
Minha mulher, a jornalista Maria do Rosário Caetano, notou que, no intervalo de poucas semanas, duas vezes ouvimos menções a um texto famoso de Walter Benjamin, inspirado num quadro de Paul Klee chamado Angelus Novus. A primeira foi num debate que moderei durante a Mostra de Cinema de São Paulo com o cineasta francês Nicolas Klotz (de A Questão Humana). A segunda foi através do documentarista Geraldo Sarno, quando debatia seu filme Tudo Isto me Parece um Sonho durante o recém-encerrado Festival de Brasília.
James Joyce referia-se à história como pesadelo do qual queria despertar. Essa imagem está em Benjamin, em sua interpretação do anjo de Klee. E passa por cineastas contemporâneos,em suas reflexões sobre o curso dos acontecimentos, que lhes (nos) parece caótico.
A História como pesadelo.
Eis as palavras com as quais Benjamin abre o texto:
“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus.
Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.
Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”
Walter Benjamin, “Obras Escolhidas”, tradução: Sérgio Paulo Rouanet, 1994 – 7.ed. Editora Brasiliense. p.226.
Não é um belo exemplar da espécie humana? A moça é Irene Stefânia, em Lance Maior, filme de Sylvio Back apresentado em cópia restaurada em Brasília. O longa é de 1968. Tempos idos.

A primeira coisa a ser dita é que, depois do esforço representado por Onde os Fracos Não Têm Vez, o novo filme dos Coen, Queime Depois de Ler, parece uma espécie de divertimento da dupla. Algo como refresco, pausa para pensar e refrescar as idéias. Um filme sabático, por assim dizer. Fracos fora mesmo uma aventura cinematográfica levada no limite, adaptando para a tela o universo dark de Cormac McCarthy. Queime Depois de Ler é bem mais leve. Mas a segunda coisa a ser dita é que nem por isso ele é inferior, ou desprovido de interesse. Muito pelo contrário. É justamente em sua leveza que está a sua profundidade; e é em seu frescor de comédia de equívocos que reside uma reflexão que, decodificada pelo espectador, mostra-se bastante pertinente para o mundo de hoje.
O filme se apresenta sob a forma de uma comédia de equívocos, em que uma trapalhada leva a outra, até que o desenrolar dos acontecimentos chegue a um desfecho trágico, imprevisto para os protagonistas. Deixando entre parênteses o lado cômico, há um quê de tragédia nesse tipo de encaminhamento. As pessoas pensam controlar os acontecimentos e fazer suas opções como se as dominassem, sem se dar conta de que, pelo contrário, todo planejamento é frágil. Os personagens pensam-se como sujeitos da ação, mas não passam de objetos.
Na história de Queime Depois de Ler, John Malkovich é Osborne Cox, agente da CIA demitido por alcoolismo crônico. George Clooney é Harry Pfarrer, um agente federal, e Brad Pitt, um personal trainer que trabalha em uma academia. Frances McDormand é gerente dessa academia, e Tilda Swinton, a esposa do ex-agente da CIA demitido por causa do apego ao álcool. Movido pelo ressentimento, talvez pelo tédio, Cox resolve colocar no papel suas memórias e grava o texto em CD. Sua mulher, que o está traindo, rouba o CD e o esquece na academia. A personagem de McDormand precisa de dinheiro para pagar uma série de cirurgias plásticas que acredita necessitar para sua carreira. Ela encontra o CD que parece valer muito e assim a coisa rola. Ladeira abaixo, diga-se. Mas não tente adivinhar o caminho da história, porque ela é cheia de desvios e imprevistos.
No fim de agosto, o filme abriu fora de concurso o Festival de Veneza. Na entrevista que deram, os Coen desmentiram qualquer implicação política da história, mas é óbvio, para quem consegue ver, que ela comenta algo do tipo: “O que vamos fazer com o nosso passado?” Naquela ocasião, a eleição americana ainda estava indefinida e a rejeição ao governo Bush era total. Os Coen se divertiam com seu elenco, pois haviam criado uma série de personagens que não passavam de patetas. Ora, a tolice pode ser bom material para a ficção, do contrário Bush não seria ironizável e nem Flaubert teria escrito algo como Bouvard e Pécuchet. Mas a pergunta que fica ressoando, depois de visto o filme, é menos engraçada que inquietante: o que aprendemos com os erros do passado? Podemos evitar que se repitam?
