais, no Festival do Rio, com a janela de projeção errada, o que produzia cortes laterais na imagem concebida pelo diretor francês.

Uma entidade de classe, a Associação Brasileira de Cinematografia, que congrega os fotógrafos de cinema do País, não deixou por menos. Soltou um contundente documento chamado Atitude Digital (http://www.abcine.org.br/artigos/?id=693&%2Fatitude-digital) no qual manifesta a preocupação com a forma “com que seu trabalho vem sendo apresentado ao público”. O documento, assinado por profissionais como Lauro Escorel, Affonso Beato e Pedro Farkas,  lembra que, a partir de 1999, a tecnologia DLP (Digital Light Processing) foi aprovada pela indústria cinematográfica norte-americana, estabelecendo resolução de no mínimo 2K (2 mil pontos por linha).

Seis anos depois, as sete grandes empresas, as majors, formaram uma comissão, a DCI (Digital Cinema Iniciatives), estabelecendo um protocolo com “limites de qualidade tão altos quanto o filme 35 mm (ver em WWW.dcimovies.com). Acontece que, em nosso país, sob a alegação de que produção independente, principal beneficiária do barateamento da produção digital, não poderia bancar os custos das normas DCI, adotou-se uma espécie de padrão-Brasil. Um espécie de sistema-jaboticaba, “sensivelmente abaixo do padrão mundial para o cinema digital”.

Luiz Gonzaga Assis de Luca, autor de A Hora do Cinema Digital (Imprensa Oficial, Coleção Aplauso, 2009) diz que o sistema DCI não é a única alternativa. Ele é ótimo, mas caro. Mas qualquer opção terá de vir seguida de uma normatização adequada, o que não é caso. Gonzaga adverte também que os produtores, muitas vezes movidos pela economia de recursos, nem sempre proporcionam aos cineastas tecnologia adequada na captação da imagem. Depois, não dá para consertar.

O caso da defasagem tecnológica no Brasil é tão grave que o governo se sensibilizou para o problema. Manoel Rangel, presidente da Ancine (Agência Brasileira de Cinema), órgão ligado ao Ministério da Cultura, avisou que vai lançar um fundo para financiar a troca de equipamentos para 900 salas em 2012. Nada se diz sobre o padrão desse equipamento.

Goste-se ou não do digital, ele chegou para ficar. A pergunta não é se virá ou não, mas que tipo de digital queremos.

 

 

 

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Depois de oito anos de poder, Marco Müller não é mais diretor do Festival de Veneza, o mais antigo do mundo. Foi substituído por Alberto Barbera,  que volta à mostra depois de tê-la dirigido de 1998 a 2002.

Sem Müller, talvez o Brasil tenha alguma chance de voltar a competir. Durante sua gestão, não apenas o Brasil mas o cinema latino-americano como um todo foi ignorado. Talvez Barbera abra mais os olhos para o resto do mundo e não apenas nas direções prediletas de Müller: Ásia, Estados Unidos, Europa.

O engraçado é que se especula, na imprensa internacional, que Müller estaria indo para a direção da Festa de Cinema, de Roma, festival jovem, concorrente de Veneza e que havia sido esnobado, sistematicamente, pelo ex-diretor. Se for verdade, Müller vai para o cargo de Piera Detassis, antiga diretora da revista Ciak, do grupo de Berlusconi.

Conheci Piera em 1991, quando ainda era apenas repórter da Ciak, num making of do filme de Polanski, Lua de Fel. Ela, o saudoso Marco Melani e eu formávamos a trinca latina, a desafiar o poder anglosaxão no navio onde se realizam as filmagens entre Veneza, Istambul e Atenas.

A seu convite, depois da viagem, visitei a redação da Ciak, em Milão. Era, já naquela época, pessoa de grande capacidade.

