Escrevi hoje, no Cultura, um artigo sobre versoes para o cinema de textos de Julio Cortazar. Acabo de receber um e-mail de Roberto Gervitz, puxando minhas orelhas pela omissao do seu filme Jogo Subterraneo, tambem adaptado do autor argentino. Fica o reparo. Abaixo, segue o e-mail do Gervitz e o texto do Cultura.
Prezado Zanin,
estranhei a omissão de meu filme, Jogo Subterrâneo, em artigo que você escreveu sobre as adaptações para o cinema da obra de Cortázar. Afinal, no Brasil, creio que somente Guilherme de Almeida Prado e eu o adaptamos. Independentemente de que o filme o tenha agradado, além de que o leitor mereça tal informação, creio que nesse trabalho, o Jorge Durán e eu praticamos a mesma liberdade que você advoga para as adaptações…Um abraco, Roberto.
Texto do Cultura
Não resta dúvida de que a adaptação mais conhecida de um relato de Julio Cortazar para o cinema seja Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni. Mas o filme – uma das obras-primas do mestre italiano, deve ser considerada não uma versão literal, ou mesmo muito aproximada, do relato do argentino – é, antes, uma adaptação muito livre, que se inspira mais no espírito do texto em que em sua “letra”. O conto é Las Babas del Diablo (do livro As Armas Secretas) e o filme que dele Antonioni tira guarda o que poderíamos chamar da intriga central. Um crime é cometido e, ao aproximar-se do local do assassinato (pois é disso que se trata), uma testemunha descobre o delito. Mas nada sabe do criminoso.
Toda a arte de Cortázar, em seu texto, será mostrar como a realidade é, por assim dizer, decupada em camadas, das quais percebemos, em geral, apenas a mais superficial. No entanto, existe algo que insiste, e que nos tira do torpor cotidiano, como um sintoma. Algo como a insistência de de um “real”, por baixo da realidade mais habitual, para usar termos da psicanálise de inspiração lacaniana. E é disso mesmo que trata Blow Up que, expressão que, convém lembrar, designa o processo de ampliação da revelação fotográfica. O fotógrafo (David Hemmings) irá progressivamente ampliando as fotos que fez de uma mulher (Vanessa Redgrave) num parque londrino, até perceber o que parece ser um corpo inerte por detrás de uma cerca. Mas essa descoberta é apenas o começo do mistério e não a sua solução. Há que escavar constantemente nesse real que é dado, mas que também se esconde, em busca de uma essência bastante hipotética. É claro que Cortázar, através de um relato ficcional, discutia um dos antigos problemas da filosofia, que é o do acesso perfeito ao conhecimento, às coisas em si. Ter captado essa idéia central, e a incorporado à sua própria poética transformando-a num estudo também sobre as imagens, é prova do gênio de Antonioni e sua capacidade de atualizar um problema, retrabalhando-o em linguagem nova.
Afora esse caso mais famoso, Cortázar foi adaptado para o cinema, em seu próprio país, numa série de longas-metragens rodados por seu conterrâneo Manuel Antin. São filmes como La Cifra Ímpar, Circe e Intimidad de los Parques, que passaram no Brasil numa mostra promovida pelo Sesc anos atrás. Nunca entraram numa sala comercial, salvo engano. Desses filmes, La Cifra ímpar é, provavelmente, o mais bem sucedido, É baseado no conto As Cartas de Mamãe, de As Armas Secretas, e trabalha com tempos alternados na história dos irmãos que se apaixonam pela mesma mulher. É curioso assistir a esse filme porque sua realização lembra muito a de Alain Resnais em O Ano Passado em Marienbad, embora o diretor negue a influência. Mas a referência de Resnais é sempre muito forte em trabalhos que usem o tempo como matéria-prima, como é o caso. Em todo caso, de maneira nacionalista, Antin diz que foram argentinos como Borges, e o próprio Cortázar, que influenciaram os franceses, e não o contrário.
