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Luiz Zanin

30.dezembro.2009 23:49:43

Os (meus) melhores de 2009

Este ano o jornal me pediu um texto diferente para a retrospectiva 2009, no lugar dos tradicionais melhores do ano. A inovação é bem-vinda, mas como o costume também tem seus direitos, resolvi dar uma interrompida nas férias e postar os meus preferidos do ano. À moda antiga.

Com algumas ressalvas. A principal: não tenho a lista completa dos lançamentos. A memória não é grande coisa e tive de confiar nessa ingrata mais do que gostaria. Para contornar a falta de registro, dei uma olhada na minha agenda para lembrar dos filmes através das cabines marcadas. Com um outro tipo de problema: não sou lá muito organizado em termos de agenda. Às vezes marco um compromisso no papelzinho e depois jogo fora.

Além disso, passei boa parte do ano viajando. Alguns filmes importantes podem ter passado sem registro apesar de tê-los visto. Perdões antecipados. Com o que pude lembrar, a lista do que me pareceu digno de ser lembrado ficou assim, e sem hierarquias:

ESTRANGEIROS:

Bastardos Inglórios, como celebração do desejo de cinema, sentimento que se transmite ao espectador.

Anticristo: a radicalidade, o sentido profundo da ambigüidade humana. Fica com você, embora às vezes fosse preferível esquecer.

Almoço em Agosto: a simplicidade, um retorno ao antigo cinema italiano.

O Desinformante: mais complexo e rico do que muita gente achou.

A Teta Assustada. Na primeira vez me chapou; na segunda, achei meio folclorizante. Mesmo assim, legal.

Che 2. Também pichado por muita gente boa. Se for visto como parte de um díptico, melhora muito. E seu sentido muda.

O Equilibrista: um senhor documentário sobre o Philippe Petit, o maluco que atravessou o espaço entre as torres gêmeas num cabo de aço. Conheci a figura no Amazonas.

Gran Torino: ah, Clint, se todos fossem iguais a você…

A Janela: a intensidade despojada de um certo cinema argentino.

Desejo e Perigo: Ang Lee suntuoso e erótico, intenso e violento, melhor do que na história dos caubóis gays.

Inimigo Público: cinemaço.

Abraços Partidos: outro Almodóvar, de corpo e alma. O corpo é de Penélope Cruz. Pensando bem, a alma também.

Horas de Verão: há vida no cinema francês. E muita vida.

Entre os Muros da Escola: o mundo, sua beleza e suas contradições,na sala de aula.

A Partida: filosófico, à maneira oriental. Diz respeito a todos nós, pois ninguém escapa àquilo que forma seu tema de base.

NACIONAIS:

A Erva do Rato: um Bressane inspirado e preciso, como um texto de Machado. As usual.

Moscou: mais uma vez Coutinho deu um nó em todo mundo. Em especial em admiradores, certos de que ele havia encontrado “a” fórmula. Puxou o tapete de todo mundo.

Se Nada mais Der Certo: cinema hiperbólico, intenso, cheio de estilo de Belmonte, cineasta que deveria ser mais amado.

É Proibido Fumar: Anna Muylaert gosta de mudar de registro e direção no meio da história. Quem não gosta de surpresas, estranhas. Eu gosto. Pelo menos das boas surpresas e este filme foi uma delas, neste ano absurdo.

Jean Charles: um pouco discursivo em certas partes, no todo me surpreendeu, no
sentido positivo.

Lóki: é bom demais e não apenas pelo personagem (que aliás é ótimo).

Simonal: idem, só que o personagem é meio dúbio e o filme não esconde isso.

Cidadão Boilesen: No Brasil não se pode falar em resgate histórico, senão é revanchismo. Mas o cinema, que não deve nada para ninguém, tem o dever de tirar os esqueletos do armário. Literalmente.

Entre a Luz e a Sombra: Sete anos de dedicação para mostrar um Brasil que pouco compreendemos. Talvez o filme tenha alguns problemas, mas seus méritos os ultrapassam de longe.

À Deriva: meteram o pau no diretor, mas não é minha opinião. Fez um filme maduro, envolvente, muito bem dirigido.

