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Luiz Zanin

Um Novo Caminho foi a “tradução” encontrada no Brasil para Le Dernier pour la Route, filme de Philippe Godeau. Poderia, sem prejuízo, ser vertido para algo como “A Saideira”, não fosse o empenho moralizante com freqüência embutido na temática do alcoolismo. E isso, diga-se, num filme bastante límpido, que trata o problema do álcool sem qualquer viés moral, e o vê como um problema de dependência química e psicológica. Sobretudo como algo ligado à disfunção afetiva, como comprova a história de Hervé (François Cluzet) que tem tudo para ser feliz, mas destroi-se pela bebedeira contumaz.

Internado, ele irá conhecer uma mocinha problemática, bem mais jovem e complicada do que ele. O filme mostra o tratamento e os dramas pessoais em tom documental, bem despojado e isento. Nem por isso é menos envolvente. Beneficia-se da mão segura do diretor e, sem que isso pareça contraditório com o tema, a sobriedade de François Cluzet, ator de muitos recursos expressivos, que utiliza com economia.

(Caderno 2, 30/7/10)

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Amigos, recebi e-mail do produtor Solano Ribeiro sobre o documentário de Ricardo Calil e Renato Terra. Com a permissão dele, reproduzo-o abaixo.

Jean-Luc Godard chegou a declarar que documentário era a verdade em 24 quadros por segundo. Grande mentira. Por mais verdadeira que seja a captação, as imagens passarão pelas mãos do montador, este sim autor da “verdade” exibida. Você bem conhece os segredos da edição. Falo em função da menção que fez de minha frase na crítica sobre o documentário Uma Noite em 67 – “Um bom show de TV”. Resposta à pergunta não editada: “Naquele momento você sabia estar fazendo história?” Omissão que transforma e diminui minha participação naqueles eventos. O documentário mostra o momento e o depois. Falta um antes, cujo teor, embora registrado nas quase 12 horas gravadas na minha casa, não foi usado na versão final. Falta o relato de meus papos com Caetano e Guilherme Araújo, então seu empresário, sobre a necessidade da MPB deixar de lado sua temática campestre/praieira e olhar para as cidades e seus temas urbanos, aliados ao que acontecia naqueles tempos de “Lucy in the Sky with Diamonds” quando a “Alegria…” do Caretano, depois de prolongado jantar no então Deck da Av. 9 de Julho, contrapôs “…sem lenço e sem documento”. Das tardes onde Chico de Assis, Rogério Duptrat e eu tentávamos fazer com que os “The Six Sided Rockers”, em seguida Mutantes, tocassem moda de viola em suas guitarras. O caminho escolhido por Renato Terra e Ricardo Calil resultou num bom trabalho, mas para quem sabe, está faltando alguma verdade.

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SERGIO RICARDO

Os diretores de Uma Noite em 67, Renato Terra e Ricardo Calil, não eram nascidos quando as paixões musicais e políticas ferviam no Teatro Record Centro, o antigo Teatro Paramount, lá na Avenida Brigadeiro Luis Antonio. Não eram nascidos, mas hoje admiram os protagonistas daquela aguerrida batalha musical-ideológica típica dos anos 60 – Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Correndo por fora na lista de admirações, Sérgio Ricardo, o “vilão” da noite, que, implacavelmente vaiado por seu Beto Bom de Bola, quebrou o violão e atirou-o sobre a plateia.

Aqueles eram tempos, parecem dizer os diretores, quando um festival de música popular podia atrair a atenção do público de uma maneira tão fervorosa quanto uma partida final de Copa do Mundo. O clima era mesmo de antagonismo e aquilo que estava programado para ser apenas “um bom show de TV”, segundo um dos seus idealizadores, Solano Ribeiro, deixou-se gostosamente invadir pelas polêmicas do período. Ponto para os diretores que, embora não tenham vivido a época, foram sensíveis às suas contingências históricas.
Quais eram? Duas em especial, e interligadas. Primeiro, a insatisfação com a ditadura militar instaurada em 1964 e, em 67 se encaminhando para o acirramento, o que aconteceria no ano seguinte. Segundo, a controvérsia entre a cultura “genuinamente” brasileira e a abertura para a música pop internacional. O público dos festivais, universitário em sua maioria, era todo contra o regime: as músicas de protesto, com seu tom épico e letras contestatórias veladas, falavam em nome desse público. Daí o favoritismo de Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, com sua alegoria revolucionária. Já o segundo tema era um tanto mais controverso.