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Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra. Leia crítica

Ex-Isto, de Cao Guimarães. Leia crítica

Corumbiara, de Vincent Carelli. Leia crítica

Transeunte, de Eryk Rocha. Leia crítica

As Canções, de Eduardo Coutinho. Leia crítica

Diário de uma Busca, de Flávia Castro. Leia crítica

O Palhaço, de Selton Mello. Leia crítica

Estrada para Ythaca, dos irmãos Pretti e primos Parente. Leia crítica

Riscado, de Gustavo Pizzi. Leia crítica

O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges. Leia crítica

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Melancolia, de Lars Von Trier (Dinamarca). Leia crítica

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami (Irã). Leia crítica

A Árvore da Vida, de Terrence Malick (EUA). Leia crítica

O Garoto da Bicicleta, dos irmãos Dardenne (Bélgica). Leia crítica

Singularidades de uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira (Portugal). Leia crítica

Lola, de Brillante Mendoza (Filipinas). Leia crítica

Poesia, de Lee Chang Dong (Coreia). Leia crítica

Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas, de Apichaptong Weerasetakhul (Tailândia). Leia crítica

Meia Noite em Paris, de Woody Allen (EUA). Leia crítica

Bravura Indômita, dos irmãos Coen (EUA). Leia crítica

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Diante da enxurrada de asneiras que se seguiu ao baile que o Barcelona aplicou no Santos Futebol Clube, acho interessante republicar uma crônica originalmente escrita em maio deste ano.

Eu também fiquei contente com a vitória do Barcelona sobre o Manchester United pela Copa dos Campeões. A título introdutório, repito tudo que meus colegas disseram e continuam a dizer por aí: foi mesmo a vitória do bom futebol, numa partida acachapante, com domínio de um sobre o outro como poucas vezes se vê em encontro de gigantes; jogo limpo, de poucas faltas, em que brilharam a genialidade de alguns (Messi em particular) e prevaleceu o conjunto sobre as individualidades magníficas. Foi uma partida que marcou o predomínio de um estilo de jogo sobre o outro, vitória de uma filosofia que une beleza e eficácia numa liga formidável.

Tudo isso é verdadeiro. Verdade insofismável, como o próprio Alex Ferguson, venerando técnico do Manchester, admitiu após a derrota. Para o meu gosto pessoal, fica na lembrança uma característica do jogo do Barcelona, que muito me agrada: a sua absoluta clareza. É um jogo límpido, sem chutões ao acaso, no qual raramente você vê um jogador enroscando-se com a bola sem saber o que fazer com ela. Não. Ela segue de pé em pé, amorosamente e com o rigor que poderia ser visto em uma hipotética mesa de sinuca presidida por reis do taco como Carne Frita Rui Chapéu. O Barcelona coloca em prática um lindo balé de passes que vai envolvendo e minando o adversário até hipnotizá-lo e levá-lo à exaustão. E, então, ele ataca e pica, com a desenvoltura de um Muhammad Ali em seus áureos tempos. Impávido e tranquilo como Bruce Lee. O Barça derrotou o Manchester como se desenvolvesse um teorema: “Eis aqui, assistam e aplaudam: isto é o futebol, em sua essência. Como queríamos demonstrar.”

Gastos os adjetivos, e sem querer dar uma de estraga-prazeres, ficam cá com meus botões algumas ruminações. A primeira a me acudir, incômoda: estaremos diante de um paradigma do futebol, um modelo absoluto ao qual devemos não apenas a justa admiração, mas o tributo da cópia? Se quisermos ser grandes devemos imitar o Barça?

Tenho cá sérias dúvidas. Quer dizer que a antiga escola do futebol brasileiro, aquela mesma que nos deu cinco títulos mundiais, que já foi idolatrada, cantada em verso e prosa, será que não existe mais? Extinguiu-se? Não serve mais de parâmetro? Nós, que amamos o futebol bem jogado, temos de ir à Catalunha e ver como eles fazem?