Budapeste: talvez o mais bonito filme brasileiro do ano. Cada plano é uma obra de
arte. Às vezes parece tão plasticamente belo que se torna artificial, e então perde vida. No todo, impressiona bem.

Juventude: também foi vítima de implicância – “é filme de velhinhos assanhados, etc.” E daí? O único jeito de não ficar velho é morrer jovem. E já que é para ficar velho, melhor que seja com certo assanhamento, não é não?

Termino com um voto secreto, que agora torno público: tomara em 2010 os críticos sejam um pouco menos arrogantes e parem de dizer (escrever): tal filme é o melhor e aquele é o pior. De forma explícita ou oculta, todo juízo crítico é escrito em primeira pessoa do singular e lucraríamos em ter consciência disso. Vamos baixar a bola, galera!

É isso aí. Ótimo 2010 a todos.

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Em uma de suas últimas entrevistas, Roberto Bolaño (1953-2003) disse que se não fosse escritor gostaria de ter sido detetive criminal. Em se tratando de Bolaño, chegado à paródia, à ironia e às pistas falsas, essa afirmação, como outras, não pode ser levada ao pé da letra. Mas talvez forneça uma pequena pista para entender o fascínio que tem exercido a literatura desse chileno, morto prematuramente de uma doença no fígado aos 50 anos. Bolaño trata de muitas coisas em suas obras, mas fala, principalmente, de literatura. Os seus heróis são heróis literários, o que poderia redundar em tramas reservadas aos iniciados. Não é assim. E não é porque as histórias em que esse literatos (em geral poetas) se envolvem podem ser lidas como tramas detetivescas.

Há sempre um – em geral mais de um – mistério que os personagens se empenham em resolver. Como nas tramas policiais, também a “verdade”, nos textos de Bolaño, é algo de virtual, a ser perseguida sem que se tenha qualquer certeza de que se poderá contemplá-la por completo. A verdade parece estar sempre na linha do horizonte, afastando-se à medida em que dela parecemos nos aproximar.
É assim neste intrigante romance A Estrela Distante, que acaba de ser lançado pela Cia das Letras, editora que publicou em português outros livros do escritor como Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile, Pista de Gelo, Putas Assassinas e promete, para o ano que vem, o testamento de Bolaño, o gigantesco 2666, com cerca de 1200 páginas.

Trama detetivesca? De fato, quem seria essa pessoa dupla de que trata o livro? O candidato a poeta Alberto Ruiz-Tagle, ou talvez o tenente da Aeronáutica Carlos Wieder, escritor e também torturador e assassino após o golpe de Pinochet? Quem sabe a verdade sobre esse personagem? De certa forma, em A Estrela Distante, a narrativa será movida pela tentativa de resposta a essa pergunta. A perseguição – metafórica e literal – a esse personagem, que se afasta do leitor/narrador como se afastam cada vez mais as galáxias entre si.

O título faz menção a essa narrativa em fuga, e remete ao fenômeno cósmico da recessão das galáxias, com os conglomerados de estrelas cada vez mais distantes uns dos outros. No livro, personagens se desvanecem à medida em que deles parecemos nos aproximar. Narrativa em várias vozes, embora haja uma, predominante, a do narrador, também ele um candidato a poeta, um dos alteregos do próprio Roberto Bolaño: Arturo Belano, que surge em Estrela Distante e reaparece no livro que torna Bolaño uma celebridade do meio literário – Os Detetives Selvagens.

Narrativas saem de narrativas, e essa é uma das características marcantes da obra de Bolaño, um pouco à maneira de Borges e dos pós-modernos. Assim, a história de Tagle-Ruiz/Carlos Wieder brota do último capítulo do primeiro romance publicado de Bolaño – La Literatura Nazi en America (1996), ainda inédito em português. Nele, Bolaño traça uma série de perfis imaginários de supostos simpatizantes do nazifascismo na América do Sul – à maneira de Vidas Imaginárias (1896), do francês Marcel Schwob e da História Universal da Infâmia (1935), de Jorge Luis Borges – parentesco literário apontado pela professora Laura Janina Hosiasson em seu ótimo artigo na revista Brasileiros.

