ir para o conteúdo
 • 

Luiz Zanin

31.dezembro.2010 16:42:29

Feliz 2011!

O vinho branco já está gelando para a passagem de ano, mas não poderia deixar de colocar um post pequenininho aqui, apenas para desejar a vocês um ótimo 2011.

Muito obrigado a todos os que seguiram este blog por mais um ano e aos que se deram ao trabalho de comentar algum dos textos aqui colocados. Agradeço aos que concordaram comigo e aos que de mim discordaram, fazendo deste convívio um salutar hábito de democracia espiritual.

Que muitos outros anos nos aguardem, com saúde, paz e felicidade.

Que possamos nos expressar livremente num país sempre melhor, embora com tantos problemas ainda por resolver.

Abraços a todos e até breve.

comentários (8) | comente

Não tem para ninguém – o grande filme estrangeiro do ano foi Vincere, do italiano Marco Bellocchio. No âmbito nacional, não se pode falar de 2010 sem citar o capitão Nascimento. Aliás, o tenente-coronel Roberto Nascimento, de Tropa de Elite 2, que já levou 11 milhões de brasileiros ao cinema. Bateu o antes imbatível recorde de Dona Flor e seus Dois Maridos com seus 10,7 milhões de espectadores conseguidos em 1976.

Vincere e Tropa de Elite 2: como aproximá-los? Bem, isso não é necessário. A única coisa que têm em comum é serem notáveis, e por motivos diferentes. Um entra na conta de 2010 por sua excepcional qualidade artística – poucas vezes se viu na tela tamanha articulação entre vida pessoal e história política como neste relato sobre a amante de Mussolini, por ele abandonada ao tomar o poder.

Tropa 2 está presente não apenas por seu grande sucesso de público, como por sua correspondente repercussão social. Uma coisa não depende necessariamente da outra. Um filme como Titanic pode levar 16 milhões de pessoas às bilheterias e não mexer com nada que nos diga respeito. Tropa de Elite, à sua maneira, toca em temas fundamentais como a segurança pública, desnível social, tráfico e corrupção. Um diálogo entre ficção e realidade se deu com a guerra aos traficantes do Complexo do Alemão, ocorrido com o filme já em cartaz. E, goste-se de José Padilha ou não, deve-se reconhecer que evoluiu muito de Tropa de Elite 1 para o 2.
Claro, houve muito mais do que Tropa de Elite 2 no cinema nacional e mais do que Vincere no internacional.

O sucesso do filme de Padilha é, em boa parte, responsável pelo desempenho acima da média do cinema brasileiro no ano. Ele próprio faz parte de um processo mais amplo. Com a bonança econômica, as pessoas têm mais dinheiro para o entretenimento. Vão mais ao cinema, o que já está provocando aumento do número de salas no País, atualmente com 2.500. É pouco. Existe ainda muito espaço para crescer. Estas salas têm de ser preenchidas com bons filmes, ou filmes de apelo popular, e eles estão chegando, sob várias formas. Por exemplo, um fenômeno de 2010 foi o filão espírita, em especial com Chico Xavier, de Daniel Filho, e Nosso Lar, de Wagner de Assis, que, juntos, levaram 7,5 milhões de pessoas aos cinemas. A reação católica, que se esperava com Aparecida, o Milagre, de Tizuka Yamazaki, não se deu. Em começo de carreira, Aparecida não promete ir longe. Na semana de estreia obteve a pífia média de 186 espectadores/sala.

Números à parte, 2010 assistiu a uma interessante tentativa de diálogo com o público adolescente. Filmes como Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, Antes que o Mundo Acabe, de Anna Luiza Azevedo, e As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, acertaram em cheio ao supor um espectador teen que espera se divertir mas também deseja ser respeitado em sua complexidade. Não arrebentaram na bilheteria. Por outro lado, a comédia jovem Muita Calma Nesta Hora, de Felipe Joffily, superou com folga o milhão de espectadores.