Já Circe, do conto homônimo, expressa o temor do homem em relação ao universo feminino – e também uma certa obsessão alimentar de Cortázar, que ele, à maneira psicanalítica, procurava exorcizar expressando-a; isto é, escrevendo. Em A Intimidade dos Parques, a ação, originalmente passada na Grécia antiga, é trazida para o Peru, para o santuário de Machu Picchu. São trabalhos interessantes, os de Antin, mesmo porque trabalham sobre um material de ficção de primeira linha. Nem sempre, no entanto, ele consegue dar a esse material uma transposição imagética à sua altura. Fascinado pelo texto de Cortázar é muitas vezes excessivamente respeitoso, quando sabemos que, nas adaptações, o melhor mesmo é ter disposição de trair, por respeito ao autor. E não o contrário.
Por fim, é preciso lembrar da adaptação brasileira de um texto de Cortázar, A Hora Mágica, feita por Guilherme de Almeida Prado a partir do conto Cambio de Luces, do livro Alguién que Anda por Aí. No original, Cortázar estuda como a simples mudança da posição de um abajur pode alterar completamente a percepção – inclusive psicológica, que se tem de alguém. Guilherme muda a situação, e altera bastante o conto. No caso, faz do seu personagem (Raul Gazzola) um dublador de rádio, alguém que é conhecido do público (e por uma mulher que por ele se apaixona) apenas pela voz, sem que seu rosto seja visto. Aqui, a mesma idéia, esse trabalho ficcional com o enigma humano da percepção. Nunca dominamos por completo a percepção; nunca vemos as seis faces de um cubo. Tudo é parcial, tudo é relativo e confuso. Por isso, essa abertura para a surpresa – e para o fantástico, que era a melhor característica dessa prosa estruturalmente libertária que é a de Julio Cortazar. Os que mais bem o adaptaram foram os que compreenderam essa ânsia de liberdade contida no texto.
VENEZA – Mais dois concorrentes – a animação Ponyo, de Hayo Miyazaki, e mais um concorrente da casa, Il Papà di Giovanna, de Pupi Avati. Miyazaki traz um desenho animado destinado a crincinhas, que nada acrescenta à sua obra. Bastante linear, é filme que suscita aquela questão: por que diabos entrou na mostra competitiva de um festival como o de Veneza: apenas pelo nome?
Já o concorrente da casa, Pupi Avati, não apresenta surpresas. É aquele tipo de cinema meio quadrado, bem-feito, mas que cheira um pouco a naftalina. Traz uma bonita história da adolescente que mata uma amiga por ciúmes, durante o tempo do fascismo. Uma ótima interpretação de Silvio Orlando, no papel do pai da garota. Aplausos tímidos no final, mas também não causou qualquer impacto.
Para resumir: até agora, a mostra competitiva não apresentou nenhum filme do qual se pudesse dizer que fosse um dos favoritos ao prêmio principal. Pelo contrário, todos esperam que o festival melhore daqui para a frente.
Por outro lado, não se entende porque um filme tão sensível, bem dirigido e, sim, com marca autoral bem visível, como 35 Rhums, da francesa Claire Denis, passou fora de concurso e não na competição principal.
VENEZA- Mojica teve uma boa sessão ontem à noite. Umas 300 pessoas na Sala Grande, que tem pouco mais de mil poltronas. Pouca gente foi embora. Houve aplausos para o diretor na apresentação e durante o filme, em especial nas cenas de tortura que, pelo jeito, caíram no gosto de uma certa tribo. No final, mais aplausos. Há um nicho de mercado para Mojica. Qual o tamanho dele, não se sabe. O fato é que o filme fracassou no Brasil.
Delicioso o Monicelli que eu não conhecia, Toh, è Morta la Nonna. De 1969, o filme certamente é uma matriz de Parente É Serpente. O humor corrosivo de Monicelli não tem limites. Coloca suas lentes, em especial, sobre a sociedade italiana e as relações familiares, que tendem (ou tendiam) a ser idealizadas neste país e em outros. A história é a da família que se reúne para o funeral da avó, a proprietária de uma fábrica que, no entanto, tem como “bíblia” o livrinho vermelho dos pensamentos de Mao. Ótima diversão – com massa cinzenta. Monicelli não foi à sessão. Quem foi, numa cadeira de rodas, foi uma das atrizes, Valentina Cortese, belíssima em seu tempo.