É bom que se diga que, em Bolaño, esse gosto pelas vidas imaginárias e citações ocultas se complementa com a presença de personagens e fatos reais, inclusive do meio literário, como o poeta chileno Pablo Neruda e o mexicano Octávio Paz, apenas para citar os mais famosos entre uma galeria de outros escribas. A eles se unem figuras soturnas de militares e ditadores, em especial a do general Augusto Pinochet, que derrubou o presidente Salvador Allende em um golpe de Estado dia 11 de setembro de 1973. A data marca a grande fratura histórica e cultural do Chile, que vitima toda uma geração da qual Bolaño faz parte.

A participação do Bolaño real nos desdobramentos do golpe é controversa. Há a versão que Bolaño, já radicado no México desde a adolescência, teria voltado ao Chile durante o governo da Unidade Popular, quando então foi surpreendido pelo golpe. De acordo com essa variante da história, Bolaño teria sido preso e libertado pela milagrosa interferência de amigos que apoiavam o novo regime. Dessa forma, teria escapado para a Espanha, onde viveu e escreveu até morrer. Outras correntes afirmam que essa versão seria baseada mais na trajetória dos alteregos literários do que em fatos reais. Enfim, dada a repercussão internacional (inclusive nos Estados Unidos, em geral pouco receptivos a autores de fora do cânone anglo-saxão) da obra de Bolaño, não deve demorar a surgir algum biógrafo para colocar os pontos nos iis.

Se é que um esclarecimento total será possível pois, ao que parece, o próprio Bolaño cultivava certa mitologia em torno de si mesmo. De qualquer forma, a sua parece ter sido uma trajetória de certa forma clássica de um jovem candidato a artista na América Latina dos anos 1960 e 70. Jovem de esquerda, cuja existência é cortada por uma ditadura militar, parte para uma existência precária em vários países, a obra sendo escrita na penumbra, até que (e aqui as coisas começam a sair do previsível) os textos começam a ser publicados, vêm o reconhecimento, os prêmios, o sucesso repentino, a doença e a morte não menos inesperada. Não é culpa sua se a sua própria vida se pareça tanto com a de alguns dos seus personagens.

O mais notável é que, em meio a esse suposto caos existencial e político, Bolaño pudesse escrever febrilmente. Ao morrer, deixou quatro livros de poesia, três de contos, doze romances e alguns dispersos como textos de conferências, ensaios e artigos menores. Seu romance póstumo – 2666 – tem cerca de 1.200 páginas. Bolaño havia projetado lançá-lo em três volumes, mas a família preferiu publicá-lo em um só livro.

Produção grande e concentrada no tempo – e também intensa quando tomada em cada texto em particular. Bolaño escreve como tomado por uma febre (o que não exclui o trabalho intenso de elaboração que neles se pressente). Os personagens se sucedem e engendram histórias particulares, que ganham foros de autonomia, mesmo numa obra sintética como Estrela Distante, de apenas 144 páginas. À essa capacidade imaginativa se somam um domínio vocabular invejável e um corte de frase notável. O texto flui e arrasta consigo o leitor. Se Bolaño mescla personagens reais e imaginários, também mistura os vários níveis possíveis do idioma. Pode passar da norma culta ao estilo popular, e mesmo ao chulo, com imensa facilidade. Passa do realismo ao registro onírico, e mesmo alucinatório, com naturalidade. Joga-se na estrutura labiríntica da narrativa, mantendo o controle sobre o conjunto com mão de mestre. Em suma, é um escritor raro e estupendo.

Mais ainda porque, irônico e paródico, não se esgota em jogos de linguagem estéreis, mas permite que a experiência histórica infiltre-se generosamente pela narrativa. Experiência histórica da dor, transformada em sarcasmo quando, por exemplo, em Noturno do Chile, um professor leciona marxismo-leninismo à junta militar para que ela possa melhor combater o inimigo. Ou em Estrela Distante, nessa radical estetização da barbárie, quando o dublê de poeta e torturador promove uma exposição de fotos das suas vítimas. Tem-se aqui, nessa passagem do livro, uma experiência literária tão avassaladora como aquela proporcionada por O Náufrago, de Thomas Bernhardt. Bolaño instala-se na dissonância radical da História e a transforma em prosa poética iluminadora.