Se houve espaço para grandes sucessos e filmes em busca de segmentos específicos, mantiveram-se também as frestas para o cinema dito de autor, mais experimental e exigente. São os casos de A Alma do Osso, de Cao Guimarães, Acácio e A Falta que me Faz, ambos de Marília Rocha, O Amor Segundo B. Schiamberg, de Beto Brant. São títulos pequenos, “miúras”, como se diz, e de apelo restrito, embora indispensáveis do ponto de vista artístico. Nesse segmento desponta um título excepcional como Viajo Porque Preciso, Volto porque Te Amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz.

Já filmes como É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, Sol do Meia-Dia, de Eliane Caffé, e O Grão, de Petrus Cariry, são excelentes e buscam conciliar qualidade com legibilidade mais ampla. O fato de terem ido mal de bilheteria deveria ser matéria de estudo de mercado. Algo anda errado com o lançamento desse tipo de obra. Virtudes não lhes faltam. Falta é público.

Documentários nacionais também deram sua contribuição à qualidade cinematográfica do ano. Para citar apenas dois, e que têm por tema a música popular brasileira: O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, e Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil. Lírio, em linguagem poética e ritmada, redescobre o compositor Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga em Asa Branca e tantos outros clássicos), tendo como cicerone a filha do compositor, a atriz Denise Dummont. Uma Noite em 67 nos leva aos tempos dos grandes festivais de música a um deles em particular, o da Record, que consagrou Ponteio, de Edu Lobo, interpretado por ele e por Marília Medalha. Foi também o festival da cisão entre a música “autêntica”, de raízes brasileiras, como o próprio Ponteio e Roda Viva, de Chico Buarque, e o nascente Tropicalismo, com Domingo no Parque, de Gilberto Gil, e Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Cisão artística e cisão política, na véspera do AI-5 – os festivais e este, em particular, expressavam nas músicas e na plateia aquilo que queriam calar na sociedade. O filme melhora a cada vez que é revisto.

Assim como o cinema nacional, também o internacional teve seus arrasa-quarteirões e seus miúras. Bons filmes da Argentina continuaram a chegar, como são os casos de Dois Irmãos, de Daniel Burman, O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, e Abutres, de Pablo Trapero. O cinéfilo brasileiro teve também o privilégio de ver dois novos Woody Allen – Tudo Pode Dar Certo e Você Vai Conhecer o Homem de Sua Vida. Detratores podem dizer que de novo eles nada têm, apenas mais do mesmo, Allen reciclado ainda uma vez. Dizia-se o mesmo a cada novo filme de Fellini e a cada novo disco de Frank Sinatra. Novidadeiros se esquecem de que grandes artistas se reinventam no mesmo.

O ano cinematográfico viu também a chegada de filmes dos grandes mestres como Belle Toujours, de Manoel de Oliveira, O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, Ilha do Medo, de Martin Scorsese, e Tetro, de Francis Ford Coppola. Nenhum deles decepcionou, embora fosse grande a tentação de comparar essas produções atuais com as que fizeram no passado. Esse tipo de saudosismo crítico costuma idealizar o passado e empalidecer o presente.

Menção particular a Film Socialisme, diagnóstico impiedoso de uma Europa em ebulição, dirigido por um octogenário Jean-Luc Godard com a força e a ousadia de um menino. Godard continua, em seus filmes reflexivos, a trabalhar na forma e a pensar o mundo de maneira original. Nada mais avançado, esteticamente, bateu nas telas do cinema este ano.

Entre o cinema-pipoca que se pretende sério, os destaques ficam para A Origem, de Christopher Nolan, e Rede Social, de David Fincher – que devem bombar no Oscar. O primeiro parte de uma ficção interessante, uma aventura no interior da mente e dos sonhos. Quanto mais se pensa nele, mais ele se esvazia, até virar um pastel de vento. Rede Social parece mais persistente na memória. Talvez por referir-se a fenômeno contemporâneo da internet, a rede de relacionamentos Facebook, com seu meio bilhão de usuários e valendo US$ 25 bilhões no mercado. Cifras. Mas o que parece mesmo decidir o jogo a seu favor é o personagem que intriga, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), nerd genial, emocionalmente tapado. Vidas sem sentido, cultura universitária americana elevada a padrão universal, bilhões de dólares extraídos do nada pelo capitalismo virtual – tudo isso produz um inquietante estudo sobre o vazio, cômico e aterrorizante. Mais fascinante ainda porque é um estudo sem tese e sem demonstração nítida, elaborado como que à revelia do diretor. Um círculo desprovido de centro.