Acabei agora de assistir A Outra, filme francês de Patrick Mario Bernard e Pierre Trividic. Não me perguntem quem são, pois estou conhecendo agora. Gostei do filme, embora um tantinho frio e meio que cerebral no pior sentido. Dominique Blanc faz a assistente social que rompe um caso com um homem mais novo e começa a pirar quando descobre que ele a substituiu por uma mulher da mesma idade que ela. O tema do duplo, tão velho quanto a humanidade entra em filigrana nesse filme que apresenta um bom trabalho de Dominique.
VENEZA – Já entrei naquela fase meio punk do festival, em que você é dominado pela quantidade de filmes, a falta de sono e de tempo para se alimentar corretamente. Hoje, pelo menos, consegui almoçar de maneira decente, e numa mesa de amigos. Ou seja, como um ser civilizado deve proceder: antipasto, primeiro prato, segundo, sobremesa, café. Até fumei uma cigarrilha depois. É muito raro dar para fazer isso. Em geral, engolimos um sanduíche, o popular “panino”, entre uma sessão e outra. Há dois filmes à noite pela competição. Eu deveria descansar um pouco para aguentar o tranco. Mas, sabe o que vou fazer? Vou ver um Monicelli que não conheço (Toh, è morta la Nonna) na seção de obras italianas recuperadas. Já fui.
VENEZA – A primeira vaia do festival veio para Inju, filme de gênero de Barbet Schroeter. E mesmo The Burning Plain, a tão aguardada estréia na direção de Guillermo Arriaga (ex-parceiro do seu conterrâneo Alejandro González Iñarrítu) não produziu o efeito que se esperava, mesmo não sendo mau filme. Aliás, é até bem interessante.
The Burning Plain é uma daquelas costumeiras histórias que se desenvolvem paralelamente para se cruzarem no fim, típicas da escrita de Arriaga. O espectador tem de aceita um vai e vem no tempo, que o deixa perdido no início. Até começar a ver como se entrelaçam as vidas daqueles personagens. A protagonista (se é que existe uma, num filme de vocação coral) é Sylvia (Charlize Theron), empregada em um sofisticado restaurante de Portland, mas que parece ter contas a ajustar em seu passado. Na história de Arriaga há traições conjugais, ciúmes fatais de filhos em relação aos pais e um duro papel atribuído a Kim Basinger, o de uma mulher marcada por uma doença grave, que está tendo um caso fora do casamento com um homem compreensivo (Joaquim de Almeida).
Sobre sua opção estética de trabalho com o tempo, presente nesta estréia na direção e nos três filmes que roteirizou para Iñarritu (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), Arriaga disse que nada mais faz que reproduzir a maneira como as pessoas contam suas histórias, de maneira não-linear. “Existe esse preconceito de que a maneira normal de narrar é linear, quando o que ocorre é o contrário. As pessoas vão e vêm no tempo, fazem digressões, comentam o que dizem, etc; basta reparar”. Além disso, queixa-se de que quando tentam compará-lo a alguém, falam em Tarantino ou Altman. “Esquecem de que Godard sempre fez isso e Kurosawa, em Rashomon, contou a mesma história sob diferentes pontos de vista”. O roteiro de fato é muito engenhoso, inclusive em sua estratégia de só entregar a verdade (ficcional) ao espectador quando o filme já está bem avançado.
Falta, no entanto, um toque mais enérgico, um envolvimento plástico mais agudo – aquele mesmo que suas histórias tinham quando filmadas por Iñárritu. Acontece que os dois brigaram para valer e não se falam. Quando lhe perguntam sobre esse passado recente de roteirista de Iñárritu, Arriaga é elegante: “Ele dirigiu três grandes filmes; agora cabe a mim o desafio como cineasta”.