Podia-se dizer, naquela época, que a guitarra elétrica era emblema do “imperialismo norte-americano”. Mas a originalidade com que Caetano, com seu Alegria Alegria, e Gil, com Domingo no Parque, anunciavam a fusão de linguagens era tão fascinante quanto uma canção revolucionária.

De qualquer forma, esses dois grupos de canções – Ponteio e Roda Viva de um lado, Alegria, Alegria e Domingo no Parque de outro – assinalam os pontos de cisão da música brasileira, dividindo-a entre os puristas de esquerda e os adeptos do diálogo com o pop. A seguir, os primeiros seriam chamados de “velhos e ultrapassados”, embora tivessem 20 e poucos anos de idade; os outros, Gil e Caetano, dariam início ao Tropicalismo, linha evolutiva da MPB sob as bênçãos da vanguarda estética brasileira (entre eles os Campos brothers e maestros como Julio Medaglia e Rogério Duprat).

Num ano em que Glauber Rocha lançava Terra em Transe e Zé Celso montava O Rei da Vela, aquele “simples show de TV”, encenava toda a paixão e todo o drama de um país cindido. É muito bom que o filme tenha captado esse sentido profundo daquela noite de 1967.

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Lope, de Andrucha Waddington, fora de concurso, e o curta-metragem O Mundo É Belo. de Luiz Pretti, na mostra paralela Horizontes: a eles se resume a participação brasileira no 67º Festival de Veneza, que começa dia 1º de setembro na cidade italiana. Na mostra principal, Venezia 67, na qual os participantes concorrem ao Leão de Ouro, nada. Aliás, um único representante latino-americano está presente no concurso principal do mais antigo festival de cinema do mundo – o chileno Post Morten, de Pablo Larraín. Todo o restante é formado por norte-americanos (cinco títulos), europeus (italianos, sobretudo, com quatro concorrentes) e alguns asiáticos. A seleção de Veneza segue assim tendência esboçada nos últimos anos, sob a batuta do diretor Marco Müller.

A Mostra concentra esforços em alguns nomes conhecidos, aqueles que dão prestígio a um festival, como Sofia Coppola, filha de papa Francis Ford, que estará no Lido com seu Somewhere. Outro americano cult é Vincent Gallo, sempre promessa de polêmica e escândalo, que concorre com Promises Written in Water. Gallo é conhecido por filmes como Brownbunny, que chocou Cannes há alguns anos com uma longa cena de sexo oral. Diga-se o que se quiser, tem talento.

Eles são a ponta talvez mais expressiva da alentada delegação americana, composta de cinco títulos apenas no concurso principal – os outros são Black Swan, de Darren Aronofsky (vencedor do Leão de Ouro com O Lutador), Kelly Reichardt , com Meek’s Cutoff e Julian Schnabel com Miral. Considerando que a mostra tem 22 concorrentes, cinco não é número baixo. Pelo contrário. Ainda mais quando se pensa que o time da casa – a Itália – entra com apenas quatro participantes.

La Pecora Nera, de Ascanio Celestino, La Solitudine dei Numeri Primi, de Saverio Costanzo, Noi Credevamo, de Mario Martone, e La Passione, de Carlo Mazzacuratti, são os concorrentes locais. A escolha não se deu sem discussões, como é praxe no país. Até a véspera da divulgação debatia-se se o filme de Puppi Avati, Una Sconfinatta Giovinezza, iria para a competição, como desejava o veterano diretor, ou para uma exibição fora de concurso, como propunha a direção de Veneza. Criou-se impasse. Resolvido de forma radical: Avati não vai de uma forma e nem de outra. Viu-se excluído do festival, ou excluiu a si mesmo, ainda não se sabe.

Se polêmicas antes, durante e depois nunca faltam ao festival italiano, Veneza 2010 chega com algo que pode, de fato, ser considerado inovador na estrutura da sua mostra Horizontes, da qual participa o brasileiro Luiz Pretti. Ela agora abriga “novas tendências” do cinema mundial, sem discriminação de formatos, suportes ou gêneros. Dela participam tanto longas quanto curtas-metragens, sejam documentários, obras de ficção ou animações. Justo: o cinema é um só.