(Caderno 2, 15/12/09)

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Gostei da conquista do Flamengo. Não é meu time, mas simpatizo com o Mengão, até por razões familiares e de amizade. É time do povo, etc. E também acho saudável para o futebol brasileiro que as longas hegemonias, regionais ou clubísticas, caiam. Senão, tudo acaba ficando chato e previsível. Mas elas têm de cair dentro de campo, como agora, não por uso de expedientes ou golpes baixos.

Há um outro aspecto nessa vitória do Flamengo que fala a este coração, já chamado, para meu deleite, de “romântico”, como se fosse insulto.

Hoje em dia, no futebol, fala-se muito, demais até, em estrutura, planejamento, planilhas, gráficos, estatísticas e outros bichos do gênero. Presta-se mais atenção no fluxo de caixa, organogramas e níveis hierárquicos de um clube do que nas belas jogadas de um boleiro. Ou em algum um gol fenomenal – como o do palmeirense Diego Souza no Atlético Mineiro, que nasceu clássico, mas acabou em segundo plano diante da débacle do seu time na reta final do campeonato.

Pois bem: o Flamengo não apresenta nada disso que os tecnocratas da bola consideram fundamental. Não possui grande estrutura, seu endividamento é crônico, troca de técnico no meio da temporada (neste ano quase todos trocaram, aliás), vive em permanente turbulência política. O que um time desse tem para ser campeão? Tem alguns jogadores acima da média, como Petkovic e Adriano, um técnico-boleiro que não complica a vida de ninguém e, sim senhor, uma imensa e apaixonada torcida a empurrá-lo. “Só” isso. E bastou. A vitória do Flamengo no Brasileirão é a volta a algumas verdades elementares do futebol, anteriores ao Gênesis, e que ficaram soterradas por décadas de chatíssimo, pedante e emburrecedor pensamento tecnocrático.

Estarei com isso fazendo a apologia do improviso e da desorganização? Longe de mim a heresia. Quanto mais ordem e planejamento, melhor.Ninguém vai discutir a importância da “estrutura” – essa palavra mágica na boca dos jogadores quando se referem ao Eldorado, quer dizer, à Europa. Nem tenho nada contra a responsabilidade econômica na gestão dos clubes. Acontece que nada disso substitui o que é ainda fundamental no jogo da bola – o sentido de grupo, o talento individual, a união entre time e torcida. Foram esses fatores que levaram o Flamengo ao título e não a articulação política de um dirigente esperto, a planilha de um gerente iluminado ou a genialidade tática de um treinador. O título do Flamengo pode ser até uma notável exceção, mas devolve ao futebol o que é do futebol e diz respeito à sua natureza mais profunda, se me perdoam a redundância.

O que fica desse Brasileirão? Ficam essa conquista do Flamengo, estatisticamente improvável segundo os matemáticos; a luta comovente e bem-sucedida do Fluminense para se livrar da degola; a dor dos rebaixados e a euforia dos que ganharam alguma coisa. Por fim, a decepcionante trajetória do Palmeiras, que começou como time da moda e nem vaga na Libertadores obteve. Ficam essas coisas simples e humanas, não a bobajada pseudo-tecnocrática que nos despejam durante o ano inteiro.

É que, no futebol, como em outros domínios da existência, temos trocado o essencial pelo acessório com a maior frivolidade. Invertemos prioridades e perdemos o sentido do que é importante e do que não é. De vez em quando acordamos. Em seguida, voltamos a dormir.

(Coluna Boleiros, 8/12/09)

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08.dezembro.2009 11:19:38

Lula na Paraíba

JOÃO PESSOA – Lula, o Filho do Brasil abriu ontem o Fest Aruanda, no cinema do Hotel Tambaú. Lotado, autoridades (governador, prefeito e reitor da Universidade Federal da Paraíba), e ótima recepção do público. Foi uma sessão melhor do que a que havia visto em Brasília. Menos tumultuada, qualidade de som e imagem melhor.

Revisto, Lula apresenta os mesmos defeitos, mas algumas qualidades ficam mais visíveis. É curioso como existem problemas que, em tese, seriam fáceis de resolver, como algumas cenas constrangedoras (várias com o “pai” de Lula, vivido por Millen Cortaz) e a trilha sonora massacrante.