O longa de Arriaga pode não ser tudo o que se esperava do début de um grande roteirista, mas o Schroeder já provoca no Lido aquele tipo inevitável de pergunta: o que um filme como esse está fazendo num festival como o de Veneza? É que talvez não se aceite tão bem o jeito um tanto paródico como ele enfrenta a adaptação de um escrito cult japonês, Taro Hirai. Na história inicial, havia o confronto rival entre dois autores japoneses de histórias de detetive. Na versão de Schroeder, um desses escritores é o best seller francês Alex Fayard (Benoit Magimel), especialista na obra de um japonês misterioso, Shundey Oe. Alex vai até o Japão para lançar um livro e a viagem o mergulha numa escalada de sexo, violência e sado-masoquismo, com direito a um desfecho surpreendente. O que incomoda é o tom de artificialidade do filme, que não contribui em nada para tornar crível uma trama descabelada e, no fundo, meio sem sentido. Não por acaso o filme foi vaiado (italiano vaia fazendo bu!) e a sala de entrevistas coletivas, lotada até a tampa para Charlize Theron, estava às moscas na de Schroeder, Magimel e o elenco japonês do filme.
Também não se pode dizer que a coletiva do brasileiro José Mojica Marins tenha provocado comoção no Lido. Mas pelo menos foi mais divertida. Mojica, o Zé do Caixão, contou à platéia escassa porém atenta, o que havia sido a saga para realizar Encarnação do Demônio, o desfecho da trilogia do seu personagem. Só que foi tão caudaloso em sua narrativa, que quase não houve tempo para perguntas. Segundo informações, a primeira sessão, realizada na Sala Grande às 9h da manhã, teve platéia apenas razoável, composta pelo público de sempre, interessado em filmes de terror. Existe isso, uma espécie de Internacional Cinéfila do Filme de Horror. Zé do Caixão está nesse nicho. A sessão para o público estava prevista para a meia-noite de ontem. Horário mais adequado porque, francamente, Zé do Caixão logo de manhã cedo, com suas torturas “artesanais” e insetos rastejantes, não é para qualquer estômago.
No final da coletiva de Mojica, uma surpresa: estava presente o escritor Fernando Bonassi, que foi logo se queixando de que a imprensa pátria havia comido mosca: “Há dois roteiristas brasileiros presentes na disputa ao Leão de Ouro”, disse. Quem? Ele próprio, que é co-roteirista de Plastic City, com Yu Lik-Wai e Liu Fendou, e Luis Bolognesi, também no Lido e prestigiando a coletiva de Mojica, que co-assina o roteiro de Birdwatchers com Marco Bechis, o diretor do filme.
Valentino
Agora, quem recebeu uma grande ovação, levando o público da sessão de gala na Sala Grande a um aplauso em pé de vários minutos, foi o costureiro Valentino, personagem do documentário do norte-americano Matt Tynauer. Havia um difuso temor de reação contrária ao filme, afinal Veneza sempre passou por festival politizado, e com tendência à esquerda, e poderia não ver com bons olhos a celebração de um deus da moda e do supérfluo. Bobabem. Politização é coisa do passado ou, pelo menos, na Veneza atual Valentino pode muito bem conviver com o enragé Píer Paolo Pasolini, de quem se exibiu um documentário apropriadamente chamado de La Rabbia (A Raiva).
E Valentino – o Último Imperador não é mesmo mau filme. O tom, claro, é reverente, mesmo porque para se obter o aval de documentar o cotidiano e contar a história de um figurão desse porte, algumas concessões devem ser feitas. Mesmo assim, Tynauer mantém um certo grau de ironia e distanciamento que, bem discreto, empresta dignidade ao seu projeto. Por exemplo, usa, de maneira intensiva, as trilhas sonoras de Nino Rota, na origem compostas para os filmes de Federico Fellini. Há uma desculpa para isso, porque Valentino evoca imediatamente a Dolce Vita registrada para sempre numa das obras-primas de Fellini. Aliás, algumas imagens do filme são usadas no documentário – em especial as de Marcello Mastroianni na Via Vêneto, onde ficava o ateliê de Valentino.
