Os nomes dos contemplados saberemos hoje à noite quando forem distribuídos os Candangos, os troféus do Festival de Brasília, depois da exibição hors concours de Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, em cópia restaurada. Quem vence? Difícil dizer.
Com o que foi apresentado até agora, os principais prêmios, entre os longas, podem se dividir entre Transeunte, de Eryk Rocha, e O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges. Este último é um bom palpite para vencedor do festival. Agradou muito a uma parcela do júri.
Outro palpite, este para ator: além dos intérpretes de Amor?, Fernando Bezerra, que interpreta o aposentado em Transeunte, é favoritíssimo. Transeunte, além da direção de Rocha, tem na fotografia, de Miguel Vassy, outro ponto forte. Aliás, vários trabalhos mostraram fotografias inspiradas. Até mesmo o pretensioso e equivocado Os Residentes, apresenta um trabalho fotográfico dos mais interessantes, assinado pelo veterano Aloysio Raulino.
Entre os curtas, os melhores são A Mula Teimosa, Acercadacana e Angeli 24 Horas.
Paixão de trapo e farrapo, que funciona aos tapas e beijos? É mais ou menos o mote central de Amor?, de João Jardim, mix de ficção e documentário muito aplaudido pelo público do Cine Brasília. João parte de uma pesquisa com pessoas que viveram relacionamentos marcadas pela violência física e, a partir desses casos reais, faz atores e atrizes interpretarem as histórias. O modus operandi dialoga com o já clássico documentário de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, no qual atrizes interpretam relatos reais. “Com a diferença de que o filme do Coutinho joga com a ambiguidade entre realidade e encenação, ao passo que no meu é dito que tudo é encenação, logo de início”, diz o diretor.
Amor? (assim mesmo, com ponto de interrogação) tem alguns momentos fortes, em especial graças à atuação de intérpretes como Angelo Antonio, Liliam Lemmertz, Silvia Lourenço e outros, que emprestam credibilidade e dramaticidade às falas. Com pouca variação, a situação visual buscada é monocórdia: o ator ou atriz visto de frente, às vezes de perfil, dando seu depoimento. Há cenas fora desse quadro, mas são minoria. É um filme da fala. E do rosto do ator como tela das emoções. E no que consistem esses depoimentos? Em histórias nas quais as notas do amor e do desejo se entrelaçam com as da violência física.
Impossível não se identificar ou não se sentir tocado com algumas dessas falas. Falta a outras, no entanto, transcendência para que as sintamos como nossas. São algumas histórias mais fortes do que outras? Em certo sentido, sim. Mas o que decide, no fim, é a maneira como são revividas pela intermediação de um ator. Ou seja, é o ator (ou a atriz) que detém a chave da coisa. Isso para falar de cada “episódio”, de maneira isolada. Em seu conjunto, o filme fala da humana possibilidade de que o amor flerte com a morte, que Eros peça Tânatos em namoro, como o velho Freud havia descrito tantos anos atrás. Um filme de bom nível, embora talvez se pudesse pedir um aprofundamento maior das histórias. Sente-se, às vezes, falta de densidade.
Ao todo, são oito relatos, sete heterossexuais, apenas um relembrando a turbulenta relação entre duas mulheres. Esse caso de amor lésbico, com todas as suas complicações, paixões e preconceitos envolvidos, é um dos que atingem maior grau de densidade emocional em todo o conjunto de histórias. Silvia Lourenço e Fabíula Nascimento interpretam o casal, mas nunca interagindo. Cada uma delas conta, em separado, sua versão da história. Às vezes uma atriz faz um ou outra das personagens, o que cria uma ambivalência interessante.