Porém, revistas, as qualidades se evidenciam: as cenas do Lula sindicalista, o bom rendimento geral do elenco, a fotografia nunca óbvia. Pena que o contrapeso sejam alguns diálogos muito ruins e a tentativa de açucarar demais a história. Algumas passagens poderiam ter rendido melhor, como as cenas da vida operária, os namoros nos bailes dos trabalhadores, etc. Mas, então, teria sido preciso uma vivência e empatia maiores com esse modo de vida.

Por outro lado, a montagem das cenas de assembléia e enfrentamento com a polícia, mesclando imagens encenadas e outras reais (tiradas de documentários), funcionam muito bem. Emocionam, e saem fortalecidas por esse diálogo com o documental.

Essas são questões analíticas, que se pensam depois de terminado o filme. Enquanto ele está rolando, vê-se o todo. E a esse todo assiste-se muito bem. Mesmo pela segunda vez.

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As três mais importantes peças de Arthur Miller – A Morte de um Caixeiro Viajante, As Bruxas de Salem e Panorama Visto da Ponte – ganharam versões para o cinema. São, como se poderia prever, os pontos altos da trajetória cinematográfica do autor. Mas, quando se analisa o legado de Miller aplicado ao cinema, não se pode esquecer a adaptação para a tela de um dos seus romances, Focus. E, muito menos, o roteiro que escreveu para sua mulher, Marilyn Monroe, Os Desajustados, filmado por John Huston.

Miller não dependeu do cinema para se tornar famoso. Já o era com a montagem da peça A Morte de um Caixeiro Viajante, que lhe rendeu um Pulitzer pelo texto e um Tony (o “Oscar” do teatro americano) pela montagem de Elia Kazan. Ironia porque, durante o macarthismo, Miller e Kazan estariam em lados opostos do balcão diante do Comitê de Atividades Antiamericanas. Enfim, Miller era uma personalidade, mas é claro que a extensão do que escrevia para um meio de alta divulgação como o cinema (“a” arte do século 20, dizia Lenin) só contribuiu para torná-lo ainda mais famoso, conhecido e influente.

Vista assim, pelo ângulo dos prêmios e do reconhecimento, a trajetória de Miller é um sucesso. Mas ninguém está em melhor posição do que ele para compreender as contradições e a ilusão contidas no êxito, quando cultuado como valor supremo, como nos Estados Unidos. É o tema problemático de A Morte do Caixeiro Viajante, tal como podemos ver no filme dirigido pelo alemão Volker Schloerndorff, em 1985, tendo Dustin Hoffman no papel de Willy Loman. Loman passou a vida toda acreditando no valor absoluto do dinheiro e no poder; agora está em vias de perder o emprego e ser destruído, junto com a família. Hoffman, nesta versão, é ator suficiente para dar conta de todas as nuances de um personagem que nunca é unidimensional. Loman não é um coitado nem um herói. Longe de ser uma inocente “vítima do sistema”, torna-se cúmplice deste. Sua tragédia é a de um homem, mas também de todo um modo de vida.

Em As Bruxas de Salem (Nicholas Hytner, 1996), Miller revive um episódio do século 17, quando 19 pessoas foram executadas num povoado de Massachussets, acusadas de feitiçaria. Crendices letais, intolerância religiosa? Sim, tudo isso, mas é claro que o texto faz referência direta à “caça às bruxas” do período macarthista, da qual o próprio Miller foi uma das vítimas. Do fanatismo religioso à paranoia política não há mais que um passo, e essa ligação é claramente expressa na história de Abigail (Winona Ryder), criada que se torna amante de um fazendeiro casado, John Proctor (Daniel Day-Lewis). Despedida, ela faz um “feitiço” contra a esposa de John, e o fato provoca a histeria coletiva que, instumentalizada pela Igreja, transforma-se em banho de sangue. Tudo em nome da fé e da civilização, é claro.

É curioso, mas não surpreendente, que nesses textos transformados em filmes, Miller se ocupe em desconstruir alguns pilares da preciosa auto-imagem do país – a América como a terra das oportunidades para todos e pátria da tolerância religiosa e política. Na época, foi condenado pela direita macarthista, porém glorificado como heroi intelectual. Hoje, em nosso tempo ignorante, talvez fosse apenas considerado um chato inconveniente, como alguns chegaram a tachar Noam Chomsky, quando este criticava o governo Bush.