(Caderno 2, 30/7/10)

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toby
Terence Stamp em Tre Passi nel Delirio, de Fellini

Durante muitos anos, Toby Dammit, de Federico Fellini, foi uma espécie de filme secreto. No mínimo, uma raridade. A filmografia do diretor de 8 ½ e A Doce Vida já era arroz de festa na videoteca dos cinéfilos, mas poucos conheciam esse episódio, adaptado de Edgard Allan Poe e parte do longa-metragem Histórias Extraordinárias junto com Metzengerstein, de Roger Vadim, e William Wilson, de Louis Malle. Agora, o filme, completo, pode ser encontrado em DVD, lançado pela Continental.

Os três episódios são adaptações livres dos relatos de Poe contidos no livro homônimo. São, de fato, histórias nada ordinárias, segundo o gosto e estética do autor norte-americano. Um caso de metempsicose ou transmigração de almas em Metzengerstein; o tema do duplo em William Wilson; o desafio às forças diabólicas em Toby Dammit que, aliás, em italiano se chama Tre Passi nel Delírio (Três Passos no Delírio), leitura felliniana do conto Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo.

Nos três casos, é interessante verificar como os relatos passam da literatura ao celulóide dos filmes seguindo a tendência de cada um dos realizadores. Metzengerstein reflete à perfeição a estética kitsh de Vadim e seu gosto pessoal pelas belas mulheres. Não é outro o motivo de transformar em feminino o personagem masculino de Metzengerstein e fazê-lo ser representado por uma então belíssima Jane Fonda, na época mulher do diretor. É a história de duas famílias rivais e próximas. Fonda apaixona-se por seu primo, que não liga para ela. Acaba vítima de um incêndio criminoso por ela própria encomendado. A insinuação é que forças satânicas levam à perdição uma personagem carregada de culpa.

Já Louis Malle adapta William Wilson de maneira muito séria. Talvez até demais. O personagem-título é vivido por Alain Delon e conta, em retrospecto, como desde a infância se vê perseguido por um sósia, que, além do mais, porta o mesmo nome que ele. Um duplo, um döpplegange, essa obsessão, que acompanhou escritores como o próprio Poe, além de Dostoievsky e Borges. Esse duplo se fará presente em momentos cruciais da vida do bon vivant maléfico (outra obsessão, vide o Dorian Gray, de Oscar Wilde, entre outros). Aparece, em especial, quando ele rouba nas cartas para ganhar uma aposta contra a bela jogadora vivida por Brigitte Bardot. O filme tem clima e, comparado ao texto original, mostra como se pode verter para a tela um relato literário sendo ao mesmo tempo fiel e inventivo. A sobriedade e integridade artística de Malle fazem aqui a diferença.

Fidelidade e sobriedade são preocupações ausentes em Federico Fellini, que toma o texto de Poe apenas como ponto de partida e, em cima dele, põe-se a criar livremente. Lógico: dos três cineastas, Fellini é o inventor. Se no conto de Poe Toby Dammit é apenas um anônimo fanfarrão, em Fellini ele se transforma em ator de sucesso inglês que chega à Itália para fazer um filme. Terence Stamp vive o personagem alcoólatra e sua sensação de estranheza já começa no aeroporto onde é recebido pela produção. Toda a atmosfera onírica se insinua e prossegue ao longo do relato, marcado pelo desejo do personagem em pilotar uma Ferrari, a máquina dos sonhos de quem gosta de carros. O fellinimaníaco encontrará com facilidade em Toby Dammit elementos dos principais filmes anteriores do diretor, como os já citados A Doce Vida e o autobiográfico 81/2. O estilo visual é o que se espera de Fellini e o filme ganha com a sempre inspirada trilha musical de Nino Rota.

Parece que Fellini, com seu gênio é, dos três diretores, aquele que melhor captou a essência delirante do texto de Poe. Algo também os aproximava – o “subtexto” psicanalítico da obra do escritor, que encontrava eco num momento da vida de Fellini em que o inconsciente, os sonhos, os desejos reprimidos ganhavam particular importância. Fellini aproximava-se da psicanálise, mas, ainda mais das teorias de Jung, com as quais dialogava com mais facilidade. Segundo o clima da época, também se mostrava inclinado a experiências com drogas, em particular o LSD. Esse é o clima do filme – lisérgico, em todos os sentidos do termo.

A então assistente de direção Liliana Betti, que escreveu um livro sobre Tre Passi nel Delirio, conta que, depois de terminada a filmagem, que durou quase um mês, Fellini convidou Nino Rota para jantar. Durante a refeição, falou com grande entusiasmo de Poe e confessou que somente havia lido o conto dois dias antes – quando o trabalho já havia terminado. Aparentemente, se a o caso for verdadeiro (com Fellini, nunca se sabe) ele havia se baseado apenas em uma breve sinopse e criado em cima do resumo. A idéia de que um blasfemo que evoca o demônio por qualquer motivo acaba por encontrá-lo fora um estímulo suficiente para sua imaginação visual. Baseada, claro, no texto de Bernardino Zapponi, que co-assina o roteiro com Fellini.