Coloco essas perguntas com a maior humildade, sem ter respostas. É possível que a grande escola brasileira, aquela de Friedenreich e Domingos da Guia, de Leônidas e Ademir de Menezes, de Pelé e Garrincha, de Julio Botelho e Ademir da Guia, de Zico e Falcão, de Ronaldo, Romário e Ronaldinho Gaúcho, de Neymar e Ganso, esteja extinta e não sirva de referência a ninguém? Pode ser.

Em outras palavras, será que o eixo do futebol se deslocou? Minado pela desigualdade econômica, será que o futebol sul-americano, representado por suas duas maiores escolas, a argentina e a brasileira, já não tem mais nada a dizer no cenário mundial?

Antes, o Mundial Interclubes, a chamada Copa Intercontinental, tinha um caráter de tira-teima entre europeus e sul-americanos. Cada qual com seu estilo, os dois continentes disputavam a primazia planetária com seus clubes, assim como o faziam, de quatro em quatro anos, com suas seleções. Agora, parece que esse maravilhoso conflito simbólico entre o Velho e Novo Mundo terminou, assim como acabou a Guerra Fria. A julgar pelo que dizem nossos comentaristas, o Barcelona não irá ao Mundial Interclubes no final do ano para disputar um torneio com seus rivais, já que não os tem. Vai para cumprir tabela, passear, ser reconhecido e coroado pelo que já é, o maioral, aquele que não tem adversários. A bem dizer, nem precisa jogar.

Uma coisa é certa: a batalha da mídia, essa o Barça já ganhou.

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22.dezembro.2011 10:32:46

Melancolia

Por melhor que seja o seu home theater, um filme do porte de Melancolia sempre perde alguma coisa quando visto na tela menor. Ainda assim, mesmo sem ser numa requintada sala com tela grande e som Dolby perfeito, continua a ser uma experiência cinematográfica e tanto ver ou rever este filme, agora lançado em DVD pela Califórnia.

Melancolia provavelmente é um dos melhores lançamentos deste ano, talvez o melhor de todos. Acaba de ganhar o prêmio de melhor filme europeu de 2011, prova de que a besteira cometida por seu diretor, o falastrão Lars Von Trier em Cannes, quando disse que podia compreender Hitler, foi colocada em seu devido lugar. Que lugar? Na lata de lixo das inutilidades, desses frissons de momento de que são feitos muitas vezes os festivais de cinema, eventos nos quais cada vez menos o que importa de fato são os filmes.

Enfim, vamos à obra, em si. Uma espécie de filme-síntese da obra de Von Trier, esse dinamarquês signatário do Dogma, que ficou conhecido com autor de Ondas do Destino, Dogville, Manderlay e Anticristo. Filmes que foram construindo uma obra política, intensa, distanciada de maneira brechtiana às vezes, exigente com o público até quase o limite do insuportável. Enfim, um cinema incontornável.

Melancolia é filme já de um mestre, porém em contínua evolução. O que virá depois desse apocalipse cinematográfico? Difícil prever. Mas Von Trier, fiel ao dogma da polêmica, avisa que será um filme pornográfico. Esperemos.

Em Melancolia o que se vê é um mergulho de cabeça em uma experiência intelectual e sensória, já no prólogo. As primeiras sequências soam como o prelúdio de uma ópera, que anuncia o que virá. Os atores fazem vezes de tableaux vivants, elementos protagônicos de quadros móveis, que dialogam com a pintura (uma delas é Caçadores na Neve, de Brueghel) e a música, o tema melódico que acompanhará os principais momentos do filme – Tristão e Isolada, de Richard Wagner.

Depois dessa introdução, o filme se desdobra em duas partes, um díptico cujas lâminas são intituladas com os nomes das duas irmãs – Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Irmãs de temperamentos opostos, sínteses também de disposições contrárias de estar no mundo.