Fincher chegou a dizer que Zuckerberg seria um Charles Foster Kane do nosso tempo. Pobre tempo, somos forçados a concordar.

comentários (11) | comente

29.dezembro.2010 20:24:45

Meu livro do ano: 2666

Não vejo livro mais importante neste ano que 2666, de Roberto Bolaño. É o grande lançamento do ano no setor de literatura estrangeira, mesmo porque significa o testamento de um escritor excepcional, morto prematuramente (em 2003, aos 50 anos de idade). Ler Bolaño é entrar numa fabulação sem fim, na qual história encadeia-se a história. As de 2666 estendem-se por 850 páginas na edição brasileira (Cia das Letras). O próprio autor havia determinado que esta obra póstuma fosse dividida em cinco volumes, mas a família decidiu lançá-la nesse único e compacto livro. Acertou. A obra é orgânica, encadeia-se e comenta-se a si mesma de maneira poderosa.

Lê-se Bolaño como sob hipnose.

1 Comentário | comente

JOÃO PESSOA/PARAÍBA

“Como eu fui burro! Como eu fui burro!”. É o que teria dito o jovem Glauber Rocha ao conhecer Aruanda, o seminal documentário de Linduarte Noronha, filme que está comemorando 50 anos de existência. Anos bem vividos, aliás, pois poucas obras do audiovisual brasileiro foram tão influentes e seminais quanto este em aparência singelo registro de uma comunidade quilombola na Serra do Talhado, no Estado da Paraíba.

A “burrice” a que aludia Glauber Rocha se refere ao seu começo de carreira, em particular ao belo e estetizante curta-metragem O Pátio (1959), que pouca coisa teria a ver com os caminhos em seguida trilhados pelo cineasta baiano após sua estreia em longa-metragem com Barravento, em 1962. Ao assistir Aruanda, Glauber teria pressentido que o mapa da mina passava por aí. Numa imersão bruta na realidade brasileira, não em seu pitoresco, mas no registro mais verdadeiro e realista, que não excluía um olhar poético sobre a condição fragmentada do País. Quem conta essa história sobre Glauber é o próprio Linduarte Noronha, na sabedoria e na memória dos seus 80 anos. Ao lado de Aruanda, outro curta-metragem exerceu esse papel de farol para os jovens diretores do Cinema Novo: Arraial do Cabo, da dupla Paulo Cezar Saraceni e Mário Carneiro.

Com seu trabalho pioneiro, Linduarte entrou para a história do cinema brasileiro. Foi reconhecido. A fortuna crítica de Aruanda é impressionante. No calor da hora, os maiores ensaístas do cinema brasileiro escreveram sobre ele. Glauber Rocha, além do reconhecimento verbal, escreveu sobre Aruanda no Jornal do Brasil e depois incorporou o artigo em seu livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Paulo Emílio Sales Gomes e Jean-Claude Bernardet o estudaram em profundidade em seus livros e nas páginas do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Paulo Emilio dizia que Aruanda era um manifesto. Em 2007, Bernardet voltou a ele em ensaio escrito para o suplemento Cultura de O Estado. A professora da ECA, Marília Franco, coordena, na USP, um laboratório de estudos sobre documentários chamado…Aruanda. O festival de cinema de João Pessoa, que promoveu esta homenagem aos 50 anos da obra, chama-se Cine Fest Aruanda (acaba de realizar sua 6ª edição) e distribui o Troféu Aruanda. Em suma, o filme de Linduarte Noronha nunca saiu de cartaz durante esse meio século de existência.

Curiosamente, a obra teve origem numa reportagem. Linduarte, antes de ser cineasta, era jornalista e crítico de cinema em diários da Paraíba. Tinha fama de exigente. Tanto assim que um dos distribuidores de filmes da cidade, irritado com os textos negativos sobre seus produtos, o apelidou de Bílisduarte Noronha. Linduarte ri muito ao recordar a história e lembrar seus 15 anos de crítico militante. Mas o trabalho que está na origem de Aruanda é uma reportagem à maneira clássica. Linduarte, e o correspondente do Estadão na Paraíba, Dulcídio Moreira, tinham ouvido falar de uma comunidade quilombola na Serra do Talhado. Os descendentes de escravos viviam de maneira primitiva, quase isolados da economia do país. Sobreviviam da venda de potes de barro, confeccionados de maneira artesanal e segundo técnicas ancestrais. Ambos subiram ao Talhado em 1957, em lombo de cavalo. Linduarte publicou a reportagem no jornal A União e Dulcídio a sua, no Estadão, com o título “Talhado não é mais que uma longínqua favela”. A notícia mereceu chamada de primeira página no Estado.