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O “diabo”, imaginado por Federico

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Apenas dois brasileiros no Festival de Veneza, e mesmo assim um na mostra paralela Horizontes, o curta O Mundo É Belo, de Luiz Pretti, e outro fora de concurso, o longa-metragem Lope, de Andrucha Waddington. Fica assim adiada, mais uma vez, a luta pelo Leão de Ouro, o único prêmio principal dos três grandes festivais europeus que os brasileiros não ganharam. O País venceu uma vez em Cannes, com O Pagador de Promessas, e duas em Berlim, com Central do Brasil e Tropa de Elite. Em Veneza, nunca. E não será este ano que o tabu será quebrado.

Aliás, quem quiser dar uma olhada na programação completa, clique aqui.

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28.julho.2010 20:08:50

O Gerente de Drummond

Por razões profissionais li O Gerente, conto de Carlos Drummond de Andrade que faz parte do volume Contos de Aprendiz. Sou fissurado (ainda se diz assim?) na poesia de Drummond. É escritor que me acompanha desde a adolescência e comigo seguirá até o fim do caminho. Tenho empatia pelo jeito como escreve. A emoção lá, fervendo, porém dominada por uma contenção, por uma secura que ele mesmo dizia vir de Itabira (“Tantos por cento de ferro nas almas, etc”).

Bom, mas isso se refere à poesia. Gosto muito também do prosador, por exemplo em O Observador no Escritório, mas sei que não está à altura do poeta.

O mesmo pode ser dito a respeito dos contos. No entanto, no entanto…há algo diferente que se desprende desse O Gerente, justo quando estávamos prontos a achá-lo talvez clássico demais, pode ser que machadiano demais, no sentido tardio. E, então, Drummond nos surpreende.

Se vocês não se lembram, é a história do gerente de banco Samuel, que veio de Sergipe, chegou pobre ao Rio, progrediu, tornou-se funcionário exemplar e bem-sucedido. Acontece que uma sina persegue Samuel: ele está presente em várias ocasiões em que mulheres acabam feridas por algum acidente.

A narrativa é póstuma, ficamos sabendo que o pobre Samuel já morreu, de uma prosaica uremia, e deixou um diário lacônico no qual conta algumas de suas poucas aventuras terrestres. E mais não digo. A não ser que o relato boia numa sublime ambiguidade.

É encantador.

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28.julho.2010 13:28:55

Ruído na tradução

Hoje de manhã tomei um café com uma ex-colega de redação. Ela me apresentou o marido e, papo vai papo vem, ele me falou de um livro que acabara de lançar nos Estados Unidos. Perguntei sobre o que era. Ele me resumiu o tema da seguinte forma:

As estratégias de gestão de empresas são basicamente norte-americanas. Foram difundidas pelo mundo todo, de forma acrítica, sem levar em conta culturas locais. Os estrangeiros vêm aos EUA, fazem seus MBAs e aplicam em seus países o que aprenderam. Ou aprendem essas técnicas em seus países, através de outros professores, o que dá na mesma. Aplicam o conhecimento recém-adquirido tintim por tintim. E depois ficam surpresos quando não colhem os resultados esperados.

“É que dados específicos da cultura local não são levados em conta, assim cria-se um ruído”, explicou o marido da minha colega. Um ruído cultural. E deu um exemplo: “numa escola de samba, a adesão dos participantes é total, porque todos fazem parte daquela cultura; numa empresa, isso não acontece”.

Por mais que as corporações tentem vender a ideia de que “estamos no mesmo barco”, “fazemos parte de uma família”, ou de que “isto é um time”, os funcionários sempre ficam com a impressão de que estão sendo vítimas de uma impostura. E não aderem ao projeto da empresa. Não o sentem como seu. Há um ruído na comunicação, algo que se perde na tradução, como no belo filme de Sofia Coppola, Lost in Translation. Que, por sinal, foi muito mal traduzido em português.

O papo todo não durou mais do que cinco minutos. Aprendi muito.

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Viajo porque Preciso Volto porque Te Amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, tem recebido toda a admiração crítica possível aqui no Brasil. Não foi assim nos Cahiers Du Cinéma. Comentando de forma sumária o filme, que participou e ganhou o Grand Prix do Jury no Festival de Toulouse, o crítico Nicolas Azalbert liquidou-o em duas linhas.