Na primeira parte do díptico, vemos Justine se preparando para um casamento suntuoso, realizado numa casa de campo. A linguagem estética, aqui, embora mais caprichada, parece a dos primeiros filmes do Dogma, em especial pela câmera na mão. A festa burguesa se prepara, enquanto a noiva, com tudo agora ao seu alcance, felicidade, emprego, promoção, marido novo e encantador, se prepara para arruinar a vida, peça por peça. Claire tenta impedi-la. Em vão. É uma demolição em regra que se anuncia. E não apenas no âmbito pessoal.

A segunda parte é a de Claire. Justine arruinou-se a tal ponto que precisa até ser alimentada na boca para sobreviver. Quem dela cuida é a irmã, seu oposto e espelho. O que Justine tem de desordenada, Claire tem de centrada. Há, no entanto, uma ameaça pairando, sob a forma de um enorme planeta, chamado Melancolia, que pode chocar-se com a Terra. Os cálculos dos cientistas dizem que tudo está sob controle, mas sabemos como são os cálculos e os cientistas.

A linguagem do filme muda nessa segunda parte. Torna-se intensa, suntuosa, grave à medida que a ameaça se aproxima e torna-se concreta. Neste ponto, há uma curiosa (porém compreensível) inversão. Justine, tão inadaptada para o mundo, parece serena e centrada para o que seria a iminência do fim. Claire, tão centrada e dentro dos parâmetros da normalidade, é o desespero em pessoa quando confrontada com a perspectiva da finitude de si mesma e do mundo que conhece. Faz sentido. Uma, de acordo com sua perspectiva, não tem mais nada a perder; a outra, pelo contrário, tem sólidos motivos para se apegar a uma vida que parece ameaçada. Melancolia afeta o eixo gravitacional da Terra e também das irmãs.

Que Von Trier dê o nome de Melancolia ao seu apocalipse não me parece gratuito. Já se chamou a depressão de mal do século. A nossa frágil felicidade, o nosso vão equilíbrio não sobrevivem sem o Prozac e sem o Rivotril. São os paraísos artificiais que garantem a contrapartida para o progresso tecnológico e a vida ultracompetitiva. Mas será isso a vida? Porém, Von Trier não fala nem de depressão, mas de melancolia, o termo ancestral da tristeza sem objeto, do sujeito perdido de si mesmo, descentrado de si de maneira irremediável. Se essa condição do ser sem esperança se agrava no mundo da anomia social e da ausência de transcendência, a melancolia terá esse efeito letal de um planeta bêbado, imprevisível, que vaga por um universo sem ordem. É mesmo de um fim de mundo literal e simbólico que este filme impressionante trata.

(Caderno 2)

 

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20.dezembro.2011 19:06:48

Problemas no blog

Estranhei a ausência de comentários nos últimos dias. Meus quatro ou cinco leitores costumam deixar suas impressões sobre o que escrevo, ainda que de maneira econômica. Tentei eu mesmo comentar, ou responder a algum comentário anterior, já postado…e nada. Os comentários estão desativados. Então, se você tentou deixar alguma coisa aqui nos últimos dias, não desanime: já acionei o apoio técnico e me garantiram que vão resolver. Abraços. Zanin

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20.dezembro.2011 09:26:39

Faltou um Almir Pernambuquinho

Amigos, vamos dizer logo de cara: não havia a menor chance de o Santos derrotar o Barcelona. O desnível tático e técnico é abissal. O Barcelona igualou, no campo, o Santos ao Al-Sadd. Engoliu os dois da mesma forma. Parecia jogo de time de primeira divisão contra aspirantes da quarta. Mesmo no mais imprevisível dos esportes coletivos, que é o futebol, podemos dizer que, em dez jogos, o Barça ganharia os dez. Em cem, ganharia os cem. Poucas vezes, no futebol profissional, vi desnível parecido. Então, é preciso reconhecer o mérito do Barcelona e do seu jogo preciso, belo e implacável.