Em todo caso, Amor? foi bem aplaudido no final, palmas que continuaram durante os créditos, quando são apresentados os intérpretes, muitos deles rostos conhecidos da televisão como Du Moscovis, Lilia Cabral, Mariana Lima e Julia Lemmertz. Afinal, num festival de iniciantes, foi a única oportunidade de os frequentadores do Cine Brasília aplaudirem rostos conhecidos. Algum desses intérpretes estará entre os premiados com o Candango de melhor ator ou atriz? É possível e até provável, mesmo porque o melhor do filme de João Jardim é mesmo o elenco, seja ele Global ou não.
Os curtas da noite também foram bons, em especial A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Hélio Vilela Nunes (SP), história infantil deliciosa sobre a convivência de dois meninos, um da cidade outro do campo. Um tem problemas com a mula que empaca, o outro, o filho do patrão, traz como brinquedo uma maravilha tecnológica, um aviãozinho acionado por controle remoto. O encanto está na maneira como as duas realidades distintas dos garotos se encontram e dialogam. Inspirado, o filme se resolve só nas imagens, sem diálogos.
Café Aurora, de Pablo Polo (PE), investe num visual sofisticado para dar conta de um entrecruzamento de experiências. Um garçom se encanta pelo o mundo das esculturas, enquanto a artista plástica saboreia mais do que o ótimo café feito por ele. Refinado.
A esta altura, vocês já devem saber que Mario Monicelli morreu. Tinha 95 anos. Jogou-se de um hospital em Roma, onde se tratava de um câncer de próstata. Terminal, dizem, e assim Mario resolveu sair de cena a seu modo.
Soube da morte de Mario por um amigo, pouco antes da sessão no Festival de Brasília. Avisei o jornal e entrei no cinema, mas volta e meia a imagem daquele velhinho tão lúcido e cheio de energia me voltava à cabeça. Vi-o muitas e muitas vezes no Festival de Veneza, do qual era habitué. Tive oportunidade de conversar com ele algumas vezes, . Era muito agradável, divertido, espirituoso, cheio de verve e ironia, como seus melhores filmes. Um italiano como já não se fabrica.
Uma vez estávamos Leon Cakoff, Renata e eu jantando no restaurante Quattro Fontane, no Lido, quando ele passou ao nosso lado. Falamos com ele e o convidamos para vir a São Paulo. “Mas o que vou fazer em São Paulo?”, respondeu com aquela franqueza rude que era sua marca registrada. “Vamos prestar uma homenagem ao senhor, maestro”, disse Leon. A vaidade é humana. Monicelli sorriu e disse que assim talvez fosse. Não deu tempo. Pena
Hoje não quero escrever sobre Mario. Tenho um perfil inédito dele, feito em Veneza, que não foi publicado pelo jornal, pelas razões insondáveis de sempre. Um dia coloco aqui. Por ora, minha homenagem é lembrar alguns dos meus filmes preferidos:
O Incrível Exército Brancaleone
A Grande Guerra
Parente É Serpente
Un Borghese Picolo Picolo
Os Eternos Esquecidos
Tá bom assim? Deu para sacar a quantidade de alegria que devemos a este homem?
Grazie, maestro.
A cópia restaurada de Leão de Sete Cabeças, de Glauber Rocha, foi é das atrações fora de concurso do Festival de Brasília. O filme foi rodado no Congo e havia muitos anos não era visto no País. A única cópia que por aqui circulava era dublada em italiano. Agora tem-se a versão original, falada em várias línguas. No original chama-se Der Leone Have Sept Cabeças e fala do processo do colonialismo na África e em todo Terceiro Mundo.
Cabeças Cortadas
O próximo filme a ser restaurado pelo programa de recuperação da obra de Glauber Rocha será Cabeças Cortadas, filmado na Espanha. A informação é do cineasta Joel Pizzini, que integra a curadoria do restauro da obra de Glauber, junto com a filha do diretor, Paloma Rocha. Ambos estão em Brasília.