As histórias dos personagens se cruzam, mas não da maneira que se tornou quase banal no cinema dito de “arte” contemporânea. Existe articulação entre elas, e também sutileza no modo como os Coen costuram seus comentários sobre temas como a obsolescência da CIA, observação que se liga à crítica da obsessão moderna pelo culto físico, o sexo pela internet e outras bobagens do nosso cotidiano.
Esse comentário ácido e irônico da contemporaneidade norte-americana, e sua relação com a herança da Guerra Fria, é levado com o brilho e habitual fluidez da dupla. O cinema do Coen é um grande prazer. Prazer que pensa e faz pensar. Rindo, castigam-se os costumes, como se dizia.
(Caderno 2, 29/11/08)
Essa quem me mandou foi o amigo Eurico de Barros, jornalista do Diário de Notícias de Lisboa. Reproduzo, tal e qual:
“Aquele que ao longo do dia é activo como uma abelha, forte como um touro, trabalha que nem um cavalo e que ao fim da tarde se sente cansado que nem um cão, deveria consultar um veterinário porque é bem possível que seja burro.”

Hoje, minha matéria final do 41ºFestival de Brasília, no jornal. Leia aqui.

Saí há pouco do Hotel Nacional e estou no aeroporto de Brasília esperando o vôo de volta a São Paulo. Fechando minha conta no hotel, aconteceu uma coisa engraçada. Peguei o elevador com duas moças e um funcionário do hotel. Elas portavam crachá de um evento que havia começado na véspera, um simpósio de genética, ou coisa que o valha. Uma delas perguntou ao rapaz:
- Será que o pessoal do cinema já foi embora? Porque ninguém conseguiu dormir com a farra que eles fizeram durante a noite.
Achei engraçado e disse a ela que eu mesmo era do festival de cinema, mas não me sentia responsável pois havia ido dormir cedo e não perturbara o sono de ninguém. A moça achou graça e riu. Desceram as duas no andar e outra congressista subiu no mesmo elevador. Perguntei a ela se também fora perturbada pelo “pessoal do cinema”. Disse que não, de modo algum.
- Eu até me divirto com essa fauna.
Final chocho para festival idem, acabou ganhando FilmeFobia, de Kiko Goifman. Foi vaiado, mas nem as vaias foram calorosas, como as do ano passado, dedicadas a Julio Bressane e seu Cleópatra. Além do troféu de melhor filme, FilmeFobia venceu nas categorias de montagem, direção de arte, ator (Jean Claude Bernardet). Leva para casa também o prêmio da crítica, em votação nada entusiástica, posso garantir.
Os outros principais premiados:
Bem, foram exibidos os últimos filmes deste 41º Festival de Brasília, e não se pode dizer que a situação do júri de longas, em particular, tenha melhorado. Tudo isso me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno, é um filme que pode render boas discussões – de ordem estética e histórica- mas não me parece de molde a empolgar muita gente. Sarno faz o que seria uma cinebiografia nada convencional de um personagem histórico meio esquecido – o general José Ignácio Abreu e Lima, pernambucano que lutou ao lado de Simon Bolívar e participou da Revolução Praieira, em 1848. Logo o filme converte-se no making of de si próprio, pois Sarno dá-se conta da dificuldade (e mesmo da impossibilidade) de retratar um personagem sobre o qual se sabe muito pouco. O que procura fazer é uma espécie de arqueologia. Usa imagens encenadas com atores para mostrar os momentos finais de Abreu e Lima, velho e escrevendo as memórias. Vai atrás dos traços do general na Venezuela de Hugo Chávez, entra pelos canaviais de Pernambuco e visita velhas usinas desativadas; visita também terreiros de candomblé e, num deles, tem uma iluminação. Anda pelas ruas do Recife com o intelectual Vamireh Chacon e ouve dele uma aula de história. O filme é um exercício de digressão, que não deixa de lembrar, em alguns momentos, a técnica de Glauber em A Idade da Terra. Nem por isso derrotou menos os espectadores. Uma boa metade do Cine Brasília retirou-se em algum momento ao longo dos 150 minutos do longa (e ponha longa nisso) metragem. Os que ficaram, aplaudiram de maneira discreta.
Sobre o júri: soube que a reunião foi até às 5h da manhã. Não deve ter sido fácil. Na volta do café da manhã, encontrei com um deles, de saída. Perguntei se havia dormido bem. Malicioso, me disse que sim. Contou que a discussão tinha ido até a madrugada – “E olha que só tinha filme ruim, hein?”.
Essa edição do festival ainda vai dar muita polêmica. E mal posso imaginar qual premiação esse júri pôde ter feito. Pode dar qualquer coisa.
Amigos, quem assistia ao Chacrinha lembra dele dizendo que aquele era um programa que “só acaba quando termina”. Pérola do nonsense, mas que vale (e como!) quando o assunto é futebol. Jogo da bola não tolera comemoração antecipada, e já vi muito marmanjo chorar ao perder uma partida, ou taça, que acreditava ter no papo.
Dito isso, e fazendo a ressalva de que o futebol é o futebol, “caixinha de surpresas, etc.”, é claro que o São Paulo já está com uma mão e vários dedos da outra na sua sexta conquista de Brasileirão, a terceira seguida. Pode perder fôlego e deixar algum adversário atropelar na final? Pode. Mas, quem, em sã consciência, acredita nisso? Já houve precedente, e não faz muito tempo. Em 2004, o Atlético-PR estava também com a taça na mão, mas perdeu embalo nas últimas rodadas e deixou o Santos passar.
Só que as condições eram outras e o São Paulo me parece sólido e competente demais para deixar escapar um título que lhe caiu no colo.
Caiu? É isso: caiu no colo. Como definir de outro modo a situação? O Grêmio, com 12 pontos de vantagem, vai perdendo fôlego rapidamente até chegar à situação atual, cinco pontos atrás do rival? E ainda se dando “ao luxo” de perder um jogo por 2 a 4, contra o Vitória, que nada mais aspira (e nem teme) na competição? Muricy tem falado muito nessa recuperação. Houve época em que o próprio time havia desacreditado da conquista e preparava-se para disputar apenas uma vaga para a Libertadores, vaga que, para os são-paulinos, soa como nada mais do que a obrigação.
De modo que, salvo algum acidente de percurso, os colunistas esportivos de todas as tendências já estarão se preparando para analisar o “caso” São Paulo. Sim, porque se existe hoje uma hegemonia no futebol brasileiro é a do tricolor, que será sacramentada com esse título. Vamos analisar muitos itens, tentando entender o segredo do São Paulo. Condição financeira sólida? Sim, mas dentro dos limites de solidez do futebol brasileiro, o que não é dizer muito. Concepção democrática, com oposição forte e alternância no poder? Mais ou menos, embora não haja, no Morumbi, aberrações de continuísmo, como em clubes que são ou foram até pouco regidos por monarcas de direito divino e não por presidentes civis. Diz-se que o São Paulo tem estrutura funcional estável e que a entrada e a saída de um técnico não altera todo o esquema, como acontece em outras partes. Aposta na infra, naquilo que os boleiros chamam a torto e a direito de “estrutura”? Sim, mas outros clubes também dela dispõem, se por isso se entende o meio físico favorável, equipamentos modernos e bons profissionais de apoio. O segredo seria Muricy Ramalho? Talvez, porque é o técnico em melhor momento – e estranhamente muito bem cotado pela mídia, que parece deleitar-se com seu mau humor militante.
Sim, o São Paulo merece ser estudado e, se não me engano, todas as conclusões irão confluir num ponto comum – é o mais profissional dos clubes brasileiros. Da minha parte, concordo com tudo e todos, só me reservo o direito de achar que não existe uma maneira única de obter conquistas. Os outros clubes, hoje perdedores ou desesperados, não precisam se transformar em imitações do São Paulo para se tornar vencedores. Há mais de um caminho para chegar ao fim do arco-íris e colher o pote de ouro. Pelo menos, é o meu credo pessoal.
(Coluna Boleiros, 25/11/08)
Antes tarde do que nunca, recomendo a cobertura excelente do Festival de Brasília, assinada por Eduardo Souza Lima na Revista Zé Pereira. O Zé (que a gente chama de ZéJosé), está meio pau da vida com o pênalti que o juiz não deu para o seu Flamengo. Mas isso em nada perturba a sua análise e humor.
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