O filme tem um lado, digamos, didático, informando dos passos dessa carreira que começa lá atrás, nos anos 60 e se estende até a festa grandiosa no Coliseu de Roma, onde Valentino faz seu último desfile, colorindo o monumento romano com o vermelho que é sua marca registrada e fogos de artifício. Uma festa para a eternidade, conforme se diz. Mas há a câmera da intimidade, aquela que acompanha o designer em momentos de descontração e de tensão. E que o registra perdendo a paciência e brigando com auxiliares – e mesmo com o companheiro de mais de 40 anos, Giancarlo Giammetti. Fora esses momentos, Valentino é uma esfinge, o rosto impassível, o andar estudado, os gestos medidos. Mas há outro momento em que ele fraqueja. É quando recebe a Légion d’Honneur e a dedica ao companheiro. Nesse momento os olhos brilham, a voz tremula. Autocontrole também tem limite.
Há outro dado interessante no filme, quando se pergunta o que move Valentino. Ele não hesita: “a beleza”. Talvez nunca tenha se preocupado em definir essa entidade, que quebrou a cabeça de muitas gerações de filósofos. A beleza está nas mulheres elegantes, nas estrelas de cinema, nos salões, nos tecidos refinados. Está em seu palácio parisiense, suntuoso a ponto de lembrar uma réplica menor de Versalhes. Até mesmo nos cachorrinhos que o acompanham em toda parte e viajam em seu jatinho particular. Há empregados que tratam da matilha e escovam até os dentes dos bichinhos.
“O filme mostra quem eu sou”, disse um orgulhoso Valentino. Não há por que duvidar. Mesmo que arestas e incongruências estejam bem maquiadas, elas são quase evidentes para quem tem olhos para vê-las.
VENEZA – Muita gente me pede informacoes sobre outros filmes. Como estou numa correria danada, transcrevo aqui os relatos que tenho mandado para o Caderno 2. Desculpem tambem se demoro a liberar os comentarios. O blog esta dando problemas para ser manejado daqui de fora. A senha eh exigida varias vezes, etc.
Era grande a curiosidade sobre os novos filmes de dois mestres, o iraniano Abbas Kiarostami e o japonês Takeshi Kitano. O primeiro, fora de concurso, com Shirin; o segundo, disputando o Leão de Ouro (que ele já ganhou um, em 1997, com Hana-Bi), com Aquiles e a Tartaruga.
Não havia muita gente na sala para ver Shirin, o novo Kiarostami. E boa parte do público saiu durante a sessão, incomodada com a radicalidade do projeto do iraniano. Quem ficou, foi recompensado por um excepcional exercício metalingüístico do mestre. Trata-se da apresentação de uma peça teatral, baseada num poema persa do século 12. Só que o espectador nada vê da peça, a não ser pela reação do público. São 114 atrizes iranianas, e mais a diva francesa Juliette Binoche, que “interpretam” para nós o que só elas vêem num suposto palco.
Shirin é uma radical experiência de hors champ (fora do campo). De certa forma, o filme é reflexão sobre o poder mobilizador da arte. De outra, é também um estudo sobre a capacidade expressiva do rosto humano. As atrizes interpretam com seus olhos, com seus músculos faciais, com suas bocas, e fazem com que imaginemos o que estão vendo, e do qual só temos o som – os diálogos, a música, o ruído das patas dos cavalos, o choque das espadas. Sim, porque se trata de uma história de amor e aventura, que leva nossas protagonistas ao medo, à esperança, às lágrimas, à reflexão. É genial. E passado o momento de estranheza de vermos na tela apenas rostos e os ruídos de uma peça que não vemos, é possível meditar sobre essa arte do cinema, que é feita do visível, mas também do invisível – por mais que esse fato pareça alheio a uma sensibilidade do explícito, como a nossa.
Kitano, em sua reflexão sobre o paradoxo de Aquiles e da Tartaruga, também agradou, embora todos concordem que estamos longe do cineasta de Hana-Bi ou Sonatine. Nos últimos anos, Kitano chegou a preocupar seus fãs, imerso numa profunda e assumida crise criativa. Seus dois últimos filmes – ambos presentes em festivais anteriores em Veneza – eram testemunhas desse mal-estar do criador consigo mesmo. Takeshi’s, de 2005, e Glória ao Diretor, de 2007, eram variações dessa busca do autor em torno de si mesmo – e que, no fundo, não conseguiam interessar a mais ninguém.