As histórias humanas de O Céu sobre os Ombros são tão incríveis que parecem inventadas por um roteirista de imaginação fértil. Uma delas é sobre uma transsexual, formada em psicologia, professora universitária e prostituta. Outra, mostra um adepto da seita Hare-Krishna, que também é líder da Galoucura, a fanática torcida organizada do Atlético Mineiro, cozinheiro de restaurante natural e atendente de telemarketing. A terceira é a de um angolano com veleidades literárias, escritor inédito, que nunca trabalhou em sua existência e pai de um filho deficiente.
Seres extraordinários, não porque tenham feito algo de tão grandioso assim, mas porque mantêm uma posição excêntrica em relação à norma e inserem-se no mundo social de maneira muito particular. O diretor, que integra a produtora mineira Teia, fez teste com uma série de possíveis personagens e escolheu aqueles que tivessem melhores histórias e também se relacionassem bem com a câmera. No filme, interpretam-se a si mesmos. E com muita convicção.
Desse modo, a transsexual Evelyn, o hare krishna Bogus e o escritor angolano Lwei Bakongo veem-se através dos papéis que vivem na tela. Este filme é um documentário sobre três pessoas um tanto fora do esquadro? Uma ficção sobre o lado B da sociedade? Sim, mas, mais provavelmente, desenvolve um processo que se pode chamar de autoficção, no qual as pessoas interpretam seus papéis sociais, não exatamente como eles são, mas como os percebem diante dessa testemunha nada imparcial que é o olho mágico da câmera cinematográfica.
Nesse retrato formado por autorretratos, existem muitos espaços em branco, vácuos que permitem a respiração das histórias. O bom cinema, como a boa música, é feito de lacunas, de pausas e tempos mortos. Essa noção de ritmo (porque é de ritmo que se trata) encorpa O Céu sobre os Ombros. É exatamente por não sabermos tudo sobre os personagens que eles adquirem espessura e consistência humanas.
Em patamar distinto trafega outro concorrente entre os longas-metragens, o também mineiro Os Residentes, de Tiago Mata Machado. Em registro sub-godardiano, costurado por uma infinidade de referências cinematográficas (Cassavetes, Eustache, etc.), o filme, com seu artificialismo, levou a platéia do Cine Brasília a tal exasperação, que, no meio da projeção alguém gritou: “Volta, Bressane”. A súplica se endereçava a outra das referências de Os Residentes, o cineasta Julio Bressane, o “sr. Brasília”, pois já venceu quatro vezes o prêmio principal. Bressane é conhecido por seus filmes tão obrigatórios como difíceis. Às vezes é complicado assimilá-los, mas a recompensa é grande. De Os Residentes e seus personagens ilustrativos de teses do diretor, sobra apenas a sensação de vazio.
A mostra de curtas-metragens continua a apresentar filmes interessantes, embora até agora nenhum pareça excepcional. Uma boa surpresa foi Acercadacana, de Felipe Calheiros (PE), sobre a extinção das pequenas propriedades na Zona da Mata de Pernambuco sob a ação das grandes usinas de cana de açúcar, produtoras de álcool.
O filme mostra como os pequenos proprietários foram sendo “convidados”, por meios nada civilizados, a deixar lotes de terras ocupados por suas famílias há várias gerações. Ouve personagens, a principal sendo Dona Maria Francisca, sertaneja disposta, que defende sua gleba de meio hectare como uma leoa. O mérito do filme não é apenas focar uma situação de injustiça, mas explicitar relações de poder presentes no conflito de forças desiguais. É filme político. Feito por jovem, o que significa que nem tudo está perdido.
Braxília, de Danyella Proença (DF), traz um personagem incrível da cidade – o poeta e agitador cultural Nicolas Behr. Com seus longos cabelos contraculturais, Behr veio de Cuiabá para Brasília nos anos 70 e mantém com a cidade um caso intenso de amor crítico. Acha que Brasília é uma utopia traída e toda vez que ela respira segundo sua inspiração original torna-se “Braxília”, um não-lugar feliz. Sua vocação melhor é a intervenção poética e o filme traduz graficamente essa disposição de espírito.