Havia mesmo naquela comunidade material para um excelente trabalho jornalístico, afinal era, nos anos 1960, uma sobrevivência arcaica em país que se industrializava. Havia também assunto para um filme, pressentia Linduarte. Só não havia como fazê-lo, por falta de condições técnicas. E não é que o jovem Linduarte teve a caradura de se deslocar ao Rio de Janeiro e pedir a Humberto Mauro, então presidente do Ince (Instituto Nacional do Cinema Educativo), que lhe emprestasse câmera e outros apetrechos? Diz que formulou o pedido a Mauro, que, de tão surpreso, gritou a um funcionário: “Esse rapaz da Paraíba quer que todos nós sejamos presos!” Mas como Mauro não era diretor igual aos outros, escravo da burocracia, Linduarte saiu do instituto com uma câmera Bell & Howell debaixo do braço. Voltou com ela à Paraíba e lá começou a fazer história, ainda que sob descrença e chacota de seus colegas da redação.
Aliou-se ao fotógrafo Rucker Vieira e subiram a Serra do Talhado. Trabalharam durante meses com os habitantes do quilombo e, depois da filmagem, o material foi levado ao Rio, ao Laboratório Líder, para ser montado. Não há no filme depoimentos orais dos habitantes do Talhado. Apenas o registro de imagens do seu trabalho de oleiros, realizado em especial pelas mulheres. Depois, o produto, potes e jarras, é colocado no lombo de jegues e levado para a cidadezinha mais próxima, Santa Luzia, onde são vendidos e trocados por mantimentos. Um ciclo econômico primitivo e, em aparência, sem saída. Esse círculo de ferro da pobreza extrema era justamente o que o documentário queria mostrar. E também era esta a ambição do Cinema Novo, que ensaiava nascer da parceria entre Glauber Rocha, que viera da Bahia, e jovens aspirantes a cineastas da Zona Sul carioca. Aruanda lhes apontava o caminho a seguir.

Em seus 22 minutos de duração, o filme tem a graça e o frescor das obras definitivas. Começa por uma parte que se poderia chamar de “ficcional”. Faz os próprios moradores encenarem a saga dos membros da família de Zé Bento (Paulino Carneiro), no século 19, em busca de terra fértil, onde pudessem se estabelecer. Encontram, por fim, uma nascente d’água e começam a construir a casa de barro, com a mesma técnica ainda hoje empregada nas regiões pobres do país, seja no sertão ou no litoral. Após esse prólogo, há um corte brusco e saltamos do século 19 para meados do século 20. Vemos as mãos no trabalho de moldar o barro e, dele, tirar os artefatos. A trilha sonora utiliza material em conformidade com as imagens – a comovente canção folclórica “ Ô mana deixa eu ir” (recriada por Villa-Lobos) e, em outras cenas, um tema recorrente tocado por uma banda de pífanos.

Quem pergunta a Linduarte por que empregou a forma ficcional para mostrar a chegada dos ex-escravos à Serra do Talhado, ouve a resposta: “Não havia escolha”, diz. “Não queria usar uma longa narração em off e precisava mostrar de alguma maneira como eles haviam chegado lá”. E, uma vez chegados lá, revelar como e porque aquelas pessoas permaneciam à parte, como num espaço econômico primitivo e perpetuador da sua condição precária. Na época, o Brasil instalava sua indústria automobilística e ainda havia gente vivendo à maneira do século 19. Essa sobrevivência do arcaico no moderno era um depoimento chocante sobre os contrastes sociais do País. Linduarte havia encontrado assunto e a forma para tratá-lo. De onde tirou essa sacada? Quando lhe perguntam sobre influências, responde: “apenas a dos cinejornais”. Aruanda é um filme de jornalista. A técnica cinematográfica, ele aprendeu, como autodidata, do Tratado de Realização Cinematográfica, do russo Lev Kulechov.