Miller não para por aí. Em Panorama Visto da Ponte (Sidney Lumet, 1962), Eddie Carbone (Ralf Vallone) é casado, infeliz, e cobiça a sobrinha. Quando esta se apaixona por um imigrante clandestino, Carbone, por ciúmes, decide denunciá-lo. Como em As Bruxas de Salem, Panorama Visto da Ponte parte de um episódio de ordem íntima, a rivalidade amorosa, e passa para a esfera pública. Nesse movimento, desnuda a intolerância social. No caso, o alvo da crítica corrosiva de Miller é a América como refúgio democrático para os estrangeiros.

Em Focus, seu romance adaptado para o cinema por Neal Slavin (2001), outra questão polêmica é levantada: o antissemitismo durante a 2ª Guerra. William H. Macy é um executivo de meia-idade que vê uma mulher hispânica ser agredida em seu bairro. Depois, ele se recusa a perseguir o dono de uma banca de jornais, judeu, que a vizinhança quer expulsar. A simples recusa ao comportamento de matilha o torna suspeito aos olhos dos outros. Quando ele é obrigado a usar óculos, as pessoas passam a achar que tem a fisionomia “judaica”. No pano de fundo, mais uma vez, a intolerância como matriz do autoritarismo, algo que Tocqueville chamava de “tirania da maioria”. E, tanto como em Panorama Visto da Ponte, Focus é um questionamento à ideologia da América como “terra de todos”.

Em seu mais belo roteiro, escrito para Marilyn Monroe, Miller vê uma América crepuscular em Os Desajustados, de 1962. Marilyn é Roslyn, uma mulher sensível que conhece o caubói truculento vivido por Clark Gable. Ele é um farrista em fim de carreira, vive de capturar cavalos selvagens, o que ela não aceita. É o ocaso do Oeste como mitologia (mais uma) da sede de conquista, do empreendedorismo norte-americano. Huston o filma em preto e branco, pungente. Miller tentou – e conseguiu – dar a Marilyn o papel de sua vida. Gable estava doente, Marilyn bebia e se drogava. Seus personagens são comoventes. O panorama – visto dessa ponte – é de um país em frangalhos, que não sabe para onde ir. Nem sempre o poder é sinônimo de glória, como escreveu Maquiavel, em seu tempo. Era o que o dramaturgo dizia aos Estados Unidos. Nunca parou de dizer.

Miller foi grande artista e consciência crítica do seu tempo. Hoje em dia parece difícil, senão impossível, conciliar as duas qualidades.

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04.dezembro.2009 17:43:19

De cigarro em cigarro

O vencedor do Festival de Brasília, É Proibido Fumar, é irônico até no título. Na nossa época neo-puritana até mesmo o ato prosaico de acender um cigarro passou a ser visto como uma transgressão. Pois bem, neste que é o seu segundo longa-metragem (o primeiro é o também muito bom Durval Discos), Anna Muylaert fala justamente de pequenas e de grandes transgressões. E, para provável pasmo de parte da plateia, relativiza as noções de culpa e arrependimento em nome de um valor mais alto – a cumplicidade amorosa. Se na avalanche de compromissos de fim de ano e estresse natalino tivermos algum tempo disponível, seria o caso de empregá-lo na discussão deste filme, um daqueles que, como se diz, “dão o que falar”.

Em mais de um sentido, pois se a história começa no molde de uma comédia rasgada, logo se torna tensa em sua segunda parte e o suspense se resolve de maneira pouco habitual no desfecho. Gloria Pires, em sua melhor atuação no cinema, é Baby, que vive no apartamento herdado da mãe e dá umas aulinhas de violão. Entusiasma-se pelo novo vizinho, Max (Paulo Miklos) e iniciam um caso. Ela é fumante inveterada. Ele não fuma e faz campanha para que ela deixe o hábito. Banal? Sim e não. A história é construída a partir dessa e de outras trivialidades, e tenta mostrar que qualquer vida, qualquer relacionamento, quando vistos de perto são ricos, contraditórios, cheios de subentendidos e níveis de compreensão.