Não dava mesmo para ganhar. Mas há derrotas e derrotas. A do Santos foi a do pior tipo: derrota sem qualquer resistência, sem luta, sem briga, no melhor sentido do termo. O time já entrou em campo vencido e, em nenhum momento, chegou a ameaçar o adversário.

Para dificultar um pouco as coisas para o Barcelona faltou talvez ao Santos um jogador desses que não aceitam a derrota de jeito nenhum. Lembro de um Zito, que impunha respeito ao próprio Pelé. Lembro de Almir Pernambuquinho, a alma do Santos na conquista do bicampeonato diante do Milan em 1963. Pelé estava contundido e Almir entrara em seu lugar. Ouvira dizer que Amarildo, jogador do Milan, falara que Pelé estava em decadência. “Não se diz isso do Rei”, rosnou Almir. E, na primeira dividida com Amarildo, deixou claro que aquele era um jogo de vida ou morte. Amarildo sumiu em campo.

Ok, hoje as coisas não são mais assim. Todo mundo é amiguinho e tiete, e coisa e tal. Só faltou pedirem autógrafo aos jogadores do Barcelona, ou talvez nem isso tenha faltado. O fato é que não havia em campo (ou fora dele) alguém que lembrasse aos jogadores do Santos que aquilo era uma disputa de título mundial. Parecia uma partida amistosa, um casados x solteiros de luxo, um daqueles jogos de fim de ano, “Amigos do Messi x Amigos do Neymar”. Coisa assim. Festiva. Leve. Uma brincadeira.

De resto, cabe ao Santos se preparar melhor para o próximo ano. Continuar o trabalho iniciado, reforçar seus pontos frágeis e dispensar quem não tem apreço pela camisa do clube. Deve lutar pela Libertadores e voltar ao Mundial mais “sábio”, segundo as palavras de Neymar. Enquanto isso, é bom aprendermos a lição, junto com o craque santista: vamos colocar as barbas de molho para 2014 porque o futebol sul-americano não está com nada. Depois de décadas de modelo extrativista-exportador, chegou ao fundo do poço e não consegue mais enfrentar os europeus. São cinco títulos mundiais consecutivos para os clubes do Velho Continente. As duas últimas participações brasileiras foram vexatórias: a desclassificação do Internacional pelo Mazembe e a humilhante goleada sofrida pelo Santos. Vamos repensar a vida?

Férias
A bola para e eu também. Desejo a todos um Feliz Natal e ótimo 2012. Esta coluna retorna dia 17 de janeiro. Até a volta.

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O que há de comum entre os três?

Morreram hoje. O carnavalesco, o ator, a cantora.

Artistas. Fizeram a nossa vida melhor. Nos deram momentos de alegria, compreensão, epifania.

O mínimo que podemos fazer é lhes prestar homenagens nesse dia triplamente triste. E lhes dedicar nossa gratidão.

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JOÃO PESSOA
Amigos, estou em João Pessoa, onde participei do 7º Fest Aruanda. Neste festival, a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) deu seus primeiros prêmios oficiais. Abaixo, seguem os contemplados e as justificativas para os prêmios.

Resultado do primeiro júri Abraccine, no 7º Fest Aruanda, em João Pessoa (PB)

melhor curta-metragem: pela maneira poética como articula na própria forma do filme o seu conteúdo, captando a atmosfera do Brasil profundo, o prêmio Abraccine de melhor curta-metragem vai para Ensolarado, de Ricardo Targino.

melhor longa-metragem: Pelo modo como alia emoção e riqueza do material coletado na reconstrução da trajetória de um ídolo popular, o prêmio Abraccine de melhor longa-metragem vai para Raul, o Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho.

Votaram os críticos João Batista de Britto (PB), Wills Leal (PB), Renato Félix (PB), Orlando Margarido (SP) e Luiz Zanin (SP).

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