De maneira inspirada, Linduarte encontrou a maneira mais direta de mostrar as coisas como elas são. Simples assim.

A repercussão crítica

Um filme se completa naquilo que sobre ele se escreve. Para Paulo Emilio, Aruanda era “um manifesto” – quer dizer, um indicador do caminho a seguir na linha evolutiva do cinema brasileiro.
Glauber Rocha escreve que Linduarte e Rucker Vieira “entram na imagem viva, na montagem descontínua, no filme incompleto. Aruanda inaugura o documentário brasileiro nesta fase de renascimento que atravessamos.” (Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, 1963).

Jean-Claude Bernardet, mesmo fazendo reparos à precariedade técnica, diz que “a fita é importante porque, além de ser uma provocação e um estímulo, além de tratar de assunto brasileiro, o faz de uma maneira que pode se tornar um estilo e dar ao cinema brasileiro uma configuração particular (fora de qualquer emprego de folclore, exotismo, naturalismo, etc.), o que este, ao que eu saiba, nunca possuiu, nem de longe.” (Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, 12/8/1961).

Em 2006, Bernardet volta ao assunto. Participando de um seminário no Fest Aruanda, percebe que o filme feito por Linduarte, Rucker era diferente daquele que ele e outros intelectuais haviam detectado como guinada no cinema brasileiro no início dos anos 60. E o clássico que hoje se discute à luz de certo recuo histórico, era ainda outra coisa, já contaminada pela consagração. O texto “Aruanda como objeto mental” (Caderno 2/Cultura, 18/2/2007) articula essa fértil ideia de Bernardet: o mesmo filme pode adquirir configurações distintas segundo a época e o grupo de pessoas que sobre ele se debruçam.

De certa forma, há um Aruanda para cada espectador e para cada época. E isso por vários motivos. Um deles é, em se tratando de interpretação artística, esse deslizamento é inevitável. Mais ainda quando se trata de obra ambígua como é o caso. Moderna pela fotografia, montagem e precariedade de meios aplicadas à própria linguagem, Aruanda é antiquada pela narração em off por um locutor à Luiz Jatobá, como lembra Bernardet. E, depois, porque, à maneira de um clássico, Aruanda não se esgota e nem deixa de produzir significações, mesmo tendo já tanto tempo de estrada.

Um dos significados da palavra Aruanda é liberdade.

Assista ao filme:

comentários (9) | comente

23.dezembro.2010 22:23:26

Férias, enfim

Por uma série de motivos, venho sentindo dificuldade em entrar em férias este ano. Férias para valer, quero dizer. Com a vida complicada por razões alheias à minha vontade, fiquei esse tempo todo meio que num limbo – nem trabalhando direito nem descansando para valer. Descascando abacaxis.

E compreendo que não se leve a sério quem se diz em férias e continua a mandar textos para a redação, blogar, tuitar e dar pitacos no Facebook. Mas fiquei preocupado quando começaram a me mandar pautas do jornal, esquecidos de que, em teoria, eu me encontrava “no gozo das merecidas, etc.” Me senti meio tolinho, vamos dizer.

De modo, que resolvi tomar uma atitude radical e definitiva – férias, lá vou eu! Preocupações, só no ano que vem. Volto na segunda semana de janeiro, em todas as mídias, como se diz.

Boas Festas a todos vocês. Ótimo 2011 para nós, que fizemos por merecê-lo. Até a volta.

1 Comentário | comente

22.dezembro.2010 10:28:35

O Mochileiro Ramon

Em João Pessoa, Braulio Tavares nos contou que muitos meninos ganharam o nome de Ramon por causa de sua música Balada do Andarilho Ramon. O melhor mesmo foi ter conhecido o próprio Ramon, que é muito divertido e nos fez morrer de rir com suas histórias. Como fomos felizes na Paraíba… Curtam a balada, na voz do próprio Braulio.

comentários (2) | comente

No maior sucesso internacional do cinema cubano – Morango e Chocolate (1993), de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabio –, o escritor Lezama Lima (1910-1976) é uma espécie de figura tutelar. Não que algum ator apareça para interpretar Lezama na tela. Mas, quem conhece sua obra, e também alguma coisa de sua vida, sabe que o autor de Paradiso está entranhado em cada uma das entrelinhas do filme, além de ser citado de maneira explícita em mais de uma ocasião. Faz parte do seu DNA mais íntimo, de tal maneira que nem mesmo seria preciso nomeá-lo para que estivesse em toda parte.