“(O filme) nos arrasta pelo caminho de um geólogo que percorre o sertão, no Norte (sic) do país: o clichê, o pitoresco e o folclore reinam soberanos com cinismo e complacência”, escreveu, no número de junho da revista.

E é só. Me pergunto: para fazer tal afirmação, quanto esforço foi necessário ao crítico para nada compreender, nem o mínimo que fosse, deste filme?

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SANTOS

Sabemos que essa primeira convocação de Mano Menezes é apenas um cartão de visitas. Uma simples carta de intenções. No que tudo isso vai dar, iremos ver mais adiante. Mas, por ora, pegou bem. Legal. Gostei. Foi coerente (essa palavrinha…) com os propósitos já expressos de renovação com vistas à Copa de 2014 no Brasil. É, de fato, uma seleção quase nova em folha, pois preserva apenas quatro nomes da fracassada campanha de 2010 – Thiago Silva, Ramires, Robinho e Daniel Alves. O resto é tudo novidade, cheirando a tinta, incluindo a dupla Neymar & Ganso, que tanto fora exigida pela opinião pública na última convocação de Dunga. Como mostrou que veio para mudar, Mano, além deles, incluiu na lista o atacante André, ainda na Vila, mas negociado com o Dínamo de Kiev. (Aliás, a nova presidência do Santos já tem uma façanha a comemorar em sua gestão – vendeu o centroavante da seleção brasileira).

Devemos – e podemos – ver nessa primeira convocação uma tendência, e talvez não muito mais do que isso. Muita água vai rolar até 2014 e o primeiro a saber disso é o próprio Mano. Livre das Eliminatórias, terá de enfrentar a Copa América, um pré-olímpico e a Copa das Confederações, além de amistosos. Nada que indique chapa quente em sua trajetória, a não ser que monte seleções que joguem muito mal e comprometam a sua chegada à Copa. Não deve acontecer isso. Em condições normais de temperatura e pressão, Mano deve mesmo ser o treinador na segunda Copa a ser realizada no Brasil. E com a missão explícita de que a experiência traumática da primeira, a de 1950, não seja repetida. Até lá há um longo caminho.

Como dizia certo líder chinês, toda longa marcha começa por um primeiro passo. E, se esse foi mesmo o passo inicial, o companheiro Mano o deu com o pé direito. Dá para formar com o pé nas costas um bom time com essa base renovada. Sem pensar muito: Vítor, Thiago Silva e Henrique; Daniel Alves e Marcelo; Lucas, Hernanes, Ganso e Carlos Eduardo, Neymar e Pato. É time de respeito, jovem, talentoso e pode jogar de maneira interessante.

Existem variantes e possibilidades diferentes de montar esse time-base com os 24 convocados. Isso não quer dizer que esses jogadores sejam as únicas opções. É bem possível que outros náufragos da campanha de 2010 sejam ainda resgatados. Por exemplo, não é justo que Julio Cesar seja descartado apenas pela falha no gol da Holanda. Parece também pouco provável que Kaká, se voltar à forma ideal, fique de fora do time. Isso para citar apenas dois. Algum continuísmo não faz mal nenhum à renovação. Pelo contrário. Até revoluções preservam alguns quadros do regime deposto porque são eles que conhecem o funcionamento da máquina administrativa. Veteranos podem dar segurança aos novatos, pelo menos nos primeiros tempos. Mas, se a ordem era renovar, Mano a cumpriu à risca.

Definidos esses primeiros nomes, o principal será ver se a seleção voltar a jogar um futebol digno da tradição brasileira. Esse, para mim, é o ponto principal. O estilo de jogo. A Copa da África e o bom senso já deviam ter nos levado a engavetar essa discussão tola entre futebol-arte e futebol de resultados. O que existe é futebol bem jogado, e ponto. Quando um time joga bem, tem tudo para vencer e encantar, ressalvada a imprevisibilidade característica desse esporte. Vários times históricos (o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, etc.) jogaram muito bem, e venceram. Para não ficar no passado: o Santos do primeiro semestre resgatou a arte de jogar bola com alegria, e com isso conseguiu resultados.

Tomara Mano consiga devolver à seleção esse prazer juvenil de brincar com a bola. E brincando, ser séria e eficaz. Estamos na torcida.

(Coluna Boleiros, 27/7/10)

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