Leio que Fellini morreu há exatos 15 anos. 15 anos! Meu Deus…Parece que foi ontem. Estávamos no jornal e, como a situação dele já era irreversível, começamos a escrever as matérias de um caderno especial que sairia assim que ele morresse.
Jornalista é muito frio nessas ocasiões. Como estamos sempre contra o relógio, seguimos em frente, escrevemos, procuramos fotos, editamos, tudo com a maior objetividade, independentemente do sentimento que possamos nutrir em relação ao “mortinho”, como às vezes sarcasticamente falamos.
Mas houve um momento, já no meio da noite, em que parei um pouco, vencido pelo cansaço…e fraquejei. Lembrei que aquela pessoa, que ainda estava viva mas já tratávamos como morta, era a que eu mais amava, entre todos os cineastas.
Bem, minha relação com a obra de Fellini não mudou nesses anos todos. Oito e Meio ainda é o “meu” filme. Aquele que mais amo, que mais me ensinou, que mais revi e até hoje me ajuda a viver. Mas, às vezes, La Dolce Vita chega perto.
São os dois pontos mais altos. Mas não há um Fellini de que eu não goste. La Strada é magnífico. Satyricon, um espanto. E os “documentários”? Roma e I Clown (Os Palhaços), extraordinários. Gosto do “Oito e Meio feminino” – ou seja, Julietta dos Espíritos. E mesmo A Voz da Lua, o último opus do mestre, tão detratado, me faz sonhar com sua evocação de um Leopardi perdido na modernidade e devidamente enlouquecido. O maior papel de Roberto Benigni.
Vou me dar um presente neste fim de semana: escolher um desses filmes e revê-lo. Em honra ao mestre. Recomendo que façam o mesmo.
Até segunda, que blogueiro também é filho de Deus e merece um descanso.
Apenas um comentário sobre o premiado pela crítica, Meu Querido Mês de Agosto. Não havia votado nele; como vocês sabem, meu favorito era A Vida Moderna, de Raymond Depardon. Até brinquei com meu colega Merten: Será que vocês fizeram besteira? Não fizeram. O filme é uma graça e uma surpresa. Começa como uma espécie de documentário satírico e evolui para uma ficção inquietante, sem deixar de ser crítico ou irônico. Como outros, questiona o limite entre ficção e documentário. Um achado. Se puderem, não deixem de ver.
Prêmio da crítica: AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de MIGUEL GOMES
Prêmio da Juventude (apontado pelos estudantes secundaristas):
VERÔNICA, de MAURÍCIO FARIAS
Prêmios do Público:
- Melhor Longa estrangeiro de ficção: JODHAA AKBAR, de ASHUTOSH GOWARIKER;
- Melhor Documentário estrangeiro: YOUSSOU NDOUR: I BRING WHAT I LOVE, de ELIZABETH CHAI VASARHELYI;
- Melhor Documentário de longa-metragem brasileiro: LÓKI – ARNALDO BATISTA, de PAULO HENRIQUE FONTENELLE;
- Melhor Longa brasileiro de ficção: APENAS O FIM, de MATHEUS DE SOUZA;
Prêmio Teleimage de Finalização:
- Longa-Metragem: APENAS O FIM, de MATHEUS DE SOUZA;
- Curta-Metragem: MONKEY JOY, de AMIR ADMONI;
- Média-Metragem Brasileiro: BODE REI, CABRA RAINHA, de HELENA TASSARA
Prêmios do Júri Oficial de Medias e Curtas Metragens:
- Menção Honrosa: VIDAS NO LIXO, de ALEXANDRE STOCKLER;
- Melhor Curta-Metragem Internacional: DEATH VALLEY SUPERSTAR, de MICHAEL YAROSHEVSKY;
- Melhor curta-metragem Brasileiro: MONKEY JOY, de AMIR ADMONI;
- Melhor Média-Metragem Brasileiro: BODE REI, CABRA RAINHA, de HELENA TASSARA
Prêmios do Júri Oficial de Documentários:
- Menção Especial: CONHECENDO ANDREI TARKOVSKY, de DIMITRY TRAKOVSKY;
- Prêmio Especial do Júri: KFZ-1348, de GABRIEL MASCARO E MARCELO PEDROSO;
- Melhor Documentário: CRIANÇAS DA PIRA (Children of the Pyre), de RAJESH S. JALA;
Prêmios do Júri Internacional:
- Melhor atriz: SUSANNE WOLFF, de THE STRANGER IN ME (O Estranho em Mim);
- Melhor Filme: THE STRANGER IN ME (O Estranho em mim), de EMILY ATEF