Para quem não se lembra do filme, vai aí uma pequena sinopse. Diego (Jorge Perugorría) é um homossexual sofisticado que se apaixona por um jovem, David (Vladimir Cruz), inculto e fervoroso revolucionário. Os dois se conhecem numa famosa sorveteria de Havana, a Copelia. Tomam sorvetes; Diego, de morango, David, de chocolate. Desde o início, Diego está obviamente interessado em David e consegue levá-lo à sua casa. Uma terceira personagem, a ex-prostituta, Nancy, vivida por Mirta Ibarra, entra em cena e serve de intermediária entre os dois. Ela é problemática, já tentou o suicídio mais de uma vez e é amiga íntima de Diego. Terá também papel importante na vida de David, mas ele ainda não sabe disso. O filme é baseado no conto mais famoso de Senel Paz – O Lobo, o Bosque e o Homem Novo.

Não é difícil ver em Diego uma persona bastante próxima de Lezama Lima. Homossexual, sofisticado ao extremo, de gostos refinados em todas as áreas, incluindo a culinária, Lezama, como tantos outros intelectuais, sofreram para se adaptar a uma revolução que tinha muitas carências e outras prioridades. Diego, como Lezama Lima, é um admirador fervoroso da cultura cubana pré-revolucionária e, num momento muito preciso no filme, essa admiração se expressa em um banquete que prepara em homenagem a David. A passagem é uma citação literal de Paradiso, o “banquete lezâmico” que, por sua vez, evoca uma prática da vida real do escritor que costumava brindar seus amigos com pratos refinado da culinária da ilha. As associações entre comida, sedução e sexo também são óbvias. Mas o que salta à vista, nesta cena fundamental, é o desejo do intelectual de iniciar o discípulo na arte do “mestre”, ou seja, Lezama Lima, ele próprio, que aparece num retrato na parede da sala de visitas de Diego.

Também parece claro que a própria trajetória de Lezama Lima tenha fornecido a Alea um modelo que lhe serve para tratar o dilema do intelectual cubano. Ele próprio, Alea, como Lezama, e como o personagem fictício Diego, não são “contrarrevolucionários” no sentido mais simplório do termo. Não desejam simplesmente emigrar para Miami e ir às compras. Amam a ilha e sua cultura, têm identificação profunda com o país, mas, ao mesmo tempo, não podem deixar de criticar o regime naquilo que ele tem de mais odioso: a carência material, a ausência de liberdade de expressão, a burocratização estéril da vida social, o poder que se espalha pelas frestas e desce do comandante en jefe aos Comitês de Defesa da Revolução, que controlam a gente comum 24 horas por dia. Não por acaso, o pretexto para que David frequente a casa de Diego será mantê-lo sob vigilância para ver se representa ameaça ao regime.

Não é a primeira vez que Alea discute a perplexidade do intelectual diante da revolução. Já o fizera em sua obra-prima, Memórias do Subdesenvolvimento (1968). Sérgio (Sergio Corrieri) vive, no calor da hora, as contradições da revolução de Che, Camilo e Fidel. Sua mulher escapa para os Estados Unidos. Ele fica. Nem por isso acredita muito nas transformações anunciadas. Sente-se um estranho naquele mundo, porém não tem ânimo para partir. É um homem dividido e termina na mais completa alienação. Em Morango e Chocolate, Alea avança no tempo. Situa o enredo nos anos 1980 e introduz a questão da intolerância sexual através do personagem Diego. A sua busca é por uma Cuba unificada e pacificada, que inclua as conquistas da revolução em um ambiente de tolerância social e liberdade. Talvez seja uma utopia. Em todo caso, a grandeza do filme está na formulação desse ideal, pelo menos no âmbito restrito da relação entre dois seres humanos. Não por acaso a figura de Lezama Lima aparece como uma espécie de contraluz a colocar em relevo essa trabalhosa realização utópica.