Se que se, desta vez a veia autobiográfica ainda está presente, Kitano consegue alçá-la a um plano de interesse mais geral. O dado: depois de um terrível acidente de moto, que quase o matou, Kitano passou a pintar e hoje expõe seus quadros. Aliás, a preocupação com as artes plásticas comparece desde os seus primeiros filmes. Quem não se lembra em Hana-Bi do policial que se torna paraplégico depois de levar um tiro e se conforta dedicando-se a pintar aquarelas? Mas, bem, em Aquiles e a Tartaruga, Kitano acompanha a história de um garoto dotado para as artes plásticas, e seus percalços ao longo da vida. Machisu é filho de pai rico, mas este perde tudo e morre. O menino vai ser criado por um tio pouco sensível e toda a sua trajetória será em busca da expressão artística. Do domínio da técnica ao plágio, até encontrar sua linguagem – se é que isso é possível.
É também o sentido do título do filme, que se refere ao paradoxo de Zenão. Por mais veloz que seja Aquiles, ele jamais alcançará a tartaruga, se esta sair em vantagem. Porque quando Aquiles chega ao ponto onde estava a tartaruga, ela já terá avançado um pouquinho – e assim por diante. Passamos a vida toda tentando encontrar a nossa linguagem, aquele estilo que nos é tão pessoal que não se confunde com nenhum outro, e ele está sempre um tantinho adiante de nós. Kitano reflete sobre si mesmo. Mas, desta vez, sua reflexão serve para todos nós.
Jerichow, o concorrente alemão, dirigido por Christian Petzold, foi recebido friamente na sessão para os jornalistas, mas é filme que tem méritos. Não inova no clássico tema do triângulo amoroso. Ali é o rico comerciante turco, casado com Laura, alemã de passado complicado. Na vida dos dois entra o jovem Thomas, que se torna empregado de Ali e amante da patroa. Ambos planejam desembaraçar-se do marido. A trama parece conhecida? Claro, ela dialoga com The Postman Always Rings Twice, de James Cain, adaptado por Luchino Visconti no início da sua carreira com o título de Sedução da Carne.
Mas é claro que se trata de um diálogo, não de uma paródia. As interpretações são secas, despojadas. Constroem-se em torno da obsessão de todos, o dinheiro. Explicitada, em determinado momento, pela protagonista, Laura (Nina Hoss): “Sem dinheiro, não existe lugar para o amor”. E um desfecho-surpresa, diferente daquele imaginado por Cain e filmado por Visconti. É bom signo do cinema alemão, que reencontra leveza e profundidade depois de alguns anos meio burocráticos.
Notas:
A favor do público
O cineasta Wim Wenders, presidente do júri de Veneza, disse que não pedirá sessões privadas para os jurados que terão a responsabilidade de atribuir o Leão de Ouro e os outros prêmios do festival. “”De comum acordo”, decidimos ver todos os filmes junto com o público, porque para ele as obras são destinadas”. Restaria acrescentar que esse público é muito especial, feito por pagantes, mas também por Vips e convidados. Em nada se assemelha àquele público comum, que determina o fracasso ou o sucesso comercial de um filme
Mais índios
É esperada a presença de índios brasileiros para a sessão de Birdwatchers, do ítalo-argentino Marco Becchis, uma co-produção entre Itália (80%) e Brasil (20%), rodada no Mato Grosso. Porém, de surpresa, apareceu no Lido o cineasta brasiliense Armando Lacerda, trazendo na mala seu documentário sobre o cacique Juruna, que será exibido na sala de vídeo do Cassino do Lido.
Elegância
O Lido não é mais aquele. A crítica não vem de Valentino, o ícone da moda, mas do presidente do Centro Sperimentale di Roma, o sociólogo Francesco Alberoni. Ele se incomoda com as hordas de estudantes mal vestidos que andam pelas ruas do elegante balneário e entram nas salas dos cinemas do festival. O engraçado é que a instituição que dirige foi o centro difusor das idéias do neo-realismo, que propunha mostrar o povo como o povo é – e nisso encontrava sua beleza. Será que o Centro Sperimentale não é mais o mesmo?