Sempre vai faltar alguma coisa num filme sobre Che Guevara. Ou falta apologia ou condenação. Falta discussão política ou aventura. Che, de Steven Soderbergh, um monumento de 260 minutos de duração dividido em duas partes, tira sua força daquilo que nega às pessoas. Quem odeia o guerrilheiro sentirá falta de uma condenação sumária à sua trajetória de vida e ao seu sistema de pensamento. Quem o tem como ícone talvez se queixe de falta de emoção e da exaltação de uma biografia sem mácula. Desse retrato em dimensão humana, portanto cheio de arestas e contradições, quem sai ganhando é o espectador maduro, aquele que espera da vida algo mais que piedade ou moralismo. E ganha a própria memória do Che que, somando seus prós e contras, sai do filme com a dimensão que deve ter. Che encerra hoje à noite a 32ª Mostra de Cinema, em sessão para convidados. Pela manhã, concedem entrevistas os atores Benicio del Toro, que encarna Guevara, e o brasileiro Rodrigo Santoro, no papel de Raúl Castro.
De uma vida tão cheia de peripécias como a de Guevara, Soderbergh escolhe duas fases-chave. O primeiro filme, O Argentino, enfoca seu encontro no México com os irmãos Castro, a campanha na Sierra Maestra e a entrada vitoriosa em Havana. O segundo, O Guerrilheiro, é sobre a aventura boliviana, que lhe custou a vida em 1967. Ficam de fora a infância e a juventude, a fase da administração revolucionária em Cuba, a guerrilha na África, etc.
Mas, de certa forma, as duas fases contempladas pelo filme bastam para compor um perfil bastante intenso – aliás, construído com consultoria de Jon Lee Anderson, tido como autor da melhor biografia de Guevara (Che Guevara – Uma Biografia, Objetiva, 924 pág., R$ 89). Diante da considerável massa de informações, há que fazer escolhas e Soderbergh optou por um díptico significativo – um, que fala de uma fabulosa vitória; o outro, a narrativa de uma derrota. O tom adotado é sempre o realista, seja na semelhança dos atores com os personagens, seja na verossimilhança buscada nas cenas de luta. Benicio del Toro compõe um Che bastante convincente do ponto de vista físico, e magnífico como interpretação, que, aliás, lhe valeu a Palma de ator em Cannes, onde o filme concorreu. Santiago Cabrera é um ótimo Camilo Cienfuegos e Demián Bichir faz um Fidel Castro até engraçado pela semelhança física, pela fala, pelos tiques e até pelo modo de andar. Já Rodrigo Santoro é como talvez Raúl Castro gostaria de ter-se parecido em sua juventude.
Quando lhe propuseram o projeto de Che, Soderbergh disse que se sentiu fascinado porque a vida do argentino era “quase uma aventura” e também porque havia um desafio técnico, o de “implementar uma idéia política em larga escala”. Depois das 4h20, pode-se confirmar que Soderbergh se saiu muito bem desses dois desafios. Primeiro, porque a vida de Guevara não é “quase”, mas sim uma aventura completa. Às vezes apenas insinuada, como na conversa com Fidel numa varanda do apartamento mexicano, quando este lhe conta que 82 pessoas iriam embarcar num iate, o Granma, que acomodaria oito ou dez, no máximo. Em sua recordação, Che relembra que, dos 82 que saíram clandestinos do México em direção a Cuba, apenas 12 entraram vitoriosos em Havana. Todos os outros morreram pelo caminho, seja no desembarque, seja na Sierra.
Nos combates em Cuba, uma passagem importante, um rito, na verdade. Embarcado como médico na expedição, Che torna-se guerrilheiro e, por fim, comandante de uma coluna, justamente a que tomaria o último reduto de resistência de Fulgêncio Batista, a cidade de Santa Clara, onde ele está hoje enterrado. Há uma pequena nuance biográfica sobre esse episódio. No filme, quando sabe que um médico se incorpora ao grupo, o Che lhe diz: “Tenho um pequeno presente para você.” E lhe passa a mochila com medicamentos, ato simbólico do abandono da medicina em favor da guerra. Em uma das biografias, a de Paco Taibo II, a cena da passagem é ainda melhor. No afã de desembarcar do Granma, em meio à lama e a tiros, o Che é obrigado a escolher entre carregar um pesado estojo de medicamentos e um caixote de munições para o seu fuzil. Prefere armamentos a remédios, o que lhe parece escolha natural para as circunstâncias.
Como também lhe parece natural fuzilar traidores e desertores, fato escondido em biografias romanceadas ou realçadas fora do seu contexto de guerra nas versões antagônicas. Soderbergh opta por mostrar essas cenas, com dureza, porém sem sensacionalismo. É opção tanto cinematográfica como ética.
A segunda parte – O Guerrilheiro – passa-se quase toda na Bolívia, onde Che entra disfarçado, com óculos, dentes falsos, sem barba e calvo. O aspecto político da aventura não é escondido, em especial as desavenças com o Partido Comunista Boliviano, contrário à luta armada. Há uma clara ligação entre os camponeses cubanos da Sierra Maestra, do primeiro filme, e os bolivianos, no segundo. Com algumas semelhanças (a miséria) e diferenças básicas. Se os cubanos identificaram-se com a guerrilha, o mesmo não se dá com os bolivianos. Além disso, Che e seus guerrilheiros foram caçados na Bolívia pelo exército de René Barrientos, com apoio dos Rangers norte-americanos. Era uma guerra muito desigual e não poderia terminar de outro modo. As cenas dos guerrilheiros sendo dizimados são fortes, assim com a prisão de Guevara a 8 de outubro de 1967 e sua execução, no dia seguinte.
Isento de sensacionalismo, o Che de Soderbergh parece ocupado em dimensionar Guevara em sua estatura humana e política. Não como mito, mas como personagem histórico, um dos mais influentes do século passado, pense-se dele o que bem se quiser.
Serviço
Che
Unibanco Arteplex 1 – Hoje, 19 h
Unibanco Arteplex 2 – Hoje, 19 h
(Caderno 2, 30/10/08)
Leio que a imprensa argentina está eufórica com a escolha de Maradona para técnico da seleção do país. Já imaginaram a torrente de críticas que desabaria sobre a CBF caso Pelé fosse chamado para substituir Dunga? Argentina e Brasil são países bem diferentes em certas coisas.
A crítica está reunida num hotel para escolher os melhores (segundo ela) da Mostra de 2008. Mandei meus votos por e-mail e abro os meus três escolhidos para vocês, sem ordem de preferência:
A Vida Moderna, de Raymond Depardon
Il Divo, de Paolo Sorrentino
O Silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne
Nem preciso dizer que vocês estão convidados para deixar aqui suas indicações.
É humano, meus amigos. Gostamos de tirar lições dos fatos que acontecem. Mesmo que elas de nada sirvam para saber como devemos nos comportar no futuro. É como se a experiência acumulada não passasse de um carro com os faróis iluminando a parte de trás da estrada, e não a que vem pela frente. Era o que dizia o grande escritor mineiro Pedro Nava, autor de autobiografias admiráveis que, confessava, aumentavam demais o seu entendimento do passado, mas infelizmente em nada o preparavam para o futuro.
Talvez seja por isso que os palmeirenses não consigam tirar da cabeça o desastre no Rio diante do Fluminense. Ok, todos sabiam que o jogo seria difícil, com o Flu em ascensão e ainda motivado pela ameaça do rebaixamento. Mas quem poderia esperar 3 a 0 logo no primeiro tempo? Acho que nem o fantasma de Nelson Rodrigues, o mais fanático dos tricolores. E se o Flu, agora de René Simões, jogou bem (e, de fato, jogou) também não se deve esquecer que contou com o apagão mental do time do Palmeiras. Será que foi efeito daquele jogo no meio de semana pela Sul-Americana? Eis aí a pergunta que não pode calar.
Quem pode garantir? O problema, nos eventos humanos, é que eles não se repetem da mesma forma. Assim, tudo o que se pode fazer é uma suposição: “se” o Palmeiras, mesmo com time misto, não tivesse jogado aquela partida desgastante contra os argentinos, talvez estivesse em melhores condições para enfrentar o Flu no jogo decisivo no Maracanã. Como saber, já que o “se” não entra em campo?
O que, talvez, se possa saber é que raramente dá certo se dividir em duas competições, pois nenhum time brasileiro tem elenco para tanto. Mas, como fazer, se todo ano é a mesma coisa? Os melhores dividem-se entre o Brasileiro e a Libertadores, às vezes com conseqüências terríveis, como é o próprio caso do Fluminense, que quase ganhou o título do torneio, acabou perdendo para a LDU, entrou em depressão profunda e esteve até há pouco ameaçado de cair para a Segunda Divisão.
Já os remediados contentam-se com a Sul-Americana, esse patinho feio das disputas futebolísticas latino-americanas. Mas não é que o técnico do Santos, Márcio Fernandes, afirma que seu time ainda “sonha” com a Sul-Americana? Sonha? Se, por acaso, no ano que vem o Santos montar um time melhorzinho, e estiver disputando o título ou vaga para a Libertadores de 2010, certamente reclamará que a Sul-Americana lhe atrapalha a vida. Isso se conseguir a vaga com a qual “sonha”.
Ou seja, os times brasileiros sabem que não dá certo se dividir em duas competições porque não dispõem de infra-estrutura para tanto. Falta elenco. Mas, ao mesmo tempo, esfalfam-se a mais não poder para estar na Libertadores, ou, em falta desta, na Sul-Americana. Típico caso em que o olho é maior que a boca, como se diz lá no interior.
LIÇÃO APRENDIDA?
É de se desejar que, agora que o Corinthians voltou de fato à Primeira Divisão, tenha aprendido de vez que não compensa se meter em trapalhadas financeiras para montar um grande time. Não adianta fazer espuma se não há chope por baixo. Esse tipo de expediente desesperado, a parceria com mafiosos, cobra juros muito altos. Altos demais, na verdade. Ninguém pode pagá-los. Mas será que os clubes, e não falo apenas do Corinthians, aprenderam de fato essa lição tão óbvia?
(Coluna Boleiros, 28/10/08)
História mística? Estudo sobre a obsessão amorosa? Era a dúvida da primeira platéia brasileira que via A Fronteira Alvorada, de Philippe Garrel. O filme passa hoje de novo na Mostra. Não é cinema para se perder. Mesmo porque, quaisquer que sejam as objeções, há sempre algo de desconfortável, alguma coisa que sai fora do esquadro – e por isso mesmo nos tira do centro – no cinema de Garrel.
Louis Garrel, que já protagonizara o filme anterior do pai, Amantes Constantes, faz aqui novamente o papel principal. Ele é François, fotógrafo escalado para fazer o book, como se diz, de uma atriz emergente, Carole (Laura Smet). Ela é casada, o marido está a trabalho nos Estados Unidos, em Los Angeles. François e Carole iniciam um caso. Apenas um flerte passageiro? Longe disso, pois o affaire transforma-se em obsessão amorosa. Logo François percebe que Carole, cujas primeiras cenas criam a impressão de ser uma pessoa superficial, é mais problemática do que aparenta. O caso dos dois terá desdobramentos inesperados.
A exemplo do que fizera em Amantes Constantes, Garrel trabalha de novo em preto-e-branco. Aliás, um notável P&B, que banha o filme a uma aura de romantismo, ao mesmo tempo em que insiste volta e meia num registro de fantasia. É como se esse recurso monocromático nos deixasse um pouco em suspensão quanto ao tempo. Claro, parece que estamos no tempo presente, pelas roupas, pelos carros. Mas em vão esperamos que apareça um objeto tão banal como um celular para nos reassegurar.
É o tom um tanto démodé dessa história de amor que está lá para nos confundir. Imperceptivelmente, o espectador é levado de volta à nouvelle vague, uma referência sempre presente em Garrel. E não bastasse isso, seu filho, Louis, se parece tanto a outro autor emblemático da nouvelle vague – Jean Pierre Léaud, alter ego de Truffaut na “série” Antoine Doinel, e também ator do cult La Mamain et la Putain, de Jean Eustache.
Porque também François, como seu antecessor Doinel, terá de se dividir entre dois amores no momento em que Carole estiver fora de jogo, ou pelo menos é no que ele acredita. Nesse momento, entrará uma outra moça em cena, nessa duplicação de amores tão cara à nouvelle vague, e presente em toda a série Doinel, em Jules & Jim, em La Mamain et la Putain. Uma constante, que irá aparecer, de maneira insólita, em A Fronteira do Alvorada. Eve (Clementine Poidatz), a outra garota é, em certo sentido, oposta a Carole. Morena, enquanto a outra é loura; uma rocha de normalidade em contraste com a rival perturbada. Tão normal que parece disposta a dar a François aquilo que ele não se sente em condições de ter – um filho.
Nessa segunda parte do filme, o grau de estranheza chega ao seu ponto máximo. Essa relação esquiva com aquilo que tranqüilamente (e meio irresponsavelmente, dizia Cortázar) chamamos de “o mundo real estável” já se insinuava desde o início. Em especial pelo P&B meio espectral de William Lubtchansky, o fotógrafo de Garrel, responsável também pela luz de Amantes Constantes. Mas também pelas cordas dissonantes de Jean-Claude Vanier e Didier Lockwood, responsáveis pela trilha sonora. São signos que preparam uma ruptura da dimensão do mundo real, lógico, aquele em que a morte é definitiva e os mortos não voltam para assombrar aqueles que amam.
Essa ruptura com o realismo custou muitas críticas a Garrel, como se ele tivesse se tornado um avatar francês de M. Night Shyamalan, embora A Fronteira da Alvorada nada tenha de um O Sexto Sentido estilizado, ou intelectualizado. É melhor referi-lo a criadores como Murnau e Dreyer que conseguiram colocar o fantástico na tela grande, sem por isso terem suas reputações ameaçadas. O Vampiro toma a fábula como elemento alusivo a distúrbios sociais. E mesmo a ressurreição em A Palavra pode ser vista no sentido místico, mas também num de transcendência. Afinal, o milagre, como o sentido do fantástico, é apenas a ruptura com as convenções do mundo real, no qual (sempre em tese) vigem as leis da física e da lógica aristotélica.
E, depois, nunca se sabe até que ponto as aparições do além-túmulo não passam de alucinações de um coração perturbado. A obsessão amorosa nasce de fontes inconscientes e tendemos a ver o inconsciente como o real, dizia o mais materialista dos pensadores, Freud, que, nesse quesito, só rivalizava com Marx. Aliás, Freud descreve com muita vivacidade a história de um pai que adormece no velório do filho e, no sonho, vê o garoto e fala com ele, como se estivesse ainda vivo. O sonho pode ser mais real que a realidade, e talvez seja essa a obsessão amorosa de François e Carole.
MIL ANOS DE ORAÇÕES: Tantas preces assim talvez não sejam suficientes para reaproximar pai e filha, personagens do novo filme do chinês Wayne Wang. Ela mora nos Estados Unidos e já está devidamente ocidentalizada, nos hábitos e no estresse pessoal e profissional. Ele vem da China para visitá-la, depois que fica viúvo. O sr. Chi é um técnico, que trabalhava no desenvolvimento de foguetes em seu país e agora, na terceira idade, quer apenas viajar um pouco e conhecer o país onde a filha diz ser feliz. Em seu cinema humanista, Wang, diretor também de Cortina de Fumaça, com roteiro de Paul Auster, busca aquilo que pode aproximar as pessoas. No caso, um choque cultural, com o personagem do sr. Chi falando poucas palavras em inglês mas suficientes, por exemplo, para se comunicar com uma mulher iraniana que freqüenta o mesmo parque. O estilo é ameno, assim como a fotografia e as atuações. Num mundo áspero, um cinema desse tipo também deve ter vez, para o bem das pessoas. Mesmo porque ele não é bovinamente otimista, nem nega a existência dos conflitos. Apenas pensa que dá para negociá-los.
Leio no blog do Merten que o diretor Hugh Hudson lhe disse, em particular, que na coletiva de imprensa da qual participara na qualidade de membro do júri da mostra só havia ouvido perguntas imbecis dos jornalistas. Ora, ora. Quanta arrogância! Que máscara! Vejam só: enquanto Hudson meditava sobre a sua superioridade, os outros jurados, Samira Makhmalbaf (Irã), Jorge Bodanzky (Brasil), Nicolas Klotz (França) e Meinholf Zurhost (Alemanha) respondiam às tais perguntas com todo o respeito, com conteúdo e atenção. Hudson permanecia em seu canto, falando por monossílabos, amuado, talvez se sentindo acima do ambiente onde estava. Antiga mentalidade colonial.
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