Em Paradiso, quem prepara e serve o banquete cubano é Doña Augusta, representante da antiga cultura da ilha e figura decalcada da própria avó do autor. Essa cena literária é transfigurada por Alea & Tabio no almoço que Diego serve ao amigo David para apresentá-lo à figura de Lezama, emblema da sofisticação cultural da ilha. Esse almoço tem mesmo uma posição estratégica na narrativa de Lezama Lima, tanto assim que é uma das três partes de El Viajero Inmóvil (O Viajante Imóvel, 2008), livre adaptação que o diretor cubano Tomás Piard fez da obra-prima do escritor.

Alguns livros como Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido e Paradiso tem sido considerados “inaptáveis” para cinema. Não apenas por sua extensão, mas pelo trabalho intensivo da forma literária, seriam intransponíveis para o meio audiovisual. Por sorte, alguns cineastas como Joseph Strick (Ulisses, 1966), Volker Schlöndorff (Um Amor de Swann, 1984) Raul Ruiz (O Tempo Redescoberto, 1999) e agora Tomás Piard não foram avisados dessa impossibilidade e tentaram. Qualquer que seja o julgamento sobre resultado, são exercícios úteis, e corajosos. Quando menos, despertam no espectador o desejo de ir ao livro e conferir no original a versão que viu na tela.

(Sabático, 18/12/10)

comentários (8) | comente

17.dezembro.2010 20:17:10

Aruanda 2010

JOÃO PESSOA
Segue aí abaixo a premição do 6º Fest Aruanda. Foi bem legal. Acompanhei como convidado e participante – estive em duas mesas de discussão: uma sobre a nouvelle vague, outra sobre a crítica cinematográfica. Foram ótimas. Conheci muita gente boa por aqui. Reforcei laços de amizade com os que já conhecia. Ampliei meus horizontes e tive momentos de muita alegria, infelizmente meio raros em minha cidade de origem. Convivi com Linduarte Noronha, cujo filme-manifesto do cinema moderno brasileiro empresta seu nome ao festival. Aruanda, o filme, completa 50 anos em 2010. É fundamental.

A temporada, enfim, foi ótima. Depois do festival, estiquei dois dias no Tambaú, que é um dos mais belos hoteis brasileiros, senão o mais belo. Um requinte de inteligência arquitetônica de Sérgio Bernardes. Quando se compara com a brutalidade da arquitetura atual, fica-se chocado. O hotel é dos anos 70. Em muitos sentidos, o País regrediu. Na arquitetura, isso é óbvio.

Enfim, seguem aí os prêmios.

MOSTRA COMPETITIVA

- MELHOR SOM: 1.21
- MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: Guto Teixeira (O acaso e a borboleta)
- MELHOR FOTOGRAFIA: 1.21
- MELHOR MONTAGEM/EDIÇÃO: É muita areia pro meu caminhãozinho
- MELHOR ROTEIRO: Los Minutos, Las Horas
- MELHOR ATRIZ: Laura De La Uz, Por Los Minutos, Las Horas
- MELHOR ATOR: Gatto Larsen, Por Ensaio De Cinema
- MELHOR DIREÇÃO: Allan Ribeiro, Por Ensaio De Cinema
- PRÊMIO RODRIGO ROCHA DE MELHOR CURTA UNIVERSITÁRIO: Feliz Desaniversário
- TROFÉU NEPPAU MELHOR CURTA PARAIBANO: O Contador de Filmes
- MELHOR DOCUMENTÁRIO PARAIBANO: Menino Artífice
- MELHOR CURTA EXPERIMENTAL: 1.21
- MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO: O Acaso e a Borboleta
- MELHOR DOCUMENTÁRIO: É Muita Areia Pro Meu Caminhãozinho
- MELHOR FICÇÃO: Ensaio de Cinema
- JÚRI POPULAR: Menino Artífice
- JÚRI POPULAR MELHOR CURTA NACIONAL: Eu Não Quero Voltar Sozinho
- JÚRI POPULAR MELHOR LONGA NACIONAL: Uma Noite em 67
- TROFÉU BNB DE MELHOR FILME COM TEMÁTICA NORDESTINA: Vela ao Crucificado