Plastic City, do chinês Yu Lik-Wai, ambientado no Brasil, co-produção brasileira, com atores brasileiros, musica brasileira, co-roteirizado por Fernando Bonassi, etc. é um desastre completo. Foi vaiado na sessão de imprensa. A história, da mafia chinesa dos produtos piratas em Sao Paulo e Santos, é sem pé nem cabeça, para dizer o mínimo. Apenas um detalhe, mas significativo: aparece um tigre de bengala na floresta amazônica. Será fugido de algum zoológico? Dá para encarar?
Bem, consegui reencontrar os caracteres. Só para dizer que caí numa pauleira louca, vendo filme após filme. Ontem à noite, um surpreendente Kiarostami, Shrin, no qual você “vê” uma peça de teatro apenas pelos olhares das espectadoras. Projeto ousado, acho que muito haverá o que se dizer sobre ele. Depois, o novo Kitano, Aquiles e a Tartaruga. Saindo da crise de criação, o diretor japonês mostra o processo pelo qual um garoto tenta tornar-se pintor ao longo da vida. Kitano foi sempre bom quando apostou na simplicidade. È o caso aqui. Em seguida, vi o documentário Valentino, o Último Imperador, sobre o rei da moda italiana. Acabei vendo na sessão oficial, com a presença do próprio homenageado, que aliás, foi ovacionado com um longo aplauso. È um belo documentário, com uma ponta de ironia, segundo me pareceu, inclusive pelo uso intensivo de uma trilha sonora de Nino Rota, que evoca diretamente Fellini. Revelador. Agora, se me permitem, vou tentar almoçar. Fui.
VENEZA – E, de novo, sem acentos, pois escrevo do centro de imprensa. Que, alias, esta um caos. Tanto assim que daqui a pouco vou ao hotel, escrever a materia para o Caderno 2 no meu laptop. Como la nao tenho internet, vou ter de buscar uma lan-house. Enfim, so para dar o recado sobre o novo filme dos Coen Burn After Reading. Uma deliciosa comedia de equivocos, que, como acontece com eles, vai muito alem do que existe na superficie. Desta vez a comedia eh sobre a CIA. Acho que nunca a inutilidade da agencia foi tao gozada como neste filme. Rimos, mas depois nos damos conta de que este eh o nosso mundo. Riso amargo, portanto. A coletiva de imprensa foi vergonhosa. Um circo, com atos explicitos do jornalismo espetaculo. Uma jornalista espanhola, por exemplo, vestida como se fosse praticar jogging, perguntou a George Clooney se ele correria atras dela. Resposta, muito boa: Eu correria DE voce. Nao quero parecer saudosista, mas acho que o jornalismo ja conheceu dias melhores. Fui.
VENEZA – Bem, um post ultra rápido, antes de dormir. Noite mágica na sessão em homenagem a Ermano Olmi, no Campo de S. Pólo. Primeiro, uma recepção no Pallazzo Quirini Dubois. Sem querer, acabei servindo de intérprete na conversa entre os dois mestres, Manoel de Oliveira e Ermano Olmi, me revezando com Leon Cakoff e Marco Muller. Acho que ele se disseram coisas bem interessantes, como depois vou contar na minha matéria para o Caderno 2. Depois, a sessão propriamente dita, com A Lenda do Santo Beberrão (será que é esse mesmo o título em português?), filme que venceu o Festival de Veneza há exatos 20 anos. Adorei rever Rutger Hauer no papel do clochard que tenta em vão pagar uma dívida a Santa Tereza. Filme profundamente católico – nossa dívida principal é impagável, nunca saímos do pecado original. Fora isso, o rigor da direção e da fotografia, o senso do detalhe e da luz são impressionantes. Depois, mais um coquetel, na praça, com queijo do Vêneto e vinho da região de Asiago, onde Olmi escolheu viver. Na volta ao hotel, no táxi aquático, pelo Canal Grande. Repito: noite mágica. E agora vou dormir, que amanhã tem mais. Muito mais, aliás, e bem cedo.
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