O próprio filme é construído dessa maneira. Em camadas. Por isso seria grave miopia vê-lo apenas como comédia, suspense ou discussão moral. Ele é tudo isso ao mesmo tempo. Sem fazer qualquer tipo de comparação, É Proibido Fumar funciona como alguns filmes clássicos de Dino Risi ou Mario Monicelli. Pensa e critica através do riso, mas também do suspense e da emoção. É um trabalho inteligente de som e imagens, bem construído e que pode dialogar com um público mais amplo – justamente o que anda faltando ao cinema brasileiro de qualidade.

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04.dezembro.2009 10:33:37

Abraços Partidos

Leia crítica de Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar, no Portal do Estadao.

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01.dezembro.2009 11:32:18

Pensar o impossível

Uma vez conversava com a adorável criatura que foi João Antonio, quando o papo se desviou da literatura e acomodou-se numa paixão comum de entrevistador e entrevistado – o jogo da sinuca. João era louco pelos grandes jogadores que conhecera na noite paulistana, que ele varava indo de salão em salão nos quais se pratica a arte do taco e da bolinha branca. Desse périplo constante madrugadas adentro tirou material para sua obra-prima, o conto Malagueta, Perus e Bacanaço, que até filme virou.

Entre os jogadores, João tinha apreço por um em particular, o mitológico Carne Frita. Via nele uma espécie de Picasso, de Miles Davis do taco e do giz. Um artista, em suma. Na conversa comigo, João disse mais ou menos assim: “O que me surpreende não é que o Frita faça aquilo que faz; o que me assombra é que ele pense que é possível fazer aquilo”.

Muitas vezes meditei sobre essa frase do João e, domingo, me lembrei dela de novo ao testemunhar o inacreditável, estupendo, improvável gol de Diego Souza no Atlético Mineiro. Que topete! Que atrevimento! Achar que poderia pegar uma bola espirrada do goleiro, dar-lhe um tapa de primeira, com carinho mas quase com desfaçatez, do círculo central, e enfiá-la por cobertura no fundo do gol adversário! É preciso ter muita confiança no próprio taco, como tinha o próprio Carne Frita, personagem verídico do meu amigo João Antonio.

Penso que um gol desses, até por razões estéticas, deveria ser capaz de colocar ponto final nessa pretensa crise palmeirense. Tal excesso de confiança do seu melhor jogador pode contagiar todo o elenco e inclusive a diretoria para que os falsos problemas sejam enterrados e o time, mesmo sem o título brasileiro, mantenha a rota para 2010. Fechar o ano com um gol desses só pode ser bom prenúncio.

Mas título, claro, provavelmente é aspiração só para o ano que vem. Depois da sensacional rodada de domingo, parece muito difícil imaginar outro campeão que não seja o Flamengo. Para tirar o Hexa (ou Penta?) do Mengão precisaríamos imaginar o Grêmio, que é péssimo visitante, com a faca nos dentes no Maracanã, esfalfando-se para dar o título…ao Internacional. Fazendo a ressalva de que o futebol é o futebol e nele até o improvável deva ser considerado como possível, acreditar nessa façanha exige fé de quem crê em duende, Papai Noel e coelhinho da Páscoa ao mesmo tempo. Certo, também não se punha fé em que o Goiás fosse dificultar a vida do Flamengo e do São Paulo e, no entanto, jogou duas partidas impecáveis para calar a boca dos incréus. Mas acho que agora a situação é bem diferente.

Mesmo porque o time do Flamengo está melhor do que o do Grêmio e, embalado pela galera rubro-negra, deve faturar seu sexto (ou quinto?) título brasileiro. O Inter pode fazer a sua parte e bater o fraco Santo André, mas ser obrigado a torcer para o arquirrival é ironia amarga como chimarrão de má qualidade. Já o Palmeiras pega uma carne de pescoço indigesta, com o Botafogo desesperado em busca da salvação. A combinação de resultados que levaria o Verdão ao título é mais do que improvável. Mesmo caso do São Paulo, que precisa derrotar o rebaixado Sport e contar com milagres simultâneos para ser campeão.

Tudo resolvido, então? Sim, é claro. Mas se tivéssemos certeza absoluta nem precisaríamos ver os jogos da última rodada, não é mesmo?

(Coluna Boleiros, 1/12/09)

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