MELHOR PEÇA PUBLICITÁRIA
All Star, da Universidade Mackenzie de São Paulo

- MELHOR INTER PROGRAMA
Nipon, da Universidade Federal da Bahia

- MELHOR REPORTAGEM DE TV UNIVERSITÁRIA
Carreiras, da Universidade Mackenzie de São Paulo

- MELHOR PROGRAMA DE TV UNIVERSITÁRIA
Quarto Mundo Invertido, da Universidade de São Paulo (Usp)

- MELHOR DOCUMENTÁRIO PARA TV UNIVERSITÁRIA: Rainhas, da Tv Usp

- MELHOR REPORTAGEM DE TV UNIVERSITÁRIA: Carreiras, da Universidade Mackenzie de São Paulo

O júri ainda outorgou menções honrosas para Babau Para Todos, da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Programa Invertido, da Universidade Mackenzie de São Paulo.

comentários (9) | comente

A Cinemateca Brasileira está anunciando o lançamento da cópia restaurada de O Cangaceiro, de Lima Barreto, um dos maiores (senão o maior) sucesso internacional do cinema brasileiro. Ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras no Festival de Cannes de 1953 e foi distribuído para inúmeros países. A Cinemateca anuncia, também, o lançamento do filme em DVD. E é aí que a porca pode torcer o rabo, pois o cineasta Paulo Duarte garante que detém os direitos do filme para home video (DVD e Blue-ray) por cinco anos. Pretende lançá-lo, ano que vem, com vários extras, entre os quais o documentário O Velho Guerreiro não Morrerá – o Cangaceiro de Lima Barreto 50 anos depois, de sua autoria. A seguir, entre aspas, a mensagem enviada por Paulo Duarte:

” Eu sou o detentor, pelos próximos 5 anos, do filme “O Cangaceiro” para home-video (DVD e Bluray), direitos estes adquiridos por contrato com a Vera Cruz
antes dela ser repassada ao Minc.
Pois bem, a Cinemateca está realizando o restauro do filme e sabe que possuo os direitos para lançamento do DVD.

No entanto, começou a circular a informação de que eles irão lançar o dvd do filme no ano que vem, o que não é verdade.

Só eu posso fazer o uso do direito de exploração comercial do dvd do Cangaceiro, e além disso, o farei colocando como extra, meu documentário “O Velho Guerreiro Não Morrerá – O Cangaceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois” com depoimentos de Anselmo Duarte, Fernando Meirelles, entre muitos outros e o doc em questão é ganhador de vários prêmios em Festivais Nacionais “Melhor Documentário Brasileiro Independente” no Festival Gramado Cinevideo, Melhor Filme, Melhor Documentário e Melhor Edição no Festival de Cinema de Santa Maria, Melhor Filme no Festival RECINE (Cinema de Arquivo) – Rio de Janeiro, entre outras dezenas de participações e menções em outros Festivais de prestígio.

Vejam bem, o filme está sendo restaurado, SIM. A Cinemateca tem o direito para usar o filme em 35 mm por aí? SIM. Podem lançar o filme em DVD antes de mim?
NÃO.”

A palavra, agora, está com a Cinemateca Brasileira.

comentários (11) | comente

JOÃO PESSOA

Confesso que não estava “in the mood” para ver Contratempo, de Malu Mader. Me parecia o típico filme-ONG sobre meninos dos morros cariocas que conseguem uma oportunidade de vida ao se tornarem instrumentistas de música clássica. Há disso no filme, é claro, mas é impossível não se comover com o destino de alguns deles, de um particular, talvez o mais simpático, e que termina mal. Ou dos que se dão bem, como os gêmeos que ganham uma bolsa para estudar em Iowa, nos Estados Unidos. Como comentou à noite o amigo Braulio Tavares: pode ser que não se descubram aí concertistas, ou mesmo músicos excepcionais. Mas e daí? Pelo menos é gente que consegue fazer uma vida, vivê-la de maneira normal. Em certas condições, sobreviver já é uma proeza. Sobreviver, e de arte, é quase um milagre. O filme é ok.

sem comentários | comente

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão