Depois de Jogo de Cena, Eduardo Coutinho aprofunda sua pesquisa sobre as relações entre o real e o imaginário. O título agora é Moscou, que pode, à primeira vista, ser descrito como relato dos ensaios do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, da peça As Três Irmãs, de Chekhov. O diretor (da peça) é Enrique Diaz e, nesse nível de leitura, Moscou pode ser entendido como um filme de bastidores. A peça atrás da peça, ou seja, o pequeno teatro montado entre as pessoas para que o teatro de verdade aconteça.
Tudo, no entanto, é muito mais sutil e profundo. O texto de Chekhov é longo. Por isso, o diretor Enrique Diaz e o elenco (e o próprio Coutinho, que aparece em cena) concordam que terão de trabalhar com excertos, com um extrato da peça, reunindo as três irmãs, alguns homens que as rodeiam, e uma profunda nostalgia. De quê? Em primeiro lugar, da capital. Eles estão numa província distante e esperam voltar para Moscou. Mas, mais profundamente, nostalgia de alguns momentos, saudades de si mesmas. Bem à maneira de Chekhov, há mais sensações, climas, do que “acontecimentos” em si.
Mas, além disso, o diretor pede alguns exercícios para sensibilizar os atores, flexões emocionais para que se disponham melhor à atuação. O que pede? Que relatem algo de seus conflitos na atualidade. Pode ser o medo, ou a relação com os filhos que não vai bem. Pode ser, no fundo, qualquer coisa, desde que se dê como ponto pacífico que o ser humano é conflitado com os outros e consigo mesmo por definição. Mas quem está falando? Os personagens de Chekhov, através do texto, ou são os atores que falam de si mesmos? Onde a verdade? Onde a ficção? Claro, estamos aqui de novo no ambiente de Jogo de Cena – as atrizes interpretam os casos reais que escutaram ou falam de si? O que não quer dizer que um filme seja a continuação de outro; apenas refletem um mesmo momento do artista.
No fim, por intermédio da estrutura da representação, Coutinho repropõe uma velha máxima do imaginário artístico. Conforme a frase latina – “de te fabula narratur”, de Horácio: a história que está sendo contada fala de você. É o que, no fundo, justifica o nosso envolvimento com algo que, em aparência, nada tem a ver conosco. Por que nos importaríamos com três irmãs nostálgicas, numa província russa, diálogos de uma velha peça de teatro escrita em 1900? Simples: porque as irmãs criadas por Chekhov falam de nós. Falam de sentimentos, esperanças, dores e mesquinharias que pertencem a todos nós, ao nosso patrimônio simbólico comum.
Coutinho cria um espaço cênico de pura indeterminação. A fotografia, muito expressiva, facilita o vai e vem entre os (pelo menos) dois planos da narrativa. E a relação intersubjetiva, por ser sempre ambivalente, facilita a entrada do espectador no jogo. Afinal, ele, como os atores, é parte daquilo. Mas, ao mesmo tempo em que nos seduz, o filme nos afasta com técnicas anti-ilusionistas. Se desejamos nos deixar seduzir e fascinar por aquilo que vemos, logo nos é mostrada a equipe técnica, a filmar, com os microfones suspensos para captar as vozes dos atores.
Somos lembrados de que tudo é encenação. E nos emocionamos assim mesmo. Ou, melhor: nos emocionamos porque sabemos que se trata de uma encenação. No interior desse acervo comum das emoções humanas somos, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos. Moscou é mais um filme excepcional de Eduardo Coutinho. E não nos peçam para dizer se é documentário ou ficção. A pergunta já não cabe.
(Caderno 2, 31/3/09)
Essa pergunta foi feita um dia por minha mulher: “Mas, que diabos vocês tanto exigem da seleção?” Não me lembro direito do contexto. Suspeito que tenha sido durante a Copa de 2006, num daqueles jogos que a seleção venceu sem convencer e avançou… rumo ao desastre. O “vocês” que ela me jogava na cara se referia tanto a “nós”, da crônica esportiva, como a “nós”, gênero masculino em sua totalidade, a tal torcida brasileira, conhecida pela intransigência com a seleção. A certa altura da partida, em que a canarinho jogava particularmente mal, e era cada vez mais criticada pelo comentarista do canal em que assistíamos ao jogo, ela, em desespero, pediu, ou antes, ordenou: “Muda para o Galvão, pelo amor de Deus!” Garantia de ufanismo, torcida incondicional. Mas diante de certas exibições da seleção brasileira, nem todo o ufanismo do mundo parece capaz de tapar o sol com a peneira.
Domingo foi um desses dias. Foi tão ruim que, em tema controvertido como o futebol, chegamos a raro consenso: não fossem a falta de pontaria dos equatorianos e a grande atuação de Julio Cesar, a seleção teria sido humilhada com uma goleada histórica. Jogar mal é da vida. Agora, jogar de maneira covarde, como time pequeno, é outra. Claro que é uma questão tática e também técnica: o que fazem certos jogadores com a camisa da seleção brasileira? E de que adianta colocar Ronaldinho no meio de campo, se ele se esgueira durante o jogo como uma sombra de si mesmo? Há tudo isso. Mas há também uma questão de atitude, de orgulho próprio, de mínimo compromisso com o passado daquele time.
De modo que volto à pergunta: o que esperamos da seleção? Durante um bom período, esperamos muita coisa: títulos e bom futebol. Afinal, no Brasil, tínhamos certeza, jogávamos o melhor futebol do mundo. E, escolhendo os melhores entre os melhores, não havia como dar errado. Tivemos algumas desilusões, é claro (1966, 1982) que atribuímos a fatores vários – má administração, salto alto, o peso do destino, etc.
Depois o futebol mundial mudou e, com ele, a seleção. Tornou-se cada vez mais distante, os jogadores passaram a ser estranhos com quem convivíamos (pela TV) durante as Copas. Mesmo assim, houve uma sequência memorável: campeões em 1994, vices em 98, campeões de novo em 2002. Depois veio 2006 e estabeleceu-se um patamar mais baixo de expectativa. De tudo o que aconteceu na Copa da Alemanha, dos preparativos aos jogos em si, ficou uma imagem de desleixo, de descompromisso, de predomínio da filosofia do “não estou nem aí”. Dunga, em tese, veio para corrigir esse rumo. Tornar o time pelo menos aguerrido, brigador, orgulhoso de si. Não conseguiu. Como, aliás, seria de se prever, pois esse tipo de atitude mental não está disponível no mercado, não chega por decreto e nem se compra com cartão de crédito. É fruto de determinadas circunstâncias, históricas talvez. Em síntese: ou se tem, ou não se tem. E ponto.
Já quisemos muito da seleção: show de bola, com jogadas geniais, criativas, de encantar o mundo. Já quisemos títulos, grandes conquistas, partidas memoráveis, daquelas que entram para a história do esporte. Hoje, diminuímos muito nosso nível de exigência. Queremos talvez um pouco de vergonha na cara. Por exemplo, jogar de igual para igual contra uma “potência” como o Equador. E nem isso estamos obtendo. Melhor desistir de vez.
(Coluna Boleiros, 31/3/09)
Como contar a história de uma cidade, ou mesmo de um país? Pelas imagens oficiais ou por meio daqueles que povoam e trazem vivacidade às ruas, com todas as suas contradições? Esta última é a opção de O Esquecimento,de Heddy Honigmann, belo documentário sobre o Peru e sua capital, Lima, em particular. É a Lima vista pelos anônimos, a começar pelo barman de um dos restaurantes mais famosos da capital. Mas também saem bem na fita os pequenos malabaristas dos sinais de trânsito, pessoas que moram na periferia, gente comum que anda pela rua, alfaiates, e migrantes que vieram do interior do país procurar algum refúgio em Lima.
Refúgio de quê? Da guerra entre forças do governo e a guerrilha do Sendero Luminoso. Em geral, essas pessoas ficavam espremidas entre as duas forças em combate e sofriam todas as consequências da insanidade. Um deles diz que perdeu uma irmã num desses conflitos e, até hoje, não sabe se quem a matou foram soldados do Exército ou guerrilheiros do Sendero.
O tom, no entanto, não é de desespero. Pelo contrário. Em meio ao sofrimento e mesmo ao patético, veem-se pontos de luz. As pequenas malabaristas de semáforo desejam se tornar ginastas olímpicas. O barman, que leva a diretora à sua casa, apresenta sua mulher que nunca pôde sentar-se numa das mesas do restaurante de luxo onde ele trabalha. Não tem importância, ele diz. Cozinha para ela as mesmas comidas sofisticadas que se servem no restaurante. Exímio preparador do pisco sour (o aperitivo oficial do Peru), ele conta que certa vez serviu um suco com vodca a um presidente abstêmio. “Ele tropeçou na cerimônia oficial, e essa foi minha pequena vingança pessoal”, diz, rindo.
É dessa maneira que aparece a história oficial do país, com suas personagens conhecidas, Belaúnde Terry, Alan García, Fujimori filtrados pela ironia popular. Esse é o riso salutar que permite aos fracos a sua sobrevivência mental. O filme, singelo e encantador, é sobre um país culturalmente muito rico. E, claro, essa riqueza vem mesmo é das pessoas em aparência mais simples.
Escrevi esse texto para o caderno sobre o lançamento de Leite Derramado, o novo romance de Chico Buarque de Holanda. Ao livro, em si,volto depois.
Chico Buarque não pode se queixar de falta de sorte na adaptação dos seus romances ao cinema. O primeiro deles – Estorvo – tornou-se um dos filmes mais radicais na fase recente do cinema brasileiro, sob direção de Ruy Guerra. Benjamim não está no mesmo patamar, mas não faz feio. Dirigido por Monique Gardenberg, parece às vezes um tanto artificial, mas o romance talvez a tenha levado a esse resultado. Budapeste ainda não entrou em cartaz – tem estreia prevista para 22 de maio. Seu trailer pode ser visto nos cinemas e parece animador. A versão é assinada por Walter Carvalho, fotógrafo de ponta e ótimo diretor. Logo, logo saberemos quem se habilita a colocar em imagens, e sons, a prosa fragmentária de Leite Derramado, o romance que está hoje chegando às livrarias. Ele é tão “cinematográfico” quanto os outros, embora se possa prever uma adaptação trabalhosa.
Aliás, a opção da literatura de Chico pela prosa fragmentária, rarefeita, com idas e vindas no tempo, tem sido mesmo um desafio para os adaptadores. Essas alterações na linearidade da linguagem costumam ser mais bem absorvidas sob forma de texto, embora tais procedimentos há muito não sejam novidade no cinema, basta pensar em Godard, para ficar no nome mais óbvio. Mas o cinema, na qualidade de arte “popular” costuma ser esteticamente mais conservador que a literatura.
Mas boa parte do êxito (estético, não comercial) de Estorvo deve ser creditada à coragem com que Ruy Guerra enfrentou o texto do seu amigo e parceiro.
Chico deseja expressar o grau de alienação a que chegou uma sociedade sem qualquer expectativa que não seja contábil – sucesso, fama, mera sobrevivência. Os limites entre o crime e a lei se diluem. O narrador move-se em sua cidade como se ela lhe fosse alheia. Ruy deixou-se levar pela proposta do escritor e radicalizou-a. Leu e compreendeu profundamente o que Chico havia escrito e traduziu aquele material em imagens e sons. Diminuiu a saturação da fotografia em cores até que ela quase se transformasse em preto e branco. A câmera promove deformações. O narrador, Eu (Jorge Perrugorría, ator cubano), perambula como se não tivesse vontade própria. Tem a casa invadida, vai procurar o sítio da família e constata que ele se transformou em abrigo de marginais. Erra pela vida sem destino. A narração em off (do próprio Ruy, com seu sotaque lusitano) e a música de Egberto Gismonti contribuem para aumentar a sensação de estranheza. Talvez não haja filme que melhor expresse aquilo em que se transformou a sociedade contemporânea, brasileira e mundial. Vaga distopia transnacional, sem referências, sem pontos de conforto ou oásis à vista.
Já a adaptação de Benjamim é um tanto mais tímida. Embora se trate de um bom filme, parece precaver-se contra alguma possível falta de entendimento do público médio. As passagens de tempo – alternâncias entre a narrativa no presente e no passado – são assinaladas de maneira mais didática. A história coloca o protagonista Benjamim Zambraia em dois tempos diferentes (interpretados por Paulo José e Danton Melo). Uma paixão de juventude de Benjamim (Cléo Pires) reaparece, como reencarnada, 30 anos depois. Esse caso de amor em dois tempos leva o personagem a reavaliar o passado e tentar acertar contas com ele. Não se trata de uma simples história de amor, mas envolve também uma questão política não resolvida, como se o autor precisasse reelaborar um período traumático da história brasileira.
Chega aos cinemas a primeira parte da cinebiografia Che, de Steven Soderbergh.
Na primeira parte da saga sobre a trajetória de Ernesto Guevara há uma cena significativa. Ernesto e Fidel conversam no México, às vésperas de embarcar no Granma para tentar a derrubada de Batista. Ernesto ouve que serão 82 pessoas num iate que comporta uns dez passageiros – apertados -, e Fidel (Demian Bichir) observa que, para fazer uma revolução, é preciso ser “un poco loco”. Mais tarde, no relato, Ernesto observa que, por paradoxal que pareça, uma revolução é um ato de amor. Segundo o crítico Eugenio Renzi, dos Cahiers du Cinéma, esses dois polos definem a ideia central de Soderbergh – a revolução depende tanto da paixão quanto de um pingo de loucura, e que a aliança de Fidel e Che só deu certo porque foram capazes de levar essa premissa às últimas consequências.
Pode-se, ou não, concordar com essa tese, mas ela ilumina tanto esta primeira parte de Che que entra agora em cartaz (O Argentino) como, em especial, a segunda (A Guerrilha, ainda sem data para estreia). Este segundo filme se passa anos depois da vitória da revolução. Quando Guevara lhe anuncia que vai deixar os seus encargos no governo para tentar a guerrilha na Bolívia, Fidel lhe responde: “Você que é o louco.” Há, nessa afirmação, um contraponto entre um filme e outro e que impede a leitura superficial do segundo como história de um fracasso. Pelo contrário, para ser coerente com sua opção de revolucionário, o Che teria de tentar exportar a revolução pelo continente. Mesmo contra toda expectativa de vitória e contra a opinião de Fidel, já solidamente instalado no conforto do poder. O Che era de outro estofo. E, novamente, goste-se ou não, se quisermos entender o personagem, temos de levar em consideração esse seu traço, digamos, quixotesco e mesmo sacrificial.
Em termos de cinema, essa primeira parte é de assimilação mais fácil, por ser o relato épico de uma vitória. Passando pelo encontro no México com os irmãos Castro, pela campanha na Sierra Maestra e a entrada em Havana, o relato é fluido, justo, com muito rigor histórico e cinematográfico. A busca do filme é pela credibilidade factual e pela verossimilhança artística. Contribui muito para o resultado a direção sólida de Soderbergh e um Benicio del Toro que se entrega ao papel com amor. E um grão de loucura.
(Caderno 2, 27/3/09)
Isso aqui não é bem uma queixa, mas uma advertência ao consumidor. Cheguei ontem em casa querendo ver TV e a Net estava fora do ar. Liguei para a Central de Atendimento. A máquina respondeu que meu telefone já estava cadastrado e que ela (ele?) havia identificado que a minha área tinha problemas e que não seriam solucionados antes de 2h30 da manhã. Se eu tivesse outro assunto a tratar, que esperasse pelo atendente. Mas, quanto à falta de sinal, a resposta do atendente seria a mesma.Eu que ficasse na minha e não perturbasse mais .
Meia hora depois liguei a TV… e nada. Aliás, a internet também estava fora do ar. Tentei um estratagema. Como havia feito a ligação pelo celular, desta vez chamei pelo fixo. Na esperança de que não estivesse no cadastro. Aparentemente estava. E sabe o que máquina “disse”? Que o problema continuava e que ela havia percebido que eu já havia ligado antes…Ou seja, que eu não chateasse mais.
Certo, é um direito da máquina zelar pelo seu sossego. Agora, como eu pago mais de 300 reais por mês para a NET (por TV e internet), acho que pelo menos a máquina da central de atendimento poderia ter um pouco mais de paciência comigo, né?
O jogo que eu queria ver eu já perdi mesmo. Tinha alguns e-mails para responder e não pude. Sabe o que eu proponho? Que pelo menos as horas em que a NET permaneceu fora do ar sejam descontadas da conta seguinte. Não seria justo?
Basta uma olhada rápida no perfil do É Tudo Verdade deste ano para concluir que a aposta da curadoria foi na radicalidade dos participantes. Por exemplo, no filme de abertura, Cartas ao Presidente, Petr Lom revela de maneira incisiva os mecanismos do populismo no Irã contemporâneo. No caso, o presidente Ahmadinejad estimula a população a escrever-lhe cartas, contando seus problemas, como se fosse lê-las pessoalmente. O filme acompanha o processo, em que as cartas são classificadas, lidas e respondidas por estudantes lotados no palácio presidencial. Vale essa ilusão do “contato pessoal”, da democracia direta, que constitui a característica por excelência do populismo. O filme se constrói a partir de entrevistas feitas com iranianos – uma opção que exclui as explicações em off e leva à abertura de interpretações.
Outro exemplo é O Equilibrista, de James March, vencedor do Oscar de documentário de 2009. O filme, realizado com imagens captadas em várias épocas, reconstrói a trajetória de Philippe Petit, um mestre da corda bamba, que se notabilizou em seu país por ter andado entre as torres da Catedral de Notre-Dame. Mas esse feito parece café pequeno comparado ao que viria depois: Petit conseguiu estender sua corda entre os dois prédios do World Trade Center e percorreu o caminho do vão livre oito vezes, para pasmo dos nova-iorquinos.
A façanha teve caráter de uma operação de guerra, com o prédio sendo invadido à noite para que o equipamento fosse montado. Petit gosta dos desafios radicais. Estranha quando lhe perguntam “por que você faz isso?”, pois a resposta lhe parece óbvia: é para provar-se. Lembra a do alpinista que primeiro escalou o Everest. Por que arriscou-se tanto? “Ora, porque a montanha estava lá”, respondeu. Há, nesse francês, alguma coisa de Werner Herzog, o cineasta de Aguirre, a Cólera dos Deuses e Fitzcarraldo. Esse impulso em direção à proeza, o risco que flerta com a morte. O filme todo se desenvolve como um thriller, envolvente ao extremo.
Entre os participantes nacionais, o recorte provocativo também se impõe. É o caso de Corumbiara, de Vincent Carelli, relato pouco convencional do massacre dos índios numa gleba em Rondônia, nos anos 1980. Carelli e sua equipe saíram atrás de índios remanescentes, registrando a busca com sua câmera, inclusive o encontro com alguns raros sobreviventes, que falavam uma linguagem desconhecida. As imagens eram para registro próprio e ele nem havia pensado em delas fazer um documentário. Este surge a posteriori. E tem o tom da história se fazendo à vista do espectador, com fluência, montando o quebra-cabeças de etnias perdidas – e que escapam da extinção por milagre. Junto com Terra Vermelha, de Marco Bechis, e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, este Corumbiara coloca a questão indígena em patamar diferente, sem as ilusões do bom-mocismo rousseauniano ou o facilitário das narrativas lineares.
Em outra chave, não menos contundente, aparece Garapa, o esperado documentário de José Padilha. Rodado inteiramente em preto-e-branco, o filme baseia-se numa frase de Josué de Castro, autor do clássico Geografia da Fome. Existem, segundo Josué, duas maneiras de uma pessoa morrer de fome: ou não comer nada, ou alimentar-se de maneira constante com nutrientes inadequados. A partir dessa premissa, Padilha segue o cotidiano de três famílias cearenses, à beira da desnutrição apesar dos programas como o Fome Zero. Sobrevivem, mas no limite. As imagens são incômodas ao extremo. No preto-e-branco granulado, vê-se gente lutando pela vida no dia a dia, em condições precárias, mulheres tentando criar fieiras de filhos em meio à falta absoluta de saneamento básico e ainda tendo de enfrentar o alcoolismo dos maridos. Segundo dados da ONU, nada menos de 11 milhões de brasileiros vivem nessas condições. Esse é o drama atual.
Já Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, volta aos anos 70 para tocar em tema complicado – a colaboração de empresários paulistas com a polícia e o exército na repressão aos contestadores do regime. A figura exemplar é o dinamarquês Henning Albert Boilesen (1916- 1971), que imigrou para o Brasil, tornou-se presidente do grupo Ultragás e foi executado por militantes de esquerda por sua participação na Operação Bandeirantes. O personagem é flagrado em sua complexidade e toda uma época de violência e radicalismo político lhe serve como moldura. Um dos mais contundentes documentários sobre os chamados anos de chumbo no Brasil.
(Caderno 2, 25/3/09)
O mal-estar social e psicológico dá o tom a este
O centro da trama se coloca na família de Paulo (Felipe Duarte), um empregado da construção civil que acaba de perder o emprego. Sua mulher, Lúcia (Isabel Abreu) não aceita a deterioração econômica da família e culpa o marido pelas dificuldades. Ele responsabiliza a crise, mas isso em nada ameniza o péssimo clima do lar. Em linha paralela, a irmã de Paulo, enfermeira, atende a um paciente terminal e o conforta em seus últimos dias.
A intenção dos diretores parece clara – associar a moléstia física de um personagem à doença crônica da sociedade. Esta não tem mais como absorver os problemas causados pelo desemprego. A fragilização do Estado do bem-estar social europeu entrou em refluxo com as políticas liberalizantes dos anos 80. Por isso, Paulo não tem mais os amortecedores sociais que suavizavam o desemprego e tornavam mais tranquila a busca por nova colocação. Paulo não está totalmente desamparado mas se torna uma espécie de “não-pessoa” enquanto frequenta esse limbo social.
Essa condição aparece de maneira bem explícita em uma cena marcante do filme, com o pai de Paulo insultando-o e dizendo que não pode ser considerado um homem aquele que não consegue colocar comida na mesa de sua família. É um momento de rara densidade, em que o clima depressivo de fato se justifica e consegue ligar a angústia do personagem não apenas à situação econômica do país como às suas tradições patriarcais.
A cena do almoço com o pai
De fato, existe aí um descompasso entre a tradição – o homem lusitano provedor – e aquilo em que a sociedade foi transformada pela competição desenfreada e por um sistema que pode deixar sem sustento mesmo um bom trabalhador. Essa condição é cruel, e torna-se ainda mais dramática porque culpabiliza a vítima. O desempregado, aos olhos de sua mulher e do seu próprio pai, é um fracassado. Ou ainda pior: um ocioso, alguém que não se importa com os outros ou consigo mesmo, além de não ter fibra na luta pela vida.
Essa internalização da culpa é que dá tônus ao filme. E representa também sua relativa fraqueza, já que a situação do protagonista parece precariamente ligada ao seu entorno social, ou seja, àquilo que lhe dá sentido. Meio histérico às vezes, pesado e cinzento, o filme tira bom proveito da qualidade do elenco. Nenhum dos atores é destoante. E a câmera tenta aplicar alguma leveza, movendo-se e enquadrando de modo a evitar o tom acadêmico. Com sucesso, mas o filme poderia respirar um pouco melhor se, ao tema pesado, acrescentasse alguns toques de leveza.
(Caderno 2, 25/3/09)

Pedro Almodóvar é, num primeiro momento, o cineasta do pós-franquismo, da Espanha moderna, que se desrecalca depois de uma longa e moralista ditadura. É, como já se disse, o cineasta da “movida”, da farra da Madri liberada, mas, de maneira mais profunda, da abertura do país a toda a sorte de influências, antes filtradas pela alfândega censória do generalíssimo.
Anárquico e libertário, Almodóvar pôde ser moderno sem jamais deixar de ser profundamente espanhol. Divulgou uma Espanha colorida, fortemente melodramática e picaresca em filmes como Pepi Luci Bom (1980), Labirinto de Paixões (1982) e Maus Hábitos (1983), para citar alguns dos títulos mais conhecidos dessa primeira fase. Nela, o anticlericalismo radical (só acessível a quem foi criado em ambiente puritano) une-se à questão urgente do sexo. E, posteriormente, do desejo, tratado de maneira mais ampla em Matador (1986), A Lei do Desejo (1987) e Ata-me (1990). Interessa a Almodóvar esse impulso paradoxal do desejo humano, que força os limites do socialmente conveniente e é própria afirmação de vida, mas também do seu contrário, a morte, a extinção do ser. Eros e Tânatos, segundo o jargão da psicanálise.
Nesse universo ambivalente, não faltam personagens homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e mesmo heteros. A pulsão humana não se resume aos interesses da reprodução e da continuação darwinista da espécie, e Almodóvar coloca no centro da sua cinematografia esse caótico Eros humano que explode em todas as direções e em todas as formas, até mesmo na sua inversão mais radical, a morte. Seus filmes se desenrolam nesse universo multissexual, colorido, vibrante, nas cores da paixão e das variações possíveis em torno da ciranda amorosa.
