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Luiz Zanin

30.maio.2008 19:45:54

Corpo

Corpo – é esse o título do longa de estréia de Rossana Foglia e Rubens Rewald. E o corporal, o sensorial, é mesmo o que ele tem de melhor com insight cinematográfico. Nota-se, na dupla de diretores, o desejo de ascender à essa dimensão física da imagem, tão difícil de conseguir. Por momentos, toca-se essa sensorialidade. Que transita das cenas algo repulsivas do necrotério à celebração do desejo e do amor em outras seqüências. Quer dizer, do corpo morto faz-se a vida. E talvez seja esse o eixo para penetrar nos mistérios desse filme.

Ele segue uma trama aparentemente policial, mas que não passa de uma obsessão de legista. Artur (Leonardo Medeiros) depara-se com o corpo de uma mulher, estranhamente preservado depois de anos de morta. Ela foi desenterrada com várias ossadas, numa fossa clandestina que, supõe-se, seja de vítimas da ditadura militar. E então já temos outro referencial. O do presente com o passado político do País.

Artur age como detetive. Quer saber quem é aquele cadáver, livre de corrupção, que aparece com as ossadas. Para tal, enfrenta a tarefa de devassar os arquivos do Dops atrás de informações. Mas enfrenta também a oposição de sua chefe, a dra. Lara (Cris Couto), que faz tudo para encerrar o caso burocraticamente. Esse antagonismo é um clichê do cinema de investigação. Alguém que deseja saber a verdade contra outro alguém que, por preguiça, covardia ou cumplicidade, quer encobri-la. É um lugar-comum que, por persistente, enfraquece o projeto e trunca sua fluência narrativa.

E há o resto, porque as etapas de investigação de Artur, e as idas e vindas no tempo, não deixam de provocar certo suspense. Se bem que, tanta indeterminação e tanta ambigüidade, em especial na segunda metade, parecem uma sobrecarga excessiva. O processo de descobrimento fica por fazer e nem é esse o problema, pois a ‘verdade’ é sempre hipotética mesmo. O problema é com a verossimilhança, que ajuda até num universo mágico ou fantástico, e aqui se perde um pouco na fumaça. Ou no formol

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Se é mostra de vitalidade dirigir um épico aos 84 anos, então a proeza do inglês Richard Attenborough (diretor de Gandhi e Chaplin) parece digna de todos os elogios. Um Amor para Toda a Vida traz a história de uma paixão que não morre, trabalhando em dois tempos. Durante a 2ª Guerra Mundial e no tempo presente. Mostra a guerra e mostra a paz, em dois países diferentes – Irlanda e Estados Unidos. E, de quebra, ainda coloca o pano de fundo dos combates entre ingleses e irlandeses, tendo como protagonista o grupo separatista IRA.

A história gira em torno de Ethel Ann. Na velhice, ela é interpretada por Shirley MacLaine e acaba de enterrar o marido. Na juventude, e na pele fresca de Mischa Barton, ela é apaixonada pelo piloto Teddy (Stephen Amell), que parte para o combate. Dois dos amigos de Teddy também gostam da moça, um justificável arrasa-corações. E tudo se passa entre esses dois tempos: destinos cortados pela guerra, feridas que não se fecham, segredos guardados atrás de paredes, etc.

Esse ir e vir entre passado e presente não deixa de ser meio frouxo. A trama perde sustentação lá pela metade e não se recupera mais. Na verdade, trata-se de um novelão, um projeto cinematográfico bastante antiquado e com todos os vícios do melodrama, de clichês fotográficos à música melosa. Dificilmente um filme resiste sob tal sobrecarga sentimental. Mas é possível que Um Amor para Toda a Vida venha ao encontro de um público desejoso de romance, amores eternos cantados sem muita profundidade e – não poderia faltar – lições edificantes a serem tiradas ao fim da história. Pode não ser admirável como cinema, mas é bem-feito, dentro dos seus propósitos.

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30.maio.2008 19:41:06

Nárnia

O segundo episódio de As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian pertence à mesma família de O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Superproduções destinadas ao público infanto-juvenil, que mergulham no universo do mágico e do maravilhoso à custa de toneladas de efeitos especiais. Têm platéia certa. No caso de Nárnia, como nos outros, os filmes são baseados em livros de prestígio – aqui se trata da série de sete romances escritos pelo irlandês C.S. Lewis.

Basicamente, as histórias se referem a mitos fundamentais: a luta entre o bem e o mal, que inclui não apenas seres humanos e suas instituições (reinados e principados), mas também animais que falam e seres fabulosos. No filme dirigido por Andrew Adamson, estabelece-se o contato entre esse mundo antigo e mágico e o mundo moderno e desencantado através de uma passagem numa estação de metrô, uma fenda no tempo, pela qual a família Pavensie abandona temporariamente sua condição urbana e ingressa naquele universo no qual texugos e ratos confabulam – e até com certa sabedoria. A missão dos quatro irmãos será ajudar o verdadeiro herdeiro do trono a se livrar de um usurpador, o rei Miraz, interpretado pelo grande ator italiano Sergio Castellitto.