O outro filme da cidade, Falta de Ar, de Érico Monnerat, prefere voltar ao tempo da ditadura militar. Faz um paralelo entre um personagem que agoniza por problemas respiratórios e presos políticos torturados com a técnica do afogamento.
Matinta, de Fernando Segtowick, é o primeiro curta-metragem paraense a concorrer em Brasília e vem todo impregnado de espírito amazônico. Filmado na floresta, traz a lenda da Matinta-Perê (Matita, segundo outra variante), ser imaginário que pode adotar diversas formas ao atacar as pessoas. No elenco, a paraense Dira Paes, atriz global e musa do cinema independente brasileiro. O filme agrada pela singeleza de sua realização.
Muito se falou sobre reforma agrária no debate de Acercadacana. Mas veio à tona também a depredação das cidades brasileiras pela especulação imobiliária. Durante o debate, o diretor Felipe Calheiros falou de um interessante projeto coletivo que está sendo levado no Recife, uma das cidades-vítimas da predação. O projeto foi batizado de Torres Gêmeas e consiste no seguinte: artistas conhecidos e anônimos são convidados a enviar para o site www.projetotorresgemeas.wordpress.com imagens e vídeos mostrando intervenções imobiliárias desastrosas para a cidade. O material será editado e transformado em filme, sem que o montador saiba quem são os autores das imagens. O título vem da dupla de arranha-céus construída no bairro de São José, emblema da filosofia de expansão imobiliária adotada pela cidade.
Brasília continua seguindo uma chata tradição dos festivais: equipes enormes sobem ao palco para apresentar seus filmes, fala-se demais e abusa-se da paciência do público. Mas o recorde de falatório aconteceu com uma equipe reduzida, a do curta Acercadacana, de Felipe Calheiros. A personagem do filme, a agricultora Maria Francisca, que vê seu sítio ameaçado por uma usina de cana, transformou o palco do Cine Brasília em palanque. Ela tem toda razão em suas denúncias. Mas falou tanto e tanto que quase levou o público ao desespero.
Hollywood no Cerrado, dos professores da UnB Armando Bulcão e Tania Montoro, pode ser considerado o filme mais encrencado dos últimos tempos no Distrito Federal. Anunciado na programação do ano passado, não foi exibido. Neste ano, a mesma coisa. Estava programado para o Cine Brasília, mas será lançado apenas em DVD pois a cópia não ficou pronta. O tema é dos mais interessantes: atrizes de Hollywood que compraram fazendas em Goiás, nos anos 40 e 50, nas quais vieram residir na aposentadoria.
Se pretensão pagasse dividendos, a equipe de Os Residentes, de Tiago Mata Machado, sairia rica de Brasília. As falas foram um pouco reflexo do filme que ontem se viu ontem no Cine Brasília – uma meia sola de Godard, alinhavada com outras referências a Cassavetes, Eustache, etc, etc, etc e tal. O diretor, no palco, disse que vinha trazer oxigênio ao cadavérico cinema brasileiro contemporâneo, “presa do realismo”, segundo Tiago.
No debate, não dava respostas, pronunciava conferências, em que uma citação ligava-se a outra, de maneira um tanto aleatória. Uma atriz disse que não poderia responder sobre determinada cena, “para não quebrar o mistério”. Tiago decretou que a crítica teria de se habituar a esse tipo de filme. Foi aplaudido pela equipe. E foi por aí.
A falta de disposição ao diálogo talvez sinalize que o filme não precisa ser discutido. Ou que seria indiscutível. Quem falou e disse no final, foi a produtora (cujo nome me escapa) , que disse que os espectadores deveriam se reportar à dissertação de mestrado de Tiago, sobre Godard, para de fato compreender o trabalho dele.
Então tá.
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