Mas, fora isso, como numa espécie de círculo concêntrico, Almodóvar revela-se extraordinário conhecedor da alma feminina, e apologista de um tipo particular, a mulher latina. Suas atrizes favoritas logo passaram a usar o adjetivo de “almodovarianas”, tamanha a identificação com o projeto artístico e existencial do cineasta – Carmen Maura, Victoria Abril, Rossy de Palma, Marisa Paredes, e, agora, Penélope Cruz que, com ele em Volver (2006), desabrochou, perdeu aquele ar de chatinha e assumiu-se exuberante.
O interessante é que o Almodóvar anárquico dos primeiros filmes e, em especial, do grande sucesso Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), sofre mutação sutil em sua fase mais madura. Sem nunca perder o gume crítico e a alma libertária, passa a imprimir tom mais terno a seus filmes. Como esquecer, por exemplo, o final de A Flor do Meu Segredo, com a música de Tonada de Luna Llena (cantada por Caetano Veloso), que acompanha o espectador como se o embalasse em doce conforto depois de tudo que lhe fora servido ao longo da trama? Ou o tom caloroso de Fale com Ela, um dos seus mais belos títulos recentes?
Neste, em meio a uma história como de hábito conturbada, o personagem Benigno (Javier Câmara) insiste que se deve conversar com as pessoas, mesmo com pacientes em coma profundo. É um patético apelo à comunicação neste mundo de balbúrdia em que as pessoas, por paradoxo, tendem a se isolar umas das outras. O cinema de Almodóvar, terno, caloroso, vibrante, ensaia um movimento em sentido contrário. Sem nunca ser diretamente político, ainda assim ele o é, ao se abrigar no vital universo feminino, refúgio para um mundo masculino e árido – mesmo que nesse mundo real as mulheres tenham participação cada vez maior, desempenhando seus novos papéis de maneira máscula.
É desse mundo ainda falocêntrico que Almodóvar faz a crítica mais consistente do cinema atual. A cumplicidade entre as suas mulheres, a maneira prática e ao mesmo tempo suave como enfrentam as contingências da vida, da doença e da morte, apontam, no pós-socialismo real, para um outro tipo de utopia contemporânea.
(Cultura, 22/3/09)
Leia entrevista com o cineasta, publicada no mesmo número do Cultura
Bastante explosivo o conteúdo de Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, que está no É Tudo Verdade deste ano. Fui vê-lo na sessão de imprensa e recomendo, em especial a quem se interessa pelo período da ditadura militar brasileira.
O filme aborda um tema-tabu do período: a participação de empresários paulistas na repressão aos grupos de esquerda. Henning Albert Boilensen foi uma figura exemplar desse tipo de colaboração. Dinamarquês, imigrou para o Brasil e aqui fez fortuna. Tornou-se presidente do grupo Ultragás, no auge da carreira. Anticomunista ferrenho, organizou e participou ativamente na “caixinha” dos empresários para arrecadar fundos para a Oban – a famigerada Operação Bandeirantes.
Amigo pessoal do delegado Fleury, Boilesen ficou famoso por acompanhar pessoalmente as sessões de tortura. Dizem que sentia imenso prazer em ver presos pendurados no pau de arara, apanhando e tomando choques elétricos. Em 1971, Boilesen foi executado por um grupo de esquerda, por estranha coincidência na mesma Alameda Casa Branca onde havia morrido Carlos Marighella dois anos antes.
O filme traz depoimentos importantes de ex-guerrilheiros, historiadores do período, políticos como Fernando Henrique Cardoso e religiosos como Dom Paulo Evaristo Arns, policiais e até de um dos filhos do empresário. Quem o conheceu, diz que Boilesen era boa gente, afável, alegre e mulherengo. Mas houve também quem tivesse testemunhado seu lado obscuro e este nada tinha de agradável.

Enfim, um personagem-símbolo de um período triste, ainda por ser devidamente esclarecido. Com frequência se fala em golpe militar mas se esquece de que houve participação de setores civis tanto no golpe como na manutenção do regime, inclusive financiando a repressão e o desrespeito aos direitos humanos. O filme fala de duas notáveis exceções, a serem registradas: Antonio Ermírio de Morais e José Mindlin foram dois empresários que se recusaram a contribuir para a “caixinha da tortura”. Engrandeceram suas biografias.
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