Se o mundo colorido dos blockbusters é capaz de arregimentar atores consagrados como Castellitto, também não se furta à sua vocação última para rostinhos bonitos e insossos como o de Ben Barnes, que faz o Príncipe Caspian do título. São eles afinal que funcionam como chamariz para o público adolescente e não Castellitto. Mas a verdade é que mesmo o leão virtual Aslan parece mais expressivo do que Barnes, o que não representa problema para esse tipo de espetáculo.

Há um dado fundamental – em toda obra (literária ou cinematográfica) que adentra o universo mágico trabalha-se com uma aceitação incondicional das regras do jogo. Uma abolição provisória do senso crítico, que permite a verossimilhança de tramas improváveis, seres fantásticos e animais dotados do dom da razão e da fala. Até aí tudo bem, porque se trata de um gênero estabelecido e – por sorte – a humanidade não trabalha necessariamente o tempo todo no registro do real, ou do realismo. Podemos perfeitamente fugir para mundos criados pela imaginação e neles existir, pelo menos enquanto dura a sessão, ou o livro.

A questão com Príncipe Caspian é de ordem cinematográfica mesmo. Como acontece com freqüência com seus congêneres, este aqui também oculta seus problemas por detrás de uma grossa camada de efeitos especiais. Em vez de sugerir o elemento mágico, que se supõe existir sob toda aparência de realidade, ele é explicitado com o recurso fácil da digitalização, o que acaba por banalizá-lo. Da mesma forma, as batalhas são estendidas a uma duração insuportável para que o filme tenha metragem compatível com a que se espera das sagas – e esta aqui se arrasta na tela por nada menos que 144 minutos.

Qual o motivo de tanta duração? Necessidade interior da história? Parece muito mais o desejo dos produtores de entregar a mercadoria segundo as aspirações do destinatário. O cliente tem sempre razão, e essa máxima milenar do comércio parece presidir cada vez mais as opções do mercado de blockbusters.

O que não significa que não haja diversão, aqui e ali. Se fica difícil atravessar o campo minado das batalhas, sempre sobra algum senso de humor, como nas falas do rato espadachim. E há o castelo a ser assaltado, peça digital em tons góticos que funciona muito bem. Com esses elementos visuais e de humor, a diversão torna-se razoável. Seria melhor com um pouco mais de ritmo e concisão. E muito melhor com um pouco de inspiração.

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dragao

Depois de um trabalhoso processo de recuperação, chega de novo à tela grande aquele que talvez seja, dos filmes de Glauber Rocha, o mais conhecido e apreciado no exterior – O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. A restauração do longa faz parte do processo contínuo de recuperação e divulgação da obra de Glauber, e será acompanhado do lançamento de uma preciosa caixa de DVDs contendo, além do próprio Dragão da Maldade, Barravento, Terra em Transe e A Idade da Terra. Em São Paulo, a caixa será lançada dia 20 de junho na Sala Cinemateca. Os quatro filmes têm cópias restauradas digitalmente e vêm acompanhados de muitos extras, entrevistas, depoimentos e fortuna crítica dessa obra sempre tão polêmica.

O Dragão da Maldade apresenta algumas peculiaridades. Quarto longa de Glauber, é também o seu primeiro em cores, na bela fotografia de Affonso Beato. Representa, também, uma tentativa de diálogo maior com o público. Tanto assim que O Dragão da Maldade é conhecido como aquele filme de Glauber do qual mesmo seu detratores gostam. E, de fato, ele é, digamos assim, menos ”rugoso” que obras como Terra em Transe (1967) ou A Idade da Terra (1980), filmes em que Glauber aprofunda sua ruptura com a narrativa clássica e impõe descontinuidades, um tom épico paradoxal e distanciamento crítico radical – características que dificilmente seduzem o público médio em sua busca de entretenimento e evasão.

O esforço de Glauber valeu o reconhecimento do Festival de Cannes, que lhe atribuiu o prêmio de direção em 1969. No mesmo ano, o filme foi capa da Cahiers du Cinéma. Curiosa sincronia: a primeira capa colorida da Cahiers para o primeiro longa em cores de Glauber Rocha.

E O Dragão da Maldade tem nesse colorido um recurso de linguagem importante. Glauber queria cores explodindo na tela, cores tropicais fortes e não o matizado da paleta européia. Como fizera antes com o preto-e-branco, estourado pela luminosidade intensa do Nordeste dos primeiros filmes, neste apresenta as ”cores do Terceiro Mundo”, saturadas, sem concessões ao barroquismo que desejava imprimir à sua obra, mesmo sendo naquela em que buscava comunicar-se com público mais amplo.

De Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Glauber importa seu personagem mais conhecido, Antonio das Mortes, mais uma vez interpretado por Maurício do Vale (1928-1981). Ele ressurge, sempre acompanhado da canção célebre de Sérgio Ricardo, para combater o cangaceiro Coirana (Lorival Pariz), tido como reencarnação de Lampião. A comunidade de Jardim das Piranhas é formada de seres emblemáticos, representativos das diferentes camadas sociais. Jofre Soares é o coronel; Odete Lara, sua amante; Hugo Carvana faz o delegado Matos, autoridade fraca, sujeita ao poder real representado pelo coronel; Othon Bastos é o professor, a consciência crítica, hesitante e por fim determinado à ação. A questão é a da escolha – de que lado Antonio irá ficar? Do lado do latifundiário, que lhe paga para se livrar do cangaceiro e seguidores, ou de um hipotético ”povo”, aglutinado por cantos e ritos? Enfim, povo ainda em formação, sem ”consciência-de-si” para usar o termo específico. A situação toda é muito complexa e não se esgota na banalidade de um duelo entre o bem e o mal, como daria a entender o título e mesmo os propósitos do diretor. Aqui, tudo é contradição e violência; êxtase e beleza.

(Caderno 2, 30/5/08)

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29.maio.2008 20:27:51

Células-tronco

O Brasil perdeu uma chance inestimável de voltar à Idade Média ao aprovar as pesquisas com células-tronco. A continuar desse jeito, corremos o risco de um dia cair na modernidade.

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29.maio.2008 00:31:56

Que noite!

Edmundo virou herói ao marcar o segundo gol já nos descontos e, em seguida, virou anti-herói ao perder o pênalti que desclassificou o Vasco. Deu Sport. Também nos pênaltis, Felipe defendeu o último e botou o Timão na final. Contra o Sport. Aliás, uma belíssima final para a Copa do Brasil. Os dois cariocas caíram. Mais uma vez o Botafogo morreu na praia.

Em compensação, na Argentina, o Fluminense encarou o Boca e trouxe um ótimo empate para o Brasil. Tem tudo para passar à final contra o vencedor entre América e LDU. Está mais para a LDU, que empatou no México.

Três jogos sensacionais. E todos ao mesmo tempo.Haja controle remoto para ficar pulando de um para o outro. Cansei o dedo.

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Talvez você não se lembre do nome Austregésilo Carrano Bueno, que morreu hoje, com 51 anos, de complicações de um câncer no fígado. Mas certamente irá se lembrar do belo filme de Lais Bodadanzky, Bicho de Sete Cabeças, que é baseado no livro de Carrano o Canto dos Malditos. Nele, o escritor paranaense narra sua dramática experiência de interno em um hospital psiquiátrico, onde foi trancafiado pela própria família por uso de drogas. No filme, quem faz o papel de Carrano é Rodrigo Santoro, cujo personagem na tela se chama Neto. É um filme pungente, tirado de um livro corajoso, espécie de elaboração literária de uma experiência terminal, uma verdadeira descida aos infernos. Carrano teve seu bom momento na vida quando o filme foi lançado (ganhou o Festival de Brasília em 2000) e reacendeu o debate em torno do autoritarismo psiquiátrico. Morreu cedo.

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O título não está errado. É assim mesmo que você terá de escrever “ideia”, sem acento agudo, a partir do ano que vem, quando passa a vigorar o acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Qual a vantagem? Nenhuma, que eu veja. Todos nós nos entendemos muito bem (ou muito mal), escrevendo fato ou facto, económico ou econômico. O custo? A reimpressão de milhares de livros, além da obrigação de enfiar na cabeça das crianças, e de todos nós, as novas regras de ortografia. Não parece falta do que fazer?

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Leio que os Mundiais de Clubes de 2009 e 2010 serão nos Emirados Árabes. Depois, voltam ao Japão. Que já chiou dizendo que a “tradição” era que fossem disputados em Tóquio. Que tradição? Tradição era quando o campeão europeu jogava contra o campeão sul-americano. Um jogo lá, outro cá. Em caso de empate, uma “negra”. E sem interferência da Fifa, o que era o melhor de tudo.

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Morreu ontem, aos 73 anos, o premiado ator, produtor e diretor de Hollywood Sydney Pollack, que participou de sucessos das décadas de 1970 e 1980 como Nosso Amor de Ontem, Tootsie e Entre dois Amores. Esse último lhe rendeu o Oscar de melhor diretor em 1985. Ele lutava contra um câncer há, pelo menos, dez meses, segundo familiares. O cineasta deixou mulher e duas filhas. Um de seus trabalhos mais recentes, no qual atuou como ator e produtor, foi o longa Conduta de Risco, lançado em 2007 pela Warner Brothers. O filme recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e melhor ator para George Clooney.

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